Quadro negro: Educação e Reforma Urbana

Quadro negro
 
Educação e Reforma Urbana
 
por CESAR CALLEGARI
O ano de 2008, por ser de eleições nos municípios de todo o Brasil, será de intensa reflexão acerca das cidades. Há quem defenda, não sem razão, que entre as reformas estruturais requeridas por nossa sociedade, apresenta-se como prioritária a tarefa de uma reforma urbana. Há pouco consenso sobre o que isso significa, mas talvez seja possível começar a pensá-la como um conjunto articulado de mudanças nas diferentes dimensões econômicas e sociais presentes nas cidades. No que se refere à educação, vale a pena refletir sobre sua relevância na transformação da cidade num espaço republicano e democrático, onde cidadãos são acolhidos com o respeito aos seus direitos fundamentais.
Um primeiro ponto a considerar é que em nosso País as “fichas” dos valores propriamente urbanos acabam de cair ou ainda estão caindo, por assim dizer. Com um pouco de exagero, é possível afirmar que acabamos de chegar. De fato, faz pouquíssimo tempo, menos que 50 anos, que a população brasileira passou a viver majoritariamente em cidades. O Censo populacional de 1960 mostra que 55% dos brasileiros viviam no meio rural; no ano 2000, esse quadro já havia se transformado completamente e 82% já habitavam o ambiente urbano. Do ponto de vista histórico e da composição dos valores sociais dominantes, viver na cidade é condição recente para muitos brasileiros. Isso é tão evidente, que nos grandes centros é mais fácil encontrar pessoas que pertencem a famílias que há pouco vieram de fora, do que habitantes tradicionais.
"A cidade mudou e continuará mudando
em velocidade vertiginosa: deixou de
ser lugar para se constituir em fluxo"
A maioria veio do interior ou de estados do nordeste brasileiro, gente que chegou para ganhar e vencer na vida. Ainda estão inebriados com a vertigem das descobertas, conhecendo e consolidando códigos e valores novos, próprios do universo urbano-industrial, um processo que normalmente exige tempo e esforço de várias gerações e onde a família ainda tem e terá um papel educacional muito importante.
A intensa urbanização desse último meio século no Brasil é contemporânea à deflagração das formas mais atuais de expressão do modo de produção capitalista, caracterizadas pelo mais alto grau de globalização da economia e da cultura. São formas e valores hegemonizados pelo que é urbano-industrial e pelo que é moderno a tal ponto que cidade para onde se vai ou onde se vive já não é mais o que dela se sabia. Ela já não é algo acolhedora, não compartilha tradições e costumes antigos, suas intensidades são menos materiais, mais intangíveis e já não evoca a sensação de pertencimento. E, como se fosse terra de ninguém, ela pode ser feia, suja e maltratada. A cidade mudou e continuará mudando em velocidade vertiginosa: deixou de ser lugar para se constituir em fluxo. Ela se cria e se recria o tempo todo, à maneira dos demais produtos na lógica do capital. A intensa dinâmica de circulação de informações, mercadorias e serviços, bem como das múltiplas expressões culturais desse urbano globalizado, desde logo estabelece uma pauta de problemas amplamente contagiante. Por essa razão, o tema reforma urbana e tudo aquilo que ele possa significar e implicar, não soará de todo estranho nem mesmo para os que habitam os municípios rurais. Do ponto de vista político, a questão principal está em socializar as chaves de acesso a esse “urbano em fluxo”, abrindo a todos a possibilidade de se articularem em torno de uma vivência comum, um sonho de cidade tão concreto quanto o concreto que a edifica. Este deve ser o propósito de um projeto de educação para a reforma urbana: proporcionar aos cidadãos a capacidade de compreender a natureza desses movimentos de criação e recriação da cidade e seus assuntos, a ponto de capacitá-los como protagonistas da origem, do sentido e da dinâmica de fluxos e de processos de invenção e transformação de um mundo em mutação.
Pensar o urbano na perspectiva de uma reforma de base implica em reconhecer que para os indivíduos, a vivência da cidade é marcada por rupturas múltiplas. Rupturas provocadas pelo esgotamento de possibilidades econômicas e das relações sociais prevalecentes nas regiões de origem e que continuam a acontecer na própria cidade. É generalizada a percepção de que as possibilidades reais de mobilidade social e de progresso estão situadas no ambiente urbano. E não se trata de fetiche ou miragem: o que já é sabido é o martelar incessante dos apelos da indústria cultural, que convidam à ruptura, reiteram que a cidade é a saída do sufoco, demonstram que convém arriscar e confirmam que é possível vencer, ainda que depois se constate que não terão passado de vitórias de pirro.
Violência, desemprego e miséria, sintomas de uma suposta inviabilidade dos grandes centros, não chegam a abalar as decisões daqueles cuja realidade foi, desde sempre, marcada justamente pela falta de oportunidades, pela violência endêmica e pela pobreza crônica. Importa aqui dizer que os que chegam à cidade já têm pouco a perder, não podem recuar e, acreditam, têm muito a conquistar. São conquistadores urbanossonhos partidos que podem ser unificados no plano da política. Eis aí o núcleo de uma extraordinária potência instalada, capaz de transformar pela base a própria estrutura da sociedade. Eis aí o elemento essencial – a idéia força de progresso – que uma vez materializado em progresso coletivo, pode ser o alicerce de um novo projeto político para o urbano. Pois é político o propósito de transformar seres isolados, concorrentes e invisíveis, em pessoas conscientes de sua identidade, de seus direitos e deveres, visíveis, solidárias, participativas, politicamente fortes, protagonistas de seu presente e arquitetas de um futuro daquilo que pode ser coletivo. É o desafio político de transformar conquistadores urbanos em cidadãos. Assim também deve ser pensada a educação. É preciso superar a índole segregacionista, reprodutora de exclusões, e o caráter supostamente instrumental, utilitário e tecnicista que vêm marcando políticas educacionais no Brasil. Políticas de resultados desastrosos, diga-se sem dúvidas. Rejeita-se desde logo uma educação pobre para os pobres. Ao contrário, defende-se aqui uma educação libertadora e transformadora, comprometida com a formação convencidos de que tudo ainda pode dar certo. Sociologicamente, é preciso entender que a cidade não produz só exclusão, miséria e barbárie: produz também.

CESAR CALLEGARI é sociólogo, membro do Conselho Nacional de Educação, integrante do Conselho de Acompanhamento e Controle Social do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada (IBSA) e secretário de educação de Taboão da Serra-SP. Foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação-SP e deputado estadual por dois mandatos. Site: www.cesarcallegari@uol.com.br
 
 
Fonte: Revista Sociologia

Educação, eleições e a fogueira das vaidades

  Educação, eleições e a fogueira das vaidades
 
Muitos governantes não hesitam em destruir o que encontram, para registrar a própria "impressão digital" na história da cidade
Por Cesar Callegari
Em 2009, 60% dos municípios brasileiros serão comandados por novas equipes gestoras, a partir da eleição de novos prefeitos. Na área da Educação, estima-se que a maioria dos atuais dirigentes municipais serão substituídos. Considerando a dimensão dessas mudanças e levando em conta as características de nossa república, que desde sempre padece da grave enfermidade da descontinuidade administrativa, é possível imaginar o risco do surgimento de milhares de focos de incêndio a ameaçarem a já precária educação básica pública em todas as regiões do País.
Descontinuidade é um problema particularmente grave no setor educacional, onde os programas demandam prazos de maturação que muitas vezes ultrapassam os períodos de gestão governamental. Infelizmente, é muito comum que governantes recém chegados ao poder desfaçam, sem qualquer cerimônia, programas e projetos que vinham sendo executados na administração anterior, apenas porque são marcados pelo defeito genético de terem sido criados pelos antecessores. Vaidosos e encorajados pelas promessas de campanha de realizar mudanças, muitos dos que chegam não hesitam em cancelar, anular, demitir, fechar e destruir o que encontram pela frente, ávidos por logo deixarem registrada a sua própria "impressão digital" na história da cidade. Esquecem, contudo, que políticas públicas são custeadas com dinheiro público e, já por isso, merecem respeito e consideração. Claro: muitas coisas merecem mudar, mas nunca sem a necessária avaliação e sempre à luz do interesse público.
Essa situação é mais preocupante na educação, porque na maioria das escolas mantidas pelos municípios brasileiros, os diretores, coordenadores e secretários ocupam cargos de confiança e podem ser livremente nomeados e exonerados pelos prefeitos. Além disso, raríssimas são as cidades que dispõem de um Plano Municipal de educação, elaborado com ampla participação da sociedade, estabelecido por lei e capaz de assegurar alguma estabilidade ao processo de mudança governamental. Salvo uma minoria, tampouco as unidades escolares contam com planos plurianuais de gestão e projetos pedagógicos que sejam concebidos, conhecidos e defendidos pelos educadores, seus alunos e suas famílias. Portanto, na área da educação, os períodos de transição são perigosos.
Mas se a Educação sofre riscos decorrentes das alternâncias políticas e administrativas, hoje em dia são muito melhores as condições para evitar que ela seja imolada na fogueira das vaidades e dos interesses subalternos.
FOTO: PAULO BRASIL
CESAR CALLEGARI Sociólogo. Presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Secretário Municipal de Educação de Taboão da Serra-SP. Presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada - IBSA. Presidente do Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEB no âmbito da União. Foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação-SP e deputado estadual por dois mandatos.
Site: www.cesarcallegari.com.br
e-mail: cesarcallegari@uol.com.br

