Doentes mentais chineses vivem nas sombras

Doentes mentais chineses vivem nas sombras

The New York Times
Sharon La Franiere
Em Xizhen (China)
Depois de cinco meses numa ala quase abandonada do Hospital Psiquiátrico de Hepu, Yang Jiaqin não sofre mais alucinações terríveis. Ainda assim, sua mulher não ousa mencionar crianças, nem mesmo seus filhos, por medo de que isso desperte os demônios que o possuíram na última primavera.
Numa tarde quente e ensolarada de abril, Yang saiu correndo de sua casa no vilarejo rural próximo à fronteira com o Vietnã, carregando um facão de cozinha. Ele cortou dois alunos da pré-escola, ferindo ambos gravemente, e abriu a garganta de um menino da segunda série, abandonando-o à morte no chão. E então ele continuou. Quando os policiais conseguiram capturá-lo e controlá-lo, ele já havia cortado mais duas pessoas até a morte.
As famílias das vítimas concentraram sua raiva contra a polícia. Três dias antes, Yang havia atacado um vizinho na cabeça com um machado, mas não foi preso.
“Eles são totalmente responsáveis por isso”, diz Wu Huanglong, pai do menino da segunda série. “Eles não nos protegeram.”
Mas os médicos de Yang veem uma falha maior. Apesar de sinais claros de esquizofrenia, Yang havia recebido cuidados médicos por apenas um mês nos últimos cinco anos.
“Se ele tivesse recebido medicação e tratamento, sua doença não teria se desenvolvido”, diz Chen Guoqiang, médico chefe do hospital psiquiátrico. “Se ele tivesse sido capaz de controlar suas alucinações, não teria matado ninguém.”
Faz quase 35 anos desde a Revolução Cultural, quando as doenças mentais foram declaradas uma ilusão burguesa, e muitos hospitais mentais foram fechados e os doentes tratados com leituras do comandante Mao. O tratamento psiquiátrico ressurgiu desde então. Mas a saúde mental continua sendo uma fraqueza da medicina, desesperadamente em falta de financiamentos, médicos e estima.
É frequente que a resposta oficial às doenças mentais seja a negligência. As autoridades governamentais já abaladas por um ataque no mês anterior, em que oito crianças foram esfaqueadas até a morte, lançaram a censura sobre o incidente de Xichen para evitar que ele seja copiado ou incite mais indignação.
Pelo menos três entre seis homens que atacaram perto de escolas este ano deixaram 21 mortos e antes disso pareciam perturbados ou suicidas, de acordo com notícias. Mas na mais alta declaração sobre as mortes, o primeiro-ministro Wen Jiabao disse apenas que a China precisava resolver as “tensões sociais” subjacentes aos ataques.
Yan Jun, diretor da divisão de saúde mental do Ministério da Saúde, recusou repetidos pedidos de entrevista. O ministro disse numa declaração que o governo estava “continuamente fortalecendo” tanto seus recursos quanto seus profissionais para fornecer cuidados à saúde mental.
Mas o caminho é longo. Só um entre 12 chineses que precisam de cuidados psiquiátricos passa por uma consulta, de acordo com um estudo feito no ano passado pela revista britânica de medicina The Lancet. A China não tem nenhuma lei nacional de saúde mental, pouca cobertura para cuidados psiquiátricos por parte dos planos de saúde, quase nenhum cuidado nas comunidades rurais, poucas camas para pacientes internados, poucos profissionais e uma estrutura burocrática fraca para a saúde mental, dizem especialistas chineses na área.
O próprio escritório de saúde mental do Ministério da Saúde, estabelecido há quatro anos, resume-se a três pessoas. Yan, o diretor, é especialista em saúde pública, e não um psiquiatra.
De tempos em tempos, a mídia da China declara que uma lei nacional de saúde mental está prestes a ser adotada. O primeiro esboço foi escrito há meio século. Questionado sobre quantas revisões ela já passou, Ma Hong do Instituto de Saúde Mental da Universidade Peking diz: “incontáveis”.
A maioria dos hospitais psiquiátricos são inviáveis financeiramente, diz Yu Xin, que dirige o Instituto de Saúde Mental da Universidade Peking. Um deles, na província Hubei, abriu uma fábrica de caias nos anos 90 para continuar de pé. A estrutura de impostos é tão absurda, diz ele, que os hospitais podem cobrar mais por diagnósticos computadorizados baseados no preenchimento de formulários do que por sessões com psiquiatras de verdade.
“O governo não quer gastar dinheiro para tratar essas pessoas, então ele simplesmente as devolve para suas famílias”, diz Huang Xuetao, advogado de saúde mental e um dos autores do relatório.
Deixados com seus próprios recursos, alguns familiares recorrem a soluções desumanas. Em 2007, He Jiyue, um psiquiatra do governo, descobriu um homem de 46 anos trancado atrás de uma porta de metal numa sala malcheirosa de uma casa na província rural de Hebei. O homem era mentalmente doente, disseram os pais idosos. Eles o haviam prendido há 28 anos depois que ele atacou o tio.
Nos últimos três anos, funcionários de saúde mental resgataram 339 pessoas cujos parentes eram pobres demais, ignorantes ou tinham vergonha de buscar tratamento. Alguns, acorrentados em abrigos no quintal, eram “tratados como animais”, disse o Dr. Liu Jin, do Instituto de Saúde Mental da Universidade de Peking.
A falta crônica de médicos e instituições faz com que o cuidado que exista seja limitado. A média da China é de apenas um psiquiatra para cada 83 mil pessoas – doze vezes menos do que a proporção dos Estados Unidos – e a maioria não tem formação universitária em nenhuma especialidade, quanto menos em saúde mental, disse Ma.
“Os psiquiatras profissionais na China são como os pandas”, diz Zhang Yalin, diretor-assistente do Instituto de Pesquisa em Saúde Mental da Faculdade de Medicina Universidade Centro-Sul. “Há apenas poucos milhares de nós.”
A imagem de fundo do poço da psiquiatria entre a comunidade médica desestimula os estudantes a adotarem a profissão. Dai Jun, estudante de medicina de 24 anos em Wuhan, no centro da China, diz que estudou psiquiatria quando se inscreveu na Universidade de Medicina Nanjing há seis anos porque era a única especialidade com vaga. Como interno, ele percebeu que os psiquiatras não eram tratados ou reconhecidos como os demais médicos.
“As pessoas pensam: 'ah, você está constantemente rodeado de gente louca. Talvez você mesmo vá enlouquecer, ou já seja louco. É por isso que quis fazer isso”, diz Dai.
Na primeira oportunidade que teve, ele mudou para ortopedia.
Embora as pesquisas sejam escassas, uma enquete recente do Ministério da Saúde sugeriu que a necessidade por mais especialistas está crescendo rapidamente. O estudo descobriu que a incidência de doenças mentais aumentou mais de 50% de 2003 a 2008. Embora parte do aumento deva-se a uma maior conscientização e relato de casos, Ma argumenta que a incidência de doenças relacionadas ao estresse como a depressão e a ansiedade aumentou.
“A sociedade chinesa está mudando muito rápido para que as pessoas se ajustem a ale”, diz ela.
O governo prometeu recentemente investir mais em cuidados com a saúde mental, principalmente derramando bilhões de dólares em hospitais psiquiátricos novos e reformados. Muitos hospitais psiquiátricos têm mais de um século de existência e se localizam – propositalmente – longe das cidades. A China acrescentou mais 50 mil camas em hospitais psiquiátricos entre 2003 e 2008. Mas é preciso mais do que isso: o Tibete, região quase três vezes maior do que a Califórnia, não tem nenhuma instituição psiquiátrica, diz o Instituto de Saúde Mental da Universidade Peking.
Como a maior parte da China rural, Xizhen, no sul de Guangxi, uma das províncias mais pobres da China, é isolada de serviços. Aqui, várias centenas de moradores cuidam de plantações de cana de açúcar e mandioca, tirando água de poços e cortando madeira para combustível. Pessoas sem treinamento, que se auto-intitulam médicos, cuidam da maior parte das necessidades médicas. O hospital mais próximo fica a uma hora de carro dali.
Yang Jiaqin era funcionário da saúde local. Embora nem ele nem sua mulher, Wen Zhaoying, tivessem treinamento além do colegial, os dois forneceram cuidados durante anos em uma minúscula clínica em frente à escola primária de Xizhen. Há cinco anos, diz Wen, tornou-se óbvio que seu marido era quem precisava de tratamento. Sempre tenso e com medo, ele se tornou obcecado com a ideia de que as pessoas o estavam perseguindo, diz ela.
Parentes enviaram Yang para um hospital psiquiátrico próximo. Os administradores do hospital disseram que cinco médicos atendem a toda uma região de mais de 1 milhão de pessoas. Lá, disse ela, um psiquiatra prescreveu um remédio que ajudou a acalmar seu marido. Ainda assim, os episódios ficaram mais severos.
Médicos do hospital psiquiátrico de Xangai diagnosticaram sua condição como esquizofrenia, administraram drogas antipsicóticas e, um mês depois, liberaram-no. Os familiares disseram que aquele foi o último encontro de Yang com um profissional de saúde mental.
Na primavera passada, Yang, 40, tinha medo de sair de sua casa de adobe mal iluminada.
“Tudo o que ele fazia era ficar em casa e chorar”, diz Wen.
Em 9 de abril, os demônios dentro dele tomaram o controle.
Naquela noite, Yang derrubou a porta de madeira de seu vizinho de 63 anos e o atacou com um machado na cabeça. No hospital onde os médicos deram pontos no ferimento do vizinho, o chefe da polícia local disse a ele: “Quando pessoas loucas machucam alguém, não há nada que possamos fazer.”
Wen disse que começou a tomar providências naquele fim de semana para colocar seu marido num hospital. A mãe de Yang, de 74 anos, Pei Renyuan, disse que sei filho alertou-a que se mataria e que “levaria todos junto com ele”. O irmão mais novo de Yang ficou encarregado de observá-lo.
Na tarde da segunda-feira, Wu Junpei, um menino entusiasmado de 8 anos que adorava desenhar, cantar e praticar ginástica, deixou a escola com amigos, cortando caminho como de costume pela casa de Yang em direção à sua, a dez minutos dali. Yang pulou no meio do caminho com um facão de cozinha e cortou o menino, que fugiu. Então ele se voltou para Junpei, cortando seu braço e pescoço rapidamente. Ao sair correndo da casa, Yang matou uma mulher de 70 anos que fabricava fogos de artifício, e um homem que assistia uma novela em seu sofá. Ele cortou a esposa do homem e uma menina que tirava água do poço.
A polícia, que ignorou o ataque anterior de Yang rapidamente, entrou em alerta de repente. A irmã de 20 anos de Junpei disse que os policiais foram até o hospital naquela noite, enrolaram o corpo de Junpei num lençol e saíram com ele num carro, ignorando os gritos de protesto.
O governo da província ainda precisa liberar o corpo, disse Wu. Os moradores dizem que o motivo provável da situação é que Wu se recusa a assinar uma declaração dizendo que ninguém é culpado pela morte de seu filho em troca de uma indenização de cerca de US$ 19 mil.
Chen, médico chefe do hospital psiquiátrico, diz que o ataque de Yang ocorreu porque “ele nunca esteve sob cuidado sistemático”. Sua família, diz ele, “não levou sua doença suficientemente a sério.”
Mas ele também disse que seu próprio hospital às vezes libera pacientes mentais simplesmente porque as famílias não conseguem pagar o tratamento.
“O governo precisa investir mais para que possamos cuidar de todos os pacientes que precisam de tratamento, independente de eles terem uma família que possa pagar ou não”, diz ele.
Chen e outro médico do hospital disseram que a condição de Yang se estabilizou agora. Seu objetivo é mandá-lo de volta para casa. Mas Wen disse que não pode cuidar dele nem cobrir as despesas do tratamento continuado. Ela disse que, se não pagar, funcionários do hospital disseram que seu marido seria liberado sob custódia dela. Zhang Xue, presidente do hospital, negou a informação.
O outono ainda está quente em Xizhen. Os fazendeiros colhem amendoins de camiseta regata. As crianças jogam bolinha de gude do lado de fora. Depois do jantar, os pais de Yang gostam de deixar a porta de madeira aberta para que o ar entre.
A mãe de Junpei costuma aparecer para queimar incenso na porta da casa deles, chorando no escuro. Ela e o marido dizem que a família de Yang está fingindo que ele é doente mental para protegê-lo.
Pei, mãe de Yang, diz que não consegue encarar o luto da mulher nem sua própria vergonha. Logo que ela a vê, fecha a porta.

