Opções inteligentes de lazer podem ajudá-lo a reduzir o estresse, fortalecer o sistema imunológico e aumentar a autoestima

 Opções inteligentes de lazer podem ajudá-lo a reduzir o estresse, fortalecer o sistema imunológico e aumentar a autoestima

Por André Bernardo/ Ilustração Roberto Weigand


Pela manhã, eles mal acordam e já estão no celular, resolvendo pro blemas do escritório. Na hora do almoço, não se alimentam direito, de tão preocupados que estão com a reunião das 16 h. À noite, quando chegam em casa, em vez de se refestelarem na cama para uma revigorante noite de sono, varam a madrugada na frente do computador.
Esforçados, detalhistas e exigentes, os workaholics - termo inglês que designa pessoas viciadas em trabalho - não sabem a hora de parar. E, nas raras vezes que conseguem, só pensam em metas, prazos e custos. "Pouquíssimas pessoas sabem viver. A grande maioria apenas sobrevive", afirma o preparador físico Nuno Cobra.
Abaixo o controle remoto
Pensando nisso, a VivaSaúde ouviu especialistas das mais diferentes áreas e preparou um roteiro com oito opções saudáveis e prazerosas para você aproveitar melhor o seu tempo livre. Acredite: há coisas mais interessantes a fazer do que simplesmente sentar na poltrona, pegar o controle remoto e zapear a televisão.

"O ideal é que as pessoas dediquem de 40 a 60 minutos do dia à prática de alguma atividade de lazer", analisa o cardiologista Marco Antônio de Mattos, diretor do Instituto Nacional do Coração (INC). "É importante escolher alternativas que reduzam o nível de estresse, já que esse é um dos principais fatores de risco para doenças cardíacas", alerta.
Repor energia
Algumas atividades são tão simples e corriqueiras, como ler um bom livro, dar uma gostosa gargalhada ou cantarolar a sua música favorita, que podem ser feitas em casa, ao acordar, ou antes de dormir. Outras, porém, como aprender a dançar, praticar uma luta e fazer um trabalho voluntário, exigem um pouco mais de planejamento e disciplina.

"Muitas pessoas alegam falta de tempo para praticar uma atividade. Mas, se o dia tivesse 36 horas, elas continuariam a reclamar do mesmo problema.
O que elas não sabem é que repor energia é tão importante quanto gastar", alerta a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (Isma).
1- Relaxar sobre duas rodas
Se existe uma maneira mais saudável e prazerosa de aproveitar o tempo livre, o empresário Alberto Borges de Almeida, 52, não conhece. Ele gosta tanto de pedalar que transformou o hobbie em profi ssão. Empresário do ramo, Alberto promove passeios ciclísticos no Rio de Janeiro (RJ), pelo menos duas vezes por semana. "Além de vender bicicletas, incentivo a prática do ciclismo. Há clientes que compram, usam uma única uma vez e, depois, a transformam em cabide de roupas", lamenta Alberto, que pedala 24 horas por semana. O que não faltam são motivos para quem deseja começar a pedalar ainda hoje. Além de ser considerada o meio de transporte mais "ecologicamente correto" que existe, a bicicleta também tonifi ca os músculos, melhora a respiração, previne doenças e gasta calorias.

Ao ar livre, uma hora de exercícios consome em torno de 350 calorias. No spinning, o gasto calórico pode chegar a 600. "Além de oferecer as mesmas vantagens que a corrida, andar de bicicleta não sobrecarrega as articulações porque não gera impacto", salienta o professor de Educação Física Carlos Ruhl, da Upper Sport Site Club, no Rio.
2- Cantar ou tocar um instrumento
Pode até não espantar os males, mas o canto ajuda a proporcionar bem-estar. É o que garante médicos das mais diferentes especialidades, que utilizam a música como recurso terapêutico no tratamento de doenças como hipertensão, ansiedade e câncer. "A musicoterapia é um excelente complemento a terapia convencional. A proposta é fortalecer emocionalmente o paciente para que ele aprenda a lidar melhor com os sintomas da doença", avalia a psicóloga e musicoterapeuta Cristiane Ferraz Prade, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Estudos recentes garantem que a música potencializa a reabilitação de pacientes com quadros de doenças degenerativas do cérebro e melhora a coordenação motora de deficientes físicos. Durante sete anos, o psiquiatra Daniel Chutorianscy coordenou o projeto Conto com você - magia e encantamento no Hospital Infantil Getúlio Vargas Filho, em Niterói (RJ). Segundo ele, a iniciativa proporcionou uma redução de 30% no tempo médio de internação dos pacientes. "Música é um grande aliado terapêutico porque estimula imunologicamente o indivíduo", garante o psiquiatra.
3- Ser voluntário
Fazer o bem ao próximo, quem diria, é benéfico à saúde. Não só de quem recebe, mas, principalmente, de quem pratica a boa ação. Quem garante é o neurocientista Jorge Moll Neto, da Rede Labs-D'or, no Rio de Janeiro. A prática da boa ação, garante o especialista, alivia tensões, reduz o estresse, fortalece o sistema imunológico e aumenta a expectativa de vida dos voluntários.