Desde 2006, o Brasil dispõe de uma nova legislação sobre o financiamento da educação. Com ela foi criado o FUNDEB, fundo de natureza contábil por onde transita a maior parte dos recursos vinculados ao ensino público dos Estados e dos Municípios brasileiros. Em 2009, essa nova sistemática, concebida para ser implantada gradualmente, entra em plena operação e, assim, passa a oferecer uma previsibilidade muito maior para o correto planejamento e execução das políticas educacionais. E mais: a legislação que criou o FUNDEB contém vários elementos de "responsabilidade educacional", estabelecendo regras mais rígidas para a aplicação dos recursos bem como para o seu acompanhamento e controle social. Em outras palavras: essa nova lei diminui o grau de liberdade dos administradores de fundos educacionais e aumenta o grau de responsabilidade para a sua correta aplicação.
A legislação que criou o FUNDEB contém elementos de "responsabilidade educacional", estabelecendo regras mais rígidas
Outro fator de defesa contra aventureirismos decorre do Plano de Desenvolvimento da Educação, lançado há mais de um ano pelo Governo Federal. Dentro dele, está o PAR - Plano de Ações Articuladas, uma espécie de contrato de gestão em que cada município e cada estado compartilham diagnósticos, objetivos, metas educacionais, prazos e recursos com o Ministério da Educação. Todos os estados e a grande maioria dos municípios já assinaram termos de compromisso com as autoridades federais. Interessante notar que a ampla adesão ao PAR produziu algo além da expectativa de receber mais recursos financeiros e apoio técnico: com ele, o país inteiro foi induzido a realizar um inédito esforço de racionalização e entendimento da Educação como política que deve ser claramente planejada, sistematicamente avaliada e cuja implementação pressupõe compromissos com resultados tangíveis e verificáveis. Trata-se de um notável avanço, não apenas porque agora todos dispõem de uma clara orientação para o trabalho, mas também porque se criou um mecanismo capaz de inibir descontinuidades dolosas e iniciativas irresponsáveis por parte dos detentores do poder público.
Mais um aspecto que ajuda a encarar com certo otimismo as mudanças que se avizinham com os resultados das eleições municipais, refere-se à emergência da qualidade como valor intrínseco à ação educativa. Há uma crescente consciência por parte da população de que não basta apenas ter acesso à escola: é preciso que ela proporcione uma educação de qualidade, que prepare para o trabalho e para a vida. Contribui para essa percepção a ampliação e consolidação de sistemas avaliativos como o ENEM, a Prova Brasil e o SAEB, bem como a produção de indicadores sobre a qualidade educacional, como o IDEB. O tema qualidade em educação como direito de todos e dever do Estado vem se insinuando com tal força que, no último processo eleitoral, foi objeto de uma inédita campanha nacional feita pelos principais meios de comunicação do Brasil e com o aval do Tribunal Superior Eleitoral. Nessa campanha, comunicadores famosos foram escalados para fazer alertas do tipo: "se o seu candidato não tem proposta para a educação de qualidade, mude de candidato". Obviamente, tudo isso contribui para que a Educação seja cada vez mais encarada como política de Estado e não apenas como uma política de Governo.
Claro que apenas defender não basta: é urgente avançar e trabalhar duro para arrancar o Brasil e os brasileiros de sua histórica pobreza educacional. Nesse sentido, há uma grande agenda de prioridades a enfrentar, valorizando os educadores e sua carreira, melhorando as condições de trabalho deles e de seus alunos em todas as etapas e modalidades da educação básica. Isso é tarefa para verdadeiros homens públicos e, por isso, não há lugar para arroubos de vaidade, leniência e visão curta.

Quem tem medo dos professores?

Quem tem medo dos professores?


por CESAR CALLEGARI
Trata-se de uma conhecida obviedade: que educação de qualidade depende da qualidade do trabalho dos educadores e das condições nas quais ele se realiza. Mas apesar de óbvio, toda vez que se pretende avançar nessa direção, imediatamente surgem reações contrárias. É o que está acontecendo atualmente em torno da inserção do chamado piso salarial nacional do magistério da educação básica pública, instituído pela Lei 11.738 de 2008.
Quatro governadores de Estado ingressaram com uma ação direta de inconstitucionalidade - e conseguiram que o Supremo Tribunal Federal suspendesse partes da Lei, especificamente aquelas que tratam da ampliação das denominadas “horas de atividades”. Assim é que, por enquanto, está sem efeito o dispositivo que assegurava o aumento do tempo destinado à formação continuada e qualificação dos professores, bem como ao planejamento e avaliação coletiva das atividades escolares.
Os governantes alegaram que esse avanço imporia custos com a contratação de mais professores que não poderiam ser suportados pelo poder público. Mais uma vez foram rápidas e eficientes as reações contra os avanços. Registre-se que o piso salarial nacional propriamente dito, uma antiga reivindicação dos educadores, foi preservado pelo STF. Contudo, convém registrar, também, que esse movimento de reação produziu outro efeito: encorajou certos setores a aumentar o tom de seus ataques contra iniciativas que possam ser consideradas uma ingerência indevida na autonomia dos entes federativos.
Uma ADIN contra a afronta à Constituição face ao vergonhoso quadro da educação
Tais setores argumentam que apesar de ser da União a prerrogativa de fixar as diretrizes da educação nacional, os Estados e os municípios têm autonomia para produzir normas específicas de organização do ensino, já que são eles que executam as políticas de educação básica, mantêm escolas e contratam professores. Autonomia, porém, não é soberania.
E vale lembrar que, com honrosas exceções, os referidos entes federativos, no uso de sua autonomia, não têm sido capazes de oferecer a educação de qualidade a que os brasileiros têm direito.
Em 2009 as tensões provocadas pela nova legislação sobre o magistério podem se ampliar. É que a mesma “Lei do Piso” determina que os sistemas de ensino devem elaborar ou adequar seus planos de carreira dos professores e dá prazo para que essa tarefa fique pronta até o final deste ano. Propostas serão apresentadas, debatidas e, afinal, transformadas em leis estaduais e municipais. Um processo que envolverá, de um lado, tudo aquilo que se sonha e que se sabe sobre as condições indispensáveis para exercer com dignidade o ofício de educar. De outro, os limites materiais, financeiros, administrativos e, sobretudo, os limites políticos que definem os parâmetros e o grau de prioridade atribuído à educação nacional. Esse processo já começou.
O Conselho Nacional de Educação realizou no ano passado três grandes audiências públicas destinadas a colher subsídios para a elaboração das novas diretrizes nacionais da carreira do magistério da educação básica. Foram encontros orientados de modo a garantir a livre expressão das idéias e assegurar que nenhuma proposta fosse previamente condenada ao fracasso ou mutilada por antecipação.
FOTO: PAULO BRASIL
CESAR CALLEGARI é sociólogo. Presidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação. Secretário Municipal de Educação de Taboão da Serra-SP. Presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada – IBSA. Presidente do Conselho de Acompanhamento e Controle Social do FUNDEB no âmbito da União. Foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação-SP e deputado estadual por dois mandatos. Site: www.cesarcallegari.com.br - e-mail:cesarcallegari@uol.com.br
Naturalmente, num ambiente de debate aberto e democrático, muitas propostas foram e continuarão a ser consideradas muito avançadas e inexeqüíveis por uns, acanhadas e insuficientes por outros. Entretanto, alguns pontos já se insinuam essenciais. A nova Resolução do CNE com certeza vai dispor sobre a limitação do número de alunos por sala de aula e sobre a quantidade de estudantes por professor nas diferentes etapas e modalidades da educação básica, por considerar que isso é importante para a condição do magistério e para a qualidade do ensino.
São inaceitáveis classes com 45, 50 alunos e a situação de professores que, ao todo, lecionam para 700 ou 800 estudantes ao longo da semana. Além disso, a nova norma do CNE incentivará que as jornadas de trabalho dos docentes sejam em tempo integral e com dedicação exclusiva a uma única escola. Serão estabelecidos, ainda, critérios para ingresso e evolução na carreira, bases de remuneração, pré-requisitos de formação, processos de aperfeiçoamento profissional e procedimentos para avaliação de desempenho dos educadores e das próprias estruturas educacionais.
Não faltarão indicações sobre a gestão democrática da escola, que provavelmente incluirão orientações sobre a participação dos pais e o modo de escolha dos diretores e outros gestores escolares. As novas diretrizes tratarão desses e de outros pontos com a necessária ousadia e a devida responsabilidade, num esforço para fazer do magistério uma perspectiva profissional e de vida que projete uma opção profissional sedutora para a juventude.
Diante do que se passou nas audiências públicas, já é possível antever o embate que se seguirá, não apenas quanto à própria aprovação da nova Resolução do CNE, mas principalmente, no plano dos Estados e municípios onde leis específicas deverão ser elaboradas. Obstáculos serão apresentados. A crise financeira internacional será desde logo lembrada pelos que, contrários aos avanços, dirão que o momento é infeliz. Outros, ou os mesmos, dirão que tudo isso não passa de mera demanda corporativa. Não faltarão aqueles que, na ausência de outros argumentos, protestarão porque ninguém pensa nos alunos. Estudos e pesquisas brotarão tentando produzir “evidências” de que não há evidência de que melhores condições de trabalho e salário dos professores levam à melhoria desempenho dos estudantes. Lembrarão novamente que certas propostas ferem a autonomia dos entes federativos. E, exclamação fi- nal: são propostas até justas, mas não há recursos para isso!
Se o propósito é melhorar a educação, sabe-se que isso depende exclusivamente de trabalho humano e, assim, de um magistério valorizado. Há dúvidas que essa valorização significa mais investimentos, que isso custa mais? É óbvio que melhorar os salários e aperfeiçoar a jornada dos professores, diminuir o número de alunos por sala de aula e a quantidade de estudantes por professor exige mais esforço e, claro, mais dinheiro. Há duvida que qualidade custa mais caro? O Brasil investe menos de 4% do seu PIB em Educação, o que é muito pouco.
Comparando, é a metade do que é destinado aos bancos com o pagamento do serviço da dívida pública todos os anos. Não é por outro motivo que ostentamos escandalosos índices de analfabetismo, alta evasão escolar, baixo desempenho dos estudantes nas avaliações nacionais e internacionais, escassez de professores, etc...Quando esses fatos são publicados, muitos parecem ficar chocados e exigem providências. Mas quando chega a hora de fazer as contas e detalhar em que consistem os necessários investimentos adicionais, chovem considerações lamentando a falta de recursos, a falta de sorte e o fato de que, afinal, estamos no Brasil.
Evidentemente, é uma questão política cuja solução, claro, não é jurídica. Ou alguém bem que poderia propor uma outra ADIN. Uma ação contra a reiterada afronta à Constituição Federal em face do vergonhoso quadro da educação brasileira. E com pedido de liminar diante dos altíssimos custos sociais, econômicos e ambientais de um ensino público de má qualidade. Quem sabe, por mágica, tudo se resolveria.

