Por que uma sociedade mais justa e solidária

Por que uma sociedade mais justa e solidária
 
 
Herbert José de Souza, o sociólogo conhecido como Betinho, teve uma trajetória de muitas lutas, projetos, sonhos, desafios e também conquistas que fizeram a diferença
por Dulce Chaves Pandolfi
Ética e democracia
ilustração: rafaela nogueira
Dulce Chaves Pandolfi é pesquisadora do Cpdoc/FG V e diretora do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase
Ao longo da vida, Herbert José de Souza, o carismático Betinho, passou por muitas dificuldades e enfrentou muitos desafios. Mas, também, sempre sonhou e lutou muito. De forma incessante e por meio de diferentes frentes de batalha, tentou construir uma sociedade mais justa e solidária. Ainda muito jovem, indignado com seu sofrimento e com as injustiças do mundo, buscou apoio na fé e partiu para a militância política. Costumava dizer que guardava seus sentimentos de frustração para as coisas mais pessoais. Nas causas políticas, ficava indignado. Caso contrário estaria perdido. De fato, a indignação e a esperança, as lutas e os sonhos marcaram profundamente a intensa trajetória daquele, aparentemente, frágil mineiro que nasceu na pequena cidade de Bocaiúva, no dia 3 de novembro de 1935 e morreu no Rio de Janeiro, no dia 9 de agosto de 1997, aos 61 anos de idade, contaminado pelo vírus da Aids.
Betinho foi criado em uma família católica, onde a solidariedade era um forte valor. Sua mãe, dona Maria, era conhecida pelos almoços que diariamente fazia para os amigos dos seus oito filhos. O pai, seu Henrique, no período em que foi dono de padaria em Bocaiúva, costumava distribuir comida para os pobres da cidade. As irmãs mais velhas eram da Ação Católica, um movimento de leigos vinculados aos setores mais progressistas da Igreja, que defendiam uma maior intervenção na realidade social do País. Segundo Betinho, “[...] a influência das minhas irmãs Vanda e Zilah foi fundamental. Elas eram bandeirantes. Um dia, quando eu ainda era menino, fomos visitar um lixão em Belo Horizonte. As pessoas dividiam restos de comida com urubus. Aquilo me marcou muito.”1
A infância de Betinho foi marcada pelas diversas interrupções
nos estudos devido às freqüentes crises de hemofilia
1 - O Estado de São Paulo, 14/12/1996.
A infância de Betinho foi marcada pelas doenças. Hemofílico, várias vezes teve que interromper os estudos devido às freqüentes crises de hemofilia. Dos quinze aos dezoito anos ficou confinado em um quarto da sua casa, em Belo Horizonte, em função de uma forte tuberculose, doença naquela época de difícil cura, sobretudo para um hemofílico. Seu estado de saúde ficou tão grave que chegou a receber a extrema-unção. Nessa espécie de prisão domiciliar, Betinho leu muito e entrou em contato com o humanismo cristão. Além dos romances policiais de Agatha Christie e a obra completa de Dostoiévski, devorou os livros de Teilhard de Chardin, Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e George Bernanos trazidos por suas irmãs. Em 1953, curado da tuberculose, Betinho retomou os estudos e ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC), uma organização estudantil vinculada à Ação Católica. Em pouco tempo, era uma das lideranças mais expressivas do movimento estudantil de Belo Horizonte.
Betinho aliava o engajamento político a uma intensa vida católica. Ia à missa e comungava diariamente. Foi nesse período que conheceu o dominicano Frei Mateus Rocha, assistente da JEC de Belo Horizonte e que se tornou uma espécie de seu “pai espiritual”. Em 1958, ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas onde cursou Administração Pública e Sociologia Política. Passou a militar na Juventude Universitária Católica (JUC), o caminho natural para os estudantes da JEC que ingressavam na universidade.
No início dos anos 60, junto com um grupo de militantes católicos, fundou uma organização política, a Ação Popular (AP), voltada para reformar as estruturas do País. Em 1963, durante o governo João Goulart, já formado em Sociologia, foi assessor do Ministério da Educação e engajou-se na campanha de alfabetização de adultos liderada por Paulo Freire. Foi também assessor da Superintendência de Política Agrária (Supra). Dirigente nacional da AP, Betinho percorria o País de norte a sul e participava ativamente das lutas em prol das chamadas “reformas de base”.
Fonte:
http://www.transparencia.org.br/docs/compravotos2004.pdf
*O cartunista, quadrinista, jornalista e escritor brasileiro, Henrique de Sousa Filho, conhecido como Henfil, foi uma personalidade na luta contra o regime ditatorial do País. Hemofílico como os irmãos Betinho e Chico Mário, contraindo o vírus da AI DS em uma transfusão e faleceu de complicações da doença em 1988. A música é uma homenagem a ele a a Betinho, que na época da composição vivia no exílio.
Militância musical
O bêbado e o equilibrista - (Aldir Blanc e João Bosco)
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua, tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco
Louco, o bêbado com chapéu coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil*
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarices
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente a esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
Logo após o golpe militar de 1964, que derrubou o governo Goulart, Betinho, procurado pelos órgãos da repressão, entrou na clandestinidade. Enquadrado na Lei de Segurança Nacional, teve seu pedido de prisão decretado. Em julho de 1964, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar), em documento oficial, solicitava informações que levassem ao paradeiro de “Herbert José de Souza, brasileiro, solteiro, educação nível superior, com os seguintes dados antropométricos: altura: aproximadamente 1,70m; idade: 28 anos; cabelos: castanhos bem claros, ondulados; olhos: castanhos claríssimos (quase ouro); compleição: bem franzino (semi-esquálido); rosto: fino, maçãs salientes, queixo levemente quadrado, olhos grandes, nariz grande e arredondado, sobrancelhas cerradas, barba e bigode raspados; tez: morena clara (de sol); cor: branca. Características: anda levemente curvado, braços exageradamente abertos em relação à horizontal do corpo. É hemofílico. Costuma trajar-se a caráter social (paletó e gravata). Aspecto de pouca saúde. Introvertido.”2 Anos mais tarde, à revelia, Betinho foi condenado a cinco anos de prisão pelo Conselho Permanente de Justiça da Aeronáutica.
Foto: Elza Fiúza / ABr
Apesar da dramaticidade do diagnóstico da AI DS, Betinho declarou-se publicamente portador do vírus e tornou-se um grande ativista na luta para combater o preconceito que envolvia a doença, incentivando ações realizadas até hoje
Apesar de perseguido, não dava tréguas ao regime militar e continuava dirigindo a Ação Popular. Em missão política, viajou para o Uruguai e passou vários meses em Cuba. De volta ao Brasil, foi morar em um bairro operário e trabalhar em uma fábrica em São Paulo. O sociólogo transformou-se em operário. Tentava arregimentar os trabalhadores no ABC paulista para derrubar a ditadura. Na clandestinidade, passou a usar os nomes falsos de Francisco e Wilson. Foi na militância que conheceu Maria Nakano, também da Ação Popular, com quem ficou casado até o final da vida. Em 1971, Betinho fugiu para o Chile, mas Maria permaneceu em São Paulo, em função dos trabalhos políticos que estava desenvolvendo para a AP. Pensaram que jamais iriam se reencontrar. Em 1972, uma grande repressão se abateu sobre a AP e Maria também fugiu para o Chile onde reencontrou Betinho. Foi nesse reencontro que Maria e Betinho ficaram sabendo dos verdadeiros nomes de cada um, mantidos em segredo por conta das perseguições policiais que ambos sofriam no Brasil. Em setembro de 1973, quando um golpe militar derrubou o governo de Salvador Allende, Betinho teve que pedir asilo na embaixada do Panamá.
A criação do Ibase objetivava assessorar e oferecer informações
para os movimentos sociais que estavam
em efervescência no Brasil
Durante o exílio, que se prolongou por oito anos, Betinho, além do Chile, morou no Panamá, Canadá e México. No exterior, a preocupação com o Brasil era constante e as articulações políticas com outros exilados eram intensas. De longe, acompanhava atentamente as lutas que se desenvolviam no Brasil contra a ditadura. Em 1979, anistiado, o “irmão do Henfil” voltou ao Brasil. A canção de João Bosco e Aldir Blanc, O bêbedo e o equilibrista, havia transformado Betinho em um símbolo da luta pela anistia (veja quadro Militância musical).
Em 1981, juntamente com Carlos Alberto Afonso e Marcos Arruda, companheiros do exílio, fundou o Instituto Brasileiro de Análise Sociais e Econômicas (Ibase), com recursos oriundos do exterior, sobretudo de entidades religiosas. O projeto havia sido concebido durante o exílio. O objetivo era criar uma entidade para assessorar e oferecer informações para os movimentos sociais que estavam em efervescência no Brasil. Para produzir argumentos que ajudassem a intervir no debate público, Betinho realizava encontros mensais para discutir a conjuntura. Esses encontros, sempre regados por cerveja gelada, mobilizavam intelectuais e militantes. Os resultados eram colocados no papel, xerocados e repassados para os movimentos sociais, igrejas e universidades. Aos poucos, o Ibase foi se institucionalizando. Além de assessorar os movimentos sociais, era necessário fazer pesquisas, produzir conhecimento para interferir de forma mais qualificada no debate público.
2 - Cópia de documento do Ministério da Marinha, stado-Maior da Armada, Cenimar, datado de 12/07/1964, que integra o dossiê pessoal de Betinho no Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Arquivo Herbert de Souza, Cpdoc/FG V.
Betinho costumava dizer que gostava de pensar grande. Por isso, ao longo do período em que esteve à frente do Ibase, em parceria com entidades e representantes da sociedade civil, articulou diversas campanhas para tentar mobilizar a sociedade em torno de questões que fizessem avançar a democracia.