Segundo Neto, praticar uma boa ação ativa uma área do cérebro chamada mesolímbica - a mesma que é acionada quando comemos chocolate ou ganhamos dinheiro. "Esse estudo comprova que, quando nos engajamos em um trabalho voluntário, experimentamos uma sensação de prazer e bem-estar, não somente enquanto realizamos tal tarefa, mas na vida como um todo. Se os egoístas não tinham uma boa razão para fazer o bem, agora eles têm!", brinca o neurocientista.

4- Ler uma revista ou um livro
Ler está longe de ser a melhor opção para emagrecer. Em uma hora, o organismo consome apenas 126 calorias. Os especialistas, no entanto, garantem que, quando o assunto é manter o cérebro, digamos, "sarado", a leitura é imbatível.

"Nenhuma outra atividade mobiliza tantas variações da memória quanto a leitura de livros, jornais e revistas. Mas não basta simplesmente ler. É preciso refletir sobre o que está sendo lido", enfatiza o neurologista João Roberto Azevedo.
Além de apresentar problemas de memória e dificuldades de aprendizado, um cérebro sedentário também atrofia as células nervosas e torna o indivíduo mais suscetível a doenças.
É por essas e outras que o escritor e médico Moacyr Scliar aconselha o hábito da leitura a todos os seus leitores (e pacientes). Para ele, tão benéfico quanto ler um bom livro é exercitar a escrita. "Escrever um diário, ou manter contato com outras pessoas por cartas e e-mails, é um ótimo estímulo para as nossas células cerebrais", afirma o escritor. Scliar gosta tanto do tema que escreveu uma crônica bem-humorada sobre os efeitos terapêuticos da leitura. Em Ler faz bem à saúde, o escritor diz que, "entre ir à farmácia e comprar alguma substância duvidosa para fortificar o cérebro, ou escolher um bom livro, recomenda a última opção". E explica o porquê: "É mais eficiente, mais barata, dá mais prazer e, a menos que a pilha de livro na mesa de cabeceira caia em cima do leitor, não tem efeitos colaterais".
5- Dar uma boa gargalhada
Você já riu hoje? Se não esboçou nem um sorriso sequer, é bom se apressar. A ciência volta a confirmar a máxima de que "rir é o melhor remédio". A conclusão, desta vez, partiu do Centro Médico da Universidade de Maryland, nos EUA, que convocou voluntários para assistir a dois filmes: o drama O resgate do soldado Ryan e a comédia Quem vai ficar com Mary? Ao término da sessão, os pesquisadores verificaram que, ao soltar boas risadas, o fluxo arterial aumentou em até 50%, o que é ótimo para o funcionamento do coração. Mas rir não ativa apenas o sistema cardiovascular. Uma gargalhada reduz a tensão muscular, combate o estresse e reforça o sistema imunológico. "O riso produz uma sensação de relaxamento que é benéfica à saúde do indivíduo.

Em alguns casos, pode até ajudar na recuperação de um paciente hospitalizado porque equilibra a pressão arterial e a frequência cardíaca", afirma a neurocientista Silvia Helena Cardoso, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
6- Namorar mais
Namorar faz bem ao organismo. E à autoestima também. É o que reafirma um estudo da Associação Americana para o Progresso da Ciência. A neurocientista Wendy Hill pesquisou o comportamento de 15 casais de estudantes, divididos em dois grupos. Enquanto os pares do primeiro grupo se beijaram durante 15 minutos (com direito à luz suave e música romântica), os do segundo grupo tiveram que se contentar em apenas conversar durante esse período.

Por meio da análise de sangue e urina dos participantes, a pesquisadora verificou que os níveis de cortisol - hormônio ligado ao estresse - dos membros do primeiro grupo despencaram, enquanto os do segundo grupo se mantiveram inalterados. O resultado da pesquisa não surpreendeu o psicólogo Thiago de Almeida, da USP, especialista em relacionamentos amorosos. Segundo ele, além de reduzir o estresse e aliviar as tensões, estar apaixonado ajuda a combater doenças, como ansiedade e depressão. "O amor fortalece o sistema imunológico contra agentes patogênicos, como vírus, fungos e bactérias", confirma.