Fonte: Revista Sociologia

Admirável trabalho novo?

 Admirável trabalho novo?
 
Os impactos econômicos e sociais das mudanças no mundo do trabalho e a posição de especialistas e profissionais diante dessas transformações
por Priscila Gorzoni*
Ao longo dos últimos anos vem se observando, em diversas partes do mundo, uma modificação nas formas e estruturas de trabalho. Se por um lado percebemos a alta taxa de desemprego, a falta de estabilidade nas empresas, a tercerização e a ausência de registros profissionais, de outro ouvimos de consultores promessas de mais flexibilidade nos horários de trabalho, maior autonomia na produção, mais capacitação e interação do profissional. Devemos boa parte dessas modificações às mudanças dos paradigmas do trabalho, às inovações tecnológicas e à globalização, que rompeu com as barreiras da distância. Quais são os impactos positivos e os negativos dessas modificações?
Assim como a sociedade industrial do início do século XX se viu centrada nas relações trabalhador e indústria, vivemos hoje uma nova dinâmica social moldada não só pela era digital, na qual outras interações se criam e transformam a forma de vermos o mundo, mas pela rapidez e instabilidade derivada dela. Entretanto, essas mesmas armas que em certo aspecto facilitam, em outros tantos dificultam, exigindo ainda mais dos profissionais, que agora não se sustentam ao dominar apenas o conhecimento de sua função. Além disso, existe um outro fator de angústia: ter de lidar com a falta de vínculos, o desemprego e a efemeridade dos contratos trabalhistas.
As modificações nas relações de trabalho não afetam apenas o setor profissional, mas a dinâmica social. "O mundo vive transformações radicais, a produção do conhecimento e as conquistas tecnológicas assumem uma velocidade muito intensa. Estas modificações influenciam o mercado de trabalho exigindo um profissional que se atualize constantemente e que se aproprie da tecnologia a serviço de seu foco profissional", exemplifica o psicólogo Alexandre Rivero.
Entretanto, como afirma o sociólogo e historiador norte-americano Richard Sennett, professor de Sociologia e História na London School of Economics e autor de um livro clássico sobre o mundo do trabalho, "A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo" (Editora Record), os últimos anos não foram os melhores para os trabalhadores. Um dos fatores é o aumento do volume de atividades sem a elevação compatível de salário e benefícios. O sociólogo também vê com preocupação uma das principais mudanças na organização do trabalho, que é a perda da identidade. Sennett aponta ainda para questões como a falta de vínculo com o local de trabalho, a diminuição, ou melhor, a perda dos laços de solidariedade dentro da empresa, a degradação e humilhação na seleção de profissionais. Para completar, o alto escalão de uma empresa e os níveis gerenciais mostram-se pouco comprometidos com essas "consequências pessoais do novo capitalismo" (não por acaso o subtítulo da obra de Sennett), ou mascaram isso com ações recreativas supostamente voltadas para uma maior "qualidade de vida" dos seus "colaboradores".
"O MUNDO VIVE TRANSFORMAÇÕES RADICAIS, A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E AS CONQUISTAS TECNOLÓGICAS ASSUMEM UMA VELOCIDADE MUITO INTENSA" ALEXANDRE RIVERO, PSICÓLOGO
A análise de Sennett vai longe e aprofunda-se na dinâmica social. Em "A corrosão do caráter", ele afirma que o capitalismo vive na atualidade um novo momento, de natureza flexível. Sennett inicia o prefácio do livro lembrando que "A expressão 'capitalismo flexível' descreve hoje um sistema que é mais que uma variação do mesmo tema. Enfatiza-se a flexibilidade. Atacam-se as formas rígidas da burocracia, e também os males da rotina cega. Pede-se que os trabalhadores sejam ágeis, estejam abertos a mudanças de curto prazo, assumam riscos continuamente, dependam cada vez menos de leis e procedimentos formais".
Portanto, de acordo com o autor, essa "nova ordem" capitalista afeta a tal ponto os indivíduos, que não lhes oferece condições para uma construção linear de vida baseada em suas experiências. Ao contrário do trabalhador no modelo fordista do passado que, embora imerso na burocracia, rotina e alienação, possuía uma trajetória constante e expectativas de longo prazo. Atualmente, isso já não é tão possível devido a uma dinâmica de incertezas, mudanças de emprego e de cidade e o sucessivo rompimento de laços. As relações centrais, outrora vistas e sentidas na coletividade, passam a ser individulizadas, extrapolam o mundo do trabalho e se estendem a toda forma de sociabilidade. Em um mundo fragmentado, de relações efêmeras, cortadas, instáveis, sem continuidade, tampouco margem de segurança, tudo, inclusive o trabalho, perde a referência e a compreensão.
Não são apenas as formas de trabalho que se tornaram flexíveis, mas as de poder. Em um sociedade em que nada é contínuo, é preciso reinventar a estrutura das instituições. No entanto, embora na superfície pareça que a equipe possui autonomia, ainda é o capitalista quem dá as cartas. A única novidade nesse processo é a maneira e o lugar onde, em muitas áreas e profissões, ocorre tal expediente. Troca-se a empresa pela casa e o controle face a face pelo meio eletrônico.
Essa estrutura de trabalho não só enfatiza a já comentada ausência de vínculos estáveis entre empregado e empresa, como gera uma desordem social e na identidade do trabalhador. Dentro desse sistema passa-se também a valorizar o jovem (embora, paradoxalmente, exiga-se dele experiência), pois eles seriam mais flexíveis e adaptáveis a várias circunstâncias.
Para finalizar as colocações aterradoras de Sennett, as relações impessoais de trabalho irão afetar diretamente as sociais e vice-versa. Estabelecendo relações superficiais, descartáveis, cujos laços de lealdade e compromissos são tão frouxos quanto a efemeridade do curto prazo de trabalho. "Em um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo", ressalta o autor.
"A EXPRESSÃO 'CAPITALISMO FLEXÍVEL' DESCREVE HOJE UM SISTEMA QUE É MAIS QUE UMA VARIAÇÃO DO MESMO TEMA. ENFATIZA-SE A FLEXIBILIDADE. ATACAM-SE AS FORMAS RÍGIDAS DA BUROCRACIA, E TAMBÉM OS MALES DA ROTINA CEGA. PEDE-SE QUE OS TRABALHADORES SEJAM ÁGEIS, ESTEJAM ABERTOS A MUDANÇAS DE CURTO PRAZO, ASSUMAM RISCOS CONTINUAMENTE, DEPENDAM CADA VEZ MENOS DE LEIS E PROCEDIMENTOS FORMAIS" RICHARD SENNETT, SOCIÓLOGO E AUTOR DE "A CORROSÃO DO CARÁTER : CONSEQÜÊNCIAS PESSOAIS DO TRABALHO NO NOVO CAPITALISMO ".
De onde vem? segundo Deonísio da silva, autor de "De onde vem as palavras", da editora Novo século, a palavra "trabalho" nasceu do latim tripalium, tripálio, que é o nome de um instrumento de tortura composto de três estacas, ao qual era submetido o condenado, isso quando não empalado em uma delas e ali deixado para morrer. Entretanto, segundo o autor, a ideia do trabalho como sofrimento não estava presente na etimologia latina, pois o verbo trabalhar era laborare e trabalho, labor. No italiano predominou as palavras lavorare e lavoro.