Maria Nakano / Arquivo Ibase
A família teve grande influência na militância de Betinho. O pai, no período em que foi dono de padaria em Bocaiúva, costumava distribuir comida para os pobres da cidade e as irmãs eram da Ação Católica, um movimento que defendia maior intervenção na realidade social do País
Em 1983, no apagar das luzes do regime militar, foi lançada a Campanha Nacional pela Reforma Agrária (CNRA), cujo coordenador era Betinho. Desde os anos 1950, a reforma agrária era tema central no ideário das organizações das esquerdas brasileiras. A concentração da terra era identificada como a causa principal das desigualdades sociais do País. A eliminação da miséria e da fome passava necessariamente pela eliminação do latifúndio. A CNRA conseguiu agregar diversas instituições e, sem dúvida, teve um efeito de dinamizar os movimentos sociais que se encontravam dispersos na área rural.
Em 1985, com o fim do regime ditatorial, foi criado o Ministério da Reforma e do Desenvolvimento Agrário (Mirad). Em 1987, nos embates da Assembléia Nacional Constituinte, Betinho participou ativamente das campanhas pela aprovação de emendas populares na Constituição que estava sendo elaborada, entre elas, as emendas em torno da questão agrária.
Em 1986, foi diagnosticada a contaminação de Betinho pelo vírus HIV, contraído em uma das inúmeras transfusões de sangue que fora obrigado a fazer por conta da hemofilia. Apesar da dramaticidade do diagnóstico, ele declarou- se publicamente portador do vírus e tornou-se um grande ativista na luta para combater o preconceito que envolvia a doença. No ano seguinte, ajudou a fundar a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e conseguiu que fosse aprovada no estado do Rio de Janeiro uma lei de controle de qualidade dos bancos de sangue. Em 1988, seus dois irmãos, o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, referências fundamentais de Betinho, também hemofílicos, morreram contaminados pelo vírus da Aids. Nesse mesmo ano, Betinho assumiu o cargo de Defensor do Povo da Cidade do Rio de Janeiro e foi um dos articuladores do Se Liga, Rio, uma campanha para tentar aumentar a auto-estima dos moradores da cidade do Rio de Janeiro. Foi com esse mesmo intuito que, anos depois, em 1993, participou ativamente do movimento Viva Rio, que conseguiu reunir empresários, intelectuais, artistas, sindicalistas e líderes comunitários para tentar diminuir a violência que se abatia sobre a cidade.
Em 1990, aproveitando os dados do censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Betinho levantou a questão do preconceito racial na sociedade brasileira e coordenou a campanha Não deixe sua cor passar em branco. No ano seguinte, lançou o projeto Se essa rua fosse minha, voltado para tirar as crianças das ruas da cidade do Rio de Janeiro. Em 1992, foi uma das lideranças do Movimento pela Ética na Política, que resultou no impeachment do então presidente da República Fernando Collor de Mello.
Uma das preocupações de Betinho era manter a sociedade brasileira mobilizada em torno de causas éticas e democráticas. Segundo ele, a miséria e a fome não eram compatíveis com a ética e com a democracia. Em 1993, surgiu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, um dos mais expressivos movimentos sociais ocorridos no País e que se tornou mais conhecido como Campanha contra a Fome ou Campanha do Betinho. Tomando como referência os dados apresentados pelo Mapa da Fome, documento elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Betinho denunciava que o Brasil possuía cerca de 32 milhões de miseráveis e responsabilizava a sociedade brasileira pela solução do problema.
Em 198 Em 1990, aproveitando os dados do censo do IBGE,
Betinho levantou a questão do preconceito racial
Foto: José Cruz / ABr
Em 1992, Betinho foi uma das lideranças do Movimento pela Ética na Política, que resultou no impeachment do então presidente da República Fernando Collor de Mello
Sua preocupação com a fome vinha de longa data. Em dois períodos distintos foi consultor da Food and Agriculture Organization (FAO), órgão da ONU: em meados da década de 1970, ainda no exílio, e em 1981, já no Brasil. Pouco tempo depois do lançamento da Ação da Cidadania, comitês dos mais variados formatos se organizaram em diversas cidades e até mesmo fora do País, por brasileiros residentes no exterior. Os comitês reuniam pessoas por atividade profissional, local de moradia, pertencimento religioso, entre outros. Um dos mais atuantes foi o Comitê das Entidades Públicas no Combate à Fome e pela Vida (COEP), reunindo representantes de diversas empresas, entre elas a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil, a Petrobras e Furnas. O COEP buscava articular ações emergenciais, como a coleta e distribuição de alimentos, com ações mais estruturais, como projetos de desenvolvimento local e geração de trabalho e renda por meio de parcerias com empresas, organizações não governamentais e órgãos governamentais.
Outro comitê que teve um papel destacado foi o Comitê Idéias, criado por publicitários. O slogan da Ação da Cidadania era Fome, não dá para esquecer e o logotipo era um prato vazio. Os jornais, o rádio e, sobretudo a TV, ajudavam a multiplicar as atividades da campanha. O Natal sem Fome também se tornou marca registrada da Ação da Cidadania. Os princípios básicos da campanha eram: parceria, iniciativa e descentralização. Segundo Betinho, “parceria porque propõe juntar quem quer dar com quem precisa receber. Iniciativa porque não apresenta respostas, mas coloca questões e cobra soluções. Descentralização porque não estabelece um modelo hierárquico, mas sim, estimula ações sem impor uma coordenação, [...] ações que respeitem diversidades locais”.3 Ao longo do processo, a Ação da Cidadania foi acusada de ser um movimento meramente assistencialista. Betinho afirmava que não tinha dúvidas de que a campanha da fome não resolveria os problemas estruturais da sociedade. No entanto, dizia: “quem tem fome tem pressa!”. Segundo ele, era necessário articular as dimensões emergencial e estrutural, pois “atuar no emergencial sem considerar o estrutural é contribuir para perpetuar a miséria.
Com a sua morte, foi necessário tornar o projeto da Agenda Social menos ambicioso,
já que seria tocado por pessoas de “carne e osso”
Propor o estrutural sem atuar no emergencial é praticar o cinismo de curto prazo em nome da filantropia de longo prazo”4. Pouco tempo depois do lançamento da campanha, o presidente da República, Itamar Franco, anunciou um plano de erradicação da fome e criou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), um conselho de caráter consultivo, reunindo representantes do governo e da sociedade civil, com o objetivo de propor e viabilizar ações para combater a fome. A partir de então, o tema da fome foi incorporado definitivamente à agenda pública do País. Em parte, sua missão estava cumprida.
Maria Nakano / Arquivo Ibase
No início de julho de 1997, foi internado já muito debilitado, mas pediu para voltar para casa. Morreu no dia 9 de agosto de 1997, aos 61 anos de idade
Ainda em 1994, no auge da sua popularidade, Betinho foi acusado de ter recebido, no final de 1990, dinheiro do jogo do bicho para ajudar a ABIA que atravessava uma grande crise financeira. A notícia se espalhou por todos os meios de comunicação. O sociólogo admitiu o erro e aquele foi, sem dúvida, um dos momentos mais difíceis da sua vida política.
Em junho de 1996, ocasião em que o Rio de Janeiro era uma das cidades candidatas a sediar as Olimpíadas que iriam ocorrer em 2004, Betinho lançou mais uma campanha, a Agenda Social Rio 2004. A idéia era aproveitar o clima de mobilização existente em função da candidatura do Rio de Janeiro e envolver diversos setores da sociedade e do estado em torno de cinco metas que deveriam ser alcançadas pela cidade em 2004: educação de qualidade para todas as crianças e jovens, todas as crianças bem alimentadas, favelas urbanizadas e integradas à cidade, ninguém morando na rua e esporte e cidadania jogando no mesmo time. Segundo Betinho, “se for só para fazer carnaval, prefiro que os Jogos Olímpicos sejam realizados na Bahia. Ou que seja em Tóquio, Miami, Roma ou outra cidade bem mais estruturada. [...] Temos que aproveitar essa rara oportunidade para chamar a atenção de todos e mostrar que podemos mudar a história da nossa cidade.”5 O objetivo era criar um compromisso social para garantir direitos básicos para a população excluída. Um dos seus sonhos era fazer do Rio de Janeiro uma cidade onde não houvesse meninos nas ruas, em que o “morro” estivesse integrado ao “asfalto”, em que toda a população tivesse acesso à saúde e à educação. Ambiciosa e polêmica, a proposta sensibilizou uma parcela da opinião pública. A proposta da Agenda Social Rio foi apresentada ao Comitê Olímpico Internacional (COI). Quando, em março de 1997, o Rio de Janeiro perdeu a disputa para sediar as Olimpíadas, a decisão foi manter as articulações em torno da Agenda Social. Poucos meses depois, em agosto, morreu Betinho. Foi necessário redefinir o projeto, torná-lo menos ambicioso, pois, nas palavras de um dos coordenadores, a partir de então a Agenda iria ser tocada por pessoas de “carne e osso”. Sem Betinho, o Ibase redefiniu o projeto e a questão das favelas urbanizadas e integradas à cidade ganhou centralidade e permanece como um dos objetivos da instituição.
3 - Souza, Herbert de. Ação da cidadania, força da sociedade. Texto digitalizado, 1955. Arquivo Herbert de Souza. Cpdoc/FG V.
4 - Jornal Primeira e Última, abril de 1993.
Maria Nakano / Arquivo Ibase
Em 1993, surgiu a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, um dos mais expressivos movimentos sociais ocorridos no País e que se tornou mais conhecido como Campanha contra a Fome ou Campanha do Betinho
No início de 1997, o Ibase, de forma ousada, lançou a campanha de responsabilidade social das empresas, uma das últimas ações de Betinho, e criou o Balanço Social, uma ferramenta importante na luta pela transparência não só das empresas mas também, das instituições governamentais e das organizações não governamentais. Inicialmente com menos de uma dezena de adesões, hoje, centenas de empresas fazem seu Balanço Social no modelo Ibase. Mas, o que é o Balanço Social? É uma organização para tornar pública a origem e o destino do seu dinheiro, tornar públicas suas atividades e o relacionamento com seus funcionários. É ter metas e preocupação com sua diversidade interna. Também é fazer avaliação e melhor planejar suas ações.
Poucos meses depois de ter lançado a campanha de responsabilidade social das empresas, no início de julho de 1997, Betinho foi internado na Beneficência Portuguesa. Muito debilitado, pesando 39 quilos, foi desenganado. A seu pedido, voltou para casa para morrer ao lado da mulher, Maria, dos seus dois filhos, Daniel e Henrique, e de alguns amigos.
Sem Betinho, o Ibase, uma das suas principais heranças, continua fiel ao seu compromisso de lutar por um mundo mais justo e solidário.
 