7- Lutar pela boa forma
Para os que não têm lá muita paciência para enfrentar esteiras, supinos e abdominais nas academias de musculação, uma boa dica para manter a forma é ir à luta. Literalmente. A prática de algumas delas, como boxe, capoeira e caratê, entre outras, é excelente para desenvolver a musculatura cardíaca, aumentar a capacidade pulmonar e melhorar a coordenação motora. O hábito de distribuir jabs, arriscar uma "meia-lua de frente" ou fazer um ague uke - golpes típicos do boxe, da capoeira e do caratê, respectivamente - ajudam a liberar adrenalina, reduzir o estresse e aliviar tensões.

"Em vez de extravasar as tensões no chefe, no marido ou na sogra, os alunos descontam tudo no saco de areia. Muitos chegam de um jeito e vão embora de outro. Eles saem cansados fisicamente, mas revigorados psicologicamente", assegura o professor de Educação Física Edgar Martins, da Companhia Athletica, no Rio. A estudante Ana Cláudia Monteiro, 26, é das muitas que, na hora do estresse, corre para o ringue. "Antigamente, vivia estressada. Nos dias de TPM, então, nem se fala. Hoje, já me sinto melhor só de colocar as luvas. Não conheço válvula de escape melhor", elogia.
Reserve 40 minutos do seu dia para prática de alguma atividade, física ou mental. E prefira aquelas que aliviam o estresse
8- Dançar e se divertir
Samba, tango ou bolero. Não importa o ritmo, o que vale é dançar. É assim que pensa o casal Emídio e Maria Tereza. Casados há 35 anos, os dois passaram boa parte dos últimos três anos na Escola de Dança Marinho Braz, no Rio. Começaram a dançar por insistência dela. Com o colesterol nas alturas, Maria Tereza, 56, precisava fazer uma atividade física de qualquer maneira. "Nunca gostei de malhação, mas, desde pequena, adorava sambar. Quando o cardiologista viu o meu último exame, nem acreditou", brinca.

O taxista Emídio Moura, 65, não esconde de ninguém que começou a aprender a dançar meio a contragosto. Hoje, quando ele não pode ir à aula por algum motivo, só falta cair doente. "Cansei de ficar em casa, assistindo ao telejornal. Em vez de distrair a cabeça, fico ainda mais deprimido. Na academia, não. Quando aprendo uns passos novos, nem sinto o tempo passar. Além de exercitar a forma física, também faço novos amigos", ressalta.
Para a professora de dança Najla Coelho, 24, a lista de benefícios dessa atividade não tem fim: melhora a coordenação motora, combate o sedentarismo, previne doenças e tonifica os músculos.
O maior deles, porém, é melhorar a autoestima. "As salas espelhadas são um convite para os adeptos da dança cuidarem mais de si mesmos", afirma Najla, acrescentando que qualquer pessoa, "até quem jura que não leva jeito", pode aprender a dançar. Só é preciso ter motivação.

Fonte: Viva Saúde

Filme "Amor Sem Escalas"

Com seis indicações, "Amor Sem Escalas" está entre os destaques do Globo de Ouro

 


A Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood divulgou na manhã desta terça (15) os indicados ao prêmio Globo de Ouro 2010. Entre os dramas, "Amor Sem Escalas" foi o grande destaque, com indicações a melhor filme e direção. Entre as comédias e musicais, destacaram-se "Julie & Julia" e "Nine". Uma curiosidade nestes gêneros, foi a indicação dupla de Meryl Streep para melhor atriz de comédia, por suas interpretações em "Julie & Julia" e "It´s Complicated".

  • Divulgação George Clooney em cena ''Amor sem Escalas'', de Jason Reitman





Árduos avanços Persistência da pobreza amplia incertezas das pesquisas de medicamentos e tratamentos contra tuberculose

 Árduos avanços 

Persistência da pobreza amplia incertezas das pesquisas de medicamentos e tratamentos contra tuberculose
 
© Evelyn Hockstein
Nurdinir Mayoyo (direita) entrega um maço de verdura para reforçar a dieta de Celestine Benja, em tratamento

