Eleitores dos EUA votam sobre maconha, língua oficial e aborto


Eleitores dos EUA votam sobre maconha, língua oficial e aborto

Do UOL Notícias*
Em São Paulo
Além de eleger políticos para cargos públicos nos âmbitos estadual e federal, os eleitores nos Estados Unidos votam nesta terça-feira (2) alguns polêmicos projetos sobre temas tão variados quanto a legalização à maconha e a proibição de criadouros de cães, passando pela quase supressão de impostos ou a abolição da reforma da saúde. 
Como costuma ser habitual em pleitos nos EUA, a jornada eleitoral para nomear representantes públicos serve também para promover consultas populares sobre iniciativas locais impulsionadas por parlamentares ou grupos civis que buscam o apoio social para introduzir reformas nas leis dos Estados.
As legislativas de meio de mandato, que se anunciam muito difíceis para os democratas do presidente Barack Obama, estarão acompanhadas de 160 referendos organizados em 50 Estados do país, sem contar com as centenas de consultas previstas em condados e comunidades. Quarenta referendos estaduais surgiram de "iniciativas cidadãs". 
Embora impressionem, estes números de fato representam uma queda em comparação à grande consulta nacional de 2008, quando medidas polêmicas como o casamento entre pessoas do mesmo sexo na Califórnia atraíram os eleitores às urnas e, de quebra, elegeram o presidente.
Desta vez, também estão em jogo as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 37 dos 100 assentos no Senado e 37 vagas de governadores, além de outros cargos locais e estaduais. 
Maconha
Neste ano, a Califórnia concentra grande parte do interesse midiático não só pelo fim da carreira de Arnold Schwarzenegger como governador, mas também porque os cidadãos terão de decidir sobre a legalização da maconha.
A descriminalização dessa droga, que atualmente é legal na Califórnia quando usada sob prescrição médica para fins medicinais, autorizaria seu cultivo, posse, consumo e compra por parte dos maiores de 21 anos. Se ratificada, a medida significaria uma importante fonte de renda do governo, por meio de impostos.
As últimas pesquisas de opinião estimam, no entanto, que a maioria da população deve se opor ao consumo livre da maconha, diante dos temores de que sua banalização aumente o risco de acidentes, tenha consequências no ambiente de trabalho ou crie uma plataforma legal para os traficantes na Califórnia.
Conhecida como Proposição 19, essa medida entraria em contradição com as leis federais, que continuariam considerando a maconha como uma substância proibida.
Outros estados, como Arizona e Dakota do Sul, decidirão nas urnas se legalizam a maconha para fins medicinais, tal como já ocorre em 14 dos 50 estados americanos. Illinois, Massachusetts, Nova York, Carolina do Norte, Ohio e Pensilvânia também poderiam se somar a essa lista por meio de projetos de lei.
Neste último estado, também deverão se pronunciar sobre uma abolição da lei antifumo.
Caça e pesca
Além de votar sobre a maconha, os cidadãos do Arizona decidirão se reformam a constituição estadual para incluir a caça e a pesca como um direito fundamental, algo que também será votado no Tennessee e no Arkansas.
Tal medida foi qualificada de "ridícula" pelos opositores, mas os defensores a consideram necessária para garantir, por lei, atividades que poderiam ser ameaçadas no futuro por grupos ambientalistas.
Cães
Já no Missouri, os defensores dos animais querem regulamentar os criadouros de cães e criminalizar "a crueldade nas fábricas de filhotes".
Inglês
Em Oklahoma, se tentará aprovar uma emenda constitucional para reconhecer o inglês como idioma oficial do território e o único, junto às línguas dos índios americanos, possível de ser usada pela Administração estadual. 
Trata-se de uma tentativa das autoridades de consolidar o inglês no Estado, diante do aumento da imigração hispânica. Se aprovada, a iniciativa tornaria Oklahoma o 31º estado a adotar o inglês como língua oficial.
Aborto
No Colorado, os eleitores terão de se posicionar sobre a questão do aborto. Eles devem responder basicamente se consideram o feto uma pessoa. A proposta, promovida por grupos antiaborto, pretende modificar a constituição para que as leis protejam "todos os seres humanos, desde o início de seu desenvolvimento biológico".
Além disso, neste Estado, assim como no Arizona e em Oklahoma, os eleitores se pronunciarão sobre o bloqueio à reforma do sistema de saúde, a grande vitória legislativa de Barack Obama.
Nome oficial
Os habitantes de Rhode Island responderão nas urnas uma questão de identidade local, se aceitam ou não modificar o nome oficial do Estado.
Atualmente, o território é denominado em sua constituição como "State of Rhode Island and Providence Plantations". Os legisladores consideram que chegou o momento de o estado se chamar simplesmente "State of Rhode Island".
Xerifes
Uma consulta popular também será submetida na Carolina do Norte, onde se discute a proibição de que ex-presidiários possam se candidatar a xerife em algum dos condados.
Impostos
Há propostas em nove Estados para reduzir impostos, especialmente no Colorado, onde o orçamento estadual diminuiria, segundo um estudo, para US$ 38 milhões se as iniciativas forem adotadas, representando uma economia de impostos de 1.360 dólares ao ano por família.
Campanhas financiadas
Nestes tempos de dificuldades econômicas, "organizar um referendo de iniciativa popular é muito caro", explicou a cientista política Jeannie Drage Bowser, da conferência nacional de parlamentos estaduais. Mas certos grupos de interesse não hesitaram em financiar suas iniciativas.
A indústria petroleira destinou US$ 3,6 milhões para uma proposta com vistas a suspender a lei que limita as emissões de gases de efeito estufa na Califórnia. Ela não entraria em vigor até que a taxa de desemprego do estado não cair para 5,5% e permanecer neste nível por pelo menos um ano. Atualmente, a taxa de desemprego californiana supera 12% da população economicamente ativa.
Em Washington, redes de distribuição destinaram US$ 3,1 milhões para impulsionar uma iniciativa que autorizaria a venda de álcool fora das lojas de bebidas alcoólicas de administração pública. E a federação de produtores de bebidas bateu todos os recordes no mesmo Estado, ao dedicar pouco menos de US$ 17 milhões a uma iniciativa que eliminaria os impostos sobre as garrafas de água e refrigerante, bem como sobre as confeitarias.
Na Califórnia, o investidor multimilionário George Soros doou US$ 1 milhão para a proposta que visa a legalizar a maconha.

*Com agências internacionais

O PROJETO LIVRO FALADO



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A base estrutural deste PROJETO é a qualificação tanto da pessoa com deficiência visual para a atuação na cena quanto do ledor voluntário para a feitura de livros falados. Nestes caminhos. buscamos criar encontros que primem pela riqueza artística onde o homem se eleve de sua condição básica. É disso que se trata este PROJETO: encontros que enriqueçam nossa humanidade.

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  • Discutir o fazer teatral inclusivo.
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Dilma-lá!

Dilma-lá!
 