Fonte: Revista Sociologia

Subjetividade Sociologia clínica

Subjetividade
Sociologia clínica

A abordagem busca desenredar as complexas relações entre os condicionamentos sociais e psíquicos presentes nas condutas dos indivíduos e de grupos
Escuta implicada na pesquisa
O reconhecimento da subjetividade no campo sociológico ainda causa certa estranheza, mesmo entre os pares da Academia. A concepção centrada na objetividade científica e no pressuposto teórico de que as razões estão no sistema e não nos sujeitos ganhou espaço dentro da Sociologia e deu, durante algum tempo, o tom das explicações para as relações e processos sociais e culturais. Entretanto, a subjetividade é uma presença desde as origens da Sociologia. Fazer estudos sociológicos levando em conta as questões subjetivas não é uma descoberta desses últimos anos. É algo que se foi construindo lentamente, enfrentando dificuldades para alcançar o reconhecimento, mas que hoje - como afirmam estudiosos no Brasil e em vários outros países - ocupa largo espaço no mundo acadêmico com o nome de Sociologia Clínica.
O grupo de Sociologia Clínica é reconhecido, desde 1994, como RC46 - o Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociologia (ISA) (www.isa-sociology. org/rc46.htm). RC46 do ISA abrevia a sigla em inglês Research Committee 46 International Sociological Association (ISA) que é o maior centro de pesquisa em Sociologia do mundo.
E o RC19 é Comitê de Pesquisa em Sociologia Clínica que faz parte da Associação Internacional de Sociólogos de Língua Francesa (AISLF). Anteriormente a essa data, vários encaminhamentos já haviam sido feitos no sentido de divulgação e reconhecimento como colóquios, publicações, intercâmbios entre os correspondentes de países diferentes, inclusive o Brasil, e por meio da inserção de pesquisadores em fóruns locais e internacionais. (Veja quadro Origem
e pesquisadores).
"Não se trata de mais uma corrente sociológica, mas de uma maneira de abordar os problemas sociais, articulando aspectos sociais e individuais", expõe a professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Norma Missae Takeuti, pós-doutorada em Sociologia Clínica na França, e pesquisadora associada das entidades internacionais RC46 da ISA e RC19 da AISLF.
A Sociologia Clínica aproxima- se de diversas práticas sociológicas passadas e presentes que, de diversas formas, tentam conjugar um tipo de produção teórica e crítica com a prática em campo, não se resumindo à simples aplicação de um saber produzido por experts para os quais não faz sentido a participação dos indivíduos envolvidos em uma dada situação social.
A pesquisadora faz observar que uma abordagem do tipo clínico está presente desde as origens da Sociologia, como, por exemplo, na obra de Gabriel Tarde, mais reconhecido no campo da Psicologia Social ou da Psicologia e recentemente redescoberto pela Sociologia em estudos que realizou sobre a comunicação, a opinião pública, processos de influência e as instituições. "A abordagem clínica analisa o social, tentando compreender o que os indivíduos contemporâneos vivenciam, representam e como o incorporam a suas experiências" diz Norma Takeuti.
Outro autor clássico, Émile Durkheim, considerado 'objetivista', possui entre o conjunto de seus escritos a obra As formas elementares da vida religiosa, na qual tentou mostrar os elos existentes entre o psiquismo individual e o psiquismo coletivo, bem como o papel essencial das crenças e das paixões na vida coletiva. Do mesmo modo, seu discípulo, Marcel Mauss, no Ensaio sobre a dádiva, indica que o sociólogo deve levar em conta o sentido que os sujeitos dão a sua vida e à história da qual eles são protagonistas.
Corrente não se limita a colher dados de campo,
mas também faz intervenção onde há demanda
Ainda, na França, alguns representantes do Collège de Sociologie Sacrée, como Georges Bataille, Roger Caillois, Michel Leiris - discípulos de Marcel Mauss - buscaram desvendar no social as turbulências, tragédias e as relações da sociedade com os mitos fundadores, sua relação com o sagrado, bem como a parte do 'excesso' existente na sociedade, seja erotismo, guerra, festas, jogos ou brincadeiras. "Se uma determinada Sociologia convencional está voltada para explicar os fenômenos sociais a partir das estruturas e processos sociais amplos que determinam a vida dos indivíduos, a Sociologia Clínica integra na sua abordagem a compreensão dos aspectos inconscientes e afetivos que organizam as ações dos indivíduos na sociedade", evidencia Norma.
Origem e pesquisadores
A Sociologia Clínica originou-se da iniciativa de pesquisadores francófonos (França, Bélgica e Quebec). Robert Sévigny, Jacques Rhéaume e Gilles Houlle (Montréal), Marcel Bol de Balle (Bélgica), Eugène Enriquez, Vincent de Gaulejac, Max Pagès, Jacqueline Barus-Michel e Florence Giust-Desprairies (França).
Pesquisadores de outras nacionalidades vêm se juntando ao grupo, como Jan Marie Fritz (USA), Klimis Navridis (Grécia), Elvia Tarracena (México), Ana Maria Araújo (Uruguai), Igor Massalkov (Rússia). O pólo brasileiro tem tido presença nos Comitês de Pesquisa e organização de colóquios internacionais por meio de alguns pesquisadores: Teresa Carreteiro (Universidade Federal Fluminense - UFF/RJ), Norma Takeuti (PPGCSUniversidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN/Natal), Aécio de Gomes Matos (PPGS-Universidade Federal de Pernambuco - UFPE/Recife), José Newton Araújo Garcia (PUC/MG), Michel Le Ven (Universidade Federal de Minas Gerais/ BH), Vanessa Barros (UFMG/BH), Ruth Vasconcelos (Universidade Federal de Alagoas/Maceió), entre outros.
Cada qual possui um grupo ou unidade de pesquisa em suas instituições próprias, com equipes de pesquisadores, doutorandos, mestrandos e graduandos. Os pesquisadores brasileiros têm ocupado cargos de direção no RC46 Comitê da ISA (www.isa-sociology.org/rc46.htm) e no RC19 Comitê da AISLF.
Fonte: Norma Missae Takeuti (UFRN), Vanessa Andrade de Barros (UFMG), Cronos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e livro Cenários Sociais e Abordagem Clínica, organizado por José Newton Garcia de Araújo e Teresa Cristina Carreteiro
O sujeito e a subjetividade ganham centralidade: a Sociologia Clínica não ignora que o sujeito é determinado tanto nos níveis social, cultural, econômico e ideológico, como em nível psíquico; busca compreender como o indivíduo se debate em meio a essas determinações na tentativa de produzir a sua existência social; entende que o universo das significações sociais só pode ser compreendido - sociologicamente - quando se penetra no vivido, na experiência dos indivíduos apreendidos na sua historicidade.
A abordagem abraça pesquisadores de diferentes filiações institucionais e entrelaça pertenças disciplinares diversas como Ciência Política, Comunicação, Ciência da Saúde, Psicossociologia, Educação etc.
O corpo de conhecimentos da psicanálise tem sido
base teórica de muitas pesquisas sociológicas
O corpo de conhecimentos da psicanálise, por exemplo, embora esteja em um campo científico aparentemente distanciado, tem sido base teórica de muitas pesquisas sociológicas, o que vem resultando numa série de reflexões e novos caminhos.
O diferencial da Sociologia clínica é que não há 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas', senão referências que produzem reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido
"São pesquisadores que, menos preocupados com uma 'identidade disciplinar', reconhecem-se nas suas diferenças pela identificação com uma 'ética de pesquisa'. Pode-se dizer deles que estão à procura de recursos intelectuais para a elaboração de um trabalho que se centra tanto na interioridade quanto na exterioridade de si, do outro e do objeto", diz a professora Norma Takeuti, ratificando o que expôs a esse respeito o sociólogo e pensador francês Edgar Morin, autor do livro Introdução ao Pensamento Complexo.
No seu entender, tais pesquisadores estariam voltados para uma tentativa de prática complexa nas encruzilhadas dos campos disciplinares das ciências do homem.
Eles procuram sair de certos impasses e clivagens assentados no campo da Sociologia, desde o seu início: oposições simplistas e enclausuramentos disciplinares ou teóricos entre o psiquismo e o social, o ator e o sistema, o determinismo e a autonomia. "As práticas da Sociologia Clínica não se esgotam em um único modo de fazer, uma vez que cada uma delas possui uma contextualização sociocultural e histórica", acentua Norma. "Na realidade, a Sociologia Clínica não tem um objeto próprio", assinala, citando o doutor em Sociologia Clínica, Eugène Enriquez, professor da Université Paris 7 e do Laboratoire de Changement Social.
Para este pesquisador, o diferencial desse enfoque em relação a uma estrutura corrente das ciências humanas e sociais é que não há um ou alguns 'mestres fundadores' ditando novos 'dogmas' e procedimentos em Sociologia, senão referências daqueles que estão, há mais tempo, produzindo reflexões e práticas identificadas a um processo que se assemelha mais a uma arte da pesquisa e um encaminhamento progressivo do sentido. Ao invés de 'novas regras metodológicas', encontram-se, sobretudo, esboços teóricos referenciais, de autorias diversas.