TRABALHO X EMPREGO
Não devemos nos alongar em buscas sobre as relações de trabalho desde os primórdios da humanidade, mas salta aos olhos o que se observa a partir da Revolução Industrial, com o chamado "gerenciamento científico", modelo de gestão criado por Frederick Taylor, no final do século XIX. "É importante voltarmos até esta época, porque aqui no brasil, estamos já no final da primeira década do século XXI e várias empresas ainda persistem adotando o modelo de gestão taylorista", afirma Maria Aparecida Araújo.
O trabalho de Taylor baseou-se em suas observações da rotina dos operários da bethlehem steel, vendo-os carregarem seus caminhões de frete, com peças fundidas de ferro. Ele analisou como levantavam a carga, organizavam-se, com que frequência descarregavam e se dispôs a lhes ensinar como aumentar sua produtividade com o mesmo esforço. Naquela época a fábrica era um lugar caótico, comparado aos padrões que hoje conhecemos. O engenheiro fazia o projeto, o mecânico decidia como fazer a peça, solicitava o material, passava as instruções de feitura e esta ficava pronta. Não havia controle de estoques e muito menos produção programada. Tudo dependia do mecânico- chefe.
Taylor então transferiu a autoridade deste mecânico- chefe para o chefe de produção e o resultado foi um aumento espantoso na produtividade, elevando-se com isto o padrão de vida dos operários americanos, que passaram a ser os mais bem pagos no mundo naquela época. Apesar disso, o enfoque de Taylor teve um lado desastroso, pois sua mensagem para os operários era: "Deixem seus cérebros do lado de fora da empresa!". Isto gerou um antagonismo entre operários e gerentes, pois confirmava a ideia de que só eles deveriam pensar, ficando os operários encarregados somente da execução. Usavam, portanto, somente sua força física. A produtividade era então um conceito associado somente à quantidade de produção.
Para os operários, a alternativa era aceitar esta situação, pois eram remunerados e permaneciam nas empresas durante anos, fazendo as mesmas coisas. Apesar da falsa impressão de estabilidade, eles se ressentiam por não terem status nem participação nas decisões. segundo o economista cláudio pelizari, os conceitos tayloristas levaram a ganhos enormes, bem como definiram os papéis de gerentes e subordinados por muito tempo. Essa assimetria manifestava-se nas atitudes centralizadoras e autocráticas. O empregado era considerado um mero recurso que poderia ser sacrificado por motivos estratégicos, podendo ser substituído sempre que necessário, tal como as máquinas.
saía-se do foco no produto, para o foco no cliente e em suas necessidades e requisitos. Juntamente com esta mudança de paradigma, veio a nova concepção do homem dentro das empresas
Este modelo persistiu confortavelmente até o final dos anos 1960, ainda colhendo os frutos residuais da grande demanda por bens e serviços surgida depois da segunda guerra Mundial. com a primeira crise do petróleo, no início da década de 1970, houve um período de recessão, e as empresas norte-americanas começaram a ter que competir num mercado cada vez mais agressivo e mundializado, enfrentando a concorrência dos países que agora se reerguiam: Alemanha e Japão. porém, viu-se que a pátria de Henry Ford - e seu modelo fordista - acostumara-se aos modelos obsoletos de produtividade e que visava somente ao lucro financeiro imediato.
Nesta época dois cidadãos norte-americanos, Edward Demming e J. Juran, depois de fracassadas tentativas de conscientizarem seus compatriotas sobre a necessidade de mudar seus paradigmas de gestão, encontraram grande receptividade no Japão. Os japoneses não só os ouviram como adotaram seu modelo, e dentro de alguns anos tornaram-se os principais concorrentes da Ford e GM, vendendo seus carros no próprio mercado interno dos EUA.
S ó na década de 1980 as empresas americanas acordaram para o que já se transformara numa espécie de segunda revolução industrial. Segundo o discurso das empresas, a produtividade passou agora a ser vista não mais como a quantidade de produtos e sim a união de quantidade com qualidade. Saía-se do foco no produto, para o foco no cliente e em suas necessidades e requisitos. Juntamente com esta mudança de paradigma, veio a nova concepção do homem dentro das empresas. Para se fazer algo com qualidade é preciso do comprometimento das pessoas.
Elas é que fazem a qualidade. Elas é que aumentam a produtividade, elas é que fazem crescer o lucro, elas é que fidelizam os clientes. Não pode existir qualidade sem que o homem exercite sua criatividade. O cliente busca a inovação. A inovação só acontece quando as pessoas não têm medo de tentar fazer as coisas. Resumindo: agora o cérebro tem que estar dentro das empresas. Obviamente, o "gênio criativo" deve submeter-se às regras do mercado.
GLOBALIZAÇÃO E PÓS-MODERNISMO
A preocupação com as modificações e influências da globalização no mercado de trabalho e na vida social não são ressaltadas apenas por Richard Sennett. Pesquisadores como Sônia Maria Guimarães Laranjeira, professora titular do Departamento de Sociologia e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCHUFRGS), discorrem sobre a questão a partir de enfoques variados, com o intuito de refletir - e encontrar caminhos - para uma nova relação entre o profissional e o trabalho. Em seu texto "As transformações do trabalho num mundo globalizado" (Rev. Sociologias, n º4,.2000), Sônia Laranjeira entende que a digitalização, por exemplo, representa uma mudança de paradigma, pois por intermédio dessa tecnologia estrutura-se uma nova lógica de ação sobre o mundo.
Um dos maiores sociólogos brasileiros de todos os tempos, Octávio Ianni (1926-2004) dedicou boa parte de seus estudos para examinar o "enigma da modernidade-mundo" e as "teorias da globalização", por sinal títulos de dois de seus livros publicados pela editora Civilização Brasileira. No artigo "As ciências sociais e a modernidade-mundo: uma ruptura epistemológica", publicado em 2001 na Revista de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ianni analisa o mundo como sendo atravessado por uma ruptura histórica tão avassaladora quanto um terremoto inesperado, por isso capaz de transformar os modos de vida e de trabalho radicalmente, bem como suas formas de sociabilidade e ideais. Ianni complementa: "Tudo o que parecia estável, transforma-se, recria-se ou dissolve-se. Nada permanece. E o que permanece já não é mais a mesma coisa. Alteram-se as relações do presente com o passado; e o futuro parece ainda mais incerto. O que predomina é o dado imediato do que se vê, ouve, sente, faz, produz, consome, desfruta, carece, sofre, padece".
"O MUNDO VIVE TRANSFORMAÇÕES RADICAIS, A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E AS CONQUISTAS TECNOLÓGICAS ASSUMEM UMA VELOCIDADE MUITO INTENSA. ESTAS MODIFICAÇÕES INFLUENCIAM O MERCADO DE TRABALHO EXIGINDO UM PROFISSIONAL QUE SE ATUALIZE CONSTANTEMENTE E QUE SE APROPRIE DA TECNOLOGIA A SERVIÇO DE SEU FOCO PROFISSIONAL" ALEXANDRE RIVERO, PSICÓLOGO
As modificações ainda estão em curso, sugere o sociólogo no artigo, e resultarão em um abalo nos quadros sociais, na mentalidade e nos referenciais da coletividade e dos indivíduos de todo o planeta. No cerne dessas transformações estarão os conceitos de tempo e espaço, que gerem a noção de lugar, território, fronteira, presente, passado, próximo, remoto, arcaico, moderno, contemporâneo e não contemporâneo.
Nas palavras do geógrafo e cientista social britânico David Harvey, professor de Geografia Humana da Universidade Cidade de Nova York e autor de "Condição pós-moderna" (2002), podemos chamar esse momento pelo termo "pós-moderno", embora essas classificações sejam sempre discutíveis no âmbito da teoria e da pesquisa sociológica. A partir de um resgate histórico, Harvey considera o pós-modernismo, época em que vivemos, como uma reação a monotonia, modernismo universal, verdades absolutas, positivismo, padronização do conhecimento e da produção. Como resposta, temos um mundo que privilegia a heterogeneidade, a fragmentação e a indeterminação.
O economista marxista Ernest Mandel (1923-1995) explica: "Passamos para uma nova era a partir do início dos anos 1960, quando a produção da cultura tornou-se integrada à produção de mercadorias em geral: a frenética urgência de produzir novas ondas de bens com aparência cada vez mais nova (de roupas a aviões), em taxas de transferência cada vez mais essencial à inovação e à experimentação estéticas. As lutas antes travadas exclusivamente na arena da produção se espalharam, em consequência disso, tornando a produção cultural uma arena de implacáveis conflitos sociais. Essa mudança envolve uma transformação definida nos hábitos e atitudes de consumo, bem como num novo papel para as definições e intervenções estéticas. Por isso, a produção cultural popular pós-modernista apenas procurou satisfazer da melhor maneira possível em forma de mercadoria, outros sugerem que o capitalismo, para manter seus mercados, viu-se forçado a produzir desejos e, portanto, estimular sensibilidades individuais para criar uma nova estética que superasse e se opusesse às formas tradicionais de alta cultura".
O raciocínio é completado por Harvey: "As condições de modernização capitalista formam o contexto material a partir do qual pensadores e produtores culturais modernos e pós-modernos forjam suas sensibilidades, princípios e práticas estéticos; parece razoável concluir que a virada para o pós-modernismo não reflete nenhuma mudança fundamental na condição social. A ascensão do pós-modernismo ou representa um afastamento de modos de pensar sobre o que pode ou deve ser feito com relação a essa condição social, ou reflete uma mudança na maneira de operação do capitalismo em nossos dias. Em ambos os casos, a descrição do capitalismo feita por Marx nos oferece, se for correta, uma base muito sólida para pensar as relações gerais entre a modernização, a modernidade e os movimentos estéticos que extraem energias dessas condições".
O "NOVO TRABALHADOR"
O mercado de trabalho tem passado por muitas - e aceleradas - mudanças nos últimos quarenta anos. Essas formas de produção contribuiram para formar uma nova concepção do trabalhador desejado pelas organizações. "O trabalho cada vez mais vai exigindo as funções cognitivas superiores: atenção, concentração, discernimento, pensamento lógico, criatividade, tomada de decisão, planejamento, organização. O trabalho mecânico vai sendo substituído pela máquina. Um modelo de trabalho mais saudável aceita o desafio de conciliar produção, lucro e valorização da pessoa humana. Resgata a saúde com patrimônio fundamental para justificar a vida e o trabalho. Entende o trabalho como ação de transformação da realidade interna do trabalhador e da realidade externa. Num processo de diálogo e aprendizagem constante", ressalta Alexandre Rivero.
Para tanto, é preciso cultivar um bom clima interno, proporcionar bem-estar aos seus colaboradores, "facilitando" oportunidades de convivência com a família e mantendo-as atentas à necessidade de treinamento constante. São as chamadas "Learning Organizations". O ser humano deve sentir-se pleno para produzir plenamente. Desse modo, o mercado privilegia o profissional que usa a sua inteligência para resolver problemas, buscar soluções e desenvolver-se mesmo que a empresa não lhe forneça as condições. Esse é o discurso padrão das empresas, consultores e recrutadores. Nesse sentido, ouvir o que tem a dizer os mediadores e especialistas é entender como é feita a elaboração dos discursos acerca das qualidades do "novo trabalhador".
O trabalhador, por essa ótica, teria a autonomia para decidir a maneira que julga adequada para atingir o resultado esperado. "O que importa é que este resultado venha e que satisfaça os requisitos da empresa ou do cliente. Já encontramos muitos profissionais trabalhando em home-offices, conectados à Internet com seus notebooks e Blackberrys, sem necessariamente terem que bater ponto em um escritório", explica Cláudio Pelizari, economista, palestrante e consultor de Qualidade de Vida, Etiqueta Profissional e Marketing Pessoal.
Não se pode esquecer, é claro, de um aspecto significativo das relações trabalhistas "flexíveis" adotadas nos últimos anos: a desburocratização crescente dos registros e vínculos profissionais. Essa situação tornou-se comum em várias áreas. No cenário brasileiro, uma das justificativas seria a contenção dos custos dos impostos e encargos da legislação trabalhista agrupada na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), assinada em 1º de maio de 1943 por Getúlio Vargas à época do Estado Novo. Os empregadores argumentam que manter um empregado com carteira assinada custa, para a empresa, o dobro de um nãoregistrado. Portanto, várias empresas, dependendo do tamanho e do ramo de atividade, optam por estabelecer contratos flexíveis, deixando que os padrões de remuneração estejam ligados efetivamente ao resultado apresentado pelo colaborador, agora chamado de "parceiro".
Segundo a consultora Maria Aparecida A. Araújo, autora do livro "Etiqueta empresarial - ser bem educado é..." (Qualimark), o lado "positivo" dessa nova relação é que, trabalhando em casa, por exemplo, não se fica privado da convivência com a família, o profissional pode determinar a quantidade de tempo gasto na atividade profissional e dividi-lo adequadamente entre o social e o familiar. Não se fica muito exposto à violência das grandes cidades, não se sobrecarrega o trânsito, tem se uma alimentação mais balanceada e goza-se de períodos de descanso intercalados com o trabalho.
O lado "negativo" é que se fica mais alijado da convivência com a comunidade empresarial e, portanto, dos centros de decisão. Neste sistema, deve-se também ter o dobro da disciplina no uso do tempo e vontade férrea de realizar as tarefas propostas para não perder o foco. É muito fácil também começar a permitir que o familiar e o social interfiram nas rotinas empresariais, prejudicando com isto a produtividade.
Para Rivero os trabalhadores atuais são cada vez mais convidados a empreenderem seus trabalhos, assumindo riscos e soluções pró-ativas. "Entretanto este fenômeno mundial continua sendo muito desigual em determinados países e grupos. Parece-me uma marcha sem volta. É possível que apesar das limitações, riscos, desigualdades, contradições, que estamos vivendo neste momento no mundo do trabalho, possamos encontrar um novo mundo que surja nesta transição. Uma brecha para o homem recuperar depois de perdido seu emprego, sua verdadeira profissão com compromisso pela sua vocação e responsabilidade frente à comunidade", finaliza.
Por todos os ângulos e em todos os seus sentidos e implicações (inclusive psicológicas e psicopatológicas), as rápidas transformações no universo do trabalho constituem um objeto fundamental de reflexão. Seja para os gurus da produtividade, acadêmicos, patrões ou empregados.

