"Não se fazem mais filmes como 'Ilha do Medo' hoje em dia", diz Martin Scorsese

"Não se fazem mais filmes como 'Ilha do Medo' hoje em dia", diz Martin Scorsese

ALESSANDRO GIANNINI

Editor de UOL Cinema

Martin Scorsese conversa com Leonardo DiCaprio e Mark Ruffalo no set de "Ilha do Medo"



Mark Ruffalo conta que quando foi convidado a fazer "Ilha do Medo" sob a direção de Martin Scorsese, a responsável pelo elenco lhe disse que ele tinha apenas 20 minutos para resolver se aceitaria ou não. "Ela falou ainda que havia uma lista enorme de atores com Oscar na estante que queriam o papel", disse o ator americano em entrevista a um grupo de jornalistas estrangeiros do qual o UOL fez parte, durante o Festival de Berlim, em meados de fevereiro, na Alemanha. "Não pensei duas vezes."

Ao lado de Leonardo DiCaprio, Ben Kingsley e Michelle Williams, Ruffalo fez parte do elenco de estrelas montado por Scorsese para adaptar o livro "Ilha do Medo" (originalmente publicado no brasil com o título "Paciente 67"), de Dennis Lehane, para o cinema. Foi em cima dessa combinação "cineasta respeitado-astros" que a Paramount trabalhou na promoção do filme, um thriller de suspense com ingredientes de terror em que dois investigadores (DiCaprio e Ruffalo) tentam descobrir o que levou ao desaparecimento de um paciente em um hospital psiquiátrico nos anos 50.

Na ocasião em que o Scorsese e parte do elenco receberam jornalistas de várias partes do mundo para falar do filme, durante a Berlinale 2010, alguém lembrou ao diretor que o primeiro trailer de "Ilha do Medo" parecia apontar para outra direção. E ele concordou, dizendo que se tratava de um teste para medir a receptividade da mídia e do público.

"O negócio mudou muito, a Paramount tem um grande investimento no filme, e vai fazer o que for necessário para levar as pessoas ao cinema", explicou Scorsese. "Eles fazem pesquisas a todo momento e, quando percebem que o interesse caiu, o pessoal do marketing monta outro ‘trailer', está constantemente tentando maximizar a exposição. Por isso, aliás, eles quiseram lançar o filme agora [a estreia estava prevista para o segundo semestre]. Têm um investimento para recuperar."

Feito no calor da hora e com muitos problemas de produção, "Ilha do Medo" foi o projeto que susbtituiu "The Wolf of Wall Street", que Scorsese faria anteriormente com DiCaprio, abortado depois de meses de preparação. "O estúdio não conseguia decidir se ia adiante ou não com o projeto", disse Scorsese. "Esse filme me custou cinco meses da minha vida criativa, perdidos à espera do estúdio, e depois compreendi que não podia esperar mais. Tinha de trabalhar."

O que atraiu Scorsese no romance de Dennis Lehane foi a época, o período da Guerra Fria, e a ambientação, um hospital psiquiatrico localizado em uma ilha. "Esse foi o mundo em que cresci, no qual reinavam o medo e paranóia dos anos 1950", disse ele. "Quando eu era pequeno, ia muito ao cinema. Eu tinha dez anos em 1952. E quando íamos ao cinema, íamos assistir a um filme e não um 'filme noir' como fazemos hoje. Não vamos ver um filme específico à procura de um certo estilo..."

Embora admita que o negócio do cinema mudou, Scorsese não esconde o sentimento de que também houve uma mudança de padrão e qualidade nos filmes. "Hoje em dia, os estúdios gastam tanto dinheiro nestas produções que não podem correr riscos", disse Scorsese. "Eles fazem coisas muito simples, para atrair jovens e crianças. O padrão de qualidade baixou muito, quando era mais elevado, quando não elevadíssimo. Sou de uma época em que era normal filmes como 'Ilha do Medo' para o grande público, com grandes estrelas. Por que não se pode fazer filmes como este hoje para uma audiência global?"

Scorsese, que havia elogiado DiCaprio publicamente na entrevista coletiva de "Ilha do Medo" em Berlim, repetiu o elogio ao seleto grupo de jornalistas que o entrevistaram depois no festival alemão. É o quarto trabalho em parceria da dupla e, ao que tudo indica, não será o último."Ele chegou a uma maturidade que o permite fazer qualquer tipo de trabalho", disse o diretor, que teve entre seus colaboradores frequentes nomes como o do grande Robert DeNiro.

Na mesma tarde, DiCaprio retribuiu os elogios com carinho e com uma espécie de profissão de fé. "Não me cabe a mim dizer se estou no melhor momento da minha carreira", disse o ator. "Nunca tento competir com os meus filmes anteriores, tento apenas ser tão honesto quanto posso, ser verdadeiro para com o personagem. É claro que me sinto mais atraído por histórias emocionais, mais sombrias, com personagens mais angustiadas ou vulneráveis... Mas quero representar uma personagem de modo que emocione o público tanto quanto eu me emocionaria. Há, evidentemente, uma espécie de 'fome' que nunca nos deixa completamente realizados, como se nunca tivéssemos realmente chegado onde queríamos. E não quero realmente sentir que cheguei a algum lugar, porque não me quero sentir satisfeito."