Não há, para esse coletivo, uma fórmula única de se intervir em um dado campo social, institucional, organizacional ou outro. O próprio campo e o seu jogo de forças flexionam a maneira de conceber uma metodologia associada a uma base teórica consistente de modo a colocar-se uma inventividade em ato, sempre fruto de um coletivo. "Pode-se dizer que a Sociologia Clínica se caracteriza melhor como um movimento científico inscrito no 'movimento do pensamento complexo', em oposição ao pensamento disjuntivo, redutor, unidimensional e mutilante", diz Norma Tekeuti, usando expressões de Edgar Morin.
Eventos e organizações
Os pesquisadores têm se reunido em congressos, encontros, colóquios e jornadas, como o Congresso internacional de Sociologia Clínica já em sua décima primeira versão. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) abrigou dois desses congressos - as versões VIII (em 2001) e XI (em 2007). Há também o Colóquio de Spetses- Grécia que se realiza a cada dois anos. O próximo será em maio de 2008, na sua 5ª versão, em organização conjunta entre a Universidade de Atenas, sobre o tema O sujeito face às contradições da sociedade hipermoderna.
A cada dois anos, há um encontro do Congresso da AISLF pelo seu Comitê de Pesquisa nº 19 cuja próxima reunião será em Istambul, em julho de 2008.
Em 2001, foi criado o Instituto Internacional de Sociologia Clínica (IISC), em Paris, onde se encontram pesquisadores e clínicos que desenvolvem formação, pesquisa e oficinas de Histórias de Vida (www.sociologieclinique-iisc.com).
Anualmente, o IISC organiza um Colóquio, cujo tema previsto para maio de 2008 é Pourquoi se raconter? (Por que contar [histórias de vida]?).
O Laboratoire de Changement Social da Université Paris 7, França (LCS), sob as direções de Vincent de Gaulejac e Eugène Enriquez, tem sido um pólo aglutinador de pesquisadores de diversos países. Alguns sociólogos clínicos brasileiros são membros associados desse laboratório, como os pesquisadores Teresa Carreteiro, Norma Takeuti e Aécio de Gomes Matos.
Fonte: Norma Missae Takeuti( UFRN), Vanessa Andrade de Barros (UFMG), Cronos - Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN e livro Cenários Sociais e Abordagem Clínica, organizado por José Newton Garcia de Araújo e Teresa Cristina Carreteiro
O movimento se inscreve no núcleo do debate sobre o processo de subjetivação e a questão do sujeito - obliterados do campo científico sociológico nesta contemporaneidade de intensa transformação de significações em todos os setores da vida humana. "A abordagem procura a sua consistência em torno das concepções do pluralismo e da alteridade nas quais as categorias de 'historicidade, experiência do sujeito e vivido' tornam-se o seu arsenal privilegiado de reflexão e 'produção de sentido' dentro da proposta da epistemologia da recepção", expõe a pesquisadora.
Em seu artigo Abordagem clínica nas ciências humanas, o sociólogo clínico do Québec, Robert Sévigny, registra que "o sentido da palavra clínica é observar diretamente, junto ao leito do paciente". O termo é polissêmico, mas, segundo Norma Takeuti, para o que interessa à Sociologia Clínica, pode-se dizer que a palavra do 'paciente' - o que ele tem a dizer sobre aquilo que o atinge - é de suma importância para se conhecer, compreender e aprofundar o 'objeto' de interesse do 'clínico' e do 'sujeito estudado'.
A postura clínica se afasta de um esquema clássico na Sociologia de separar o momento de refletir a teoria e o momento da prática. "Não se trata apenas de colher dados de campo, mas, também, de intervir onde há demanda - seja por parte de grupos, instituições, organizações, comunidades - para se efetuar um trabalho de elucidação de processos que os indivíduos vivem numa dada situação. De toda forma, o pressuposto é que só os próprios sujeitos podem conhecer o sentido de suas ações", analisa.
Para Robert Sévigny, "o caso pode ser um indivíduo, uma organização, um grupo, uma profissão, uma região e até uma sociedade que tenha uma experiência em comum".
A esse respeito, o doutor em Psicologia Clínica e Social, José Newton Garcia de Araújo, professor da PUC-Minas, comenta: "esta disciplina supõe que, em suas intervenções e pesquisas, o sociólogo clínico não se contente em olhar 'de cima' um dado fenômeno, a fim de diagnosticálo ou decifrá-lo". Ele afirma que a compreensão ou o saber, relativos à situação na qual o sociólogo clínico intervém, constrói-se com a ajuda de outro olhar, isto é, o olhar dos sujeitos envolvidos no fenômeno social pesquisado. Do mesmo modo, toda intervenção sociológica, em uma instituição ou em uma organização, supõe discussões e decisões partilhadas com esses mesmos sujeitos. A metodologia da intervenção e da pesquisa, em Sociologia Clínica, requer a abertura do espaço da palavra e da ação aos atores sociais nelas envolvidos. Falamos, então, de uma intervenção participada, de uma pesquisa-ação. Esses sujeitos, tanto quanto o pesquisador, são também sujeitos de conhecimento, detentores de outros saberes oriundos de suas práticas e de sua reflexão, de seus desejos, de seu imaginário criador. Por isso, é essencial a escuta desses atores, no sentido de mobilizá-los subjetivamente, nos planos individual e coletivo, no sentido de torná-los, enquanto possível, sujeitos de sua própria história (veja quadro Histórias de vida).
fusão de imagens: rafaela nogueira
A abordagem do tipo clínico está presente desde as origens da Sociologia, como por exemplo, na obra de Gabriel Tarde (foto), mais reconhecido no campo da Psicologia Social
Priorizar a análise de caso é uma característica da abordagem clínica assinalada
por Robert Sévigny, que diz ser tanto para um
indivíduo quanto para a sociedade
Priorizar a análise de caso é outra característica da abordagem clínica assinalada por Robert Sévigny. Ele diz que um caso pode ser tanto um indivíduo, uma organização formal, um grupo de atores que vivem uma experiência comum, uma profissão, uma região e até uma sociedade em sua globalidade. Segundo o pesquisador canadense, é preciso reconhecer que quanto mais o caso se torna extenso, quanto mais se trata de grandes conjuntos complexos, fica menos fácil de aplicar com rigor a abordagem.
Para a professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vanessa Andrade de Barros, doutora em Sociologia pela Université Paris 7, "clinicar remete a estar junto à situação que se quer compreender, em campo e não em laboratórios. É uma prática centrada em casos individuais, particularmente problemáticos, para os quais é preciso encontrar soluções. Os problemas recaem nos indivíduos, mas também sobre grupos, organizações e instituições, acontecimentos e situações particulares que são examinados sob o ângulo de sua singularidade e especificidade".

Subjetividade Uma luz sobre a violência



Subjetividade
Uma luz sobre a violência
 
Especialistas procuram explicar o problema a partir das questões relativas ao indivíduo e pela aplicação da Sociologia Clínica e não mais somente pelas variáveis estruturais

Origens do comportamento violento
Explicar certas condutas violentas, muitas vezes, sem motivo aparente, apenas pelas dimensões objetivas - como falta de escolas, desemprego, pobreza e outras variáveis estruturais –, não deixa de ser pertinente, mas tem se mostrado infrutífero. Novos enfoques, em especial os que levam em conta as questões subjetivas, parecem oferecer respostas mais plausíveis ou, ao menos, mais condizentes com os anseios dos que querem encontrar ‘saídas’, enxergando com mais clareza as causas desse fenômeno.
Grande parte das pesquisas realizadas pelo viés socioclínico aponta como causas do problema a falta de limites resultante da ausência de um psiquismo equilibrado, para uma carência de visibilidade e da inserção dos interditos sociais fundamentais, além de denunciarem o declínio da função paterna e enfraquecimento das referências afetivas essenciais. Alguns sociólogos, psicanalistas e antropólogos abordados confirmam essa tese.
Há a armadilha do costume que se tem de definir pobreza,
desigualdade e vontade política como
causas da criminalidade
O antropólogo e doutor em Ciência Política, Luiz Eduardo Soares, autor de Elite da tropa - em parceria com André Batista e Rodrigo Pimentel, livro que fundamentou o polêmico filme Tropa de Elite - mesmo não trabalhando com a abordagem clínica, defende a necessidade de se enxergar as coisas por esse ângulo, quando se trata de querer entender a violência desses tempos. Ele expressa esse pensamento em diversos trabalhos que envolvem o tema na relação com a segurança pública, a exemplo de artigos e obras como Cabeça de Porco, Segurança tem saída e Legalidade libertária. “Não há como mudar a realidade se não a compreendermos”, diz.

Histtória de vida
SHUTER STOCKHá cinco anos trabalhando na perspectiva da Sociologia Clínica com presidiários homens e mulheres – a maioria co e entre 18 e 28 anos - no sistema prisional tradicional e no sistema Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac), Vanessa Barros tem mostrado em suas pesquisas o sistema prisional a partir da ótica daqueles que estão presos, tentando compreender o sentido do encarceramento e suas repercussões na vida dos sujeitos e de seus familiares. “Buscamos avaliar as propostas de ressocialização que o sistema oferece – especialmente o trabalho – com o objetivo de instruir políticas públicas que considerem os detentos como sujeitos em situação de Em função do potencial de agressividade, a sociedade se vê, permanentemente, ameaçada de desintegraçãoNosum nes ent? iam vulnerabilidade e não mais como criminosos que têm que apodrecer nas piores condições”, expõe.
Para ter acesso à história social na qual essas pessoas estão inseridas, a pesquisadora utiliza o método de recolhimento de histórias de vida. Assim, ela enxerga a violência sob outro ângulo: a violência da qual todos os que estão presos são vítimas ao longo de sua existência, seja a violência concreta - espancamentos, abusos sexuais, todo tipo de carência material - seja a violência simbólica - abandono e desamparo, tanto familiar quanto por parte dos poderes públicos, falta de referências familiares sólidas e ausência de outras instâncias importantes como escola e cultura.
Analisando o olhar radical da psicanálise, o caminho quase sempre seguido para o estudo da subjetividade humana foi o que fundamentou o trabalho Vida e Morte: uma batalha de gigantes, da pesquisadora Ruth Vasconcelos, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Doutora em Sociologia, membro do Toro de Psicanálise (Centro de Formação Psicanalítica de Maceió) e autora de livros sobre a violência, a professora faz uma interseção entre Sociologia e Psicanálise. A referência utilizada é a obra O Mal- Estar na Civilização, de Sigmund Freud, na busca de esclarecer a sensação de se estar vivendo um descontrole, em que a violência se avoluma de forma difusa e, aparentemente, sem causa.
A Psicanálise parece arrancar o véu de ilusões que o ser humano tem sobre si mesmo, lançando verdades que embaraçam suas expectativas de perfeição. Freud foi enfático ao afirmar que o ser humano tem inata inclinação para a crueldade destrutiva; que a agressividade não é um defeito de uma outra criatura – “é um mal substancial” – e que este é o maior entrave ao construto da civilização.
Segundo Ruth, há, em toda pessoa, pulsões genuínas (desejos meio que incontroláveis e, quase sempre, inconscientes) de vida e de morte. A pulsão de morte se expressa nos atos de destruição e agressão; a pulsão de vida nos atos de preservação e conservação. As duas seriam mutuamente mescladas em proporções variadas e muito diferentes, portanto, quase irreconhecíveis a julgamentos. “Registros da história humana mostram o quanto de atrocidades, humilhações, torturas, mortes e horrores os homens são capazes de produzir quando suas pulsões destrutivas e agressivas estão destravadas de interdições”, assinala a pesquisadora.
Em função deste potencial de agressividade, a sociedade se vê, permanentemente, ameaçada de desintegração. Há uma luta interior e constante entre as pulsões de vida e de morte – ‘uma batalha de gigantes’, diz Ruth Vasconcelos usando a expressão de Freud.
Todos almejam a felicidade. No pensamento freudiano, o ser feliz vincula-se à plena satisfação dos desejos, ao viver sem limites. Viver em coletividade, no entanto, exige renúncia: não se pode fazer tudo o que se quer. Existe um ideal cultural e, a partir dele, foram estabelecidos limites e organizadas instâncias reguladoras das relações sociais – as leis. “Mas tudo isso se contrapõe à natureza original do homem. No intuito de restringir os movimentos pulsionais que podem gerar conflitos e desavenças no convívio social, os homens trocaram parte de sua liberdade por uma parcela de segurança”, analisa a pesquisadora.
Foto: Fabio Pozzebom / ABr
No pensamento freudiano, o ser feliz vincula-se à plena satisfação dos desejos, ao viver sem limites, porém viver em coletividade, no entanto, exige renúncia e o cumprimento das regras reguladoras das relações sociais: as leis
Porém, na atualidade, esse pacto de convivência social está alterado. “Há uma profunda esgarçadura do tecido social: as instituições que assegurariam esse pacto passam por uma crise de legitimidade e produzem a destituição dos referenciais e dos interditos que são pressupostos para a vida em comum”, diz Ruth, observando que, sem o exercício dessas instituições, as pulsões destrutivas se liberam e o homem adentra espaços interditos.
Nesse ponto, entra-se no mérito do atual declínio da metáfora paterna que se traduz pela crise de autoridade das instituições coletivas que representam o ‘lugar do pai’ em sua função de interdição – seja um pai real ou simbolicamente constituído na figura de familiares, escola, instituições religiosas, organizações do mundo do trabalho e do político: “A falta da inscrição da lei no campo subjetivo impede o reconhecimento das leis no campo social”, explica a socióloga.
Para viver em sociedade, o homem precisa abdicar do princípio do prazer. As propostas contemporâneas, no entanto, acenam com a possibilidade de uma vida de prazer total, sem nenhuma sombra de angústia e com a sensação de impunidade. “A ilusória compreensão de que a felicidade depende do consumo de objetos amplia o mal-estar social em função das frustrações que, inevitavelmente, este empreendimento produz”, observa.
 