Faz alguma diferença ter uma mulher na presidência?
 

 Reprodução
ELIANE BRUM
Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem. É autora de Coluna Prestes – O Avesso da Lenda (Artes e Ofícios), A Vida Que Ninguém Vê (Arquipélago Editorial, Prêmio Jabuti 2007) e O Olho da Rua (Globo).
elianebrum@uol.com.br
 
 
Não tenho resposta para esta pergunta. Mas acho interessante fazê-la. E pensar sobre ela. É claro – e é bom dizer logo no começo – que é importante, significativo e até histórico ter, pela primeira vez, uma mulher na presidência. Como Lula gosta de dizer, “nunca antes neste país” uma mulher ocupou este lugar. Supostamente, se uma mulher é eleita para ocupar o cargo máximo de poder em um país, então qualquer mulher pode ocupar qualquer posto, o que é uma conquista, ainda que na prática não funcione exatamente assim. Mas a pergunta que tenho me feito e que trago para esta coluna é se o fato de uma mulher ocupar a presidência faz alguma diferença por ser uma mulher – e não um homem. Se há um jeito feminino de governar.

Em 1938, pouco antes do início da II Guerra Mundial, a escritora inglesa Virginia Woolf publicou um ensaio em que respondia a um advogado que havia feito a ela a seguinte pergunta: “Como nós podemos evitar a guerra?”. Virginia respondeu a ele num texto corajoso e cáustico chamado “Três guinéus”, no qual relacionou “guerra, tratamento desigual das mulheres e patriarcado”. Logo no início ela já dizia que não existia aquele “nós”. Ainda que pertencessem à mesma “classe instruída”, ele era um homem e ela era uma mulher. E as mulheres não faziam guerra. A maioria dos homens sentia “uma glória, uma necessidade e uma satisfação em lutar” que a maioria das mulheres não sentiria. O texto desagradou até mesmo seus amigos mais íntimos, assim como uma parcela das feministas. A escritora, que não viu o conflito acabar porque acabou com a própria vida antes, afirmou que a guerra tinha um gênero – e este gênero era masculino. Para Virginia, era tarefa das mulheres emancipar os homens da violência para que a paz e a liberdade pudessem ser alcançadas. Tal feito só seria possível “destruindo os atributos masculinos, a violência e a idolatria do poder”.


Quando li esse ensaio, fiquei pensando no que milhares de mulheres ao longo da história já pensaram e continuam pensando: se há um jeito feminino de fazer política. Era outra época – e outro contexto. Mas ainda que muitos – e eu mesma – possam discordar das conclusões de Virginia Woolf, a questão é atual. E mesmo o movimento feminista tem dado diferentes respostas a ela. Lembrei desse ensaio ao me perguntar, a partir da eleição da primeira presidenta do Brasil, se há características de gênero que tornam o governo de uma mulher diferente do governo de um homem.


Se procurarmos na história das democracias modernas a diferença que mulheres fizeram no governo por ser mulheres não encontraremos nada no legado de Margaret Thatcher ou Golda Meir, por exemplo. Sobre esta última, aliás, David Ben-Gurion, o primeiro chefe de governo de Israel, disse em tom de elogio: “Golda Meir é o único homem do meu gabinete”. Já Thatcher foi “a dama de ferro” dos britânicos. Mesmo olhando para nossa época, nem governantes como Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, ou Angela Merkel, a atual chanceler da Alemanha, ou mesmo Cristina Kirchner, da Argentina, independentemente de sua competência, nos fazem supor que há “um jeito feminino de governar”. O mesmo vale para as governadoras e prefeitas do Brasil.


Há algum significado de conteúdo, para além do ineditismo, na ascensão da primeira mulher ao Planalto? Em busca de pistas para esta questão revisitei o que foi dito sobre a condição feminina de Dilma Rousseff ao longo da campanha eleitoral. Foi um percurso revelador.


Logo no lançamento oficial de sua candidatura, em junho, a própria Dilma tratou de marcar o ineditismo de uma mulher na presidência do Brasil como estratégia de marketing eleitoral. Ela disse: “Chegou a hora de uma mulher governar este país. Nós, mulheres, nascemos com o sentimento de cuidar, amparar e proteger. Somos imbatíveis na defesa da nossa família e dos nossos filhos”. Dilma, possivelmente aconselhada por Lula e por marqueteiros, anunciava ali as supostas vantagens de uma mulher para governar um país.


Primeiro, é arriscado afirmar que “cuidar, amparar e proteger” seja um sentimento inato das mulheres. Teríamos de acreditar que todas as mulheres guardam dentro de si desde a concepção o ímpeto de cuidar, amparar e proteger. E que todos os homens, por sua vez, não possuiriam este mesmo ímpeto. Em seu discurso, o “cuidar” está associado à família e aos filhos. Isso dito numa época em que uma parcela das mulheres escolhe não ter filhos e a parcela que opta por tê-los divide com o pai das crianças até mesmo a tarefa de trocar fraldas soa ultrapassado. É claro que há muitos homens que ainda acham que algumas tarefas e cuidados não lhes pertencem, mas estes são vistos cada vez mais como espécimes de um modelo arcaico.


Como Dilma defende que estes são os melhores atributos para uma governante, ela transforma o Brasil numa casa de família e nós todos em seus filhos. E Lula explicita ainda mais: “A palavra não é governar, mas cuidar”. Mais tarde Dilma dirá que vai “cuidar como uma mãe do povo brasileiro”. Logo, se acreditarmos nas palavras de Dilma, uma mulher não governa – cuida. E o melhor que uma mulher pode fazer como presidente é ser mãe.


Mais: segundo este discurso, ao governar ela transforma o público em privado – e cidadãos autônomos em crianças que precisam ser cuidadas, protegidas e eventualmente corrigidas. Em seguida, Lula esclarece que, sim, ela será mãe. Mas não de todos: apenas dos mais pobres entre nós. Dilma será a “mãe dos pobres”. Portanto, os pobres teriam, além da pobreza, o ônus de serem tratados como crianças numa relação desigual e baseada no afeto, cujas benesses viriam de seu bom comportamento nas urnas – e não cidadãos com direitos garantidos pela Constituição que legitimaram um governante com seu voto consciente por um período determinado.


Colocado dessa maneira – ainda que seja apenas discurso de marqueteiro, porque acredito e espero que Dilma seja mais inteligente que isso –, uma mulher na presidência seria não um avanço, mas uma regressão a um populismo tosco, ainda que matriarcal. A certa altura, Lula chegou a dizer que votar em Dilma era dar uma chance (à minha, à sua), à nossa mãe. E a seguinte letra foi cantarolada num jingle: “
Deixo em tuas mãos o meu povo e tudo o que mais amei/ mas só deixo porque sei que vais continuar o que fiz/ o país será melhor e meu povo mais feliz/ do jeito que sonhei e sempre quis/ As mãos de uma mulher vai nos conduzir/ O meu povo ganhou uma mãe que tem um coração que vai do Oiapoque ao Chuí/ deixo em tuas mãos o meu povo”.