Um Mundo de Gente: população mundial

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UM MUNDO DE GENTE
 (BBC) A população mundial está aumentando e pode passar de 9 bilhões nas próximas quatro décadas. Neste programa fascinante, o prestigiado naturalista e apresentador Sir David Attenborough aborda os problemas que enfrentamos como uma espécie em contínuo crescimento. Do México à Espanha, da China a Ruanda, ecologistas, demógrafos, fazendeiros, engenheiros e clínicas de planejamento familiar relatam os enormes desafios de atender a uma população que não para de crescer. Com 400 mil nascimentos a cada dia, David Attenborough pergunta: quantas pessoas podem viver no Planeta Terra? O controle de população deve ser um dever de cada um de nós?
 
 
20 de novembro de 2010
13:00
60 mins

Gabriel o Pensador faz clipe para "Tropa de Elite 2"

filme Um Homem Misterioso

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George Clooney de barba grisalha, ao lado de uma mulher nua na cama. Na cena seguinte, ambos andam pela neve até serem atacados por um atirador. Sem pensar duas vezes, Clooney o mata. A mulher se desespera e vai até o corpo, ele tenta acalmá-la. Assim que dá as costas a ele, é também morta. Pelo próprio Clooney, seu amante.

A cena inicial de Um Homem Misterioso revela muito de quem é seu personagem principal. Jack - ou Edward, depende de quem o chama - é um homem frio, sisudo, repleto de segredos os quais não divide com alguém. É também um especialista na construção de armas de fogo, feitas sob medida para os mais diversos tipos de assassinato. Seja de perto ou de longe, com ou sem silenciador, Jack/Edward está lá para solucionar o problema. Preocupado com o súbito ataque, ele parte para Roma e lá encontra seu contato, que lhe passa uma nova encomenda. Para realizar o trabalho, vai até a pequena cidade italiana de Castelvecchio. Lá, com o aviso de "não faça amigos" em mente, se passa por um fotógrafo.

Só que o ser humano não foi feito para viver sozinho. Ele tem necessidades, nem que seja de simplesmente dialogar com alguém. É desta forma que surge uma aproximação com o padre Benedetto, curioso com aquele homem que diz ser artista mas tem mãos de artesão. É assim também que se aproxima de Mathilde, prostituta que atende a outro tipo de necessidade. É através de ambos que algo começa a mudar no personagem principal.

Em determinado momento do filme, Benedetto diz que o inferno é um local sem amor. Nada mais preciso para definir a vida de Jack/Edward. Sem amor ou qualquer tipo de afeição, ele é um homem solitário que apenas cumpre muito bem seu traabalho e, por causa dele, vive sempre desconfiado. Pouco a pouco, ele passa a querer deixar este estado. Quer viver, ter alguém ao seu lado, sem se importar com a profissão de Mathilde. Só que há um problema: seu passado. E ele cobra um preço alto.

Um Homem Misterioso apresenta, de forma gradual, a transformação do protagonista de um ser frio e calculista para alguém que sonha com algo além de permanecer vivo. Uma mudança em muito auxiliada por George Clooney, que consegue, através da sutileza do olhar, transparecer os diferentes estágios de seu personagem. O filme conta também com diversas referências à Itália, como a explícita citação a Sergio Leone e até ao fato de uma prostituta se apaixonar por um cliente, e ao fato da história ser focada em um americano fora de seu país de origem, através da música "Tu Vuò Fà L'Americano". Um bom suspense, que consegue dosar a tensão usando o silêncio e explora, em certos momentos, a nudez de seus personagens

Rio de Janeiro: Segurança em Jogo

Assim que o Rio de Janeiro foi confirmado como cidade que abrigará os dois mais importantes eventos esportivos internacionais, a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, surgiu a pergunta: a cidade estará preparada para receber esses eventos em segurança?