Filme Ilha do Medo

Ilha do Medo (2010)




SINOPSE



Em 1954, no auge da Guerra Fria, o detetive americano Teddy Daniels e seu parceiro Chuck Aule são levados para Shutter Island, local que abriga o impenetrável Hospital Psiquiátrico Ashecliffe, a fim de investigar o misterioso desaparecimento de uma assassina. Enquanto uma tempestade se aproxima, as suspeitas ficam cada vez mais assustadoras. Dentro de um hospital assombrado pelas terríveis atitudes passadas de seus pacientes e pelos planos desconhecidos de seus médicos, Teddy começa a perceber que, quanto mais se aprofunda na investigação, mais é forçado a encarar alguns de seus piores temores. E entende que pode nunca sair vivo da ilha.

FICHA DO FILME



* Título original: Shutter Island

* Diretor: Martin Scorsese

* Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Michelle Williams, Ben Kingsley

* Gênero: Policial, Ação

* Duração: 138

* Ano: 2010

* Data da Estreia: 12/03/2010

* Cor: Colorido

* Classificação: Não recomendado para menores de 14 anos

* País: EUA




Crianças e jovens de favela do Rio estão expostos a chumbo

Crianças e jovens de favela do Rio estão expostos a chumbo

Problema aumenta risco de ter câncer e deficiências neurológicas, diz estudo
Virginia Damas/CCI/ENSP/Fiocruz

Menino em depósito de lixo no Complexo de Manguinhos, favela na zona norte do Rio de Janeiro

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO
Crianças e adolescentes do Complexo de Manguinhos, favela na zona norte do Rio, têm 500 vezes mais chances de desenvolver câncer e deficiências neurológicas por exposição ao chumbo, metal que se acumula no organismo, apenas por estar expostas à poluição do local. É o que aponta uma pesquisa da Fiocruz, publicada na revista da Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva).
A pesquisa revelou que 40% das 64 crianças e adolescentes examinados tinham concentrações de chumbo maiores do que 6 mg por decilitro de sangue. Estudos indicam que concentrações acima desse índice são suficientes para colaborar com alterações neurológicas.
Outros 5% apresentavam índices acima de 10 mg por decilitro de sangue, taxa considerada limite pela Organização Mundial da Saúde.
A coordenadora da pesquisa, Rita Mattos, compara os casos de Manguinhos e da cidade de Bauru (SP), onde 295 crianças foram contaminadas por chumbo de u ma indústria em 2002. "Não há uma fonte de emissão, como em Bauru. O chumbo está no solo, no ar e na água", disse a pesquisadora.
Uma das explicações para a concentração de chumbo é o alto índice de poluição atmosférica no local, que é próximo a rodovias e linhas férreas. O estudo também aponta a existência de aterros construídos com estruturas de demolição. "Restos de tintas, que antigamente tinham chumbo na composição, e todos os outros fatores reunidos acabam contaminando ambiente", disse Mattos.
A pesquisadora diz também que as crianças absorvem até três vezes mais o chumbo do que os adultos, e o fato de terem hábitos como levar a mão à boca deixa-as mais vulneráveis à exposição por ingestão.
Segundo a coordenadora, uma das maneiras de prevenção seria dar mais atenção à nutrição da crianças. "Aumentando o consumo de cálcio e ferro na alimentação, suprindo o deficit nutricional que muitas delas apresentam, a atuação do chumbo no organismo pode ser diminuída", afirmou. (SM)