Depois do pai, a mãe. Depois da grande mulher atrás do grande homem evoluímos para o grande homem atrás da grande mulher. Ou seria o mito de Pigmalião aplicado à política?
Se levarmos a sério este discurso – e acho que precisamos levar porque foi também com ele que pela primeira vez uma mulher se tornou presidente do Brasil –, os principais trunfos de uma mulher na política e na administração pública seriam atributos colocados como inatos – e não conquistados com estudo, trabalho e esforço. E atributos ligados à biologia, à vocação reprodutiva da mulher. É por parir que uma mulher supostamente seria uma boa governante.

Em artigo recente, o teólogo Leonardo Boff desenvolveu a tese de que há uma ruptura entre o trabalho e o cuidado – e um predomínio do homem sobre a natureza e a mulher. Há, segundo ele, “uma urgência de feminilizar as relações” e, para isso, é preciso “reintroduzir em todos os âmbitos o cuidado”. Por ser mulher, Dilma seria, na opinião de Boff, capaz de fazer esta síntese. Acompanhe o raciocínio: “Ela poderá unir as duas dimensões do trabalho que busca racionalidade e eficácia (a dimensão masculina) e do cuidado que acolhe o mais pobre e sofrido e projeta políticas de inclusão e de recuperação da dignidade (dimensão feminina). Ela possui o caráter de uma grande e eficiente gestora (seu lado de trabalho/masculino) e ao mesmo tempo a capacidade de levar avante com enternecimento e compaixão o projeto de Lula de cuidar dos pobres e dos oprimidos (seu lado de cuidado/feminino). Ela pode realizar o ideal de Gandhi: ‘política é um gesto amoroso para com o povo’”.


Aqui, vale a pena observar quais são as qualidades atribuídas a cada gênero. Ao masculino, a racionalidade, a eficácia e o “lado trabalho”. Ao feminino, o cuidado, a ternura, a capacidade de acolhimento, a compaixão e a atitude amorosa. Se concordarmos com esta divisão de atributos correspondentes a cada gênero, Dilma Rousseff está apta a governar porque sintetiza o masculino e o feminino em seu corpo de mulher. Poderíamos pensar então que é preciso ser mais do que uma mulher para governar. É necessário ser um tipo particular de mulher, uma mulher com um homem dentro dela.


Mas vamos seguir adiante. Quando Dilma foi entrevistada no
Jornal Nacional, Lula achou que o apresentador William Bonner foi duro demais. Ao reclamar, o argumento que usou foi: “Eu, que conheço debates há muitos anos, esperava que pelo fato de você ser mulher e ser candidata, o entrevistador tivesse um pouco mais de gentileza". Deu a Dilma uma rosa por ter mantido “a calma e a tranquilidade” durante a entrevista. Se acreditarmos neste discurso, teríamos de ficar preocupados com as futuras e inevitáveis negociações duras que nossa presidenta terá de enfrentar dentro e fora do país. E sugerir que os chefes de Estado levem rosas nas negociações com as governantes do mundo.

O mais curioso é que Dilma era conhecida como uma administradora dura. As palavras usadas para descrevê-la eram “truculenta”, “autoritária”, “mandona”, “forte”, pouco afeita a conciliações. Sua voz grossa ajudava a compor esta imagem. Para os preconceituosos – e isso ficou explícito nos ataques na internet –, ela seria uma “mulher masculinizada”. Escutei estarrecida, mais de uma vez, mulheres comentarem que Dilma não as representaria porque não era, “como poderiam dizer, uma mulher-mulher”.


Ao começar a ser esculpida como candidata, Dilma passou por uma espécie de “feminilização”, tomando por modelo uma ideia de mulher mais compatível com o tempo de nossas avós. Submeteu-se a cirurgias plásticas e tratamentos estéticos, mudou o cabelo, trocou o guarda-roupa, modulou a voz. Tudo no sentido de transformá-la numa mulher mais “feminina”, numa candidata mais suave e palatável, em alguém que o povo pudesse identificar com uma maternidade tradicional. Submeteu-se a uma metamorfose difícil – precisava se fragilizar para se adequar a uma ideia muito específica de feminino e se manter forte para convencer como futura governante. Ao submeter-se a isso acredito que Dilma Rousseff fez um desserviço às mulheres deste país. Por que Dilma não poderia ser uma mulher como Dilma efetivamente é? Por que Dilma precisou ser outra para convencer como mulher?


Vale a pena voltar a Virginia Woolf e a quase um século atrás. Numa conferência que a escritora fez em 1931, para as mulheres reunidas no Congresso da National Society Women’s Service, em Londres, ela defendeu o “matricídio”. Simbólico, obviamente. Para se tornar escritora e uma mulher com expressão pública, ela confessa que precisou “matar” a sua mãe, o modelo de uma mulher que era só bondade, generosidade, compreensão, doçura e beleza, que se dedicava de corpo e alma aos outros, confortava, pacificava, se sacrificava. Como diz uma de suas biógrafas, Nadia Fusini, precisou matar a imagem que é a base da hagiografia feminina vitoriana, o “anjo do lar”.


Nesta campanha, o que assistimos – alguns de nós bem espantados – foi exatamente a volta do “anjo do lar”, mas aplicada à política e transferida ao espaço público, o que é bem curioso. Esta imagem do feminino, aliada a atributos identificados como masculinos, como “racionalidade, eficácia e um lado trabalho”, supostamente tornavam Dilma Rousseff uma candidata qualificada e a tornariam uma boa presidente para o Brasil. E aqui não estou analisando em que medida esta embalagem funcionou ou não – apenas apontando as escolhas que foram feitas para definir o feminino e suas vantagens na política e na governança.


Chocadas com o slogan “Pátria livre, Pátria Mãe”, algumas feministas ligadas ao PT lembraram que não bastava ser mulher, era preciso se comprometer com uma agenda de políticas públicas relacionadas às mulheres. É discutível, como tudo. Mas se acreditarmos que esta é uma diferença significativa entre o governo de um homem e de uma mulher, Dilma recuou de sua posição sobre o aborto na primeira ameaça de perder votos de parte dos evangélicos e dos católicos. Não hesitou em assinar uma carta comprometendo-se a não alterar a legislação do aborto nem “promover nenhuma iniciativa que afronte a família”. A descriminalização do aborto tem sido uma luta histórica das feministas brasileiras.


Completado o percurso, não há nada que nos esclareça se faz alguma diferença ter uma mulher – por ser mulher – na presidência do Brasil. O tratamento estapafúrdio do feminino – e o que Lula e os marqueteiros fizeram da mulher que é Dilma Rousseff, assim como o que ela deixou fazer consigo mesma – só nos revelam que foi uma campanha de baixo nível – em todos os sentidos. Resta-nos torcer que a indigência dos argumentos sobre o feminino seja apenas obra de marqueteiros, não crença real de quem tem a tarefa de comandar o país. Em certo momento, juro, temi topar com algum slogan do tipo “Serra é de Marte, Dilma é de Vênus”. Por sorte, acabou. E agora, talvez, possamos descobrir quem é esta mulher chamada Dilma Rousseff.