fotos SHUTERSTOCK
A ilusória compreensão de que a felicidade depende do consumo amplia o mal-estar social, em função das frustrações produzidas. O homem encontra o transitório consolo dos chamados publicitários que, por sua vez, difunde a idéia de que a felicidade é algo comprável
Na mesma linha, utilizando conceitos de Freud, de Jacques Lacan, seu seguidor, e de pensadores clássicos da Filosofia, a psicanalista gaúcha Margareth Kuhn Martta, em seu livro Violência e Angústia, abre caminhos para o entendimento do fenômeno da violência contemporânea que, segundo afirma, “se diferencia do que foi, até hoje, visto e vivenciado”. Ela evidencia certos traços do homem contemporâneo, quais sejam, a falsa idéia de infinitude, a desvalorização da subjetividade e a falta de interdição. A conexão dos dois temas que dão título a sua obra é analisada a partir da forma como o ser humano tem lidado com a questão existencial na contemporaneidade.
Segundo Margareth, o homem vem sendo levado à ilusão de que pode excluir a angústia do seu existir – fato impossível, pois tal sentimento estaria atrelado, de forma indelével à existência humana, uma vez que “não é disso ou daquilo que o homem se angustia, mas de sua situação mesma de estar no mundo”, afirma.
Buscando aplacar tais sentimentos, o homem encontra o transitório consolo dos chamados da publicidade que, por sua vez, difunde a idéia de que a felicidade é algo comprável; que, adquirindo determinado produto, ganha-se um passaporte para viver em contínuo prazer. Citando o fotógrafo italiano Oliveiro Toscani, autor do livro A Publicidade é um Cadáver que nos Sorri, Margareth Martta reafirma o que ele expressou: “de tanto querer nos vender a felicidade, a publicidade acaba fabricando legiões de frustrados. De tanto provocar desejos que derivam em decepção, a publicidade perde o objetivo e dá origem a deprimidos e delinqüentes”.
Pesquisa coordenada pela doutora em Sociologia e professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Vanessa de Barros, entre presidiários do sistema prisional de Belo Horizonte – homens e mulheres jovens, com idade entre 16 e 25 anos – denuncia o desmantelo resultante dessa lógica de que, consumindo, comprando, é possível viver sem angústia e em pleno gozo dos desejos. O trabalho foi feito seguindo o método socioclínico de história de vida, buscando compreender a relação entre trabalho e criminalidade. Segundo Vanessa, as conversas em torno das vivências e representações da vida dessas pessoas mostraram aspectos constitutivos da violência em suas várias facetas.
A pesquisa possui trechos depoimentos emblemáticos para se fazer a conexão entre consumo, violência e criminalidade, pois o desejo de consumir foi o motivo mais expresso em fatos e situações relatadas. Apesar de não apresentarem condições para o consumo, os pesquisados se mostraram portadores de todas as carências incutidas pela publicidade. Esses depoimentos dos presidiários de Belo Horizonte se juntam aos dos jovens das periferias urbanas de Natal - objeto de uma pesquisa da professora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Norma Takeuti, pós-doutorada em Sociologia Clínica e autora do livro No outro lado do espelho: a fratura social e as pulsões juvenis.
Custo da violência
De acordo com a “Análise dos custos e conseqüências da violência no Brasil”, estudo do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), publicado em junho de 2007, estima-se que, em 2004, o custo da violência no Brasil tenha chegado a R$ 92,2 bilhões, ou 5,09% do Produto Interno Bruto do País. O cálculo leva em consideração gastos ou investimentos públicos e privados, tais como internações, pensões, perdas materiais, aplicação de recurso em segurança, despesas com proteção de carros, entre diversos outros itens.


Irresponsabilidades dos pais em relação aos filhos
SHUTER STOCKUma pesquisa sobre paternidade, realizada por Ana Liési Thurler, durante doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília, revelou que aproximadamente 1/3 das crianças brasileiras não possui o nome do pai na certidão de nascimento. Isso sem contar as inúmeras crianças que possuem o nome do pai na certidão, sem efetivamente ter alguém que cumpra esta função em sua vida.
Nos EUA, dados estatísticos apontam que crianças educadas em lares monoparentais são mais vulneráveis aos transtornos de conduta; essas crianças possuem três ou quatro vezes mais chances de desenvolver problemas comportamentais e duas vezes mais chances de envolver-se com crimes do que as demais.
Uma pesquisa realizada na década de 90 revelou que 72% dos adolescentes que cometeram assassinato não tiveram presença paterna1. Nas prisões, 60% dos estupradores e 70% dos prisioneiros que cumprem longas penas também não tiveram presença paterna em seus lares. Os pesquisadores americanos demonstraram que as crianças que não possuem presença paterna em casa têm onze vezes mais chances de apresentar comportamentos violentos na escola.
Pela lei, Art. 222 da Constituição Federal, “é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar prioridade absoluta do direito à vida, saúde, alimentação, esporte, lazer, profissionalização, cultura, dignidade, respeito à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão”.
1 - A revista Sociologia Ciência & Vida abordou esse tema como capa na edição 10 (ver www.revistascienciaevida.com.br)
O trabalho mostrou que os entrevistados - “jovens pobres que se encontram às margens da sociedade, confrontados com o processo de exclusão, segregação e discriminação sociais, e acusados de ser delinqüentes” - vislumbram ser mais ‘cômoda’ a via do ‘dinheiro rápido e fácil’, nas trilhas da ilegalidade (tráfico de drogas, por exemplo), porque o ‘trabalho suado e honesto’ seria a permanência na condição de miserabilidade e de segregação social.
“A valorização radicalizada da dimensão econômica, a sua prevalência enquanto significação imaginária social central aniquila valores sociais que poderiam trazer outros sentidos de vida aos indivíduos”, analisa Norma. Ela destaca que a constituição do sujeito se dá por meio de identificações sucessivas e que compete às instituições específicas a garantia de suportes de identificação aos indivíduos. Porém, diante de uma ordem simbólica vacilante, seja nos exemplos que a sociedade em geral lhes oferta, seja pela ausência de uma consistente estrutura familiar, os jovens não encontram respostas que ajudem a edificar sua formação.
De tanto provocar
desejos que derivam em decepção,
a publicidade perde o objetivo e
dá origem a deprimidos e delinqüentes
A ausência de valores como honestidade, integridade, legalidade, incorruptibilidade e a existência do exercício de práticas como fisiologismo, corrupção e mentira se destacam entre as causas do caos social instalado (veja quadro Histórias de vida). Para a psicanalista Lourdinha Tenório, membro do Toro de Psicanálise, pensar no que funda a lei para uma criança é se reportar, primeiramente, à matriz que a antecede. “É indispensável que os pais tenham, em si mesmos, a inscrição do interdito fundamental para que possam fazê-la valer como lastro para o estabelecimento dos limites para a sua prole”. Este princípio, segundo a psicanalista, precisa ser bem definido nos pais, desde que a relação entre mãe, filho e pai se inicia, pois é a forma como os pais vão apresentando e significando o mundo para o filho que irá delineando as regras estabelecidas para nortear o convívio humano.
A criança vai sendo habilitada a viver em meio à sociedade “à medida que vai entendendo que, muitas vezes, é preciso abrir mão do que se quer para compor o que é importante para o grupo”, diz, acrescentando que se a criança aprender desde cedo que nem sempre será atendida em suas demandas, se lhe for possibilitado aprender a lidar com as frustrações, a convivência social se estabelecerá com naturalidade e será sempre enriquecedora.
Lucia Rocha é jornalista e escreve para esta publicação
Fonte: Revista Sociologia