Esse é o ponto de partida do documentário RIO DE JANEIRO: SEGURANÇA EM JOGO, que estreia domingo, 21 de novembro, às 21h, no bloco “Discovery Apresenta”. A coprodução entre Discovery Channel e Mixer traz um panorama do que está sendo feito e dos desafios no âmbito da segurança pública – setor que receberá cerca de R$ 3 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos.

Em busca de respostas, as câmeras do Discovery Channel sobem morros, percorrem portos, aeroportos e centros de treinamento de policiais. Fontes como Paulo Storani (ex-capitão do Bope e mestre em Antropologia), José Mariano Beltrame (Secretário de Estado de Segurança) e Rachel Coutinho (urbanista) pontuam o documentário com comentários sobre as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) e com análises sobre a necessidade de reversão na imagem da polícia carioca junto às comunidades carentes, que sempre se viram no fogo cruzado entre traficantes e poder público.

RIO DE JANEIRO: SEGURANÇA EM JOGO, também aborda um tipo de ameaça com a qual os brasileiros não estão acostumados, mas que faz parte dos riscos envolvidos nos grandes eventos internacionais: os ataques terroristas. Sob o olhar de Marcos Do Val (instrutor da SWAT) e Rafael Vulej (ex-capitão da IDF, Israel Defense Forces (Forças de Defesa de Israel, e especialista em contra-terrorismo), vamos conhecer o potencial das táticas brasileiras.

RIO DE JANEIRO: SEGURANÇA EM JOGO é uma coprodução entre Discovery Channel e Mixer. A direção é de Rodrigo Astiz e Pedro Gorski. Pelo Discovery Channel assinam Carla Ponte, Supervisora de Produção, e Michela Giorelli, Vice – Presidente de Produção e Desenvolvimento .

Advogado do goleiro Bruno diz a emissora de TV que é viciado em crack; vídeo cai na rede

O advogado Ércio Quaresma --defensor do goleiro Bruno Fernandes de Souza no caso do desaparecimento e suposta morte da ex-amante Eliza Samudio-- revelou nesta terça-feira a um programa de TV de Minas Gerais que é viciado em crack há oito anos e que vem lutando contra a droga.
Quaresma disse à TV Alterosa --afiliada do SBT em Belo Horizonte-- que o viciado de crack se torna um "escravo" da droga, que, segundo ele, é "depois da bomba de Hiroshima, a mais avassaladora que o ser humano pode ter inventado".
O que levou Quaresma a dar o depoimento foi o fato, segundo ele, de existir um vídeo em que o advogado aparece fumando crack. Ele, então, precipitou a declaração que já pretendia dar mais adiante, conforme disse, e fez a revelação antes que o vídeo vazasse.
Assista ao vídeo:




Quaresma disse que, ainda na adolescência, entrou no mundo das drogas --fumou maconha e cheirou cocaína. Ficou quatro anos sem consumir nada, conforme afirmou. "Tive uma recaída, e a partir de oito anos pretéritos eu tive um ingresso nesse tenebroso mundo do crack", afirmou.
Há um ano e meio ele começou a se tratar, tentando controlar a vontade de usar a droga. Cedeu em três oportunidades, conforme disse.
"Nesse período, eu tive três intercorrências com utilização de crack. Uma delas deve ter gerado essa filmagem. Esse é um assunto que eu queria ter trazido à baila antes".
Quaresma disse que não fez a revelação antes porque conversou com sua mulher, também advogada, e ela achou que não deveria. Disse ter respeitado a opinião dela, mas que não podia mais evitar, já que o vazamento seria inevitável.
"É uma doença que você não tem controle sobre você. No ápice da crise, não existe o ser humano, existe uma vontade incontida de, cada vez mais, fazer uso daquela substância nefasta."
LIVRO
Com a ajuda do psiquiatra Ronaldo Laranjeira ele tem feito o tratamento. Com ele também disse estar escrevendo um livro para tratar da luta difícil para se livrar do crack.
Quaresma disse fazer um tratamento pesado, tomando em média 12 comprimidos por dia de psicotrópicos.
Segundo o advogado, ele foi fumar o crack em uma favela situada atrás do Departamento de Investigações da Polícia Civil de Minas Gerais, onde aconteceram as investigações do caso Bruno.
"Eu tenho um dom, esse dom é a advocacia. Esse dom não vai sucumbir diante do vício do crack. Eu tenho uma família e ela não vai sucumbir diante do vício do crack."
VÍDEO
Quaresma disse ter sabido da existência do vídeo pela imprensa. Ele não apontou quem seria o autor da filmagem.
Por isso decidiu contar a sua luta. "É uma questão pessoal minha, de doença minha, não é um momento de felicidade, é momento de consternação, mas é momento de superação", disse, acrescentando: "E preciso ter cada vez mais força para lutar contra aquilo que me assola".
A Folha tentou falar com Quaresma, mas não conseguiu.

Orlandeli O dilema de Astolfo após abrir o biscoito da sorte


Sua vida acaba hoje




 

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Tráfico de pessoas: a vítima tem tudo a perder

Tráfico de pessoas: a vítima tem tudo a perder

Sob o título "Tráfico de pessoas", o artigo a seguir é de autoria de Edmundo Antônio Dias Jr., Procurador da República em Minas Gerais, e foi publicado originalmente no jornal "Estado de Minas" no dia 12/11:

Belo Horizonte sediou, nos dias 8, 9 e 10 de novembro, o I Encontro Nacional da Rede de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas, com os objetivos de fazer um balanço da execução do I Plano Nacional na matéria, bem como de formular diretrizes para o II Plano a ser elaborado. O tráfico de pessoas ainda é uma realidade no Brasil.  Para isso contribuem as marcas de autoritarismo de uma sociedade escravocrata formalmente abolida há 121 anos. Hoje, o tráfico de pessoas volta-se preponderantemente a abastecer as demandas da exploração sexual ou de mão de obra assemelhada à do trabalho escravo. A redução da pessoa a condição análoga à de escravo é crime previsto no art. 149 do Código Penal. O tráfico para fim de exploração sexual constitui os delitos do art. 231, se internacional, ou do art. 231-A, se interno.

No crime de redução a condição análoga à de escravo, as vítimas são cidadãos de direito e escravos de fato. Portanto, embora elas tenham, na expressão de Hannah Arendt, o direito a ter direitos, são impossibilitadas de exercê-los. É revelador que tal delito seja denominado como crime de plágio, do latim plagium, significando o roubo de uma pessoa. É disso que se trata, pois o que resta àquele de quem se subtraem a liberdade e a dignidade?

A traficância de pessoas para exploração sexual já era praticada na Roma Antiga, como um dos frutos podres das conquistas do Império Romano e, mais recentemente, mesmo países europeus que sofreram os efeitos perversos de guerras padeceram desse mal. Na atualidade, se há as pessoas (em sua grande maioria mulheres, mas também transexuais são vítimas do delito) que, cientes do que lhes espera, veem no traficante um benfeitor que pode lhes propiciar melhoria de vida ou, no caso do casamento servil, ascensão social, há de outro lado, ainda que em menor número, aquelas que assentem com a emigração diante da promessa enganosa de um trabalho de garçonete ou babá, p. ex.

A modernidade traz ainda outras cores grotescas ao tráfico de pessoas, qual o que é realizado para extração e comércio de órgãos como córneas ou rins. Em todos esses casos, excluído o tráfico interno às fronteiras nacionais, apresentam-se organizações criminosas transnacionais, nos termos definidos na Convenção de Palermo, ratificada pelo Brasil e aqui promulgada pelo Decreto 5.015/04. Um dos protocolos adicionais a essa Convenção cuida justamente da prevenção, supressão e punição do tráfico de pessoas.