Tomara que a gente goste.

Tiririca diz que não pode provar que sabe escrever

Tiririca diz que não pode provar que sabe escrever
O humorista tem uma deficiência motora que o impediria de segurar uma caneta com firmeza, diz laudo da defesa. Mas como ele dá autógrafos?
Victor Ferreira 
Acusado pelo Ministério Público de ter falsificado uma declaração de alfabetização ao registrar sua candidatura a deputado federal, Francisco Everardo Oliveira Silva (PR-SP), o Tiririca, recorreu à medicina. Um laudo médico anexado a sua defesa diz que o humorista tem Transtorno de Desenvolvimento da Expressão Escrita, uma deficiência motora que o impediria de segurar uma caneta com firmeza. A defesa afirma que Tiririca contou com o auxílio de sua mulher para escrever de próprio punho a declaração de alfabetização, exigida pela Lei Eleitoral. A mulher de Tiririca teria apoiado sua mão sobre a mão do marido para ajudá-lo a firmar a caneta no momento da redação. Por causa da deficiência, diz a defesa, Tiririca também estaria impossibilitado de fazer testes de escrita.
A explicação contradiz o vídeo gravado por ÉPOCA em setembro, que deu origem às suspeitas de analfabetismo. As imagens (assista ao vídeo abaixo) mostram Tiririca dando autógrafo a um fã. Em pé, de improviso, Tiririca segura um caderno com a mão esquerda e rabisca uma assinatura circular com a mão direita. O humorista ainda desenha o que seriam as letras de seu nome. Ele não demonstra nenhum sinal de dificuldade para segurar a caneta.
Filipe Redondo
CONTRADIÇÃO
Imagens de ÉPOCA mostram Tiririca dando autógrafos. Ao juiz, sua defesa disse que ele não tem condições de escrever
Em outro trecho, o vídeo mostra o momento em que Tiririca conta com a ajuda do filho para ler o cartão de uma pesquisa. A defesa alega que ele não conseguiu ler o impresso porque tem hipermetropia. Tiririca não usa óculos, sempre segundo sua defesa, por motivos profissionais. O laudo médico garante que o deputado eleito é capaz de ler sem grandes dificuldades.
Para provar que o deputado eleito com 1,3 milhão de votos é alfabetizado, condição necessária para garantir sua posse, a defesa reconstituiu a biografia do humorista. O documento diz que ele não frequentou escola por ter sido criado por um padrasto que batia muito nele. A relação familiar difícil teria feito com que Tiririca saísse de casa ainda criança para trabalhar num circo. Só a partir dos 12 anos, por iniciativa de uma funcionária do circo, ele começou a ser alfabetizado, diz. A infância difícil é apontada pelo laudo como um dos fatores que causaram os problemas motores de Tiririca.
Há uma segunda contradição nessa explicação. A defesa diz que o parecer médico, assinado por quatro profissionais de São Paulo, é fruto de uma bateria de testes feitos com o humorista desde o início do mês. Imediatamente após a eleição do dia 3 de outubro, porém, Tiririca tirou férias e viajou para Itapipoca, no Ceará, sua cidade natal. Uma reportagem da TV Globo gravada no dia 4 já mostrava Tiririca no aeroporto de Fortaleza. Em várias ocasiões, seus assessores disseram que ele passaria 20 dias por lá. Mas pelo menos um dos exames médicos anexados pela defesa aparece com a data de 10 de outubro. O cabeçalho mostra que o endereço do consultório fica bem longe de Itapipoca. É de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, base eleitoral do deputado federal Valdemar da Costa Neto (PR-SP), réu no processo do mensalão e líder do partido ao qual Tiririca é filiado.




Fonte: Revista Época

Os desafios de Dilma

Os desafios de Dilma
 
A pedido de ÉPOCA, escritores e acadêmicos projetam quais serão as principais questões a serem enfrentadas pela próxima presidente do Brasil 
 
Eliseu Barreira Junior
 
“Harmonizar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental”

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Alfredo Bosi
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Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), é membro da Academia Brasileira de Letras e editor da revista Estudos Avançados

"Os desafios que o próximo presidente do Brasil deverá enfrentar são numerosos. Aponto apenas alguns dentre os mais relevantes. Há o problema estrutural da disparidade de renda, que ainda é uma das maiores do mundo. Outro desafio a longo prazo é harmonizar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental e a inclusão do maior número possível de brasileiros no sistema do emprego formal. Substituir a malha rodoviária por um sistema de ferrovias torna-se também urgente. Enfim, como professor de Literatura no ensino superior, não posso deixar de advertir as autoridades para a baixa qualidade dos ensinos fundamental e médio. São todos gargalos que só uma administração inteligente e enérgica pode vencer. E, como cristão, peço a Deus que dê coragem e determinação ao próximo presidente para desempenhar com dignidade o seu papel histórico."

“Melhorar a qualidade do ensino superior”

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Clóvis de Barros Filho
>>
É professor de Ciência Política e Ética na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

"Há tempos a gestão dos problemas brasileiros tem sido reduzida a práticas que levem a bons índices econômicos. É preciso continuar com tal preocupação, mas de forma qualificada. Economia forte precisa de pessoas aptas a atividades diversas o que, por sua vez, se contrói com sólida formação educacional em todos os níveis. É preciso que as políticas voltadas para a educação visem à qualidade do ensino e não apenas à quantidade de pessoas diplomadas – desde o ensino fundamental, onde a dívida social originada por décadas de descaso é imensa, até o ensino superior. O desafio da educação fundamental é o principal a ser enfrentado, sobretudo porque grande parte dessa tarefa encontra-se nas mãos de Estados e municípios."

“Distribuir a riqueza”

sxc.hu
Leda Paulani
>>
É professora do departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Já presidiu a Sociedade Brasileira de Economia Política (SEP)

"O principal desafio não só do próximo, como dos próximos presidentes, é acabar com a fratura social do país. Programas compensatórios de renda minoram a pobreza extrema e diminuem a fome, mas não mudam em nada os determinantes estruturais que reproduzem essa situação. Sem mexer na distribuição da riqueza, cuja desigualdade é muito maior do que a da renda, não há saída possível."