País de analfabetos


País de analfabetos

A prova Brasil é um dos muitos instrumentos que revelam um quadro dramático para a educação brasileira: crianças e jovens freqüentam a escola, mas não sabem ler, escrever e calcular
Mara Figueira
Tragédia nos bancos escolares
shutterstockBoletim escolar da nação. Assim os americanos chamam a divulgação dos resultados de seu sistema de avaliação de desempenho escolar nacional, o National Assessment Educational Progress (na sigla em inglês, NAEP. Em uma tradução livre para o português, Avaliação Nacional do Progresso Educacional). Da mesma forma que a nação mais poderosa do mundo, o Brasil também conta com um valioso instrumento de acompanhamento do nível de aprendizado proporcionado pela educação escolar no País: o Prova Brasil. Mas, se também fosse visto pela sociedade brasileira como o boletim escolar da nação, a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar – o nome oficial do Prova Brasil – não traria boas notícias. Isso porque o Brasil, na área de educação, estaria cheio de notas vermelhas. De fato, sistemas de avaliação do desempenho escolar multiplicam-se pelo País – há desde avaliações estaduais quanto nacionais, algumas universais outras amostrais (veja quadro Sopa de letrinhas) – e todos traçam um cenário dramático. “Os dados mostram que um iniciante do Ensino Fundamental brasileiro tem altíssima chance de chegar à metade do período escolar desse nível de ensino – a quarta série – sem ter desenvolvido habilidades de leitura, escrita e cálculo previstas como minimamente necessárias para a continuação dos estudos – e pode concluir o Ensino Fundamental como candidato ao analfabetismo funcional”, conta o educador Luiz Carlos Faria da Silva, do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá.
O conceito de analfabetismo
funcional costuma ser
usado quando a
capacidade de compreensão
da leitura e a escrita
fica comprometida
Criado a partir de discussões sobre os resultados das campanhas de alfabetização e sobre o significado socioeconômico da alfabetização, o conceito de analfabetismo funcional é antigo e costuma ser usado para designar pessoas que não são capazes de utilizar a leitura e a escrita para fazer frente às demandas de seu contexto social e usar essas habilidades para continuar aprendendo e se desenvolvendo ao longo da vida.
DESDE A DÉCADA DE 1970 , a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) incentiva a sua adoção em todo o mundo e, em 1937, Guy Buswell, da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, já havia divulgado o resultado de um teste de alfabetismo funcional. No Brasil, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga índices de analfabetismo funcional desde 1990. Para tanto, toma como base o número de séries escolares concluídas. Assim, são definidos como analfabetos funcionais os brasileiros com menos de quatro anos de estudos.
Por considerar essa classificação relativa, uma vez que depende das demandas de leitura e escrita colocadas pela sociedade – na América do Norte e na Europa, por exemplo, entre oito e nove anos de estudo é considerado o mínimo para atingir o alfabetismo funcional –, o Instituto Paulo Montenegro, braço social do Ibope, divulga, desde 2001, o Índice Nacional de Alfabetização Funcional (Inaf ). Baseado em testes práticos e questionários, ele revela um quadro semelhante ao descrito pelo educador Luiz Carlos Faria da Silva a partir dos dados de sistemas de avaliação como o Prova Brasil.
Segundo o Inaf, em 2005, a grande maioria (68%) dos quase 31 milhões de brasileiros entre 15 e 64 anos que estudaram até a quarta série atingia, no máximo, o grau rudimentar de alfabetismo. Ou seja, possuía a habilidade de localizar informações explícitas em textos curtos, como um anúncio ou uma carta, mas não era capaz de compreender textos longos ou localizar informações que exigissem alguma interferência Além disso, 13% dessas pessoas – quase quatro milhões de brasileiros – podiam ser consideradas analfabetas, pois não conseguiam nem mesmo decodificar palavras e frases, ainda que em textos simples. Mais de um milhão sequer era capaz de identificar números em situações do cotidiano (preços, números de telefone etc.), apesar de terem cursado de um a quatro anos do Ensino Fundamental.
UMA VEZ QUE O INAF não se limita a retratar a situação da população que atualmente freqüenta a escola e, sim, de todos os brasileiros entre 15 e 64 anos, estejam ou não estudando, percebe-se que as condições de alfabetismo da população que majoritariamente já integra a força de trabalho do País são preocupantes. O Inaf mostra ainda que, embora a escolarização da população brasileira de 15 a 64 anos tenha aumentado significativamente entre 2001 e 2005 – o IBGE registrou a mobilidade de quase 10 milhões de brasileiros para faixas mais elevadas de escolaridade –, isso ainda não garante melhoria em termos de alfabetismo funcional.
“Os níveis de escolarização da população brasileira apresentaram um grande salto nas últimas décadas. As taxas de reprovação diminuíram sensivelmente e a taxa de analfabetismo estrito experimentou grande queda. Mas o nível de alfabetismo funcional não evoluiu.
Sopa de letrinhas
SHUTERSTOCKNo Brasil, existem tanto sistemas estaduais de avaliação dos alunos da educação básica – como o SARESP (Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo) e o SIMAVE (Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública) – quanto nacionais, como a Avaliação Nacional da Educação Básica (a ANEB, que tem caráter amostral) e a Avaliação Nacional do Rendimento Escolar (a ANRESC ou Prova Brasil, que tem caráter universal e não inclui escolas privadas de ensino). Todos os alunos das séries e disciplinas para as quais há testes da ANEB fazem o teste da ANRESC: basta estudar em uma escola pública urbana cujo número de alunos matriculados nas classes de quarta e/ou oitava séries do Ensino Fundamental e/ou de terceira série do Ensino Médio seja igual ou superior a 20.
Há evidências de que menos de um terço da população brasileira adulta atinge nível pleno de alfabetismo medido objetivamente”, afirma Luiz Carlos Faria da Silva.
Mas onde estaria o grande erro brasileiro na educação de suas crianças e jovens, segundo os instrumentos disponíveis para aferição do desempenho escolar? Para o sociólogo Celso Beisiegel, do Departamento de Filosofia da Educação da Universidade de São Paulo, é preciso analisar a questão com cuidado. “Em tese e de modo muito geral, eu não concordo inteiramente com as críticas feitas ao ensino fundamental. Em primeiro lugar, é preciso entender que esse ensino foi estendido a todas as crianças e que essa abrangência deve ser o principal critério na avaliação da educação básica”, afirma ele. “Depois, as avaliações publicadas ou comentadas na imprensa têm sido impressionistas, chamam a atenção para as deficiências, que existem e são grandes, mas deixam de lado as conquistas, que são cosideráveis Dito isso, aí sim é preciso reconhecer que o ensino não é bom, mas as precariedades variam muito segundo regiões e de acordo com as condições de vida da clientela. Em minha opinião, os fatores dessas dificuldades do ensino estão na escola e na sociedade: na escola, nos salários, na formaçâo dada ao professor e nas suas condições de trabalho, que, em muitos casos, são brutais; na sociedade: muitos fatores, que poderiam ser abrangidos na expressão ‘qualidade de vida’ das populações, sobretudo nas periferias urbanas e nas regiões mais rústicas do País”.
Para alguns
especialistas, o nó
que é preciso desfazer
para solucionar
o problema está
na alfabetização
Já para Luiz Carlos Faria da Silva, a raiz do problema – e o nó conque é preciso desfazer para resolvê- lo – está na alfabetização. “A primeira parte do Ensino Fundamental, que vai da primeira à quarta série, é o período em que a aprendizagem escolar tem seu foco na leitura. Ler com fluência e compreensão é a competência central a ser adquirida e desenvolvida nessa fase da vida escolar. Daí em diante, pelo resto do período escolar e da vida, será a vez do ler para aprender. Como alguém pode usar a leitura, como principal instrumento para a aprendizagem, de ampliação e diversificação de seus conhecimentos, de incrementação de suas habilidade e competências, se não lê proficientemente?”, questiona.
A mesma linha de raciocino é defendida por um relatório produzido a pedido da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados em 2003. Republicado este ano, o trabalho Alfabetização Infantil – Os novos caminhos, conduzido por sete cientistas do Brasil, Estados Unidos e Europa, tinha o objetivo de produzir um balanço do conhecimento científico mundial mais atualizado sobre alfabetização e confrontar o modelo teórico e as práticas alfabetizadoras brasileiras. As conclusões a que os pesquisadores chegaram são dramáticas.
Sxc.hu
As políticas de alfabetização no Brasil e os currículos de formação e capacitação de professores não acompanharam a evolução científica e metodológica que vem ocorrendo nos últimos 30 anos em todo o mundo.
“Nos últimos 30 anos, foram feitos notáveis progressos científicos. O estudo da leitura hoje se constitui em um ramo científico sólido. Também nesse período, importantes avanços foram realizados nas práticas de alfabetização de inúmeros países. O Brasil se encontra à margem desses conhecimentos e desses progressos”, afirma o trabalho, que ressalta dois problemas crônicos na educação brasileira. “O primeiro é o problema da alfabetização das crianças.
O BRASIL NÃO VEM conseguindo alfabetizar adequadamente suas crianças – conforme evidenciado pelo desempenho dos alunos nas séries posteriores. A alfabetização inadequada compromete o sucesso escolar dos alunos e afeta de maneira irreversível a trajetória escolar dos alunos de nível socioeconômico mais baixo, que constituem a maioria da população que freqüenta as escolas.
O segundo problema referese à dificuldade do País em usar conhecimentos científicos e dados de avaliação para melhorar a qualidade da educação. No caso da avaliação, o Brasil vem realizando trabalhos como os do antigo SAEB - atualmente conhecido como ANEB, Avaliação Nacional do Ensino Básico - há mais de dez anos, mas não vem conseguindo usar os resultados como instrumento de diagnóstico para melhorar o desempenho dos alunos. Em conseqüência, quase 80% dos alunos que concluem a 8ª série se tornam candidatos a analfabetos funcionais – inviabilizando a proposta de erradicar o analfabetismo adulto. No caso dos conhecimentos científicos, o País vem ignorando os progressos e as práticas mais adequadas para alfabetizar alunos, atendo-se a concepções equivocadas e manifestamente ineficazes sobre o que é e como se devem alfabetizar as crianças”.
“Não existem evidências publicadas de que modelos alfabetizadores como o que é hegemônico no País – oficializado nos Parâmetros Curriculares Nacionais – tenham levado a resultados bem-sucedidos em nenhum sistema escolar em nenhum país do mundo. Pelo contrário, há evidências publicadas de que onde sua implementação se deu, o insucesso não tardou, como ocorreu em Israel e no estado americano da Califórnia”, explica o educador Luiz Carlos Faria da Silva.
De fato, a principal conclusão do relatório Alfabetização InfantilOs novos caminhos é a de que as políticas e práticas de alfabetização de crianças no Brasil e os currículos de formação e capacitação de professores alfabetizadores não acompanharam a evolução científica e metodológica que vem ocorrendo nos últimos 30 anos em todo o mundo. “Esse fosso que separa o País dos conhecimentos e práticas mais atualizados pode ser responsável, em parte, pelo insuficiente desempenho escolar de expressiva fatia da população escolar brasileira”, afirma o trabalho.
Na literatura científica
internacional, insucesso no
aprendizado da leitura
se associa a maiores
índices de criminalidade
Para se ter uma idéia da importância da alfabetização, o National Institute of Children Health and Human Development (Instituto Nacional de Saúde Infantil e Desenvolvimento Humano – NICHD, na sigla em inglês) considera o fracasso na alfabetização um problema de saúde pública, mais do que um problema educacional. “O insucesso no aprendizado da leitura tem impacto devastador na auto-estima das crianças, solapa o aprendizado nas séries iniciais, impacta negativamente toda a trajetória da vida escolar e tem reflexos no desenvolvimento cognitivo, na vida social e nas perspectivas econômicas do futuro adulto. Na literatura científica internacional, insucesso no aprendizado da leitura se associa a maiores índices de criminalidade, de abandono escolar, de gravidez na adolescência, envolvimento com drogas e maior dependência de programas sociais na vida adulta”, explica Luiz Carlos da Silva. “É uma tragédia não só para crianças e adolescentes, mas também para os contribuintes e para o desenvolvimento do País”.
Desempenho pífio
FOTO: Marcello Casal Jr. / ABr
A secretária de Educação do Distrito Federal, Maria Helena Guimarães, fala durante reunião do Conselho Nacional de Secretários de Educação
Sempre que são divulgados os resultados de mecanismos de avaliação de desempenho escolar, como aAvaliação Nacional da Educação Básica, a imprensa divulga rankings, destacando os municípios com os melhores desempenhos. Prefeituras bem colocadas alardeiam seus feitos em outdoors e seus alcaides vêem nesses resultados uma possibilidade de vanglorização em horários eleitorais. Tudo isso porque muitos brasileiros não conhecem o verdadeiro significado da pontuação obtida pelos estudantes brasileiros nesse tipo de avaliação. “Campo Grande e Curitiba são as duas melhores proficiências médias de redes municipais de ensino na quarta série, entre as capitais brasileiras. As duas estão abaixo do mínimo exigido para esse nível de escolaridade”, conta Luiz Carlos Faria. Como o Ministério da
Educação não divulga a proficiência mínima esperada, para fazer tal afirmação, o educador, bem como técnicos do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP) e outros pesquisadores da área, consideram 250 pontos o mínimo a ser atingido por um aluno na quarta série. A secretária de Educação do Distrito Federal, Maria Helena Guimarães de Castro, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo no dia primeiro de outubro de 2007, porém, afirmou que 250 pontos é o mínimo exigido para a oitava série. Seja como for, se poderíamos ser levados a pensar que, uma vez atingido esse patamar, nossas crianças e adolescentes teriam obtido, ao menos, um nível médio de conhecimentos, um outro dado desfaz essa impressão. Quem faz 250 pontos na Avaliação Nacional da Educação Básica para leitura mal consegue chegar ao nível 1 da escala do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), o mais baixo da escala. Não à toa, no Brasil, dos estudantes que responderam aos testes de compreensão em Leitura no Pisa, 50% obtiveram proficiências que se enquadravam no máximo até o nível 1 e as proficiências de 29% deles ficaram abaixo desse nível, indicando habilidades cognitivas insuficientes até para participar do teste.