As promessas de ter em mãos rapidamente novos medicamentos contra tuberculose não se concretizaram. A Stop TB Partnership, uma ramificação da Organização Mundial da Saúde (OMS), previu em 2006 que pelo menos um novo remédio contra uma das doenças mais antigas da humanidade estaria pronto para uso até 2010. “Não conseguimos”, reconheceu Christian Lienhardt, um dos representantes da Stop TB Partnership no congresso sobre tuberculose realizado no início de dezembro em Cancún, cidade litorânea do sudeste do México, “mas estamos perto de nossas metas”. Pela primeira vez, 20 novas moléculas aparentemente capazes de deter as colônias de Mycobacteria tuberculosis encontram-se em desenvolvimento ao mesmo tempo. A maioria atravessa os estudos preliminares em animais de laboratório, mas três já estão na fase inicial de testes de segurança e eficácia em seres humanos, outras três na segunda etapa e duas na etapa final. O cenário otimista é que dois ou três novos medicamentos estejam aptos para registro nos órgãos governamentais e liberação para uso amplo em seres humanos em 2015.
“Esta é uma oportunidade histórica para mudarmos o modo como a tuberculose é tratada”, enfatizou Zhenkun Ma, diretor científico da Global Alliance for TB Drug Development (TB Alliance), instituição que reúne institutos de pesquisa, empresas e governos em busca de novos remédios contra uma doença que matou 1,8 milhão de pessoas em 2008, incluindo 500 mil com o vírus HIV, causador da Aids. Em média 4.500 pessoas morrem por causa da tuberculose a cada dia – ou uma a cada 20 segundos. No Brasil, de acordo com um relatório da OMS distribuído no início de dezembro, 92 mil pessoas (incluindo 13 mil com HIV) descobriram em 2007 que estavam com tuberculose. Esse documento reconhece os avanços dos programas de controle, mas alerta que as taxas de detecção e de tratamentos bem- -sucedidos ainda estão abaixo dos níveis globais propostos pela OMS.
Mesmo que apresentem uma toxicidade aceitável, não interfiram em outros remédios e se mostrem eficazes contra as bactérias causadoras dessa doença, os novos medicamentos terão de enfrentar outras barreiras antes de chegar às mãos de pelo menos uma parte dos 9 milhões de pessoas que a cada ano recebem o diagnóstico positivo de tuberculose. O que se espera das novas drogas é que permitam tratamentos mais simples e mais breves que os atuais, que consistem no uso de quatro antibióticos por pelo menos seis meses. “Tratamentos mais curtos implicam mais adesões, maior índice de cura, menos sacrifícios para os pacientes e risco menor de surgimento de linhagens de bactérias resistentes a medicamentos”, comentou William Wells, diretor de acesso ao mercado da TB Alliance.
As linhagens de Mycobacterium tuberculosis resistentes aos antibióticos mais usados contra tuberculose preocupam por várias razões. Primeiramente porque se espalham pelo mundo, com registros em pelo menos três estados brasileiros, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Goiás. Outra razão é que essas formas mais graves da doença, que exigem tratamentos mais longos e intensivos, têm sido subdiagnosticadas. “Menos de 3% dos estimados 500 mil casos de tuberculose multirresistentes são detectados e tratados”, afirmou Jeremiah Chakaya, diretor do Instituto de Pesquisa Médica do Quênia, no congresso em Cancún. As drogas hoje disponíveis contra a tuberculose multirresistente ainda são poucas, caras e causadoras de intensos efeitos colaterais.
duas doenças