O ÓCIO PODE SER CRIATIVO
A criatividade é o maior capital de uma empresa. apesar dessa máxima pregada feito mantra pelos consultores e empregadores, a sociedade do trabalhador do conhecimento ainda é gerenciada por critérios da sociedade industrial. crítico desse modelo, o sociólogo italiano Domenico De Masi propôs um modelo social não centrado na idolatria do trabalho, mas sim na simultaneidade entre trabalho, estudo e lazer. suas ideias se fundamentam na constatação de que hoje teríamos um maior tempo livre e o ser humano executaria muito mais trabalhos intelectuais que manuais - cada vez mais realizados por máquinas e ferramentas. imagine as transições do mundo, passando da Era do caçador/coletor para a Era agrícola, depois para a Era industrial até a Era do conhecimento.
Cada momento representou um aumento na produtividade de pelo menos 50 vezes o que se conseguia na era anterior. isto significa que o tempo gasto na obtenção das coisas necessárias à manutenção da vida diminuiu muito. além do mais, é importante lembrar que a expectativa de vida da população, que no caso do Brasil era de 43 anos em 1940, aumentou muito, ultrapassando os 73 anos. Nossos avós viviam 300 mil horas e trabalhavam 120 mil, hoje nós vivemos mais de 700 mil horas e trabalhamos 70 mil horas. Enquanto eles trabalhavam quase metade da vida, nós trabalhamos um décimo e, não fomos educados para ter tanto tempo livre.
A empresa tampouco ajuda nisso. as práticas gerenciais da Era industrial fazem com que um executivo que pode realizar o seu trabalho diário em cinco ou seis horas acabe trabalhando até dez horas. No fim de semana leva trabalho para a casa, e quando está em férias liga sempre para o escritório. Quando aos 55 ou 60 anos se aposenta tem ainda 20 ou 30 anos de vida e, muitas vezes não sabe o que fazer.
A distinção entre tempo de estudo quando jovem, tempo de trabalho na maturidade e aposentadoria quando velho é um contrassenso. a velhice não se calcula em relação ao nascimento, mas em relação à morte; somente podemos ser considerados velhos nos dois últimos anos de vida. a vida fisicamente produtiva pode chegar a 80 anos, portanto é razoável que o seja também psiquicamente. É uma grande perda para a sociedade como um todo que se desperdice esse talento.
Quando De Masi fala em "ócio criativo", ressalta-se a forma como uma pessoa deve utilizar o seu tempo. Trabalho, aprendizado e lazer devem se confundir em todas as fases da vida. "a grande importância da criatividade reside no fato de que é a partir dela que surgem inovações e melhores formas de fazer muitas coisas do dia a dia. a criatividade de um país ou de uma empresa é medida pelo número de patentes registradas por ano", lembra cláudio F. Pelizari.
Segundo De Masi, o estímulo da criatividade humana pode vir por meio de atividades lúdicas, devaneios, imaginação ou até fora do local de trabalho. Uma boa ideia não tem hora para acontecer, pode acontecer no banho, num momento de introspecção, no cinema ou brincando com uma criança. Mas essa criatividade em muitas situações se circunscreve dentro dos parâmetros da produtividade e da lógica capitalista. Tem um caráter utilitarista flagrante. se a pessoa não se sente bem no escritório, seja porque não há um bom clima, os gerentes e colegas são antipáticos e mal-educados, não existe respeito e motivação, será muito difícil que surjam novas ideias. Para as teorias administrativas contemporâneas, obcecadas pela inovação, uma pessoa criativa é uma promessa de futuro e lucratividade.
PARA SABER MAIS:
MASI, Domenico de. O ócio criativo. Rio de Janeiro: Editora sexante, 2000.
LEON, vicki. Meu chefe é um senhor de escravos. Rio de Janeiro: Editora globo, 2007.
SILVA, Deonísio. De onde vem as palavras. Editora Novo século, 2009 A corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo (Editora Record, 1999).
ANTUNES, Ricardo. Os Sentidos do trabalho - Ensaio sobre a afirmação e a negação do trabalho. Boitempo Editorial, 2000.
DEJOURS, christophe . A loucura do trabalho. Editora cortez, 2003.
HARVEY, David. Condição pós- moderna. Editora loyola, 1992.
ANTUNES, Ricardo; BRAGA, Ruy. Infoproletários: degradação real do trabalho virtual. boitempo Editorial, 2009. 