“Fazer o Bolsa-Família 2.0”

sxc.hu
Marcelo Neri
>>
É economista-chefe do Centro de Políticas Sociais vinculado à Fundação Getulio Vargas (CPS/FGV). Atua na proposição, avaliação e debate sobre políticas públicas, tendo participado da criação do sistema de pisos salariais estaduais e do desenho de sistemas de metas sociais, aplicado em algumas unidades da federação

"Acho importante a discussão – que ainda está muito acanhada – do Bolsa-Família 2.0: dar ainda um pouco mais de escala ao programa e aumentar o número de pessoas atendidas, com um custo-benefício, em termos fiscais, muito baixo. Hoje, o Bolsa-Família, na verdade, é uma grande plataforma, um caminho pavimentado na direção dos pobres. Por meio do Cadastro Único, é possível montar programas específicos para qualquer localidade – estou desenhando um programa nesta linha para o Rio de Janeiro. A gente sabe quem são os pobres, onde moram, sabemos o endereço bancário, temos uma tecnologia, que custa pouco, para dirigir a eles melhores serviços sociais, educação, saúde, assistência, crédito.


Acho também que poderiam ser criados prêmios por notas, cobrar desafios maiores para as famílias pobres que recebem o benefício. Nesse sentido, o aluno ganharia mais se ele melhorar de nota. Outra linha de aprimoramento do Bolsa-Família, cujo debate não avança no Brasil, é o de tirar o desincentivo ao trabalho inerente ao programa. Nos Estados Unidos, há um mecanismo pelo qual uma pessoa que obtém um emprego não perde um determinado benefício de forma total. O objetivo, portanto, é preservar o incentivo à busca de trabalho. Finalmente, é preciso blindar o Bolsa-Família em relação ao mercado eleitoral. As pesquisas mostram que a pobreza sempre cai em ano de eleição, e sobe, ou cai muito mais lentamente, no ano seguinte."

“Criar uma base de mão de obra qualificada”

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Márcio Nakane
>>
Professor do departamento de Economia da Faculdade de Economia Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e coordenador técnico da Tendências Consultoria Integrada. É especialista em instituições monetárias e financeiras do Brasil, atuando principalmente nos seguintes temas: spread bancário, bancos brasileiros, concorrência bancária e política monetária

"Parafraseando Tony Blair, são 3 os desafios: educação, educação e educação. Educação e, principalmente, educação de qualidade, é a chave de tudo: ela é fundamental para a redução da pobreza e da desigualdade, para escapar da dependência das bolsas famílias da vida, para que o país crie uma base de mão de obra qualificada. Uma força de trabalho que é fundamental para gerar inovações e novas tecnologias que permitirão ao país realizar ganhos de produtividade e assim alcançar patamares mais elevados de crescimento."

“Manter a estabilidade econômica”

sxc.hu
Marco Antônio Teixeira
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Professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP). Tem experiência na área de Ciência Política, atuando principalmente nos seguintes temas: administração pública, cidadania, inovação na administração pública, política local, política brasileira e eleições

"O principal desafio é manter a estabilidade econômica e, consequentemente, o ritmo de crescimento do país. Disso decorre, também, a necessidade de se pensar de forma articulada instrumentos (políticas públicas) de apoio a pequenos empreendedores para promover, de fato, uma redistribuição de renda e não tomarmos o rumo de uma maior concentração de renda, o que seria péssimo para o desenvolvimento sustentado do Brasil. Assim, políticas públicas como a interiorização das universidades públicas, o estímulo ao desenvolvimento de arranjos produtivos locais (APLs) articulados com universidades, órgãos públicos e sociedade local tornam-se indispensáveis. Entretanto, permanece o desafio de como crescer e, ao mesmo tempo, evitar danos ambientais e colaborar com a melhora do padrão ambiental do mundo tendo a exploração do petróleo da camada do pré-sal como base do desenvolvimento nos próximos anos?"

“Pacificar o país”

sxc.hu
Mary Del Priore
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Historiadora, é professora do Programa de Mestrado em História da Universidade Salgado de Oliveira (Universo/Niterói). Lá, desenvolve pesquisa intitulada Cultura, mentalidade e vida social no Rio de Janeiro do século XIX. Escreveu vários livros, entre eles O livro de ouro da História do Brasil e Corpo a corpo com a mulher - Uma pequena história das transformações do corpo feminino no Brasil

"Um dos maiores desafios será a pacificação do país. Isso porque, todos os dias, aprendemos a ter mais medo. A violência tornou-se nossa inimiga íntima. Ela é o nosso moderno Leviatã. Tal tradição só aumentou com a explosão urbana, a multiplicação de armas de fogo e o recrudescimento do tráfico de drogas. No cotidiano, vivemos esmagados sob números deprimentes: em 30 anos, mais de trinta milhões de brasileiros morreram de forma violenta. O número de homicídios não cai: 50 mil por ano. E só aumentam: altas de 1,3% no Rio e 3% em São Paulo, em 2009. Crianças começam a ser sistematicamente atingidas. Segundo dados da Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados) de São Paulo, entre 2010 e 2020, 3% da população masculina será assassinada. O Rio de Janeiro enterrará 6% desses mortos. Nas estradas, já são 37 mil mortos por ano. É obrigatória uma dedetização definitiva na banda podre da polícia e impositivo o aumento de proteção e verbas para os que dão provas de exemplaridade, como se vê em Minas Gerais, ou nas UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), do Rio de Janeiro. Esse será um desafio, pois o grosso do problema – polícias, sistema judiciário, penitenciárias – são de alçada estadual. O regime é presidencialista, mas a Constituição, parlamentarista. O que significa que, se o presidente quiser colocar um sinal de trânsito na esquina, não tem poder legal para tal! Ainda assim, a violência urbana dá uma cara ao Brasil, dentro e fora do país. É um desafio para qualquer líder cauterizar essas cicatrizes, tanto mais quanto elas trazem em si a impunidade. Impunidade que começa em Brasília. Para acabar com a violência endêmica, o exemplo tem que “começar de cima”. Afinal, há décadas, o tema do combate à violência só serve para cimentar o discurso vazio dos mais diversos políticos."

“Estimular a leitura”

sxc.hu
Moacyr Scliar
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Escritor, ganhou o prêmio Jabuti de ficção em 2009 pelo livro Manual da paixão solitária. Já publicou mais de 70 obras, entre crônicas, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Também escreve no jornal Folha de S.Paulo

"O desafio do próximo presidente será transformar o Brasil num país leitor. Isto compreende: 1) completar a erradicação do analfabetismo, inclusive o chamado "analfabetismo funcional", pelo qual a pessoa, mesmo alfabetizada, não consegue ler e compreender um texto; 2) colocar o texto ao alcance da população, seja sob a forma de livros impressos seja sob a forma de livros eletrônicos; 3) reforçar o papel da escola na formação e motivação de leitores; 4) implementar o conceito de "famílias leitoras", da Unesco, através do qual os pais estimulam os filhos a ler."

“Discutir o aborto”

sxc.hu
Heloisa Buarque de Almeida
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Professora do departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP)

"Implementar, de fato, uma agenda social que defenda o direitos das mulheres ainda é um dos principais desafios a serem superados pelo próximo presidente. Vou citar apenas um desses direitos que ainda estamos longe de alcançar: trata-se da questão dos direitos reprodutivos das mulheres, especialmente no que tange nossa legislação quanto ao aborto.