Outra expectativa que cerca os medicamentos em testes é a possibilidade de uso conjunto com outros medicamentos, especialmente os antirretrovirais usados para deter o HIV, que se manifesta em 1,4 milhão de pessoas portadoras de tuberculose (15% do total). Atualmente os antibióticos reduzem a ação dos medicamentos contra o HIV, criando situa­ções bastante difíceis para quem tem ou se dispõe a tratar as duas doen­ças. “A tuberculose mata as pessoas com HIV”, afirmou Lee Reichman, professor de medicina preventiva na Universidade de Nova Jersey, Estados Unidos. “É um paciente, duas doenças e um só sistema de saúde. Os programas de prevenção e tratamento de tuberculose e de Aids deveriam trabalhar juntos, mas isso nem sempre ocorre.” Como exigência adicional, os novos medicamentos terão de ser produzidos em larga escala e ter preços acessíveis mesmo para os países mais pobres do mundo, onde vive a maioria das pessoas com tuberculose, geralmente em casas precárias repletas de gente.
“Se você não tem ar fresco e luz do sol, está sujeito a um risco muito maior de contrair a doença”, disse Peg Willingham, diretora de políticas externas da Aeras Global, instituição não lucrativa à frente das pesquisas que possam levar a vacinas mais eficazes que a BCG para prevenir a infecção latente e o aparecimento da doença. Usada desde 1921, a BCG deixou de apresentar resultados satisfatórios. Em colaboração com universidades, empresas farmacêuticas e governos, a Aeras coordena as pesquisas de seis das 14 novas vacinas em desenvolvimento – quatro delas em testes em seres humanos na África. Peg acredita que os estudos de avaliação de uma vacina nova, mais efetiva, segura e acessível que a BCG possam estar prontos até 2016. Mas, em uma conversa com jornalistas, preveniu: “Não há garantias de sucesso em pesquisa médica”.
A cautela se justifica porque os obstáculos são muitos. Segundo ela, os testes da terceira e última etapa de avaliação da eficácia e segurança de apenas uma dessas candidatas a novas vacinas podem custar US$ 160 milhões e mobilizar 5 mil participantes voluntários ao longo de quatro anos. Um dos desafios é conseguir o apoio de representantes de órgãos de governo, que podem demorar alguns anos para responder aos pedidos de realização dos testes clínicos, e depois, caso os estudos tenham sido bem-sucedidos, para conceder o registro final do medicamento para uso em campanhas de saúde pública.
À falta de compromisso político dos governantes com a pesquisa médica somam-se dificuldades logísticas. Como em muitos países da África faltam laboratórios, microscópios, médicos e enfermeiros que possam confirmar o diagnóstico – o primeiro passo para iniciar o tratamento –, não é fácil levar adiante as avaliações de novos medicamentos. Em um artigo publicado em outubro de 2009 na revista Human Vaccines, Antony Hawkridge, coordenador da Aeras na África instalada na Cidade do Cabo, África do Sul, comentou que os testes clínicos dependem do acesso a populações com altas taxas de tuberculose e da capacidade de recrutar milhares de pessoas em um curto período de tempo, de manter esses participantes no estudo e de detectar e documentar outros problemas de saúde que possam apresentar ao longo dos testes. Por vezes as próprias instituições responsáveis pelos testes fornecem ou reforçam a infraestrutura para a realização de exames clínicos ou laboratoriais indispensáveis para avaliar a segurança e a eficácia de moléculas promissoras.