Não é raro que uma pessoa que tenha sido traficada para prostituir-se passe de vítima a integrante da organização criminosa, voltando ao seu local de origem para aliciar outras mulheres, dando sequência, assim, ao ciclo vicioso. Daí a necessidade do acolhimento das vítimas, de modo que o Estado evite tanto a continuidade desse processo, como a revitimização de uma pessoa muitas vezes já fragilizada no tecido social do qual é oriunda.

De toda forma, a instrução de processos judiciais nessa seara é comumente bastante embaraçada, seja porque a organização criminosa atua em mais de um Estado nacional, dificultando o seu desbaratamento e a oitiva dos seus integrantes, seja porque algumas vítimas retornam ao país para onde inicialmente foram traficadas, o que contribui para a deficiência da prova.

Muitas vezes, sem visto de permanência no país de destino, as vítimas optam por ali viverem na clandestinidade, o que concorre para perpetuar a sua vitimização. A pessoa traficada, nesse caso, encontra-se em uma situação de ilegalidade que, embora de modo menos dramático, a aproxima de uma reflexão de Hannah Arendt sobre os refugiados. Celso Lafer, discípulo da pensadora alemã, e lembrando que ela mesma foi uma refugiada, cita um artigo de sua professora (We refugees), em que ela sintetiza da seguinte maneira a situação que vivenciou: “Perdemos nossos lares, o que significa a familiaridade da vida quotidiana. Perdemos nossas ocupações, o que significa a confiança de que temos alguma utilidade no mundo. Perdemos nossa língua, o que significa a naturalidade das reações, a simplicidade dos gestos...” Uma adequada política de imigração, no Estado de destino da pessoa traficada, pode, evidentemente, atenuar o problema.

PERFIL
Frederico Vasconcelos Frederico Vasconcelos, 64, nasceu em Olinda, Pernambuco. É formado em Jornalismo pela Universidade Católica de Pernambuco. Exerce a profissão desde 1967. Começou sua carreira em Recife, como repórter da sucursal Norte/Nordeste da revista "Manchete".
Fonte: Folha

Menina de 14 anos é primeira em ranking de leitores de livros

Menina de 14 anos é primeira em ranking de leitores de livros

1382 Menina de 14 anos é primeira em ranking de leitores de livros
Enquanto boa parte dos seus amigos gastam o dia moldando o sofá na sala de TV ou aquecendo a cadeira em frente ao computador, Marina Timm, 14 anos, devora páginas e páginas da literatura. São 23.194 delas apenas neste ano.
O feito rendeu à estudante o primeiro lugar no ranking do site Livros Só Mudam Pessoas. “É uma iniciativa que ajuda as pessoas a lerem mais”, explica o organizador, Sérgio Pavarini. Mensalmente os participantes informam o que leram no mês e se divulga o ranking no blog.
A devoradora de livros participa da iniciativa desde o ano passado, quando viu a sua mãe na lista. “A família inteira participa, mas esse ano disparei na frente de todos”, ri. O gosto da leitura vem de pequena, quando assistia à mãe e a avó abrirem obras na sua frente.
Marina não está em primeiro lugar pela sua quantidade de livros – 55 até outubro – e sim, pelo número de páginas (muito mais que o seu competidor mais próximo, com 16.056). É que a paixão da estudante são os romances históricos, especialmente os medievais e os de mistério. O livro que não sai das mãos da estudante da 8ª série agora é Ossos Inquietos, de Hugh de Singleton, sobre um assassinato na Idade Média, com 256 páginas. E o seu preferido é a coleção Percy Jackson do autor Rick Riordan, relacionado à mitologia grega. “Já li até o quarto da série”, diz quem se prepara para pegar o quinto da estante.
E o computador e a televisão? A garota de 14 anos afirma que costuma aproveitar a internet de tarde para ler à noite, mas já deixou a web de lado algumas vezes por causa de um enredo muito bom. Sobre a TV, Marina diz que não costuma incluí-la em sua rotina.
Os livros aproximam a menina das aulas, “porque gosto de romances históricos”, explica. Assim, ela consegue relacionar o enredo a conteúdos vistos em sala de aula. “Mas normalmente leio apenas por curiosidade pessoal”. Adolescentes tem muito o que aprender com Marina.

fonte: Terra

Velado e Revelado

Marina Silva

Ao longo de mais de 30 anos construiu-se no Brasil um campo de conhecimento e de ação que, nestas eleições, furou a última carcaça que ainda o mantinha longe do nível mais decisório da vida do país: a política. Com um rico acúmulo de produção teórica, experiências práticas, conquistas legislativas, institucionais e culturais, as propostas socioambientais para um modelo de desenvolvimento que dialogue com o século 21 começam a ser reconhecidas como um projeto nacional, abrindo uma brecha para a formação de nova força política.
Esse é o horizonte. Para consolidá-lo temos longa batalha pela frente, mas o passo essencial está dado. O projeto socioambiental não quer frear a economia nem empatar o crescimento. Quer tão somente fazer o encontro entre economia, ecologia, justiça social e desenvolvimento durável. É preciso amalgamar, juntar as pontas, dar escala e visibilidade ao que já está disperso na realidade, comparar com o modelo ainda dominante, transformar em alternativa real de escolha política.
O caminho está aberto, e muita gente, quase 20 milhões de pessoas, se interessou por ele. Pela primeira vez um projeto identificado com uma visão de transição de grande impacto consegue saltar do quase total desconhecimento para um adensamento eleitoral tão relevante. É uma base excepcional para pensar a construção de uma terceira via, para não só quebrar a polarização conservadora hoje representada pelo confronto PT X PSDB, como para motivar novos contingentes de brasileiros a assumir uma prática política ativa e nova, mais integradora, não destrutiva e menos obcecada por hegemonia.
A experiência de uma campanha desse porte extravasou minha capacidade de apreendê-la em toda sua riqueza, nesse momento. Vi-me entre um Brasil revelado – e que quer se revelar – e um Brasil velado, que quer se esconder na velha política das coisas meio vistas, meio ditas, meio comprometidas, meio esfumaçadas, inteiramente ultrapassadas. No cotejo entre ambos, fica patente o enorme equívoco do Brasil velado. Não percebe a intensa predisposição dos brasileiros a ouvir opiniões sinceras, que valorizam mesmo quando não concordam com elas. Preferem que a disputa se faça pela exposição do pensamento, das propostas e das práticas, não por meio de técnicas de mútua desconstrução, da qual ninguém sai maior. Nem atacante nem atacado, nem a ética nem a política.
Uma revelação honesta vale mais que a resposta ensaiada. Senti isso de maneira enfática na juventude. Em Varginha, Minas Gerais, uma escola inteira pressionou os professores para ir até o auditório da cidade ouvir minha fala. Em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, um grupo de jovens fez por sua própria conta cartazes improvisados de cartolina para aguardar nossa passagem. Essas manifestações movidas a pura vontade me deixam certa de que há uma terceira via política, vigorosa e inovadora, pedindo passagem. Para quem, como eu, disse que queria ser mantenedora de utopias, não poderia haver maior realização.
Ao mesmo tempo, constatei a força dos costumes que empurra muita gente a cobrar dos candidatos o ataque na jugular do oponente, o fazer dos defeitos alheios o seu trampolim. Ao me recusar a isso, parecia a muitos, num primeiro momento, que não estava sendo suficientemente contundente. Parte da imprensa vai muito por essa linha. O que surpreendeu a esses é que a nossa opção teve grande acolhimento. Há, de fato, espaço para tratar de problemas no seu mérito e na qualidade das soluções propostas.
Essas eleições merecem leituras criteriosas e profundas, não meras justificativas partidárias. É preciso reconhecer a exaustão do sistema político e a crise no campo social-democrata que acabou servindo, tanto do lado do PT quanto do PSDB, de biombo para a sobrevida política de velhas oligarquias. A campanha do Partido Verde causou perplexidade porque saiu do roteiro previsível e se legitimou de tal forma que exigiu respostas e sinalizações das demais campanhas. Que isso não seja considerado mero acidente de percurso, que não se pense que é modismo, porque não é.
Agora, o desafio do PV, do campo socioambiental e de todos aqueles que sentiram esperança numa mudança política, é colocá-la de pé. O desafio dos vencedores ou dos que ficarão na oposição é dialogar com a realidade e a complexidade do mundo e do Brasil de hoje, saindo do casulo de suas estratégias de poder reducionistas. Tenho certeza de que todos os eleitores esperam por isso, independentemente de suas paixões partidárias.
Como disse na Carta Aberta enviada a Dilma Roussef e José Serra, “não há mais como fechar os olhos ou dar respostas tímidas e insuficientes às crises que convergem para a necessidade de adaptar o mundo à realidade inexorável ditada pelas mudanças climáticas”. E repito aqui: o principal desafio não é a natureza, é a urgência de encararmos os limites dos nossos modelos de vida e de darmos um salto civilizatório, de valores.
A sociedade, afirmei na Carta Aberta, está entendendo cada vez mais o papel dessa mudança para o país, a humanidade e o Planeta. Os votos que me foram dados podem não refletir conceitualmente essa consciência, mas refletem o sentimento de superação de um modelo. E revelam também a intuição de que o grande nó está na política, porque é nela que se decide a vida coletiva, se consolidam valores ou a falta deles.
Essas eleições nos mostraram uma oportunidade única de inflexão. Será extremamente injusto com o Brasil não aproveitá-la.