Essa questão não é simples. Certamente que é preciso informação e acesso aos meios de contracepção para que as mulheres possam escolher quantos filhos querem ter e quando. Aborto não é método contraceptivo e quanto mais acesso aos métodos, melhor a situação. Mas mesmo assim há falhas, e as mulheres, apesar de bem informadas, mesmo aquelas que já são mães, engravidam sem planejar ou desejar. Há ainda uma crescente criminalização das mulheres que fizeram aborto e uma postura conservadora muito forte quanto ao tema. Ao lado disso, inúmeras mulheres ainda fazem aborto no país em condições precárias – a terceira maior causa de morte materna no Brasil.


Algumas pesquisas quantitativas vêm comprovando aquilo que já encontrávamos – eu e várias pesquisadoras – em nossas pesquisas etnográficas (qualitativas). O tema é tabu – não se revela facilmente ter recorrido ao aborto numa entrevista rápida (inclusive porque se trata de um crime).


Os dados mostram a dimensão do problema.
Pesquisa recente feita pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis) e pela Universidade de Brasília (UnB), com apoio do Ministério da Saúde, revelou que uma em cada sete mulheres de até 40 anos já fez aborto. Quando consideradas apenas as mulheres na faixa entre 35 e 49 anos, esta relação cai para uma em cada cinco mulheres. A pesquisa ouviu 2002 mulheres, entre 18 e 39 anos, nas capitais e municípios com mais de 5000 habitantes, excluindo-se mulheres que viviam em áreas rurais e as analfabetas.

Os dados indicaram que o aborto é mais frequente entre as mulheres com menor nível de escolaridade, não havendo, no entanto, diferenças em função de religiões adotadas. Entre as mulheres que abortaram, 48% usaram algum medicamento e 55% delas ficaram internadas em razão do procedimento. As mulheres seguem abortando, com ou sem autorização legal. Na visão das ONGs, já passou da hora de o país encontrar respostas concretas para essa demanda cidadã nas políticas públicas de saúde.


Mesmo assim, como se nota agora em época de campanha eleitoral, esse é um tema delicado e espinhoso. A CNBB vem reagindo às propostas feministas, o Ministério Público e a Polícia Federal vêm criminalizando clínicas e mulheres (
como o caso do Mato Grosso do Sul). A resistência ao tema no Terceiro Plano Nacional dos Direitos Humanos mostra que é necessário romper com visões religiosas hegemônicas ainda no Brasil. É um problema grave de saúde pública – o que o próprio ministro José Gomes Temporão cansou de afirmar – e de direitos das mulheres sobre seu próprio corpo.

Há ainda propostas ultraconservadoras quanto ao tema, como o “Estatuto do Nascituro” que prevê endurecer ainda mais a lei, protegendo o nascituro e desconsiderando a mulher como sujeito de direitos (até mesmo numa gravidez resultante de estupro).


O desafio do futuro presidente será colocar o tema em pauta e enfrentar a questão (de novo, porque o governo Lula já vem tentando fazer isso). É preciso que as mulheres tenham direitos reprodutivos, de acordo com os pactos internacionais que o Brasil tem assinado nos últimos anos. Já é uma conquista que se criminalize a violência doméstica, mas ainda há muito por fazer na questão dos direitos das mulheres no país, e o tema do aborto é um deles."


“Entender que segurança pública não é apenas questão de Estado”


sxc.hu
Marcelo Batista Nery
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Pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

"O passado não apenas passa. Todos os dias convivemos com os resultados de escolhas feitas preteritamente. O lugar comum do 'colhe o que se planta' torna-se a analogia perfeita para refletir sobre o atual momento, época de plantio, ou melhor, de eleger os semeadores. A cada novo processo eleitoral nos é dada essa escolha. Mas estaria o combate à violência entre as questões prioritárias a serem cultivadas? Em caso positivo, um governo comprometido com a justiça e segurança dos cidadãos precisa superar os seguintes desafios:


Coragem:
Não há fenômeno social mais complexo que a criminalidade. Não existem saídas fáceis e, certamente, as soluções não podem ser encontradas sem tempo e esforço. Contudo, essa complexidade não implica de forma alguma em impossibilidade de ação, muito pode e deve ser feito pela segurança dos cidadãos, também pelo governo federal, mesmo que isso resulte em perdas políticas.

Investimento:
O governo federal deve apoiar os governos estaduais e municipais na formação contínua dos agentes de segurança pública (com a perspectiva comunitária), na remuneração, no apoio psicológico, em equipamentos de proteção e armas (de fogo e não letais) e na tecnologia disponível para orientar suas atuações. Com relação a essa última questão, exemplificando, o Estado de São Paulo possui o Infocrim (Sistema de Informações de Ocorrências Criminais), uma inovação quando entrou em funcionamento a partir de 1999; no entanto, ele deve ser revisto, uma vez que hoje está ultrapassado e não atende às demandas operacionais, analíticas e executivas dos agentes de segurança pública. Além disso, recursos devem ser direcionados a políticas integradas (envolvendo as áreas da saúde, educação, transporte, segurança etc.) que focalizem ao menos quatro aspectos fundamentais para a vida social: a casa, a rua, a escola e o trabalho. Sobretudo, políticas imbuídas do propósito de proporcionar atividades lúdicas e culturais, bem como de apoiar a mobilização social, a construção de redes locais e a consolidação da cidadania.

Transparência:
O conhecimento de dados e informações sobre as ocorrências criminais é fundamental, dentro e fora do governo, sem o qual é impossível definir objetivos e estratégias de forma minimamente clara e precisa para orientar programas e ações, construir indicadores para monitorar avanços e avaliar sucessos das políticas públicas na área da segurança. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo, por exemplo, por força da lei estadual nº 9.155/95, divulga trimestralmente, no Diário Oficial do Estado, as estatísticas da criminalidade. Porém, elas não atendem à demanda por subsídios qualificados para uma análise efetiva. Na capital paulista, a despeito de sua clara heterogeneidade, os dados divulgados não permitem avaliar as ocorrências criminais por distritos (censitários ou policiais), bem como qualquer outra perspectiva territorial que não o município como um todo.

Organizações criminosas:
Deve-se encarar o fato de que a presença de organizações criminosas é um dos maiores problemas contemporâneos de segurança. De tal modo, três aspectos tornam-se fundamentais. Primeiro, não há tradição de inteligência criminal no Brasil, e não se conta com profissionais em número satisfatório e suficientemente capacitados para que essa seja ideia consolidada como prática. Segundo, não há uma política pública voltada à minimização das “vantagens”, materiais e simbólico-afetivas, oferecidas pelos envolvidos em práticas criminosas, como o tráfico. Terceiro, não se tem tido sucesso no combate à corrupção e na redução do poder de penetração das organizações criminosas no sistema penitenciário e nos escalões do poder político do Brasil.