Números e dados desconcertantes
- Em 2003, o Brasil ficou em 37º lugar entre 40 países, em termos de desempenho em leitura, no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa).
- Em matemática, o desempenho do país foi ainda pior: o Brasil ficou em último lugar, na 40º posição.
- É importante notar que, apesar de a amostra de adolescentes brasileiros que participaram do Pisa ser claramente mais qualificada do que a população em geral de adolescentes do País, o Brasil ainda assim amargou as últimas colocações na avaliação.
- No Pisa, quando se consideram somente os alunos de nível socioeconômico e cultural mais alto, o Brasil possui a maior porcentagem de estudantes com proficiências no nível mais baixo da escala, o nível 1, e a menor porcentagem de estudantes com proficiências no nível mais alto, o nível 5.
- Somente em torno de 5% das crianças que concluem a quarta série do Ensino Fundamental chegam aos 250 pontos no ANEB, nível esperado para essa fase de escolarização.
- Para os alunos da oitava série, o percentual dos que atingem o nível esperado para esse nível de escolarização é de 10% e, para os alunos que encerram o ciclo da Educação Básica no Brasil, após 11 anos de estudo, é de 6%.
O educador lembra que há sólidas evidências de que o capital humano tem um papel fundamental no desenvolvimento. Está comprovado que os indicadores diretos do nível de capital humano (proficiência em leitura, matemática e ciências medida em testes padronizados) são úteis para estimar de forma mais precisa cenários futuros – como a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) e da taxa de produtividade do trabalho – do que indicadores indiretos (como taxas de alfabetismo obtidas por autodeclaração, taxas de aprovação e reprovação escolares e tempo médio de escolaridade). Pelo que se vê pelos dados brasileiros, pesa mais uma ameaça sobre o futuro do crescimento brasileiro, se não forem tomadas medidas concretas para reverter essa situação. Mas o que é possível fazer?
Segundo o relatório Alfabetização Infantil – os novos caminhos, é importante, em longo prazo, ter políticas educacionais que assegurem às escolas condições efetivas de funcionamento: programas de ensino claros, adequados e bem estruturados; professores com formação científica atualizada, adequada e comprovada; remuneração atrativa; insumos básicos nas escolas; autonomia na gestão escolar e avaliação externa. Para o curto prazo, diz o trabalho, é importante rever as atuais orientações nacionais sobre alfabetização, de forma a torná-las compatíveis com os conhecimentos científicos e práticas mais atualizadas, o que inclui a revisão e atualização dos programas de formação de professores pelas instituições de ensino superior. “Da mesma forma que ocorreu em outros países, a aplicação dos conhecimentos da ciência cognitiva da leitura pode trazer importantes contribuições para a revisão das políticas e práticas de alfabetização no Brasil”, dizem seus autores.
A aplicação dos
conhecimentos da
ciência cognitiva da
leitura pode trazer
importantes
contribuições para a
alfabetização no Brasil
“Da mesma forma que ocorreu em outros países, a aplicação dos conhecimentos da ciência cognitiva da leitura pode trazer importantes contribuições para a revisão das políticas e práticas de alfabetização no Brasil”, dizem seus autores.
Nesse campo da ciência, pesquisas já permitiram observar mudanças na atividade metabólica de certas partes do cérebro durante a realização de determinadas tarefas de leitura – o que tornou possível avaliar o impacto dessas mudanças nessas tarefas. Estudos também já mostraram que os leitores percebem corretamente de cinco a 10 letras à direita do ponto de fixação do olhar, o que faz com que o leitor fixe seus olhos em muitas palavras, invalidando teorias que postulavam que os bons leitores liam saltando palavras e adivinhado o sentido, sem prestar atenção às palavras e seus componentes. Por conta disso, hoje já há pesquisas que permitem mudar a apresentação de um texto em função dos movimentos oculares do leitor, de forma a avaliar com precisão os efeitos dessas mudanças na duração da fixação dos olhos e no desempenho na leitura.
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O Brasil vive o pico de população em idade ativa, onde, em teoria, uma maior parcela da população poderia estar trabalhando e gerando crescimento econômico, porém, por conta da baixa escolaridade e qualificação, esse momento não tem sido
Segundo Luiz Carlos Faria da Silva, porém, não há, nem se usa, no País, por exemplo, baterias de testes padronizados e normalizados para testar, em larga escala, os fatores que predizem o sucesso ou o fracasso da alfabetização, como o vocabulário receptivo e produtivo e a velocidade no reconhecimento de números e letras. Em grande parte, isso ocorre porque assuntos relacionados com métodos de alfabetização são objeto de intenso debate e controvérsia tanto no mundo político quanto acadêmico. Muitas vezes, uma postura eminentemente política ou ideológica leva a uma rejeição de evidências objetivas e científicas sobre como as crianças aprendem a ler, apesar de, nos últimos 30 anos, pesquisas desse tipo terem adquirido um status científico incontestável, com o uso de metodologia experimental, primeiramente em laboratório, depois em trabalhos de campo, o que fortalece a qualidade dos dados e análises. Outros países já percorreram esse caminho. Talvez seja o momento de o Brasil começar a seguir o mesmo trajeto.
"ANALFABETISMO FUNCIONAL de jovens e adultos não é só problema do Brasil. Estados Unidos, Inglaterra, Canadá, França, entre outras nações, padecem desse mal. A diferença é que, lá, as proporções são menores do que aqui e essas nações já perceberam onde está o problema e o têm enfrentado, inclusive com a reformulação total das políticas de alfabetização de crianças”, explica Luiz Carlos Faria da Silva. Atualmente, o Brasil vive o pico de população em idade ativa, onde, em teoria, uma maior parcela da população poderia estar trabalhando, gerando riqueza e crescimento econômico. Já se discute, porém, se, por conta da baixa escolaridade e qualificação dos brasileiros, esse momento não tem sido desperdiçado. Sem alterações no sistema educacional brasileiro, o que estaremos discutindo no futuro, uma vez que alfabetizar adultos é muito mais caro e ineficaz do que educar crianças?