Fonte: Revista Sociologia

Zoológico Humano?

Zoológico Humano?
 
Hábitos e pensamentos são observados por atentos telespectadores sedentos por ocasiões degradantes
por Tatiana Martins Alméri *
Começam novamente as apresentações dos zoológicos dos humanos. Nesses zoológicos você pode observar os hábitos, os costumes, as maneiras de relacionamentos, as bases da alimentação, as disputas entre grupos e como se comunicam. Você poderia imaginar que um dia isso iria ocorrer? Algumas pessoas ficariam trancadas - em uma casa-jaula - e você poderia observar vários pontos de suas intimidades. Quais seriam as propostas de se fazer algo parecido com isso? Para que realmente serviriam esses tais zoológicos dos humanos?
O mais curioso é que os humanos que se submetem a essa exposição, ou melhor, a essa clausura, sentem-se estrelas, personalidades, famosos, como se, no momento da reclusão, fizessem algo que trouxesse um crescimento ou um acréscimo social a ponto de se tornar um ídolo¹ nacional.
Clausura? Palavra de significado extremamente forte, porém, considerado como elemento necessário na tentativa de manter a ordem social. Se a existência de clausura é adequada ou não, temos teorias diferenciadas que apresentam de maneira metódica e ampla pontos divergentes, cada qual com suas contribuições. No entanto, à parte dessas contradições teóricas, na prática, clausura é uma pena escolhida socialmente àqueles que não seguem as normas e leis sociais. Portanto, clausura é uma punição, algo que é visto de uma maneira negativa socialmente, mas no caso do zoológico dos humanos a clausura passou a ser um desejo nacional.
Ficar conhecido no Brasil inteiro de um dia para o outro, ser um participante do zoológico humano, um deles mais conhecido como Big Brother Brasil (BBB), tornou-se uma das metas da sociedade brasileira, e não só dela: na esteira da globalização, os zoológicos dos humanos ocorrem em vários países.
O senso comum sempre apresentou os seres humanos como melhores que os outros animais, como os detentores do topo da hierarquia dos seres vivos do planeta Terra, mas a Antropologia e a Sociologia sempre estiveram em um caminho mais coerente: somos todos seres necessários ao ciclo alimentar (e não pirâmide, a qual coloca os homens no topo. Afinal, quando morremos, ninguém se alimenta do nosso corpo? Se estamos no topo seria porque ninguém, nem os vermes, se alimentariam da gente; o que, como sabemos, não é o que ocorre) e, por isso, possuidores da mesma importância no planeta.
NA PRÁTICA, CLAUSURA É UMA PENA ESCOLHIDA SOCIALMENTE ÀQUELES QUE NÃO SEGUEM AS NORMAS E LEIS SOCIAIS. PORTANTO, CLAUSURA É UMA PUNIÇÃO, ALGO QUE É VISTO DE UMA MANEIRA NEGATIVA SOCIALMENTE, MAS NO CASO DO ZOOLÓGICO DOS HUMANOS A CLAUSURA PASSOU A SER UM DESEJO NACIONAL
Utilizo a expressão "zoológico dos humanos" por ser um parâmetro social que pode ser visto dessa maneira: pessoas que estão presas em um certo local, que são alimentadas, estimuladas a praticar certas atuações, que estão sob supervisão e suscetíveis a uma observação constante por outras pessoas, que constroem máscaras sociais². E tudo isso por quê? Para que outras pessoas, essas sim estão no topo da hierarquia dos humanos, possam ganhar dinheiro como consequência da clausura.
Isso já ocorreu anteriormente com outros seres humanos, na época da imigração italiana ao Brasil. Passando pelo porto de Dakar, existiam algumas gaiolas que tinham famílias de negros presos, e caso os imigrantes quisessem conhecer pagavam uma quantia para - consciente ou inconscientemente - dar estímulos à escravidão que tinha, utopicamente, acabado (PATRON, 1928).
Nesta época as discussões do fim da exploração com relação à escravidão foram muito intensas. Hoje, nas reflexões da maioria da sociedade brasileira, é inadmissível prender pessoas que nada fizeram de prejudicial segundo as regras sociais, porém, os reality shows não são classificados dessa maneira, pelo contrário, são vistos como comuns e altamente divertidos.
Por incrível que pareça, a submissão à exposição do próprio ser é legítima, como teorizou La Boétie. Existem várias razões pelas quais as pessoas se submetem à dominação, entretanto a principal delas consiste na submissão calcada no espírito de servidão voluntária (LA BOÉTIE, 2009)³. Além disso, a "submissão legítima" passa a ser a mais eficiente, pois é nela que o submisso se sente livre e assim dá abertura a uma maior supremacia do dominador.
A existência dessa submissão e exposição de pessoas nesses zoológicos humanos, entre outros parâmetros, é, além do caráter de exploração, uma real comparação e nivelamento do que somos com outros animais. Tratamos os homens de maneira indigna e atroz, tal como lidamos com os outros animais. Sempre em troca da base do sistema capitalista: o dinheiro.
Dê uma "espiadinha" só nisto: até as inspirações e modelos de hoje passaram a ser essas "grandes estrelas do país", que ascendem de um dia para o outro e, na maioria das vezes, se apagam com a mesma velocidade. Daí fica a pergunta: será que a existência desses zoológicos dos humanos serve simplesmente para enclausurar pessoas a troco de dinheiro ou para restringir discussões socialmente mais relevantes?
A segunda questão é a mais cabível atualmente. Restringir pensamentos a ponto de chegar a uma "não reflexão" da população com relação a parâmetros sociais, políticos e econômicos é algo que torna mais fácil o domínio e consequentemente a submissão. A política do pão e circo de Júlio Cesar tem funcionado há muitos anos.
E é dessa maneira que a clausura continua: nos vendemos a cada dia e, principalDe olhos vendadosmente, a servidão voluntária se prolonga a medida que nascemos, já em um cerco que pretende não dar a nós a abertura para a reflexão. E para divertir um povo que não discute pontos necessários à construção social, os reality estão entre nós há 10 anos, construindo cabeças irreflexivas e submissas voluntariamente.
E, dessa maneira, nos sentimos livres; no início, a troca da exposição do ser como mercadoria era julgada, a ética social não permitia que joelhos e colos aparecessem de uma maneira tão exposta na televisão, hoje, sentímo-nos livres por podermos vender nosso corpo, praticamente nus, na íntegra, voluntariamente, submetendo-nos certamente ao sistema capitalista e aos que estão no topo da pirâmide financeira. Porém, temos em nossas mãos a escolha. O que não podemos é julgar as diferentes formas de vender o corpo, pois todas estão à busca do Deus do capitalismo, o Dinheiro.
A "Febre" dos Reality Shows
O chamado reality show não é um formato recente na televisão. Eles surgiram nos EUA no final da década de 1940 e início de 1950, baseados em programas de rádio. São considerados pioneiros o "Esta é sua vida", apresentado por Ralph Edwards, e o "The Original Amateur Hour", este precursor dos shows de calouros e talentos. Em 1973, o documentário televisivo "An American Family" trouxe em doze episódios o cotidiano da família Laud. Por conta de sua fórmula, este é tido por especialistas como, de fato, o primeiro reality show da TV.
E m 1992, a Music Television (MTV) levou ao ar o "The Real World" e provocou inúmeras cópias e versões. Na atração da MTV, sete jovens permaneceram juntos por três meses. A ideia era observar a interação entre eles, com direito a brigas, romances, intrigas, etc. Depois disso, emissoras de TV e produtoras lançaram produtos parecidos. Fundador da Endemol, o holandês John de Mol criou em 1999 o sucesso mundial Big Brother. No Brasil, a febre dos reality começou com "Casa dos Artistas" (SBT) e intesificou-se com "No Limite" e "Big Brother Brasil" (Globo) e "A Fazenda" (Rede Record).
Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Reality
_show (Wikipedia.org)
http://lazer.hsw.uol.com.br/reality
-show.htm (HowStuffWorks)
1. Figura que representa uma divindade que se adora/ Pessoa à qual se prodigam louvores excessivos ou que se ama apaixonadamente. Diz-se de certas figuras que desfrutam de grande popularidade (artistas de cinema, cantores populares, jogadores de futebol, etc.) Cf. HOUAISS, 2000.
2. As máscaras sociais implicam na "ideia de interações sociais, sobretudo a de interações simbólicas", no sentido de Gof-fman. Mas, acima de tudo, implica interações sociais em um espaço social específico e histórico, carregado de significados e relações desiguais entre agentes portadores de diferentes capitais sociais. Implica, por fim, um campo, eivado de diferenças de posição e estruturado. Dentro dessa matriz, o habitus gera diferenças contínuas entre indivíduos como maneira de arranjá-los estruturalmente" (MONTAGNER, 2006).
3. As máscaras sociais implicam na "idéia de interações sociais, sobretudo a de interações simbólicas", no sentido de Goffman. Mas, acima de tudo, implica interações sociais em um espaço social específico e histórico, carregado de significados e relações desiguais entre agentes portadores de diferentes capitais sociais. Implica, por fim, um campo, eivado de diferenças de posição e estruturado. Dentro dessa matriz, o habitus gera diferenças contínuas entre indivíduos como maneira de arranjá-los estruturalmente" (MONTAGNER, 2006).
* Tatiana Martins Alméri é socióloga pela Universidade Federal de Santa Catarina, mestre em Sociologia Política e docente na UNIP e na FATEC (taalmeri2@hotmail.com)