Aceitação e consumo: o que as pessoas fazem por aceitação social?

Aceitação e consumo: o que as pessoas fazem por aceitação social?


Pessoas que se sentem excluídas de seus grupos sociais podem fazer um grande esforço para serem aceitas, até mesmo gastar dinheiro de forma excessiva e desenvolvendo hábitos excêntricos ou se envolvendo com o consumo de drogas. Essas são as conclusões de um artigo publicado no periódico Journal of Consumer Research.
Aceitação e consumo: o que as pessoas fazem por aceitação social? “A exclusão social força, de certa forma, algumas pessoas a usar o dinheiro e o consumo como uma forma de ‘afiliação’ a um determinado grupo”, diz Nicole Mead, pesquisadora da Universidade de Tilburg, na Holanda, que desenvolveu o estudo com outros pesquisadores de diversas universidades.
De acordo com os pesquisadores, essas pessoas que se sentem excluídas de determinados grupos sociais – o que é comum quando uma pessoa muda de cidade ou Estado – procuram pistas de como se encaixar novamente em um novo grupo. Elas então usam o consumo de forma estratégica para articular símbolos e criar novos laços sociais e relacionamentos.
Para chegar a essas conclusões os autores criaram “jogos de laboratório”, em que grupos de desconhecidos se reuniam. Alguns participantes eram induzidos a criar uma separação e isolar determinados indivíduos. As “reuniões” ocorriam durante vários dias, e notou-se que alguns indivíduos mudavam seu padrão de comportamento e de roupas, por exemplo. Em outro experimento os participantes formavam duplas, mas um dos indivíduos deixava de participar do experimento repentinamente, deixando a outra pessoa sozinha. Os padrões de consumo dessas pessoas, nos momentos após essa “rejeição”, também se alteravam.
Dois exemplos desse tipo de consumo podem ser vistos em um dos participantes, que para agradar a um grupo formado basicamente por orientais, se dispôs a pagar uma soma muito alta de dinheiro por uma determinada refeição (e cujo preço foi inflacionado pelos pesquisadores).
Em outro exemplo, um indivíduo, que antes do experimento afirmava nunca ter experimentado nenhum tipo de droga, após um tempo de isolamento social chegou a propor aos outros participantes que eles se envolvessem no consumo de cocaína.
Todos esses padrões de consumo (inclusive de artigos ilícitos) eram a forma que esses indivíduos isolados conseguiam barganhar a sua presença e aceitação entre os grupos sociais determinados nos estudos. E isso ocorre mesmo que os indivíduos isolados tenham de se engajar em atividades perigosas ou que não sejam parte de seu rol de preferências, finalizam os pesquisadores.

Depois de desmontar a retórica, Dilma restaura a face

Depois de desmontar a retórica, Dilma restaura a face

Sérgio Lima/Folha

Já no discurso da vitória, Dilma Rousseff iniciou a desmontagem da retórica de campanha. Acenou com o fechamento da torneira dos gastos.

Dias depois, em entrevista no Planalto, flertou com o estímulo à ressurreição da CPMF. Um contrasenso para quem, nos palanques, prometera reduzir o fardo tributário.

Nesta segunda (8), em sua primeira aparição pública depois do repouso pós-eleitoral de Itacaré (BA), Dilma deu mostras de que pode recobrar também a face.

A presidente eleita exibiu-se às lentes do repórter Sérgio Lima com um rosto que a candidata não se permitia usar. Coisa parecida com a cara dos tempos de ministra.

A nova maquiagem, de estilo caseiro, deixou transparecer as rugas que sobreviveram ao bisturi pré-eleitoral. Por um instante, Dilma voltou a ser Dilma.

Em campanha, auxiliada pela cabeleireira e roupeira Rose Paz, assessora full time, ela não ia ao meio-fio sem levar uma espessa camada de cosméticos ao rosto.

Agora, já se permite ganhar o asfalto com o semblante semi-lavado. A despeito do descanso de quatro dias, exalava cansaço.

Rumava para o aeroporto, onde tomaria o avião para Seul, na Coreia do Sul. Viagem longa e fatigante.

Na reunião do G-20, talvez tenha de fazer as pazes com o estojo de maquiagem. No retorno ao Brasil, é mellhor que aposente o apetrecho.

Primeiro, porque é desnecessário. Afora seus encantos naturais, o poder dotou-a de um tipo de beleza que magnetiza instantaneamente.

Segundo, porque, na volta, mergulhará na série de reuniões em que o ministério será fechado. Encontros que exigem cara feia.

No livro “História da Beleza”, Umberto Eco deu a um dos capítulos o seguinte título: “A Beleza dos Monstros”.

No texto, anotou que, em todas as culturas, a concepção do belo sempre foi contraposta à ideia do feio.

Ressalvou que, em geral, é “difícil estabelecer, pelos vestígios arqueológicos, se aquilo que está representado era realmente considerado feio” noutras épocas.

“Aos olhos de um ocidental contemporâneo”, escreveu Eco, “certos fetiches, certas máscaras de outras civilizações parecem representar seres horríveis e disformes, enquanto para os nativos podem ou podiam ser representações de valores positivos”.

Antes de Lula tê-la convertido em candidata, os políticos que visitavam a Casa Civil de Dilma viam nela uma representação do ser “horrível e disforme” de que fala Eco.

Uma criatura que, além da cara crispada, exibia a cintura dura –mais próxima dos rigores técnicos do que das manhas políticas.

Ao longo da campanha, ajudada pela treino oral e pelo retoque facial, Dilma passou a a ser vista pelos nativos como encarnação dos “valores positivos”.

Agora, considerando-se os apetites que a rodeiam, é melhor mesmo que Dilma apareça diante dos “aliados” com aquela sua bela cara de fera.

O rosto que usou na campanha perdeu, por assim dizer, a serventia. O assédio de homens faminto$ reclama da eleita um cenho severo.

O governo de Dilma estará mais próximo do êxito quanto maior for a sensação de desamparo de seus “aliados”.

O mais macho da coalizão –do tipo que não pede, exige; não encarece, chantageia— precisa se sentir como uma espécie de mulherzinha fragilizada.

A “nova” gestão roçará o sucesso no dia em que os membros do consórcio governista começarem a queimar cuecas em praça pública.

Em desespero, clamarão por seus “direitos”, rogarão pela volta do blush e do batom que adornavam a ex-candidata.