Sistema correcional:
No país, a discrepância entre a previsão legal e a realidade atinge todos os setores da sociedade. Mas, no sistema correcional, esse fato ganha dimensões ainda mais claras. A administração prisional sofre com problemas crônicos, que não apresentarão possibilidade de solução se antes não se deliberar sobre a reestruturação do papel Poder Judiciário e do Ministério Público, a ampliação da incidência de penas alternativas, as regras para a concessão de livramento condicional, as progressões de regime e a redução da pena.

Gestão:
É preciso criar uma estrutura de gestão capaz de promover a discussão e a coordenação de ações em todas as esferas do poder público e articular estas atuações com empreendimentos da sociedade civil. Além disso, ela deve estar apta a produzir, coletar, sistematizar e analisar informações, estabelecer metas de redução de modalidades de violência que se manifestam sob a forma de criminalidade, bem como produzir relatórios sobre o cumprimento ou não dos objetivos propostos.

Diagnósticos:
Urge a necessidade de criar espaços para diálogo entre população, gestores públicos e agentes de segurança pública, a fim de atender às demandas sociais e promover laços de confiança e cooperação entre todos. Mas as demandas não podem ser baseadas em senso comum e sensação de insegurança ou em diagnósticos elaborados por instituições contratadas por apresentar o menor preço em uma concorrência pública. Elas devem ser fundamentadas em estudos técnicos que envolvam tanto especialistas como a sociedade civil.

Fatores de risco:
A redução dos fatores de risco que aumentam as chances de incidência de violência é primordial. Questão que está vinculada à qualificação do espaço urbano (particularmente áreas de grande trânsito de veículos e pedestres, áreas de lazer, esporte, cultura e habitação), com destaque às áreas com deficiências de infraestrutura, iluminação e conservação, em locais onde recorrem o registro de casos de crimes e violência. Também, ao combate ao consumo de álcool e drogas, ao controle da oferta, transporte e uso de armas de fogo, à promoção da mediação de conflitos (enfatizando a resolução de conflitos intra-familiares, entre vizinhos e nas escolas) e à diversificação dos os canais de acesso à segurança, justiça e outros serviços públicos – principalmente por meio da abertura desses serviços ao público ou aproximação desses serviços em relação à população, disseminação de informações e campanhas de esclarecimento sobre sua estrutura e funcionamento.

Segurança cidadã:
Segurança pública não é apenas uma questão de Estado! Se a violência é fenômeno social complexo não se deve pressupor que apenas as ações dos poderes públicos sejam suficientes por confrontá-la. Deve-se compreender que segurança pública depende tanto do poder público em todas as suas esferas (federal, estadual e municipais) como de órgãos e instituições, do setor privado, da sociedade civil e de todos os cidadãos que a compõem. De tal modo, deve-se enfatizar a importância de combinar estratégias estatais e sociais de segurança pública, para evitar ou minimizar as chances de emergência e crescimento da violência.

Nota-se que não é necessário “reinventar a roda”, nada de original foi proposto e muito do que foi escrito pode ser encontrado de forma dispersa em artigos e reportagens na imprensa brasileira. No entanto, ao ponderar sobre o que acabamos de ler, somos levados a perceber o que tem sido proposto e o que tem sido feito, e ao compreender que muitas vezes não se tem agido de forma condizente com a real importância do tema violência e de suas consequências, somos capazes de concluir que o combate às pragas como impunidade, injustiça, abuso, crime e violação de direitos só pode ser efetivo com vontade política, com a participação da sociedade civil organizada e com cidadania."


Fonte: Revista Época 

Discriminação leva jovens homossexuais ao suicídio

Discriminação leva jovens homossexuais ao suicídio

DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO 


"Eu sempre fui o melhor em tudo", diz Geraldo*, 19. Aluno dedicado e filho comportado, o garoto entrou em crise quando descobriu que é gay. "Vi que não seria o melhor em alguma coisa", diz.
De tanto ouvir que sua vida estava errada, ele acreditou. Há um ano, injetou ar no braço, à espera da morte. Foi socorrido no hospital.
A história de Geraldo é semelhante à de quatro adolescentes norte-americanos que se mataram em setembro passado, alertando o país inteiro para um tipo de preconceito que pode ser fatal.
As mortes levaram o presidente Barack Obama a gravar um vídeo para o site It Gets Better (isso melhora, em português). A campanha (bit.ly/itgets) reúne depoimentos cuja mensagem é simples: ser gay não é errado.
Ainda assim, os homossexuais são uma minoria que sofre discriminação. Às vezes, a níveis insuportáveis.
Foi assim com o estudante de biologia Henrique Andrade, 21, que no dia 22 foi chamado de "bicha" durante uma comemoração de alunos da USP. "Falaram que eu estava manchando a festa." Ele levou chutes e socos.
"A homofobia está na sociedade e faz com que o gay ache que ele vale menos do que os outros", explica Lula Ramires, coordenador do Grupo Corsa (corsa.wikidot.com), que defende a diversidade sexual. A discriminação surge como ingrediente-chave nas pesquisas que apontam para a relação entre homossexualidade, juventude e suicídio.
O bullying pode causar o que os psicólogos chamam de "egodistonia" --alguém não gostar de como é.
"É um sofrimento muito grande se sentir fora da norma", diz Alexandre Saadeh, psiquiatra do Hospital das Clínicas. "A discriminação, para alguém que é humilhado em casa, por exemplo, pode se tornar insuportável."

Eduardo Knapp/Folhapress
O namorado de Paulo, 20, pulou do sétimo andar crédito: Eduardo Knapp/Folhapress
O namorado de Paulo, 20, pulou do sétimo andar
PAIS & AMIGOS
A aceitação ou não dos pais é um fator de peso, segundo Miguel Perosa, professor de psicologia da PUC-SP.
"O jovem pode sentir que não pertence a esse mundo que o discrimina", afirma.
"Suicídio passa pela minha cabeça todos os dias, está cada vez mais difícil", desabafa o técnico em farmácia Caio*, 22. Demitido na semana passada, ele diz que foi dispensado porque é gay. Nos corredores, ouvia colegas o chamarem de "veado".
"Me faz querer dar um fim a isso", diz. "Eu respiro fundo, mas o pensamento é forte." Há três anos, ele tomou veneno. Mas sobreviveu.
Psicólogos recomendam que jovens com ideias suicidas busquem ajuda profissional imediatamente. Amigos devem ficar por perto.
Outra sugestão é procurar entidades como o GPH (Grupo de Pais de Homossexuais, www.gph.org.br), que faz reuniões quinzenais para ouvir jovens gays.
Apesar de nunca ter tentado se matar, Paulo Souza, 20, participou desses encontros.
Há quatro anos, ele perdeu o namorado e amigo de infância que, aos 19 anos, pulou do sétimo andar.
"Ele achava que não tinha futuro sendo gay", conta.
Sucesso e felicidade, no entanto, independem de orientação sexual.
Entre gays assumidos estão Ian McKellen, um dos mais premiados atores britânicos (o Gandalf de "O Senhor dos Anéis") e Klaus Wowereit, prefeito de Berlim.
O ator brasileiro e gay assumido Evandro Santos, 35, diz que nunca pensou em suicídio. Famoso pelo papel de Christian Pior no "Pânico na TV", ele foi expulso de casa quando era adolescente.
"Sobrevivi por um sentimento de vingança. Queria ficar vivo para as pessoas verem que eu seria famoso."