Pobreza mata, escola salva

Pobreza mata, escola salva

MARCELO GARCIA
Fui assistir ao filme "Preciosa - uma história de esperança", candidato ao Oscar com seis indicações. O filme é forte, tenso e até aflitivo em muitos momentos. A história se passa no Harlem, bairro de Manhattan, em Nova York, admirado pela força de sua música, mas temido pela segregação racial e os índices de violência. O público permaneceu em um silêncio nervoso a maior parte do tempo. Um silêncio que parecia indagar se na vida real seria possível sobreviver em meio a tanto desamparo.
Ali, na parte mais pobre e mais rude do Harlem, a adolescente Claireece "Precious" Jones, de 16 anos, sofre as mais diversas privações e as mais perversas humilhações. Abusada pela mãe, violentada pelo pai e grávida do segundo filho, ela acaba rejeitada pela escola tradicional, mas consegue vaga em uma escola alternativa que garante sua proteção e lhe ensina a ler, a escrever e a viver.
Histórias semelhantes ao filme são vividas, na rotina das cidades, no Brasil e em outras partes do mundo. A miséria está ao nosso lado e este fato exige uma reflexão mais profunda sobre a situação das famílias socialmente desprotegidas, que atravessam suas vidas mergulhadas na indigência.
Ser miserável ou indigente é "morrer" aos poucos todos os dias. A pobreza mata. A pobreza esfacela famílias. Em moradias marcadas pela pobreza é possível perceber até uma certa banalização da morte. Para quem "morre" um pouco todos os dias, o fim definitivo, infelizmente, pode ser encarado como desdobramento do cotidiano.
Um marido que espanca sua mulher ou companheira, "morre" como marido. Se uma mãe manda a filha para a exploração sexual, ela "morrerá" como mãe. A mãe que deixa de levar o filho à escola, porque pensa que ele poderá ser mais útil à família trabalhando nas ruas ou em atividades irregulares, também "morre" como mãe, porque está comprometendo o futuro do filho. E um pai que abusa sexualmente de seus filhos? Este "morre" como pai, definitivamente.
São essas "mortes" diárias que vão construindo e consolidando cada vez mais miséria e mais pobreza. No filme, tudo isso fica muito mais evidente, mesmo para alguém, como eu, que trabalha como assistente social há mais de 16 anos e convive com personagens reais que se encaixam perfeitamente nesta história de ficção.
É hora de banir a miséria da história brasileira. Não podemos e nem temos mais condições éticas de apenas fazer a gestão diária da pobreza. Precisamos dar um salto e dizer ao país que não aceitaremos que a indigência e a miséria passem de geração para geração, como heranças macabras.
Se for feita a aliança da educação com a proteção social será possível acabar com os "assassinatos simbólicos" que acontecem nas famílias em conseqüência da pobreza. O caminho para mudar esta realidade é a escola. É lá, sem dúvida, que se fará uma revolução na vida das famílias em desconstrução.
A escola deve ensinar, mas também proteger. Além de aplicar provas e cobrar frequência, é preciso que a instituição observe com atenção as reais condições de vida de seus alunos e que passe a construir soluções por meio das políticas públicas de saúde, assistência social, habitação, cultura e outras tantas.
O Brasil conseguiu, com muito esforço, praticamente universalizar a entrada das crianças na educação básica. Agora, essa escola precisa ter as responsabilidades ampliadas para proteger as crianças e suas famílias. Temos cerca de 169 mil escolas de educação básica no país. Se cada uma delas for referência em seu território e tiver um projeto coletivo de superação da pobreza e da desigualdade, será possível construir outra dinâmica para o viver no Brasil.
Um país como o nosso pode, e deve, ter uma escola que agregue educação e proteção social para salvar vidas, vínculos familiares e comunitários. Uma escola com professores, assistentes sociais, sociólogos, psicólogos e até mesmo arquitetos para garantir melhorias nas precárias moradias dos alunos e de suas famílias.
Neste ano, quando os principais problemas do país serão discutidos no debate eleitoral, podemos e devemos assumir o compromisso de melhorar nosso modelo de educação. Educação com proteção social é possível. É urgente. Se não estivermos convictos de que vivemos uma imensa urgência social, nossos braços se cruzarão naturalmente. Acontece que tem gente querendo viver. E o Brasil precisa agir.
MARCELO GARCIA é secretário-executivo do Instituto CNA e presidente do Colegiado Nacional de Gestores Municipais de Assistência Social.

Homicídio quadruplica na Venezuela com Chávez no poder, diz ONG

Homicídio quadruplica na Venezuela com Chávez no poder, diz ONG

CARACAS (Reuters) - O número de homicídios na Venezuela quadruplicou durante os 11 anos do presidente Hugo Chávez no poder, com duas pessoas assassinadas a cada hora, de acordo com novos números divulgados por uma organização não governamental.
O Observatório Venezuelano da Violência (OVV), cujos dados são acompanhados amplamente na ausência de estatísticas oficiais, disse que o país sul-americano tem uma das mais altas taxas de criminalidade do continente, com 54 homicídios para cada 100 mil cidadãos em 2009.
O índice só é ultrapassado na América Latina por El Salvador, onde 70 de cada 100 mil cidadãos foram assassinados no ano passado, informou o OVV, citando estatísticas oficiais daquele país.
A criminalidade aparece várias vezes em primeiro lugar na lista de preocupações dos venezuelanos. Isso também começou a afetar as taxas de aprovação de Chávez, normalmente altas, assim como assustar os turistas que vão para a Venezuela.

O problema não é tanto os criminosos, mas sim a inação do governo e a falta de políticas", disse à Reuters o diretor do OVV, Roberto Briceño León.
Chávez diz que está fazendo o máximo possível para combater o crime, atribuído por ele à desigualdade causada pelos governos anteriores.
Ele acusa seus inimigos de exagerarem o problema para fomentar o medo e recentemente aumentou o salário dos oficiais de polícia, e lançou uma nova força nacional.
O Ministério do Interior, que divulgou a última estatística oficial sobre a criminalidade em 2004, não quis comentar os novos números do OVV.
Briceño, que é professor de criminologia na Universidade Central da Venezuela e na Sorbonne, em Paris, responsabilizou o fraco sistema judiciário e o policiamento ineficaz e corrupto na Venezuela, onde ele disse que 91 por cento dos crimes ficam sem solução.

Ele extrai seus números de fontes policiais e de notícias da imprensa. Quando Chávez chegou ao poder, em 1999, foram 4.550 homicídios, enquanto em 2009 foram 16.047, disse o OVV.
Isso significa que a Venezuela vivencia todos os meses aproximadamente o mesmo número de mortes que as ocorridas na Faixa de Gaza na ofensiva de Israel no começo de 2009, afirmou Briceño.
Com uma taxa de homicídios de 140 por 100 mil cidadãos, a capital Caracas tem a maior taxa de homicídios da América do Sul, superada no hemisfério apenas por Ciudad Juárez, no México.