Pausa para pensar: Você tem um comportamento ético? Assista

Pausa para pensar: Você tem um comportamento ético? Assista

Comportamento ético está em alta nas organizações e é desejável e exigido por aqueles que têm interesse em vencer em um mundo competitivo baseado no desenvolvimento sustentável e na relação "ganha-ganha". Eugenio Mussak - colunista do Emprego Certo - afirma que ninguém é mais ou menos ético. "Ou somos éticos ou não somos", afirma Mussak. Veja mais em UOL Empregos

VI JEL JORNADAS DE ESTUDOS DA LINGUAGEM


VI JEL
JORNADAS DE ESTUDOS DA LINGUAGEM

02, 03 e 04 de DEZEMBRO de 2010

Local: Instituto de Letras da UERJ
Horário: 08h às 18h


O VI JEL – Jornadas de Estudos da Linguagem – é uma iniciativa da Área de Estudos da Linguagem do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

A finalidade do evento é oportunizar a troca de experiências acadêmicas entre pesquisadores, professores e alunos que se dedicam ao estudo da linguagem no Brasil e no exterior. Especificamente, as jornadas visam: a) reunir professores, pesquisadores e alunos de graduação, pós-graduação de diferentes instituições de ensino superior do Brasil para discutir questões concernentes ao uso da linguagem na sociedade; b) divulgar pesquisas desenvolvidas sobre aquisição e desenvolvimento de linguagem, ensino-aprendizagem de línguas, patologias verbais, gêneros do discurso, análise de discurso e práticas discursivas em contextos profissionais sob diferentes enfoques teóricos e abordagens metodológicas; c) dar visibilidade às linhas de pesquisa do Programa de Pós-graduação em Letras da UERJ que se dedicam ao estudo da linguagem; d) estabelecer contato com pesquisadores de outras instituições do país e do exterior que desenvolvem estudos sobre o tema.

Nesta sexta edição do JEL, destacam-se os múltiplos olhares sobre o tema linguagem, uma vez que serão acolhidas submissões de estudos da linguagem vinculados à Gramática Sistêmico Funcional, à Análise de Discurso de qualquer orientação, à Linguística Aplicada, à Linguística Gerativa, à Sociolinguística, à Linguística Cognitiva, dentre outras vertentes, além de trabalhos que utilizem a Linguística de Corpus como teoria ou metodologia. O intuito é motivar o debate acadêmico e a visibilidade de pesquisas que se apóiam em diferentes teorias, no Brasil e no exterior, sem se fechar em um único olhar, elencando possibilidades teóricas e metodológicas de análise deste objeto particular: a linguagem.

Os trabalhos serão reunidos a partir de temáticas comuns em seções coordenadas por professores convidados. Cada sessão temática contará com 5 trabalhos, somando um total de 60 trabalhos ao todo. Contaremos também com duas sessões de pôsteres.

Os interessados poderão submeter os trabalhos completos para publicação em CD-ROM a ser organizado pelo Comitê Científico do VI JEL, segundo as normas de publicação elencadas no site.

Aqueles que desejarem lançar ou realizar lançamento ou mostra de obras acadêmicas ou artísticas devem entrar em contato com a coordenação do Evento, no endereço eletrônico vijeluerj@gmail.com até o dia 30 de setembro de 2010.

SALAS E HORÁRIOS


Os detalhes das atividades serão divulgados na época apropriada.
Local do Evento
Instituto de Letras
11º andar, Bloco F
Abertura / Plenárias / Encerramento RAV 112
Sessão de Comunicação 1 LIDIL LAB 4
Sessão de Comunicação 2 LIDIL LAB 3
Sessão de Comunicação 3 RAV 112
Sessão de Pôsteres LIDIL LAB 1
Exposição Livros Hall do Bl F
Coffee-Break Sala F 1138
Lançamento de Livros LIDIL LAB 1
  

PROGRAMAÇÃO PRELIMINAR

 

Dia 02 de dezembro, quinta-feira

08-8:45– Inscrições e entrega de material
08:45 – Abertura solene
09-10:00 – Plenária - Aspectos sócio-cognitivos da referenciação: contribuições dos estudos neurolinguísticos
Edwiges Morato (Unicamp)
resumo | sobre a autora
INTERVALO 15 minutos: coffee-break e exposição de livros
10:15-12:15 – 1ª , 2ª e 3ª Sessão de Comunicação (5 apresentações de 20 minutos + 20 min debate)
12:15-13:15 – Almoço
13:15-14:00 – 1ª Sessão de PÔSTERES
14:00-16:00 – 3ª / 4ª / 5ª Sessão Coordenada
INTERVALO 30 minutos: coffee-break e exposição de livros
16:30-17:30 – Plenária - Como pensar mudanças na área da educação?
Cecília Souza e Silva (PUC-SP)
resumo | sobre a autora

17:30-18:00 – Lançamento de livros / exposição de livreiros

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Dia 03 de dezembro, sexta-feira

08-8:30 – Inscrições e entrega de material
8:30 -10:30 – 1ª, 2ª e 3ª Sessão de Comunicação
INTERVALO 30 minutos /exposição de livros
11-12:00 – Plenária
- Pedagogia e desenvolvimento da escrita: descrição e avaliação Carlos Gouveia (Universidade de Lisboa)
resumo | sobre o autor
12-13:00 – ALMOÇO
13-14:00 – 2ª Sessão de PÔSTERES – Alunos da graduação da UERJ
14-16:00 – 3ª , 4ª e 5ª Sessão de Comunicação
INTERVALO 30 minutos: coffee-break e exposição de livros
16:30-17:30 – Plenária - La enseñanza de la lectocomprensión de textos académicos en inglés y su contexto de apropiación.- Reflexión Didáctica
Josefina Lanzi de Zeitune (Universidad Nacional de Tucumán)
resumo | sobre a autora
17:30-18:00 – Encerramento e sorteio de livros

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Dia 04 de dezembro, sábado

08:30-9h– Inscrições e entrega de material
9h -10h– Oficina LSF
Carlos Gouveia (Universidade de Lisboa)
resumo | sobre o autor
INTERVALO 30 minutos /exposição de livros
10:30-12:30 - 1ª , 2ª e 3ª Sessão de Comunicação (5 apresentações de 20 minutos + 20 min debate)
12:30-13:30 – Almoço
13:30-14:30 – 3 ª Sessão de PÔSTERES – Alunos da graduação da UERJ
14:30-16:00 – 3ª , 4ª e 5ª Sessão de Comunicação
16:30– Coquetel de encerramento com música ao vivo

 
Local: Instituto de Letras da UERJ Departamento de Estudos da Linguagem Rua São Francisco Xavier, 524 - Sala 11033, bloco A, 11º andar Maracanã 20550-900 - Rio de Janeiro - RJ E-mails: vijeluerj@gmail.com  

INSCRIÇÕES

Para efetuar a inscrição, leia atentamente até o final desta página.
Categorias de inscrição:
• Alunos de graduação*: R$ 10,00 • Alunos de pós-graduação*: R$ 30,00 • Professores universitários e Pesquisadores: R$ 60,00 • Professores da rede pública e privada *: R$ 40,00 • Outros profissionais: R$ 60,00
* comprovação exigida
As inscrições serão realizadas online, através de formulário eletrônico e submissão de comprovante de depósito bancário na conta do VI JEL UERJ.
A inscrição deve ser feita somente após o pagamento, pois é necessário informar o número do comprovante do depósito e, em caso de DOC, o nome do banco.
Dados para Pagamento da Inscrição (depósito, transferência, ou DOC)
Banco Itaú
Agência: 6134 - Maracanã/UERJ
Conta poupança: 43003-9 /500
em favor de Tânia G. Saliés / Tânia Shepherd/ Sandra Bernardes
Comitê Organizador do VI JEL UERJ.
Alunos de graduação e pós-graduação, assim como professores da rede pública deverão submeter comprovante de matrícula e vínculo no ato da inscrição, eletronicamente, junto com o comprovante do depósito.
Todos os participantes precisam se inscrever, com ou sem submissão/apresentação de trabalhos.
 