© Evelyn Hockstein
Em Kibala, na Tanzânia, Rajabu Saidi ampara Mariam Abdala, que volta a andar após meses de cama com tuberculose

O médico inglês Anthony Harries conhece bem as conexões entre tuberculose e uma de suas principais causas e agravantes: a pobreza. Hoje ele vive em Paris, é conselheiro sênior da União Internacional contra Tuberculose e Doenças Pulmonares (The Union), uma associação de 10 mil integrantes em 145 países, e professor de medicina em Londres. Durante 22 anos Harries trabalhou como médico em Malauí, um dos países mais pobres do mundo, situado no sudeste da África, com uma das mais altas taxas de prevalência de tuberculose (12% da população). Lá ele constatou o óbvio: sem dinheiro, as pessoas mais pobres comem pouco e mal. A desnutrição e a escassez de proteínas e de vitaminas enfraquecem as defesas do organismo contra microrganismos causadores de doenças como a tuberculose e Aids. “Essas deficiências são mais graves nas pessoas com menos massa corporal”, observou. Em um de seus estudos, Harries notou que o risco de morrer de tuberculose nas primeiras quatro semanas de tratamento variava de 6,5% a 11% de acordo com a maior ou menor massa corporal.
Em Malauí, quem tosse continuamente e suspeita que possa ter contraí­do tuberculose por vezes tem de percorrer longas distâncias até um centro de saúde em que poderia se tratar. De acordo com Harries, muitas vezes as pessoas doentes adiavam a viagem não só por causa da distância, mas também por temerem o isolamento social que acompanha os portadores de tuberculose e por não confiarem em medicamentos alopáticos, preferindo adotar os conselhos e remédios de curandeiros tradicionais. O médico inglês notou contrastes intensos. Malauí tem 13 milhões de habitantes e 270 médicos. Os gastos per capita por ano em saúde são de US$ 15 per capita e os casos novos de tuberculose por ano, 26 mil.  O Reino Unido tem 60 milhões de pessoas e 135 mil médicos. Os gastos per capita em saúde são de US$ 2.500 e os casos novos de tuberculose por ano, apenas 6.700.
proteção social
“As vozes da sociedade civil precisam ser mais fortes”, diz Harries, que conheceu outras causas silenciosas da doença além das colônias de bactérias que crescem nos pulmões e causam febre e suores noturnos. A maioria de um grupo de 770 pessoas que ele atendeu vivia em casas sem água encanada e eletricidade e com menos de US$ 10 por mês. Mesmo assim, segundo Jeremiah Chakaya, os moradores de muitos países africanos têm de pagar o equivalente a US$ 10 ou US$ 20 por um exame de raio X que confirme se realmente têm tuberculose. Apenas medicamentos novos ou novas formas de tratamento, ainda que notáveis, podem não ser o bastante para desfazer as conexões entre tuberculose e pobreza, intensamente debatidas no congresso de Cancún. Em uma das conferências, Mario Raviglione, diretor do Departamento de Tuberculose da OMS, lembrou que a taxa de sucesso de tratamento atingiu em 2007 o nível mais alto, 87%, com 78% dos casos detectados nas Américas e 47% na África, mas só poderá avançar com a melhoria dos sistemas de saúde, maior proteção social e redução da pobreza.
A dificuldade em combater essa doença está fortalecendo uma nova abordagem de desenvolvimento de fármacos – não mais fechada e conduzida apenas por grandes empresas farmacêuticas, mas aberta, fundamentada na cooperação entre governos, fundações filantrópicas, universidades e empresas, mediada por instituições não lucrativas chamadas parcerias público-privadas como a TB Alliance, Aeras Global e a New Medicines for Tuberculosis. Agora os limites de cada participante são reconhecidos e compartilhados. “As empresas privadas não têm como justificar investimentos e a academia não sabe ir até o fim com o desenvolvimento de novos medicamentos”, reconheceu William Wells. “Não temos dinheiro suficiente para fazer tudo sozinho”, disse David Barros, da GlaxoSmithKline (GSK), empresa que estabeleceu um programa de testes de quatro novas drogas com a TB Alliance e pretende neste ano ampliar sua estratégia de pesquisas abertas e compartilhadas de antibacterianos de amplo espectro de ação. “Novos medicamentos contra doenças negligenciadas como a tuberculose têm de ser um bom negócio para todos”, reiterou Barros.
As descobertas também são comunicadas publicamente em vez de correrem em segredo como acontece com a maioria dos medicamentos para outras doenças. Os limites e as possibilidades de uso da moxifloxacina, antibacteriano usado para tratar pneumonia e infecções respiratórias em fase avançada de testes clínicos pela TB Alliance, têm sido apresentados e intensamente debatidos por meio de artigos científicos, alguns de acesso livre. Em junho de 2009, o The New England Journal of Medicine apresentou os resultados positivos do uso de um novo composto, o TMC207, no tratamento de tuberculose multirresistente. Os testes resultam de um acordo entre a empresa farmacêutica Tibotec e a TB Alliance que permite que a empresa licencie o medicamento, se aprovado pelas autoridades regulatórias, sem cobrar royalties, como forma de ampliar o tratamento das formas mais severas de tuberculose.
Outros tipos de colaboração estão funcionando. Conexões com profissionais da saúde já experientes em tratar outras doenças infecciosas como malária e hanseníase nos lugares em que a tuberculose também é comum têm facilitado os testes de novas vacinas contra a doença. “Não é tão difícil estabelecer essas colaborações quanto esperávamos”, celebra Peg Willingham, da Aeras Global. Na Indonésia, a The Union mobilizou médicos de clínicas privadas para fortalecer serviços de controle de tuberculose e, na China, 9 milhões de estudantes, que aprenderam a identificar os sintomas de tuberculose nos familiares e assegurar que fossem atendidos pelos médicos locais.
* Fioravanti acompanhou em Cancún, México, o 40th Union World Conference a convite da Stop TB Part­nership e da National Press Foundation. Com apoio da Organização Mundial da Saúde, Evelyn acompanhou em Kibala, Tanzânia, ex-portadores de tuberculose que ajudam a tratar quem ainda tem a doença.

Fonte: Fapesp

Danos da fome Dieta pobre em proteína reduz o tamanho e o número de neurônios do sistema digestivo

Danos da fome
Dieta pobre em proteína reduz o tamanho e o número de neurônios do sistema digestivo
 

© candido portinari
Menino do Tabuleiro, 1947, óleo sobre tela, arquivo gentilmente cedido pelo projeto portinari. reprodução autorizada graciosamente por joão candido portinari