(Reportagem de Eyanir Chinea)

Personagem Rafaela, de "Viver a Vida", preocupa Ministério Público do Trabalho

Personagem Rafaela, de "Viver a Vida", preocupa Ministério Público do Trabalho




Do UOL, no Rio

Rafaela, personagem da atriz Klara Castanho, de 8 anos, em“Viver a Vida”, tornou-se o alvo de preocupação do Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT).

Uma audiência foi realizada nesta quarta-feira (10/3) entre os representantes do ministério e o departamento jurídico da Rede Globo para discutir o papel da atriz mirim por conta dos possíveis efeitos que personagens deste tipo podem provocar no desenvolvimento da criança. Rafaela vem fazendo, entre outras maldades, chantagens a Helena (Taís Araújo).
Para as procuradoras do Trabalho Maria Vitória Sussekind Rocha e Danielle Cramer, o trabalho infantil artístico deve ser comedido, observando não só os aspectos legais, mas principalmente eventuais reflexos que determinado personagem pode provocar no desenvolvimento da criança. As profissionais avaliam que no caso de Klara Castanho, uma criança de 8 anos como ela, não tem discernimento e formação biopsicossocial para separar o que é realidade do que é ficção. Isso sem contar com as eventuais manifestações de hostilidade que ela pode vir a sofrer por parte do público e não compreendê-las.
O descumprimento da recomendação poderá provocar uma ação para o afastamento da atriz da trama, diz o MPT.
Em outubro de 2009, o MPT encaminhou uma notificação com recomendações ao autor Manoel Carlos, mostrando as mesmas preocupações.
A Central Globo de Comunicação confirma a audiência de ontem, mas informa que a reunião ocorreu sobre o trabalho infantil na novela de uma maneira em geral. “O Ministério Público do Trabalho se preocupa em garantir que a atividade artística infantil seja corretamente conduzida e que atores mirins tenham seus direitos resguardados. A audiência tratou destas questões, inclusive sobre a novela "Viver a Vida". Foi fixado um novo prazo para a discussão interna do assunto na emissora", diz o comunicado enviado pela assessoria de imprensa da emissora que também não informa quando acontecerá a nova audiência.



Matheus Braga participa do Comercial da Casa do Zézinho, premiado em Cannes 2008/Leão de Prata! As imagens falam por si só. No Brasil, isso é uma triste realidade, e vc Matheus Braga tão pequeno......

Mudanças na Lei Maria da Penha mudam o rumo de muitos processos


Mudanças na Lei Maria da Penha mudam o rumo de muitos processos
Luciana Abade, Jornal do Brasil
BRASÍLIA - à vontade da vítima agredida
Luciana Abade
Brasília
Uma série de eventos está preparada em todo o mundo para comemorar amanhã o Dia Internacional da Mulher. A data foi instituída para lembrar as 130 mulheres que morreram queimadas na fábrica em que trabalhavam em Nova York, em 1857, porque reivindicavam uma jornada mais justa de trabalho e um melhor salário. Passado um século, as mulheres em todo o mundo conquistaram muitas reivindicações, mas continuam personagens de tristes estatísticas. Aqui no Brasil já existem 197.441 processos em andamento relacionados à violência contra a mulher. E uma decisão polêmica tomada pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) na semana passada pode mudar o rumo de boa parte deles.
A decisão diz respeito à Lei 11.349/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, criada para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. O STJ decidiu que a ação penal pública a respeito da violência doméstica tem natureza condicionada. Ou seja, em caso de agressão leve, a ação penal contra o agressor proposta pelo Ministério Público não pode ter continuidade independentemente da vontade da vítima.
A decisão do STJ tenta por fim a polêmica criada desde que a Lei Maria da Penha foi promulgada. Como a lei não especifica se a ação pode ou não correr independentemente da vontade da vítima, havia os dois entendimentos. O ministro relator do processo, Napoleão Nunes Maia Filho, que defendia a incondicionalidade, foi voto vencido.
Em seu voto ele argumentou que a incondicionalidade da ação penal pública se dá, muitas vezes “para proteger a intimidade da vítima em casos que a publicidade do fato delituosos, eventualmente, pode gerar danos morais, sociais e psicológicos”.
Seis ministros, contudo, discordaram de seus argumentos. Entre eles, Nilson Naves, para quem “a pena só pode ser cominada quando for impossível obter esse fim através de outras medidas mais gravosas”.
Desde que a Lei Maria da Penha foi promulgada, a mulher não pode mais ir à delegacia de polícia retirar a queixa contra o agressor. A decisão do STJ não muda isto. Se quiser desistir do processo, ela precisa dizer para um juiz de direito. Até a decisão do último dia 24, no entanto, a ação corria independente de sua vontade.
A decisão da corte superior só vale para as agressões leves – aquelas que, pela Lei 11.349, causam sequelas que afastam a mulher do trabalho por até 30 dias. A decisão desagradou as organizações de defesa dos mulheres das mulheres e a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que esperava um resultado diferente.
No dia 15 de março, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realizará a IV Jornada da Lei Maria da Penha que tem como objetivo debater a efetividade da lei. As ativistas marcarão presença para protestar contra a decisão do STJ, vista “como um retrocesso” na luta pelo direito da mulher.
Colaboração: Psicóloga Maria Eunice Duarte