A educação como questão central na contemporaneidade

A educação como questão central na contemporaneidade
 
por CESAR CALLEGARI
CESAR CALLEGARI é sociólogo, membro do Conselho Nacional de Educação. Foi Secretário de Educação de Taboão da Serra, Secretário Executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, Deputado Estadual por dois mandatos e Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação .
As elites hegemônicas brasileiras, cuja inserção na modernidade sempre foi contraditória e, em muitos sentidos, retrógrada, excluíram a imensa maioria de nossa população do acesso à educação de qualidade. Quando muito, para aquelas mesmas maiorias foi oferecida uma educação funcional cujo propósito maior sempre foi o de manter intocada a subalternidade e, portanto, os rígidos padrões de domínio político, exploração e exclusão.
O processo intenso e tardio de urbanização a que assistimos em nosso país não fez senão agravar o problema, uma vez que impôs às camadas populares, em curtíssimo espaço de tempo, uma readequação de todo o seu saber, para que elas pudessem se acomodar às exigências de uma formação societária que requer o domínio sobre estruturas simbólicas complexas e formais. Não causa estranheza, então, que a pobreza tenha se disseminado em meio mesmo à riqueza mais extrema.
É preciso compreender, contudo, que a natureza da exclusão mudou, ainda que se reproduzam as mesmas condições socioeconômicas que se podia identificar no período que antecedeu a globalização. Nas novas condições societárias, as políticas compensatórias mostram-se insuficientes, especialmente aquelas que envolvem a redistribuição de renda, apesar de se apresentarem como pressuposto de toda e qualquer ação no sentido da inclusão social. Não são capazes de engendrar, por si só, as condições para que cada indivíduo ou grupamento liberte-se do ciclo recorrente de miséria e exclusão em que se encontra encerrado. É possível, por este recurso, minorar a penúria, mas não se eliminam seus fatos geradores. Esta é uma decorrência inevitável dentro dos marcos do desenvolvimento capitalista.
É preciso superar o berço da desigualdade na nação brasileira, ou seja, a educação pública de segunda qualidade
Ora, a incorporação contínua da inovação técnica ao processo produtivo, a transformação da ciência e da pesquisa científica em potências imediatamente produtivas, ou seja, a libertação do processo produtivo da dependência da intervenção propriamente física do homem e mesmo de suas particularidades individuais trazem, como conseqüências, alterações nos sistemas de exclusão e inclusão, afetando os critérios para ingressar no processo produtivo bem como para nele permanecer.
Ser trabalhador, na atualidade, requer o domínio dos mínimos recursos culturais e simbólicos essenciais para integrar-se a um processo que, na essência, está mediado pela máquina e pelo estágio de seu desenvolvimento não apenas mecânico, mas igualmente eletrônico (computacional), ou seja, pela aplicação concentrada e metódica da tecnologia. A máquina tende a ser, cada vez mais, um artefato ao qual se agregam elementos de robótica e que, portanto, requer um operador capaz de satisfazer suas exigências operacionais que se encontram devidamente repertoriadas em manuais de procedimentos, códigos de utilização e conduta etc.
Compreende-se, deste modo, que ser trabalhador exige portanto, na atualidade, a aquisição de habilidades que dependem diretamente da educação formal e do nível de escolarização. Esta exigência, se considerada a dinâmica inerente ao processo de produção, implica complementarmente, mais do que um mínimo cultural ou um conjunto de habilidades, fazendose imprescindível a aquisição contínua de conhecimentos e habilidades sem os quais o trabalhador pode se ver rapidamente superado pelas exigências impostas pelo mercado de trabalho.
Fundamental recordar, nesta questão, que o repertório que deve ser adquirido pelo trabalhador não está determinado necessariamente em escala nacional, sendo seguramente influenciado pelos padrões internacionais, algo de todo natural em uma economia que se globalizou, ou seja, que procura minimizar o custo de movimentação planetária de mercadorias e capitais.
Um projeto de nação, na justa medida em que compreendamos a natureza das determinações objetivas da sociedade contemporânea, deve incorporar o princípio norteador de transformar pela raiz. Uma revolução de natureza específica e particular, ou seja, a que nega e supera o berço da desigualdade na nação brasileira - a educação pública de segunda qualidade, que historicamente se oferece às massas populares, como elemento essencial à manutenção da ordem, que é um convite ao atraso recorrente e à exclusão sem remédio.
Não devemos nos ater, contudo, à dimensão exclusivamente laboral (funcional) do problema ou à redução do tema que envolve superar a exclusão a seus termos estritamente econômicos ou produtivos. Estes são sempre, para aqueles que se comprometem com as causas populares, não mais do que um elemento de um processo mais amplo e complexo. O compromisso deve estar do lado da autonomia, da superação da menoridade perpétua que nos impõe a ordem, sua superação democrática por uma forma mais justa e fraterna de sociedade.
Contudo, esta superação não pode ocorrer nas sociedades capitalistas contemporâneas fora dos quadros de um combate que se dá no campo cultural; combate que envolve, necessariamente, sobrepujar a colonização do imaginário, que está inexoravelmente imbricada com o desenvolvimento que engendrou a indústria cultural, não como forma acessória ao processo de acumulação capitalista, mas como o cerne a partir do qual aquele processo não apenas se sustém, mas especialmente ganha a forma auto-expansiva que a contemporaneidade vem conhecendo. É preciso superar, portanto, a produção subalterna da cultura, o que só se faz pela recuperação e desenvolvimento de valores humanistas, que sempre valorizam tanto a política, quanto o espaço público.
As questões que envolvem a educação são imediatamente, portanto, aquelas que se referem à própria construção da nação, empreendimento que deve ter por fundamento um projeto político cujas promessas irredutíveis e incontornáveis sejam a conquista da civilização e da cidadania para todos. Esse projeto de edificação de uma nação mais equânime e fraterna exige, contudo, dada a própria centralidade da educação nas sociedades contemporâneas, que nós a revolucionemos, garantindo que o País passe a abrigar aqueles que, até aqui, têm permanecido à margem da sociedade e da fruição do patrimônio cultural que o homem vem construindo ao longo de sua história.

Sociologia e Filosofia nas escolas: Qual é o problema?

Sociologia e Filosofia nas escolas:
Qual é o problema?
 
por Cesar Callegari

Como não poderia deixar de ser, surge uma nova reação contra a decisão do Conselho Nacional de Educação que, em 2006, instituiu a volta da Sociologia e da Filosofia ao currículo das escolas de ensino médio brasileiras, Esta reação agora vem de São Paulo, mais precisamente do Conselho Estadual de Educação que, em parecer aprovado em julho de 2007, considera que a norma nacional é uma ingerência indevida e uma violação da autonomia dos Estados. Em decorrência, orienta as escolas paulistas que ignorem a determinação do CNE. Embora surpreendente, ainda mais vinda de um Estado que há poucos anos tomou a iniciativa de implantar essas disciplinas na grade curricular das escolas públicas, essa reação não chega a ser de todo espantosa.
A luta pela permanência dessas disciplinas no currículo do ensino médio é tão antiga quanto os ataques desferidos contra elas. No período da ditadura militar, aulas de Sociologia e de Filosofia eram consideradas verdadeiros “ninhos de comunistas subversivos”. Muitos professores e seus alunos foram alvos preferenciais de perseguições e ameaças. O cerco foi tal, que essas matérias foram desaparecendo, tanto das escolas públicas quanto das particulares. Resultado: houve uma diminuição da demanda por docentes especializados, atrofia dos cursos de formação e das licenciaturas nessas áreas, assim como uma redução das atividades de pesquisa e de produção de livros e materiais didáticos. Mais recentemente, nos anos 90, auge do pensamento e das práticas ditas neoliberais, as disciplinas voltaram a ficar na mira de medidas de caráter restritivo.
A luta pela permanência dessas disciplinas no currículo do EM
é tão antiga quanto os ataques desferidos contra elas
Afetados pelas idéias de uma educação meramente utilitária e tecnicista, currículos foram adaptados para assegurar apenas o que se considerava como “o mais necessário” aos jovens cuja formação em nível médio depende das escolas públicas. A receita geral foi oferecer mais aulas de disciplinas ditas instrumentais, como Português e Matemática, e menos aulas de conteúdos voltados a uma formação crítica e humanista. Ou seja: uma educação pobre para os pobres. Autoridades educacionais brasileiras, freqüentemente aconselhadas por tecnocratas de instituições internacionais de apoio e fomento, construíram e impuseram matrizes curriculares que consideravam mais simples, objetivas e adequadas ao perfil típico dos alunos de escolas públicas. Mesmo em São Paulo, o maior estado brasileiro em termos econômicos, a referida autonomia foi utilizada para impor uma brutal reorganização curricular do ensino médio que acarretou a supressão de milhões de aulas de História, Geografia, Artes e, como não poderia deixar de ser, o desaparecimento de milhares de aulas remanescentes de Sociologia e Filosofia. A justificativa é que não cabia tudo no pouco espaço/tempo escolar disponível e, então, seria preferível concentrar os esforços somente em conteúdos e habilidades mais úteis à escolarização dos estudantes. Porém, para lástima daqueles burocratas da educação, nem bem dez anos foram necessários para que se constatasse que algo não deu certo. Dados e análises do Sistema de Avaliação da Educação Básica produzido pelo MEC/ INEP passaram a revelar uma realidade implacável: de 1995 para cá, a qualidade da educação dos jovens brasileiros não parou de cair. Em 2005, os dados mostram que apenas 7% dos estudantes que concluíam o ensino médio apresentavam proficiência em Matemática tida como “adequada”. Enquanto isso, incríveis 70% receberam a classificação de nível “crítico ou muito crítico”. Da mesma forma, o domínio dos conteúdos e habilidades em língua portuguesa revelou-se deplorável. Não é de se estranhar que, ano após ano, o desempenho educacional dos jovens brasileiros se posicione nos últimos lugares nas avaliações internacionais, como o PISA.
Evidentemente, esse quadro não se deve à falta que fazem os conhecimentos de Filosofia e de Sociologia na formação dos jovens. Mas a ausência dessas matérias é explicada pelo empobrecimento deliberado das condições de ensino e aprendizagem vigentes no contexto da educação básica brasileira. O descompromisso das elites dominantes, que ao longo da história tomaram decisões sobre a prioridade a ser dada à educação, chega às raias da irresponsabilidade para com o futuro da nação. Se não, vejamos.
Apesar de nosso atraso e das deficiências acumuladas, cuja superação exigiria um empenho maior do que o normal, apenas 3,5% do PIB brasileiro é destinado à educação. Menos que nossos vizinhos como Chile e Argentina. Bem menos do que o investido pelos chamados países ricos (todos investem mais que 5%). Na verdade, em termos de PIB, o esforço direcionado para a educação é simplesmente a metade dos 7% preconizados no Plano Nacional de Educação. O investimento por aluno/ano no ensino médio brasileiro, cuja responsabilidade de oferta pública é dos governos estaduais, é de US$ 1.008,00 enquanto na Alemanha chega- se a US$ 9.835,00. Portanto, dez vezes mais. Argentina, Chile e México, também nesse caso, investem mais que o dobro do Brasil.
Baixos investimentos resultam em precárias condições de acesso e permanência. Enquanto nos Estados Unidos e no Japão 80% dos jovens e adultos já concluíram o nível médio ou mais, no Brasil essa etapa só foi completada por 30% dessa população. E na faixa etária de 15 a 17 anos, apenas 45% estão, de fato, freqüentando o chamado colegial. A maioria está atrasada, não chegou lá ou abandonou os estudos. É o resultado de escolas desestimulantes e de condições econômicas e sociais precárias.
A falta de prioridade, claro, afeta os profissionais da educação. Estudo recente da Câmara de Educação Básica do CNE chega a falar em risco de “apagão do ensino médio” quando constata a escassez de professores para essa etapa. Com um salário em torno de R$ 944,00, professores brasileiros no ensino médio recebem ¼ da remuneração dos seus colegas sulcoreanos e 1/3 dos espanhóis. A conseqüência é que não se consegue atrair jovens para o exercício do magistério. E os poucos que se formam escapam para outro ramo na primeira oportunidade. Não é que faltam professores de Filosofia e de Sociologia para lecionarem nas nossas escolas. São raros, é fato. Mas também não há licenciados suficientes em Física, Química, Matemática, Educação Artística, Inglês etc. E a situação se agrava quando sabemos que 60% dos 2,5 milhões de professores estão mais próximos de sua aposentadoria do que do início da carreira. O quadro é grave, sem dúvida, mas tem solução; e é bom reparar que algumas medidas vêm sendo tomadas, várias delas contidas no recente Plano de Desenvolvimento da Educação, que, entretanto, ainda padece de sustentação financeira adequada.
Uma completa, ampla e sólida formação básica das nossas crianças e jovens a par de políticas que façam do magistério uma alternativa profissional e de vida capaz de atrair os melhores entre os melhores são condições indispensáveis ao desenvolvimento econômico e social do Brasil.
Por tudo isso, não cabem recuos em relação a avanços como a permanência da Filosofia e da Sociologia na formação da nossa juventude, da mesma forma que é preciso agir rápido para assegurar as condições políticas que garantam o conjunto das outras providências necessárias a uma educação de qualidade para todos.

Cesar Callegari é sociólogo, membro do Conselho Nacional de Educação, presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada- IBSA e Secretário de Educação de Taboão da Serra-SP. Foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia, deputado estadual por dois mandatos e presidente da fundação para o Desenvolvimento da Educação