FHC diz não endossar mais PSDB que não defenda a sua história

FHC diz não endossar mais PSDB que não defenda a sua história


MARIA CRISTINA FRIAS
COLUNISTA DA FOLHA

 
VINICIUS MOTA

SECRETÁRIO DE REDAÇÃO 


http://maierovitch.blog.terra.com.br/files/2009/03/a-fhc1.jpg "Não estou mais disposto a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), ontem, em entrevista no instituto que leva seu nome, no centro de SP.
Presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique defende que o partido anuncie dois anos antes das eleições presidenciais seu candidato. "O PSDB não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D."
O ex-presidente diz que Lula "desrespeitou a lei abundantemente" na campanha e que promove "um complexo sindical-burocrático-industrial, que escolhe vencedores, o que leva ao protecionismo".
Para FHC, a tradição brasileira de "corporativismo estatizante está voltando". Lula é uma "metamorfose ambulante que faz a mediação de tudo com tudo".
Folha - José Serra aproveitou a oportunidade do segundo turno como deveria?
Fernando Henrique Cardoso -
Cada um tem um estilo e Serra foi fiel ao estilo dele. Tomou as decisões dele na campanha, com o [marqueteiro Luiz] Gonzalez. Não fez diferente do que se esperaria de Serra como um candidato persistente, que define uma linha e, aconteça o que acontecer, vai em frente.
O PSDB, e não o Serra, tem outros problemas mais complicados. Não é falta de bons candidatos. O problema é ter uma noção do coletivo, uma linguagem que expresse o coletivo, que não pode ser fechado no partido. Numa sociedade de 130 milhões de eleitores, a mensagem conta muito --no conteúdo e no modo que se transmite.
Como o Lula ficou muito fixado numa comparação para trás, os candidatos esqueceram a campanha e não definiram o futuro. Esse é o desafio --para o PSDB também.
O nosso futuro vai ser, outra vez, fornecer produtos primários? Ou vamos desenvolver inovação, modificar a educação, continuar a industrialização. Isso não foi posto [na campanha]. Qual será nossa matriz energética. Preocupa-me muito a discussão do petróleo.
Nesse campo, o seu governo quebrou o monopólio da Petrobras e implantou o modelo de concessão. A fórmula proposta por Lula, de partilha, para o pré-sal, que traz novos privilégios à Petrobras, é melhor?
Não posso responder, porque não vi a discussão. Preocupa-me esse modelo porque força uma supercapitalização [da Petrobras] sem que se saiba bem qual será o modelo de venda desse petróleo. Essa forma de partilha proposta é uma estatização do risco. O risco quem corre é o Estado, ao contrário do modelo de concessão.
O que estamos fazendo é uma dívida. Isso obriga a sobrecapitalizar a Petrobras. Parece que não temos mais problemas de poupança no Brasil. Entramos numa ilusão tremenda nessa matéria. O Tesouro faz a dívida com o mercado e empresta para o BNDES ou para a Petrobras. É como se não precisássemos mais poupar. Mas a dívida está aí. Essa questão o PSDB não politizou.
O governo Lula mobiliza fundos públicos e paraestatais e patrocina a formação de grandes empresas no país, uma espécie de complexo "industrial-burocrático", parodiando o "industrial-militar" do Eisenhower [em 1961, ao deixar o governo, o então presidente dos EUA Dwight Eisenhower alertou para os riscos de uma influência excessiva do complexo industrial-militar para o processo democrático]. Há mais ruptura ou continuidade em relação ao processo que se iniciou no seu governo, quando o BNDES e os fundos de pensão das estatais viabilizaram as privatizações?
Tudo é uma questão de medida. Os fundos [de pensão] entraram na privatização porque já tinham ações nas teles e participar do grupo de controle lhes dava vantagem. Fizeram um bom negócios Mas tive sempre o cuidado da diversificação. No mundo integrado de hoje, convém que a economia tenha um setor público eficiente e que tenha um setor privado, nacional e estrangeiro. Tentamos equilibrar isso.
O problema agora é de tendência, de gigantismo de uns poucos grupos, nesse complexo, que na verdade é sindical-burocrático-industrial, com forte orientação de escolher os vencedores. Isso é arriscado do ponto de vista político e leva ao protecionismo.
A máxima "política tem fila" foi usada para defender a precedência de Serra sobre Aécio na eleição de 2010. A fila andou ontem? Chegou a vez de Aécio Neves no PSDB?
Eu não posso dizer que passou a primeiro lugar, mas que o Aécio se saiu bem nessa campanha, se saiu. Não posso dizer que passou a primeiro lugar porque o Serra mostrou persistência e teve um desempenho razoável.
Não diria que existe um candidato que diga: "Eu naturalmente serei". Mas o PSDB também não pode ficar enrolando até o final para saber se é A, B, C ou D. Dentro de dois anos temos de decidir quem é e esse é tem de ser de todo mundo, tem de ser coletivo.
Não estou disposto mais a dar endosso a um PSDB que não defenda a sua história. Tem limites para isso, porque não dá certo. Tem de defender o que nós fizemos. A privatização das teles foi bom para o povo, para o Tesouro e para o país. A privatização da Vale foi um gol importante, porque, além do mais, a Vale é uma empresa nacional. A privatização da Embraer foi ótima.
Então por que não dizer isso? Por que não defender? Privatizar não é entregar o país ao adversário, pegar o dinheiro do povo e jogar fora. Não. É valorizar o dinheiro do país. Tudo isso criou mais emprego, deu mais renda para o Estado.
Do ponto de vista econômico, as questões estão bem encaminhados. Os motores da economia são fortes. Os problemas maiores são em outras áreas: educação, segurança, democracia, igualdade perante a lei, droga. Não é para saber se a economia vai crescer, é se a sociedade vai ser melhor.
Sobre a democracia no Brasil, o sr. escreveu, recentemente, que é uma maquinaria institucional em andamento, mas que lhe falta o "espírito": "a convicção na igualdade perante a lei, a busca do interesse público e de um caminho para maior igualdade social". Sinais desse espírito no processo eleitoral que se encerrou?
Francamente não vejo. O presidente Lula desrespeitou a lei abundantemente. Do ponto de vista da cultura política, nós regredimos. Não digo do lado da mecânica institucional --a eleição foi limpa, livre. Mas na cultura política, demos um passo para trás, no caso do comportamento [de Lula] e da aceitação da transgressão, como se fosse banal.
Houve abuso do poder político, que tem sempre um componente de poder econômico. Quantos prefeitos foram cassados aqui em São Paulo, por exemplo em Mauá, por abuso do poder econômico? Por nada, comparado com esse abuso a que assistimos agora. Não posso dizer que houve progresso da cultura democrática brasileira.
Aqui está havendo outra confusão. Pensar que a democracia é simplesmente fazer com que as condições de vida melhorem. Ela é também, mas não se esqueça que as ditaduras fazem isso mais depressa.
Como o sr. vê a volta de temas como religião na campanha?
Com preocupação. O Estado é laico, e trazer a questão religiosa para primeiro plano de uma discussão política não ajuda. Todas as religiões têm o direito de pensar o que queiram e de pregar até o comportamento eleitoral de seus fieis. Mas trazer a questão como se fosse um debate importante, não acho que ajude.
A dose dos chamados marqueteiros nas campanhas tucanas está exagerada?
Sim, em todas as campanhas. Nós entramos num marquetismo perigoso, que despolitiza. Hoje a campanha faz pesquisas e vê o que a população quer naquele momento. A população sempre quer educação, saúde e segurança, e então você organiza tudo em termos de educação, saúde e segurança.
Sem perceber que a verdadeira questão é como você transforma em problema uma coisa que a população não percebeu ainda como problema. Liderar é isso. Aí você abre um caminho. A pesquisa é útil não para você repetir o que ela disse, mas para você tentar influenciar no comportamento, a partir de seus valores.
Suponha uma pesquisa sobre privatização em que a maioria é contra. A posição do líder político é tentar convencer a população [do contrário]. O que nós temos na campanha é a reafirmação dos clichês colhidos nas pesquisas. Onde é que está a liderança política, que é justamente você propor valor novo. O líder muda, não segue.
Como mostrar as diferenças entre PT e PSDB? As ideias tucanas não são difíceis de assimilar?
Você se lembra de quando fui presidente? A ambição de todo mundo era cortar a burocracia. Por quê? Porque foi politizado.
É preciso politizar, e não é na hora da campanha.O PSDB, quando digo que tem que ter por referência o coletivo e ter um projeto, é agora. Não é para daqui a quatro anos. Daqui a quatro anos é tarde. Ou durante quatro anos você martela os seus valores e transforma os seus valores em algo que é compartilhado por mais gente, ou chega lá e não consegue. É tarde.
Mas o PSDB deixou o Lula falando sozinho um bom tempo.
Não foi só o PSDB. Foi todo mundo. Quando o nosso sistema presidencialista é exercido a partir de uma pessoa carismática como o Lula e que tem por trás um partido organizado, ele quase se torna um pensamento único.
Aqui, fora da campanha, só o governo fala. Quando fala sem parar, o caso atual, e sob forma de propaganda, fica difícil de controlar. No meu tempo, também era o governo que falava. Como não tenho o mesmo estilo e não usava uma visão eleitoreira o tempo todo, não aparecia tanto. Mas isso é da cultura brasileira.
Jornal dá o "outro lado", mas a TV não dá --só dá na campanha. O que a mídia em geral transmitiu ao longo desses oito anos? Lula, violência e futebol.
A oposição, liderada pelo PSDB, ficou mais forte nos Estados e mais fraca no Congresso. Como fará para resistir à força gravitacional do Planalto?
Não é fácil, porque os Estados têm interesses administrativos. Mas um pouco mais de consistência oposicionista pode. No regime militar, Montoro e Tancredo eram governadores e se opunham. É preciso recuperar um pouco essa dimensão política.
Mas o carro chefe para puxar [a oposição] não pode ser o governador. Tem de ser o partido. E não é o PSDB só. Esses 44 milhões [votação de Serra no domingo] não são do PSDB. É uma parte da sociedade brasileira que pensa de outra maneira. E não se pode aceitar a ideia de que são os mais pobres contra os mais ricos. Nunca vi uma elite tão grande: 44 milhões de pessoas.
A polarização nacional entre PT e PSDB completou 16 anos. Tem feito mais bem ou mais mal ao Brasil?
O que o Chile fez na forma da Concertação [a aliança entre o Partido Socialista e a Democracia Cristã que governou o Chile de 1990 a 2010], fizemos aqui sob a forma de oposição. Há muito mais uma linha de continuidade que de quebra. Queira ou não queira, o pessoal do PT aderiu, grosso modo, ao caminho aberto por nós. Isso é que deu crescimento ao Brasil. A briga, na verdade, é pelo poder, não é tanto pelo conteúdo que se faz. No tempo que cheguei lá, eu escrevi o que ia fazer e fiz. Nunca mudei o rumo. O Lula mudou o rumo. Agora acho que tem aí o começo de um rumo que não é o mesmo meu, que é esse mais burocrático-sindical-industrial. E tem uma diferença na concepção da democracia, e o PSDB tem de acentuar essa diferença.
Mas o que seria essa social-democracia?
Social-democracia, vamos devagar com o ardor. O sujeito da social-democracia europeia eram a classe trabalhadora e os sindicatos. Aqui são os pobres. O Lula deixou de falar em trabalhador para falar em pobre. Mudou. Nós descobrimos uma tecnologia de lidar com a pobreza, mas estamos por enquanto mitigando a pobreza.
Tem de transformar o pré-sal em neurônio. Esse é o saldo para uma sociedade desenvolvida. Social-democracia hoje é isso. É inclusão social, respeitando o mercado, sabendo que o Estado terá um papel importante, mas não é tudo, e que o mercado tem de ser regulado de olho numa inclusão que não seja só de mitigação. Não pode ter predomínio do olhar do Estado. Está se perfilando, no PT e adjacências, uma predominância do olhar do Estado, como se o Estado fosse a solução das coisas. Continuo achando que o Estado é indispensável, mas a sociedade deve ter uma participação mais ativa. Os movimentos sociais estão todos cooptados.
Então a diferença entre PT e PSDB, para o sr., se dá em relação ao papel do Estado.
Mas não no sentido de não ter papel para o Estado. No sentido de que esse papel tenha de ser de um Estado que se abra para a sociedade. Não de um Estado burocrático, que se imponha à sociedade.
A nossa tradição é de corporativismo estatizante, e isso está voltando. É uma mistura fina, uma mistura de Getúlio, Geisel e Lula. O Lula é mais complicado que isso, porque é isso e o contrário disso. Como é a metamorfose ambulante, faz a mediação de tudo com tudo.
Lula sempre faz a mediação para que o setor privado não seja sufocado completamente. Não sei como Dilma vai proceder.
O sr. sente que isso tende a se aprofundar nesse novo governo?
Sim, a segunda parte do segundo mandato de Lula foi assim. A crise global deu a desculpa para o Estado gastar mais. E o pobre do Keynes pagou o preço. Tudo é Keynes [O economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946) defendeu, em sua obra "Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda", a intervenção do Estado na economia para controlar as crises econômicas]. Investimento não cresceu, gasto público se expandiu, foi Keynes.
Não acho que o Brasil vá no sentido da Venezuela porque a sociedade nossa é mais forte. Aqui há empresas, imprensa, universidades, igrejas, uma sociedade civil maior, mais forte. Isso leva o governo a também ter cautela. Veja o discurso da Dilma de ontem [domingo]. Ela beijou a cruz.
Como todo mundo percebia uma tendência nesse sentido, ela disse: "Olha aqui, vou respeitar a democracia, vou dar a mão a todos". Ela tem que dizer isso, porque senão ela não governa.
O que esperar de Dilma Rousseff, que estreia num cargo eletivo logo na Presidência, no dia 1º de janeiro?
Nós não sabemos não só o que ela pensa, mas como é que ela faz. O Brasil deu um cheque em branco para a Dilma. Vamos ver o que vai acontecer com a conjuntura econômica, mundial e aqui. Há um problema complicado na balança de pagamentos, um deficit crescente, uma taxa de juros elevada e uma taxa de câmbio cruel. 