Livro Quem Me Roubou de Mim

Trecho de Quem Me Roubou de Mim?,
de Fábio de Melo

(Veja)



O seqüestro do corpo: a trama do esquecimento dos significados

O seqüestro do corpo é uma das mais cruéis modalidades contemporâneas da violência. Ritual de profundo desrespeito à condição humana, esta forma de seqüestro consiste em retirar uma pessoa do local de sua identificação, de seus significados, subordinando-a a um tratamento que tem por finalidade estabelecer uma fragilização, que resultará num estado de total dependência e rendição, em que o seqüestrador torna-se um legítimo proprietário da existência do seqüestrado.
O seqüestro do corpo é uma privação total e absoluta daquilo que chamamos de "horizonte de sentido". O nosso mundo, este particular, mas integrado ao grande mundo, está solidificado a partir de significados e significantes que constituem o nosso horizonte de sentido.
Sentido é tudo aquilo que atribui coerência, liga, orienta e estrutura. É a partir deste horizonte de sentido que pensamos, agimos, amamos, desejamos, vivemos. Somos e estamos estruturados a partir de realidades que significam, isto é, realidades que nos revelam e que condensam um poder de nos fazer avançar os territórios da existência, de irmos além.
Estes significados assumem os mais diversos formatos em nossa condição humana. Eles evoluem para a condição de valores e assim se tornam fundamentais para a qualidade de nossa atuação no mundo. Os significados qualificam nossa existência.
Essa gama de significados, de valores, ocupa espaços muito diferentes na vida das pessoas, de maneira que aquilo para uma pessoa é fundamental em termos de significado, para outra pode ser mero detalhe.
Na vida, estamos constantemente descobrindo o que nos faz buscar nossa inteireza. A metáfora é interessante e pode nos ajudar a compreender melhor: o mosaico é feito de partes; essas partes se conjugam e compõem uma única peça. São inúmeros e pequenos significados que constroem a trama do mosaico. A pequena peça é fundamental para a construção do todo, e por isso não pode ser negada, separada. Assim somos nós.
Se pensarmos no espaço humano em que vivemos como peças de um mosaico, nós entraremos no cerne dos significados que nos constituem; nós estaremos no coração de nosso horizonte de sentido.
Quando nos referimos aos significados, nós estamos tratando de realidades materiais e imateriais. Estamos falando do quarto onde dormimos, com nossos travesseiros e lençóis, mas também das pessoas que nos rodeiam e dos amores que nos despertam. O quarto nos identifica, mas os amores também. O horizonte de sentido é uma conjugação de inúmeros fatores. A cidade onde moramos, a história já vivida; a casa que nos abriga; os lugares que freqüentamos; os amigos que temos; as crenças que professamos; as relações cotidianas, enfim, tudo isso compõe o nosso mundo particular.
É a partir deste mundo que enxergamos o outro mundo, que não é somente nosso, mas também nosso, assim como o mirante proporciona ao observador a visão que só é possível a partir de sua posição geográfica.
Quando uma pessoa é seqüestrada, o primeiro rompimento se dá com a materialidade de seus significados. Não dormirá em sua casa, estará privada de seus sabores favoritos, de seus ambientes, coisas particulares, de seu travesseiro, de seus livros, de seus perfumes, de suas paredes. Será violentamente exposta a uma outra realidade que não a sua. O corpo sofrerá a violência de não poder ir e vir. Terá que obedecer às ordens do recém-chegado, daquele que até então não pertencia ao seu mundo. Uma pessoa estranha, que definitivamente não faz parte de seus significados, mas que agora lhe acorrenta o corpo e o faz experimentar uma privação para a qual não estava preparado.
O seqüestrador, inicia no seqüestrado um processo de privações extremamente doloroso. Ao ser afastado dos locais de sua identificação, e passando a viver num ambiente estranho, inóspito e distante de tudo que o realiza, o seqüestrado mergulha num profundo estado de solidão. Não se trata de uma solidão comum, dessas que experimentamos ocasionalmente, e que faz parte do cotidiano de todo mundo. Trata-se de uma solidão muito mais profunda, caracterizada como "ausência de si mesmo".
Ao ser afastado de seu mundo particular, e de tudo o que ele representa, o seqüestrado sente-se privado de ser ele mesmo. É como se ele tivesse sido levado para longe de tudo o que para ele faz sentido. O seu mundo não é o que agora lhe é oferecido. O cativeiro é a negação do seu direito de ser e estar. Esse profundo estado de ausência pode agravar-se com o tempo, e evoluir para o que chamamos de "esquecimento do ser".
O esquecimento do ser, realidade muito comum nos casos de seqüestro do corpo, é uma forma de aniquilamento de nossa condição primeira, nosso estatuto original, e que chamamos de identidade.
A identidade nos diz sobre nós mesmos. Diz a nós e aos outros. Há dois aspectos interessantes na identificação: uma afirmação e uma negação. Identificar-se é um jeito que a pessoa tem de afirmar o que é, mas é também um jeito de afirmar o que não é. Ao identificar-se a pessoa estabelece uma autenticação, mas também uma separação.
Ao dizer "eu sou isso", naturalmente estou dizendo também "que não sou aquilo que negaria o que sou". Parece jogo de palavras, mas não é. Ao identificar que sou Fábio, naturalmente estou dizendo que não sou Fernando. A identificação é também diferenciação, porque em toda afirmação há sempre uma infinidade de negações latentes.
Essa identidade necessita ser cultivada. Vivemos constantemente esse processo. O tempo todo reivindicamos o que somos, e também renunciamos o que não somos. Identidade estabelece limites, assim como os conceitos limitam a realidade. Limite que não pode ser considerado como negativo.
Limitar é delimitar o local do encontro. É um jeito que temos de não nos perdermos neste mundo de tantas coisas. O limite favorece a compreensão da realidade existente. Um espaço delimitado é um espaço encontrado, identificado. Ao identificar o que sou, assumo a legitimidade de minha natureza. Digo o que posso e também o que não posso. Por isso o limite é positivo. Ele me proporciona um agir coerente, porque me posiciona a partir do que sou e não do que eu gostaria que fosse.
No mundo dos objetos, isso é constante. Identificamos o tempo todo. Uma mesa é uma mesa e não pode ser uma porta. Pronto, o conceito identificou, diferenciou, limitou de forma positiva. Ninguém poderá condenar a mesa por não ser porta. Ela já está no limite do seu conceito. No mundo das pessoas, é a mesma coisa. Nossa identidade nos limita, não para nos empobrecer, mas, ao contrário, para nos favorecer o crescimento. Quem sabe bem o que é e o que não é terá mais facilidade de explorar suas possibilidades, uma vez que os limites já estão apreendidos também. Apreender e conhecer os limites que se tem é um jeito interessante de potencializar as qualidades que nos são próprias.
Portanto, ao negar a identidade de uma pessoa, todas as suas potencialidades ficam fragilizadas. É por essa razão que o seqüestro do corpo é uma agressão contra a identidade da pessoa, porque a confunde profundamente a respeito daquilo que ela pode e daquilo que ela não pode. É uma forma de provocar um esquecimento do que se é.
Ao ser retirada de seu horizonte de sentido, a pessoa tem negados todos os seus elementos de identificação no mundo e com o mundo. Dessa negação nasce a ausência de si mesmo: uma forma de este estar sem estar, de viver sem viver. Trata-se de uma forma terrível de desolação, desespero e angústia. O corpo, privado de tudo o que lhe faz feliz, vive o limite de não ter o que buscar para nutrir-se de alegrias e descanso. Ele perde a capacidade de identificação, uma vez que está privado de seu espaço.
Fora de seu horizonte de sentido, o corpo adoece, perde a vitalidade; sofre na carne a saudade de tudo o que o completa e o faz ser o que é. Privado de sua liberdade, o corpo sofrerá os limites que desencadearão a condição de vítima.
"Quando digo o que sou, de alguma forma eu o faço para também dizer o que não sou. O ‘não ser está no avesso do ser’, assim como o tecido só é tecido porque há um avesso que o nega, não sendo outro, mas complementando-o. O que não sou também é uma forma de ser. Eu sou eu e meus avessos."
Fonte: Revista Veja