Eduardo Knapp/Folhapress
Para Geraldo, 19, ser gay era ser pior: ele tentou se matar há um ano
Para Geraldo, 19, ser gay era ser pior: ele tentou se matar há um ano
VAI MELHORAR
A organização do It Gets Better calcula que os vídeos da campanha já tenham sido vistos 15 milhões de vezes.
"Estamos decolando!", comemora o coordenador Scott Zumwalt, que trabalhou na campanha de Obama --e conseguiu a assinatura da republicana Laura Bush para a petição contra o bullying.
Segundo o Folhateen apurou, está sendo negociado um domínio brasileiro na internet para uma possível versão em português do site.

Fonte: Folhateen 

EQUAÇÃO DA MORTE
 
- Em 2008, 711 brasileiros entre dez e 19 anos se suicidaram; não há números específicos sobre gays
- Suicídio é a quarta maior causa externa de morte de jovens entre 15 e 19 anos (a primeira é homicídio)
- Estima-se que o número de tentativas de suicídio supere o número de suicídios em pelo menos dez vezes

Fonte
: Ministério da Saúde

Número de abstenção supera o do primeiro turno e o da eleição de 1998

Número de abstenção supera o do primeiro turno e o da eleição de 1998


DE SÃO PAULO 

Com 99,98% das urnas apuradas, o número de abstenção no segundo turno superou o do primeiro e se igualou ao de 1998, quando Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi eleito presidente: 21,50% -- 29.189.119 pessoas não compareceram às urnas.
No primeiro turno, a abstenção foi de 18,12% --24.610.296.
O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), ministro Ricardo Lewandowski, afirmou que, tradicionalmente, há um aumento do índice de abstenção do primeiro para o segundo turno. Para ele, o percentual de abstenção no segundo turno ficou "dentro da normalidade, dentro do tolerável e não macula os resultados das eleições".
O ministro disse que fatores como o feriado prolongado, chuvas e outras condições climáticas adversas, como a seca na região Norte, também podem ter contribuído para o aumento das abstenções de eleitores às urnas no segundo turno. 

Fonte: Folha de São Paulo

Troca de Funções

Angeli: Crossdressing no Planalto

Depósito de lixo pode se transformar em novo "Pão de Açúcar" do Rio

Depósito de lixo pode se transformar em novo "Pão de Açúcar" do Rio

La Vanguardia
Andy Robinson
  • Vik Muniz em foto do filme Lixo Extraordinário, dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley Vik Muniz em foto do filme "Lixo Extraordinário", dirigido por Lucy Walker, João Jardim e Karen Harley
O Pão de Açúcar sai em cartões postais, mas o Jardim Gramacho, o maior depósito de resíduos urbanos do mundo, pode se transformar na montanha mais emblemática do Rio da Janeiro da era Lula. Como em outras mega-cidades latino-americanas, milhares de pessoas ganham a vida vasculhando o lixo em busca de plástico, metal e outros materiais que vendem a empresas de reciclagem. Tiram 200 toneladas de materiais recicláveis por dia.

Os catadores acabam de ser reconhecidos numa nova lei de gestão de resíduos sólidos assinada pelo presidente Lula este mês e considerada de vanguarda tanto pelos ambientalistas como pelos defensores dos direitos trabalhistas dos milhões de trabalhadores informais do Brasil.

“A lei obriga o sistema de reciclagem a incorporar os catadores como trabalhadores”, diz Sonia Maria Dias, da ONG Mulheres no Trabalho Informal, que organiza os catadores informais em Belo Horizonte. “Assim, a responsabilidade de reciclar é transferida para quem gera o lixo, o que vai criar mais empregos para os catadores.”

É uma questão chave porque, ainda que sejam vítimas da pobreza, os catadores de cidades como o Rio são os heróis da luta contra a mudança climática. Reciclam 80% do lixo e reduzem as emissões de casas de efeito estufa até níveis que são inalcançáveis por sistemas modernos de incineração ou aterros sanitários. Em outras cidades latino-americanas, a chegada de multinacionais de gestão de resíduos – muitas delas espanholas – ameaça deixar milhões de catadores sem trabalho. O Brasil optou por outro caminho.

Rodeado de favelas onde os catadores vivem com ratos, o Jardim Gramacho, à primeira vista, é uma imagem dantesca de miséria. Cerca de 2.500 pessoas se lançam ao lixo revirado por escavadoras. “A princípio, quando você chega perto, é difícil suportar o fedor”, diz João Jardim, diretor de “Lixo Extraordinário”, um documentário sobre a vida dos catadores que participam de um projeto artístico do fotógrafo brasileiro Vik Muniz no Jardim Gramacho. “Mas logo você se acostuma e se dá conta de que os catadores não são pessoas infelizes”, acrescenta. Isso, como se comprova no filme, é resultado da camaradagem e do surpreendente orgulho trabalhista dos catadores, todos membros de um sindicato que fez campanha a favor de um novo sistema de reciclagem que foi incorporado à nova lei. “A lei não é somente uma obra do governo Lula, mas sim de 19 anos de luta dos movimentos sociais”, diz Sonia Maria Dias.

A lei é uma das iniciativas mais importantes para incorporar mais de doze milhões de trabalhadores informais nas grandes cidades brasileiras. A integração desses trabalhadores à economia regular, com salários dignos, será necessária para que o próximo governo enfrente outro desafio para a cidade anfitriã da Copa do Mundo de futebol de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016: a humanização e a pacificação das favelas. “Quando houve guerra nas favelas, encontrávamos muitos cadáveres no Jardim”, diz Sebastião Tião Carlos dos Santos, um dos organizadores dos catadores do Rio.

Uma das consequências da nova lei e das melhorias da gestão de resíduo em geral é que o Jardim Gramacho desaparecerá à medida que o novo sistema de reciclagem for adotado. “A lei será boa se recebermos os contratos de coleta seletiva, mas vamos continuar lutando para que nos respeitem como os profissionais históricos da reciclagem”, acrescentou Santos depois da estreia do documentário no Festival de Cinema do Rio, um evento típico da era Lula no qual se misturaram os progressistas do mundo do cinema e dezenas de catadores de lixo.

O próximo desafio será buscar uma forma de estabilizar a renda da venda de recicláveis que nesse momento oscila com o ciclo econômico. Em 2007, os preços estavam nas alturas, os catadores do Jardim Gramacho conseguiam ganhar até US$ 25 por um dia de trabalho, uma remuneração excelente para o setor informal. Mas desde a crise o preço do lixo caiu muito. “É um preço global estabelecido por empresas enormes”, disse Jardim.

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