Fonte: Revista Sociologia

A Revolução da Tolerância

A revolução da tolerância
 
A intolerância já foi considerada uma virtude, e a tolerância, um vício. Ao longo da história, alguns filósofos contribuíram para a mudança desse modo de pensar. John Locke certamente foi um deles
MArIA CECÍLIA ALMEIDA é doutoranda em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, bolsista CAPES.Editora dos Cadernos de Ética e Filosofia Política (http://www.fflch.usp.br/df/cefp/).
"Não é a diversidade de opiniões, algo que não pode ser evitado, mas a recusa da tolerância com os que são de opinião diferente, o que deveria ser reconhecido, que tem produzido todas as batalhas e gueras que ocorem no mundo cristão, sob o pretexto da religião."
 
LOCKE, Carta sobre a tolerância
arquivo ciência & vida
Noite de São Bartolomeu, em 1572, na França. O poder real, católico, reprimiu com a morte milhares de protestantes franceses. O massacre começou na madrugada de 24 de agosto e persistiu vários dias, espalhando-se para outras cidades
A tolerância é hoje uma noção fortemente enaltecida, reconhecida por vários Estados em declarações de direitos internacionais como o sustentáculo dos direitos dos homens. Por isso, é comum nos dias atuais que a sociedade reaja com indignação diante de quaisquer atos que denotem intolerância, preconceito ou discriminação.
Todavia, nem sempre foi assim. No século XVI a palavra tolerância mantém o máximo de sua carga negativa (que existe, de certo modo, até hoje), condizente com seu sentido original: tolerar então era sofrer, suportar pacientemente um mal necessário, como se se tratasse de uma doença ou infecção.
Também era comum que a tolerância designas se uma atitude de impunidade frente ao mal, o que poderia significar uma espécie de conivência ou aceitação de um ero. Quem era "tolerante" poderia ser acusado de indiferença religiosa, ou mesmo de subversão. Por outro lado, a intolerância designava uma virtude, uma espécie de integridade moral ou firmeza para com os preceitos morais.
De acordo com alguns historiadores, o conceito de tolerância não surgiu antes do século XVI, e o seu episódio mais dramático foi sem dúvida a noite de São Bartolomeu, em 1572 na França. Especialmente a partir deste evento houve a necessidade de se pensar em uma saída para o ódio e a violência desmesurada que ocoria entre os diversos cultos. Esta noite mostrou o poder das crenças religiosas que culminou no massacre de protestantes por católicos, num cortejo de atrocidades que tomou as ruas de Paris durante vários dias.
Diante desse quadro, alguns filósofos passam a refletir sobre a urgência da implementação da tolerância, pensando em medidas que deveriam ser tomadas pelo poder político. A tolerância surge assim como um imperativo diante da necessidade do controle da violência, que deveria ser monopólio do Estado.
arquivo ciência & vida
Vida de Martinho Lutero e os heróis da reforma. Martinho Lutero, líder da reforma, se rebela contra vários pontos do catolicismo. O século XVI foi um dos mais intolerantes da história, com várias controvérsias entre católicos e protestantes
A noite de São Bartolomeu foi possível, dentre outros fatores, porque a tolerância era malvista no passado, e a intolerância, ao contrário, era tida como uma virtude. Havia uma série de argumentos que visavam fundamentar esta "virtude". Uma tese largamente usada a favor da intolerância dizia que a religião deve desempenhar certas funções no Estado.
Ela não é apenas algo do foro íntimo ou da consciência de cada indivíduo. Segundo esta opinião, o Estado para ser forte deveria ter uma única religião. Assim, não se tratava de uma questão simplesmente religiosa, como defender a glória de Deus ou a salvação do próximo, mas, sobretudo, o interesse político que uma sociedade deveria ter no consenso religioso de seus membros.
Este modo de pensar, expresso no conhecido adágio "um rei, uma fé, uma lei", engendrava intolerância, pois havia uma religião oficial, a religião do príncipe, e todo aquele que dela não partilhasse seria por isso mesmo de uma lealdade política duvidosa.
Esta tese teve muitos adeptos durante o século XVI, considerado um dos mais intolerantes da era cristã, marcado pela reforma, expansão do protestantismo e pelas controvérsias com o catolicismo. Nas gueras de religião, milhares de pessoas foram torturadas, moreram ou foram forçadas a ir para o exílio como vítimas de perseguição religiosa.
Quem era "tolerante" poderia ser acusado de indiferença religiosa, ou mesmo de subversão. Por outro lado, a intolerância designava uma virtude
Walter Craveiro
richard Dawkins (1941), autor de Deus, um Delírio, é um ícone do ateísmo. Para Locke, os ateus, por possível desapego à lei moral, não devem ser tolerados de forma irestrita
Locke e a tolerância
Foi sobretudo contra este argumento, segundo o qual era papel do Estado procurar a unidade religiosa, que o filósofo inglês - precursor do liberalismo John Locke (1632-1704), escreveu a Carta sobre a Tolerância, publicada em 1689, texto que trará argumentos decisivos na defesa da tolerância, que serão largamente utilizados pelos iluministas do século XVIII, e que subsistem, de certo modo, até hoje.
O principal argumento político usado em favor da tolerância é a separação que deve haver entre Igreja e Estado. Ao fazer isso, o autor pretende delimitar qual é o lugar da autoridade política, quais os seus limites, e até onde ela pode interferir ao se tratar dos cultos de religião.
Locke afirma que a jurisdição do magistrado civil se estende apenas à comunidade política. Cabe a ele zelar pela busca, preservação e pelo desenvolvimento dos interesses civis dos seus membros. Interesses civis que na terminologia lockiana compreendem "a vida, a liberdade, a saúde, a preservação do corpo e ainda a posse de coisas exteriores como dinheiro, teras, casas, móveis e coisas assemelhadas".
Assim, o poder, o direito e o domínio do magistrado civil se limitam unicamente a proteger e promover os bens civis. Ele não pode de maneira alguma, como afirma Locke, ser estendido para a salvação das almas. À igreja, por outro lado, cabe somente o cuidado com a salvação e o outro mundo.