Visão Humanista de um Educador

Visão humanista de um educador



Ex-reitor do Colégio de São Bento, dom Lourenço
de Almeida Prado aponta esvaziamento da educação
universal nas universidades e afirma que ensino médio,
influenciado pelo vestibular, tem apenas habilitado
alunos para as provas

Educador por natureza, dom Lourenço de Almeida Prado esteve por mais de quatro décadas à frente de uma das mais tradicionais instituições de ensino do Rio de Janeiro: o Colégio de São Bento. Longe da direção do colégio há dois anos, ele não está afastado da educação. O assunto ainda é para ele, fonte permanente de debate e discussão. Com sua experiência e conhecimento, o religioso esbanja lucides ao falar dos problemas da educação brasileira e analisar o desvirtuamento do ensino médio.

De acordo com Dom Lourenço, a formação humana é essencial no processo educacional e deve ser tratada, fundamentalmente, no ensino médio. “A preocupação de formar o homem na sua plenitude cabe ao ensino médio. A universidade perdeu o seu caráter universal e hoje está mais voltada para um ensino que forma especialistas”, avalia ele. Se nunca se preocupou com o resultado dos alunos do colégio no vestibular, e sim com a formação humanista a eles ofertada, Dom Lourenço critica aqueles que praticam um ensino voltado para este processo seletivo, afirmando que esta filosofia é uma “deformação perigosa” do termo educação.
Para dom Lourenço, o ministro da Educação, demonstra ser, no cotidiano político, Cristovam Buarque uma pessoa sem perspicácia. “Ele é uma pessoa sem descortino”, ressalta, lembrando ainda que há uma diferença entre o sábio e o sabido. E ressaltando que, disputas do vestibular à parte, o papel do ensino médio é formar o sábio.
Folha Dirigida - Qual é a importância da formação humana no ensino médio?
Dom Lourenço de Almeida Prado -
Primeiro é preciso pensar que o homem é um animal que tem na sua natureza crescer. A história humana é uma história de progresso. A função da educação não é o aprendizado, e sim criar o saber, aquele saber que faz com que a criatura seja um ser livre. Isto não se obtém mais nas universidades. Então, cabe ao ensino médio esta preocupação. A preocupação de formar o cidadão, de formar o homem na sua plenitude.