A fome é mais fome entre os povos pobres que entre os ricos. O prato dos 34 milhões de famintos dos países industrializados é mais farto que o dos 790 milhões de homens, mulheres e crianças que todos os dias acordam e se deitam de estômago vazio nas 98 nações mais carentes do mundo. O primeiro grupo consome em média 130 quilocalorias (um bife) a menos por dia que o indicado para a maioria das pessoas, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação. Essa energia faz falta, mas prejudica menos o corpo do que a carência imposta ao segundo grupo, que deixa de ingerir 450 quilocalorias diárias. Os danos da fome não são determinados apenas pelo teor de calorias consumidas. Estudos com ratos conduzidos em São Paulo mostram que a carência de proteínas prejudica o funcionamento do sistema digestivo, gerando um círculo vicioso em que a fome alimenta a fome.
Roedores mantidos sob uma dieta pobre em proteínas na fase crucial do desenvolvimento do sistema nervoso apresentaram redução no tamanho e no número de neurônios que controlam o funcionamento do intestino delgado, a porção do sistema digestivo responsável pela absorção de nutrientes. No Laboratório de Estereologia Estocástica e Anatomia Química (LSSCA) Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, a equipe do estereologista Antonio Augusto Coppi alimentou por seis semanas ratos com duas dietas distintas. Nos 21 dias da gestação e nos primeiros 21 dias de vida, um grupo consumiu a ração tradicional (com 20% de proteína), enquanto o segundo recebeu uma ração com idêntico valor calórico, mas só 5% de proteína.
As consequências da dieta pobre em proteínas impressionam. Houve uma redução de 63% no número de neurônios do gânglio celíaco dos animais que consumiram menos proteínas, em comparação com os tratados com a ração normal. Situado no abdômen, esse gânglio controla a motilidade gastrointestinal e, indiretamente, a absorção de nutrientes. Além de se encontrarem em quantidade menor, os neurônios restantes eram em média 24% menores (atrofiados) do que os dos ratos tratados com níveis normais de proteína. O gânglio celíaco encolheu 78%. “Os ratos que ingeriram menos proteínas eram caquéticos e tinham sinais de desidratação”, conta Coppi, que trabalhou com Patrícia Castelluci, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, responsável por criar o protocolo de desnutrição usado no estudo.
Publicados em dezembro de 2009 no Journal of Neuroscience Research, esses resultados preocupam. É que o mau funcionamento dos intestinos pode, nos casos mais graves, matar. Cavalos das raças mangalarga e paint horse, por exemplo, costumam nascer com um defeito genético que impede ou limita a formação adequada do gânglio celíaco e de neurônios do intestino. “Esses potros não absorvem nutrientes e morrem de cólica em três ou quatro dias”, explica Coppi.
Dogma antigo - A abordagem da equipe do LSSCA pode ajudar a desfazer um antigo dogma da biologia: o de que  a carência de proteínas não diminui o número de neurônios do intestino. “Estudos anteriores usando modelos semelhantes de desnutrição proteica só reportaram a redução no tamanho dessas células”, diz Coppi. Ele atribui a diferença vista agora ao método de contagem de células usado em seu laboratório: a estereologia, que permite a análise quantitativa em três dimensões (comprimento, largura e espessura) das amostras de células ou tecidos.  “Em geral os morfometristas usam técnicas que avaliam os perfis ou contornos das células em apenas duas dimensões”, conta. “Mas as células são tridimensionais e ainda podem se mover.”
Nas estratégias de contagem bidimensionais como a morfometria 2D calcula-se a área dos perfis das células de um tecido e o número de perfis no campo de visão do microscópio com base na forma aparente deles e na área total do órgão estudado. Um dos problemas é que no preparo das amostras células são cortadas com diferentes orientações e, por exemplo, uma célula esférica pode aparecer em duas dimensões com o formato de elipse e tamanhos variados. “Esse tamanho não corresponde ao tamanho real da célula”, afirma Coppi. Em seguida, projeta-se o número de perfis por área para a área total do órgão analisado. “Eles assumem erroneamente que a distribuição de perfis corresponde à distribuição real de células e que ela é constante em todo o órgão”, critica.
Usando a estratégia bidimensional, pesquisas anteriores avaliaram o efeito da restrição proteica sobre os neurônios da parede dos intestinos e mostraram redução apenas no tamanho celular. Esse resultado chegou a induzir interpretações bem diferentes: já se propôs até que essa privação favorecesse a proliferação de neurônios, pois se observavam mais células menores (supostamente mais jovens). “Isso deixa claro que o uso de métodos de contagem inadequados pode levar a conclusões desastrosas”, afirma Coppi, treinado em estereologia por Terry Mayhew, da Universidade de Nottingham, Inglaterra, e por Hans Gundersen, da Universidade de Aarhus, Dinamarca, dois dos pioneiros na aplicação da estereologia às ciências médicas e biológicas.
> Artigos científicos
1. Gomes, S.P. et al. Atrophy and  neuron loss: effects of a protein-deficient diet on sympathetic neurons.
Journal of Neuroscience Research.
 v. 87 (16). p. 3.568-75. Dez. 2009. 2. De Sousa, F.C. e Neto, M.H.
Morphometric and quantitative study  of the myenteric neurons of the  stomach of malnourished aging rats.
Nutritional Neuroscience.
 v. 12(4). p. 167-74. Ago. 2009.
O Projeto
Inervação dos vasos cerebrais  de roedores durante o desenvolvimento pós-natal. Possíveis modelos para o estudo do acidente vascular cerebral (avc). 
modalidade
Auxílio Regular a Projeto  de Pesquisa
Co­or­de­na­dor
Antonio Augusto Coppi Ribeiro – FMVZ/USP
investimento
R$ 305.527,35 (FAPESP)