Torturar por amor
Ao defender a preservação de certos direitos dos indivíduos, Locke afirma que os homens não têm o direito de infligir tortura por motivo religioso. Locke busca combater outro argumento, de inspiração agostiniana, usado em favor da intolerância: o de que o castigo aos heréticos é justificável porque é dever do crente procurar o bem de seus semelhantes. Os perseguidores justificavam os tormentos que causavam aos dissidentes porque era o seu "dever" obrigá-los a aceitar a verdade. Faziam-no "por amor", para que os hereges obtivessem a salvação eterna; isso estava acima de tudo, e por isso muitas vezes era necessário impor sofrimentos: apenas para que os dissidentes finalmente "reconhecessem a verdade".
arquivo c iência & vida
Debates em sociedade retratam a esfera pública iluminista. A Carta sobre a Tolerância, de Locke, continha argumentos em defesa da tolerância que foram usados pelos iluministas do século XVIII
Contra esse modo de pensar, de que a tortura deve ser imposta para a "salvação" do próximo, vão se voltar os principais teóricos da tolerância. Locke rejeita terminantemente a ideia segundo a qual se poderia constranger alguém a crer visando o seu bem, ou seja, por procurar mostrar-lhe o verdadeiro caminho da salvação. Ele acredita que ninguém pode mudar sua fé pelo simples comando de outro. A crença não pode ser imposta coercitivamente.
A convicção interior, a sinceridade, é algo imprescindível para a verdadeira fé, segundo Locke, a única que é agradável a Deus. A vontade é inútil para interferir neste processo, pois assim como nossas percepções e ideias, a fé não depende de nossa vontade. Segundo constatação por exemplos históricos, e respaldo pelas reflexões de Locke, pode-se dizer que muitas gueras e discórdias são geradas pela intolerância.
Os perseguidores justificavam os tormentos que causavam aos dissidentes porque era o seu "dever" obrigá-los a aceitar a verdade
As perseguições mostram que as sanções fabricam apenas hipócritas ou pessoas ainda mais aferadas à sua opinião - pois não há possibilidade de sermos forçados a crer em algo - o que, por sua vez, origina mais intolerância. Por outro lado, a tolerância, o respeito pela consciência alheia disseminaria a paz na sociedade. Se a tolerância se fundamenta no direito à liberdade dos indivíduos de escolher seu culto e se a liberdade não é total, mas restrita ao que prescrevem as leis de uma sociedade, há também um limite à tolerância, segundo Locke.
Ela deve excluir tudo o que arisque a existência da comunidade política e da paz civil. Nenhuma opinião contrária à sociedade humana, ou àquelas regras morais que são necessárias à preservação do corpo político, deve ser tolerada pelo magistrado. Como a este cabe o cuidado da comunidade política, ele deve evitar que qualquer pessoa sofra dano, em sua vida, liberdade ou propriedades. Assim, a regra é: o que não é legal no curso normal da vida, também não é em assuntos de religião. Por outro lado, aquilo que é legal e permitido normalmente para os súditos, não pode ser proibido em seitas ou usos religiosos. É interessante notar como esta ideia está presente na modernidade: ainda hoje a tolerância é comumente conhecida como a aceitação tácita de tudo o que não interfira nos negócios públicos.
arquivo ciência & vida
Conversão do imperador Constantino ao Cristianismo. Uma das fontes de ações intolerantes é a união entre Estado e Igreja, a qual obriga todos a professarem uma religião única
Esse é o limite mais geral e também o mais importante. Locke prevê outros dois limites específicos (e polêmicos) à tolerância. Um deles é encontrado nos católicos, considerados intolerantes pelo autor. Segundo ele, os intolerantes não são dignos de ser tolerados.
Locke afirma que o máximo que uma igreja pode fazer é punir aqueles que acreditam não ser dignos de continuar no seio de sua instituição religiosa com o afastamento obrigatório daquele membro: a excomunhão. No entanto, este afastamento não pode repercutir em nada no que diga respeito aos seus bens ou à sua vida civil.
Outra causa da não-tolerância aos católicos seria o fato de se associarem a uma religião e se entregarem à proteção e serviço de outro príncipe, o Papa, chefe da Igreja Católica.
É inadmissível que o magistrado permita uma jurisdição estrangeira em seu próprio teritório. É precisamente porque os católicos são devotados a um outro príncipe, que são justificáveis diversas medidas de precaução.
Intolerância no estado laico
n a Tturquia, um país laico de maioria muçulmana, o uso do véu islâmico é fonte de intolerância há anos. Seu traje é proibido nos estabelecimentos públicos de ensino e jovens muçulmanas precisam retirá-lo, por exemplo, para frequentar uma universidade. Eessa restrição se tornou um símbolo de opressão para algumas e de liberação para outras. Muitas estudantes, que não abrem mão do uso do véu, desistem de cursar a universidade ou vão estudar no exterior. Aa intolerância ao véu existe porque ele é visto como uma violação da separação entre Eestado e religião. Há, porém, aqueles que defendem ser a proibição do véu uma violação da liberdade religiosa.
"Nenhuma qualidade humana é mais intolerável do que a intolerância" GIACOMO LEOPArDI
Auto-de-fé, da Inquisição Espanhola. A tortura por motivo religioso era considerada um ato bom, pois o herege, com dor, conheceria a verdade e se salvaria. Locke condena essa forma de intolerância
Finalmente, não devem ser tolerados os ateus. Segundo Locke, as promessas, contratos e juramentos daqueles que negam a existência de Deus não seriam confiáveis. A supressão de Deus, ainda apenas que em pensamento, dissolveria a possibilidade de concretizar qualquer ação que não fosse absolutamente obrigatória por medo do castigo do magistrado. Para Locke, o desapego dos ateus à lei moral é fato quase certo. Desta forma, estes não procurariam viver moralmente.
Tolerância irestrita
É importante perceber, entretanto, que nestes dois últimos limites, a preocupação de Locke é mais política do que puramente religiosa. Em primeiro lugar, não se trata de insuflar a intolerância para com os católicos, mas de negar-lhes a tolerância irestrita; mais do que isso, trata-se de negar-lhes certos direitos que eles se atribuíam.
Com efeito, como tolerar aqueles que obedecem a outro soberano, ou que dizem que não é preciso cumprir a promessa feita aos hereges (sendo que eles próprios determinam quem é herege, sempre com critérios muito discutíveis...)? reconhecer que os católicos têm estes direitos é admitir a sedição na sociedade política. Se os católicos fossem tolerados, haveria um desequilíbrio entre os direitos dos católicos e dos demais.
Quanto aos ateus, embora o pano de fundo da argumentação seja teológico, sua exclusão da tolerância é igualmente motivada por razões estritamente políticas: como preservar a paz em uma sociedade em que pessoas não mantêm a sua palavra e não cumprem os contratos?
Se os ateus não juram, porque não têm pelo que jurar, a ordem da sociedade está em perigo. Mais uma vez, é preciso apenas preservar um equilíbrio de direitos, e conservar, sobretudo, a paz da sociedade, fazendo com que a própria tolerância seja também preservada.


2ª caminhada em defesa da liberdade religiosa, no rio de Janeiro (2009)
Em defesa da diversidade
n o final de setembro de 2009, foi promovida a 2ª Caminhada em defesa da Lliberdade religiosa, no rio de Janeiro. diversas associações, igrejas e milhares de pessoas das mais variadas crenças saíram pela orla de Copacabana, com o intuito de defender a liberdade de crença e de expressão. Eeste acontecimento não deixa de suscitar certa reflexão, sobretudo por ter ocorido no Brasil, que, apesar de ter uma maioria católica, abriga um grande número de religiões que se misturam e convivem, segundo alguns, harmoniosamente.
A Cconstituição Federal de 1988 no seu artigo 5º, inciso VI assegura de forma incontestável o direito à liberdade de consciência e de crença. Aapesar disso, ainda ocorem atos de intolerância. Nnos países democráticos, atos de intolerância são sempre indesejáveis, pois limitam a liberdade e comprometem a igualdade entre os cidadãos. daí a necessidade de um ato a fim de reafirmar o que a lei já diz, embora talvez sem eficácia absoluta.
Apesar de Locke propor limites à tolerância, tema delicado, é preciso reconhecer que o seu pensamento estabeleceu teses que foram de certo modo acolhidas pelo Estado moderno, como, por exemplo, a separação entre as esferas da religião e da política e o direito à liberdade de consciência. A tolerância será, depois de Locke, reconhecida não mais como algo inevitável, ou um mal menor, mas como uma virtude política.
No entanto, é interessante atentar para o caráter sempre multifacetado e necessário da reflexão sobre esta noção, pois hoje talvez já se possa afirmar que a tolerância (não só religiosa) não depende unicamente da postura de estados, ou da positivação de certos direitos, pois nos chocamos com frequência pela ocorência de atos de intolerância que ocorem em Estados tolerantes. Isso significa que a noção de tolerância transcende o direito, e que, muitas vezes, a aceitação da diferença e da diversidade, imperativo público, se dá no silêncio das leis, na consciência particular de cada indivíduo.
Referências
LOCKE, John. Carta sobre a Tolerância. Organização e tradução de Ari ricardo Tank Brito. São Paulo, Hedra, 2007
WALZEr, Michael. Da Tolerância. São Paulo, Martins Fontes, 1999 FilmMografFia A rainha Margot (La reine Margot.
ALE/FrA/ITA. 1994). Direção: Patrice Chéreau.
arquivo ciência & vida
Jacques-Bénigne Bossuet (1627-1704), bispo e teólogo francês, defendia o absolutismo político e uma origem divina do poder real. Suas ideias, resumidas na máxima "um rei, uma fé, uma lei", fomentaram intolerância religiosa

Fonte: Revista Filosofia