Folha Dirigida - O sr. disse que a universidade não forma na plenitude. Qual o papel da universidade hoje?
Dom Lourenço - Atualmente, as universidades não são mais universidades no sentido da palavra. Na Idade Média, a universidade era aquela que detinha o saber universal. Toda a cultura na ordem da Filosofia, da Literatura, da Psicologia era uma cultura espiritual que estava dentro da universidade. Isto fazia com que a instituição fosse universal. Com o advento do avanço da ciência isso mudou. A ciência não dá cultura, e sim especialização. Hoje o risco que corre a criança é de ser precocemente especializada e, ao ser especializada, ela fica circunscrita aquele ambiente, deixando de aprender coisas necessárias. O ensino superior já é uma profissão. No curso de Medicina os alunos saem médicos, no de Engenharia, engenheiros. A universidade não dá cultura, não dá a formação humana geral. Isto ficou a cargo do ensino médio.

Folha Dirigida - O sr. acha que o ensino médio vem cumprindo esta função ou ele está muito focado na aprovação no vestibular?
Dom Lourenço - Isto é o que chamo de deformação perigosa. O vestibular começa a preocupar quando interfere no ensino médio. Este foi um problema que enfrentei quando estava à frente do Colégio de São Bento. Tive um professor que achou que deveria ensinar habilidades. Ele queria trazer questões de vestibulares para resolver com os alunos em sala. Isso não é aprender, é habilitar. O aluno tem que conhecer a matéria para ter condições de resolver qualquer problema sozinho. Sou contra treinar para determinados exercícios. A matéria deve ser dada independente de vestibular. Há um programa de ensino médio, que tem como preocupação a formação ampla do cidadão, que deve ser cumprido. Isto, desde que seja feito com seriedade, garante um bom resultado em qualquer vestibular. Quem estuda sabe e, quem sabe, diz.

Folha Dirigida - O que sr. chama de “deformação perigosa”?
Dom Lourenço - É querer preparar para vestibular. É fazer um ensino médio onde o professor, ao invés de ensinar Matemática, ensina a resolver questões de prova. Neste ponto, a introdução da Redação no vestibular foi um alívio para o ensino médio. Até então, os alunos não se interessavam por fazer Redação. Só queriam aprender o que caía na prova.
Folha Dirigida - O ministro da Educação, Cristovam Buarque, chegou a levantar a possibilidade de fazer vestibular apenas com provas de Português e Matemática. O sr. acha que isto prejudicaria o ensino médio?
Dom Lourenço - Você citou um ministro que não tem descortino das coisas. O ensino é universalizado. A formação humana não se esgota nestas duas disciplinas, embora elas tenham uma importância ímpar. A crise de vestibular decorre não do concurso ser difícil. A angústia do vestibular é que, de cada mil candidatos, talvez menos de 100 estejam preparados. E eles encaram o concurso como um processo de sorte. Vestibular não é sorte, é questão de estar preparado. O fundamental é ensinar com qualidade.

Folha Dirigida - O vestibular prejudica o ensino médio?
Dom Lourenço - Na verdade, com todos os seus defeitos, os nossos vestibulares ainda chegam a uma avaliação bastante verdadeira. Pode-se prever, com margem pequena de erro, pelo preparo que levam, quem vai passar, quem não vai. Na procura de preparar para o vestibular, como em todo o processo escolar, aparecem dois caminhos: o verdadeiro aprendizado ou o aparelhamento de “macetes”, isto é, de mecanismos para solucionar os problemas, sem os ter aprendido. A opção pela primeira via, que é a verdadeira, supõe um duplo trabalho ou dois trabalhos que se complementam: aula e estudo pessoal. Contra essa orientação, não raro estimulada pela preguiça pessoal, funciona a mania de aulas particulares e a prática de freqüentar, simultaneamente, uma escola ou cursinho que forma sabidos e não sábios.

Folha Dirigida - E qual a diferença entre o sábio e o sabido?

Dom Lourenço -
O sábio é o que conhece e que, diante do problema, tem condições de analisá-lo e resolvê-lo. O sabido é o que tem o truque da fórmula. O sabido é o esperto. É o sujeito que, por já ter feito duas vezes a mesma coisa, é capaz de resolvê-la. É um tipo de formação promovida vivamente por muitos cursinhos. A função do ensino médio, é formar o sábio. Aquele que conhece e compreende a situação.