Fonte: Folha

Setores conhecidos por agredir meio ambiente doam valores expressivos à campanha de Marina

Setores conhecidos por agredir meio ambiente doam valores expressivos à campanha de Marina

Débora Zampier
Da Agência Brasil
Em Brasília
Empresas de segmentos conhecidos por agredir o meio ambiente, como metalurgia, mineração, papel e celulose, fertilizantes e cana-de-açúcar, foram responsáveis pela doação de um montante expressivo da campanha da candidata do Partido Verde (PV) à Presidência da República nas eleições deste ano, Marina Silva: cerca de R$ 3 milhões. O valor corresponde a 12,5% do total arrecadado - R$ 24,1 milhões.


Só na área de mineração e metalurgia, arrecadou-se quase R$ 1 milhão. A Companhia Brasileira de Siderurgia e Mineração contribuiu com R$ 300 mil; a Companhia Metalúrgica Prada, com R$ 150 mil; e a Urucum Mineradora, com R$ 500 mil. No ramo de fertilizantes, as doações foram da Fosfértil (R$ 600 mil) e da Bunge Fertilizantes (R$ 100 mil).

No ramo de papel e celulose, a Suzano contribuiu com R$ 532 mil e a Klabin com R$ 250 mil. A Cooperativa de Produtores de Cana de Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar) doou R$ 250 mil e a Cosan, uma das maiores produtoras mundiais de cana-de-açúcar, também doou R$ 250 mil.


O principal segmento que doou para a campanha de Marina foi o da construção, que sozinho respondeu por mais de R$ 3 milhões. As contribuições foram da Andrade Gutierrez (R$ 1,1 milhões), Camargo Correa (R$ 1 milhão) e Construcap (R$ 1 milhão).


O segmento bancário também foi expressivo na arrecadação, responsável por quase R$ 3 milhões. O maior doador foi o Banco Alvorada (empresa que doou o maior montante da campanha), com R$ 1,7 milhões, seguido pelo Itaú Unibanco, com R$ 1 milhão, Banco Safra, com R$ 200 mil, e Banco Rodobens, com R$ 50 mil.