OBS: O atual ministro da educação é  Fernando Haddad é bacharel em direito, mestre em economia (com a monografia O caráter sócio-econômico do sistema soviético) desde 1990, e doutor em filosofia (com a tese De Marx a Habermas - O Materialismo Histórico e seu paradigma adequado, sob a orientação de Paulo Arantes) desde 1996. Obteve esses três graus pela Universidade de São Paulo (USP)[1].
Em 1985, ele foi presidente do Centro Acadêmico XI de Agosto, o órgão representativo dos estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP).
Livros
Fernando Haddad publicou diversos livros no Brasil, tais como:
  • O Sistema Soviético, Scritta Editorial, São Paulo, 1992;
  • Em defesa do socialismo, Editora Vozes, Petrópolis, 1998;
  • Desorganizando o consenso, Vozes, Petrópolis, 1998;
  • Sindicatos, cooperativas e socialismo, Editora Fundação Perseu Abramo, São Paulo, 2003;
  • Trabalho e Linguagem, Azougue Editorial, Rio de Janeiro, 2004;
Carreira
Dedicou boa parte de sua carreira à administração pública: foi consultor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), chefe de gabinete da Secretaria de Finanças e Desenvolvimento Econômico do município de São Paulo, assessor especial do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e secretário-executivo do Ministério da Educação.
Assumiu o Ministério da Educação do governo Lula em 29 de julho de 2005, quando o ex-ministro Tarso Genro deixou o cargo para assumir a presidência do Partido dos Trabalhadores. Em 2009, durante o ministério de Haddad, foi aplicado o "Novo Enem" (Exame Nacional do Ensino Médio).

Filme: O Segredo Dos Seus Olhos


O filme escolhido foi O Segredo Dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos) de Juan José Campanella. O filme consolidou fatos importantes nesse ano como o filme argentino mais visto do ano (muito perto de completar 1 milhão de espectadores) e um ponto essencial, ser sucesso de critica especializada nacional. A começar pela história tem uma base simples que é sobre um oficial de justiça portenha que se aposentou recente e para aproveitar o vacio de está aposentado começa a escrever um romance policial sobre um caso que ele mesmo investigou e ao tempo que escreve a novela, começa a questionar fatos desse momento; E também pelo elenco, encabeçado por Ricardo Darin, Soledad Villamil e Guillermo Francella; e pela enorme credibilidade que o seu diretor tem aqui que é algo impressionante.

O roteiro, baseado em uma novela do mesmo nome e adaptado pelo próprio diretor, tem todos os elementos que enriquecem qualquer cinefilo, seja aqueles exigentes ou aqueles que gostam de saborear um bom filme. Pitadas sutis de comédia e romance porém cumprindo o fundamental que é seguir a risca com o suspense policial intenso e que consegue criar momentos sufocantes até chegar em seu final com uma apoteose digna de filmes como Memórias de Um Assassino e Zodíaco. Outro ponto interessante é que mesmo passando em uma época dificil que foi o inicio de uma ditadura (meados da década de 70), em nenhum momento entra em discursos politicos que é tão facil seduzir qualquer roterista desavisado e cair nessa armadilha perigosa.

Falar que Ricardo Darin dá um espetaculo em cena, aqui soa como um pleonasmo. Por que o ator arrebenta em todas as suas cenas, onde carrega paixão e veracidade a seu personagem que chegamos ao ponto de sentir tudo que ele sente em na tela. Poucos atores conseguem esse feito onde somos os seus olhos e seus sentimentos. Atuação muito mais do que brilhante. Soledad Villamil tras a beleza solida da mulher argentina. No começo da trama ela é um pouco fria mas com o envolver da trama se vê uma evolução incrivel onde a carga dramatica é um espetaculo aos olhos. Porém o destaque extremo fica por conta de Guillermo Francella, que é curiosamente, um dos melhores comediantes argentinos e nesse filme carrega uma atuação tão forte e tão incrivel que até os seus fãs não conseguem descrever palavras do que se viu em tela e espera-se que ele continue assim, criar risos e choros.

A direção de Campanella é incrivelmente cirurgica. Belissimos enquadramentos de câmera, planos sequencias belissimos, um ótimo trabalho com seus atores e principalmente uma direção brilhante e emocionante. Mesmo com seus 150 minutos de duração, parece que de tão maravilhoso, é pouco tempo para apreciar isso tudo. E com esse reconhecimento do publico e da critica, o filme tem grandes chances de ser o representante argentino para o Oscar 2010 e tenho certeza que se for, pode ser um dos grandes favoritos da noite.

Um filme sensacional. Um suspense que prende a atenção do começo ao fim. Belissimas cenas que se entrelacam a uma trama sufocante e surpreendente que até o espectador mais atento possivel não consegue ter palavras concretas do que realmente sentiu. Um filme emocionante. Porém maior emoção ainda é compartilhar esse mesmo sentimento com o publico que aplaude de pé e que sabe reconhecer a potencialidade, a sensibilidade e paixão dos realizadores ao seu projeto que não consegue ser mais um filme comum e sim uma expressão pura do cinema: Que deixa todos quietos, que o silencio é a porta de entrada para ouvir cada palavra, cada som que explode na tela. Belissimo filme e recomendadissimo. Espero que chegue ao Brasil logo ou que o dvd venha mais rapido ainda.

Ficha Tecnica
O Segredo dos Seus Olhos (El Secreto de Sus Ojos)
Direção: Juan José Campanella
Elenco: Ricardo Darín, Soledad Villamil, Pablo Rago, Javier Godino e Guillermo Francella
Gênero: Suspense/Policial/Drama
Cotação: 90% - Filme Obrigatório