Fonte: Fapesp

O rato roubou a roupa do rei de Roma Corrupção, uma prática velha como a humanidade


O rato roubou a roupa do rei de Roma
Corrupção, uma prática velha como a humanidade

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Carlos Haag




Não é de hoje, tampouco é uma “honra” brasileira: já em 343 a.C. Demóstenes (384 a.C.-322 a.C.) em seu discurso sobre a falsa embaixada acusou Ésquines de corrupção e foi acusado, por sua vez, por Dinarcos de receber suborno para deixar escapar um preso político. Andócides, outro clássico, que fazia parte da equipe que negociava paz com Esparta,  foi tachado de corrupto, e Lísias, um orador ático, foi denunciado como sendo capaz de defender em seus discursos, brilhantes, qualquer opinião mediante pagamento. “A história recente mostra que a redemocratização do país tornou visíveis fatos que antes não chegavam ao conhecimento da opinião pública, mas não evitou que o fenômeno da corrupção se repetisse e há evidências de que ela está longe de ser um acontecimento marginal no interior da vida pública”, observam os organizadores (Leonardo Avritzer, Newton Bignotto e Heloísa Starling) de Corrupção: ensaios e críticas, um imenso survey sobre o fenômeno mais discutido nos tempos recentes, lançado pela Editora da UFMG (598 páginas, R$ 55) com textos de Wanderley Guilherme dos Santos, José Murilo de Carvalho, Lilia Schwarcz, Evaldo Cabral de Mello, Olgária Mattos, Isabel Lustosa, Bruno Speck, entre outros. “Essa constatação povoa as páginas dos jornais, mas não gera necessariamente uma melhor compreensão da corrupção, de seus efeitos e suas raízes. À justa indignação contra aqueles responsáveis pelos atos corruptos segue-se uma condenação moral que, embora essencial, não conta de toda a complexidade do fenômeno”, alertam os coor­denadores.
Afinal, observam os autores, do ponto de vista do cidadão, o país enfrenta um dilema no combate à corrupção: quanto mais é combatida, mais ela é noticiada, e quanto mais ela é noticiada, maior é a sua percepção. “Do ponto de vista do cidadão, o combate à corrupção gera a aparência de uma maior presença desta na vida administrativa do Brasil.” O perigo é de se continuar a ver sempre na vida nacional um “mar de lama”. Outro perigo é enxergar esse mar apenas no Brasil. “A explicação tautológica de que o Brasil é corrupto em razão de sua identidade quase prescinde de refletir teoricamente e estudar empiricamente o fenômeno da corrupção. Não deixa de ser, apesar da crítica aparente, uma forma de se conformar à sua realidade. Por essa visão, o país seria inevitável e definitivamente corrupto devido a certos valores e práticas que, presentes desde a origem, tornaram-se parte de seu caráter. Essa explicação, além de preconceituosa, essencializa a história e simplifica ao atribuir uma sobrecarga explicativa à cultura em detrimento de suas articulações variadas com outras dimensões da vida social”, analisam os organizadores. “A organização Transparência Internacional, hoje, assegura que em todos os países pesquisados não há um só em que se possa registrar a ausência do fenômeno da corrupção. Países ricos como os EUA, a França, a Alemanha ou a Argentina comparecem nas listas em que se verifica a rotina do suborno, que é a forma de corrupção mais disseminada no mundo, uma prática de mão dupla: os países sofrem internamente, mas também promovem externamente em seus negócios com outros países”, lembra o cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Wanderley Guilherme dos Santos.
Partindo do famoso aforismo, poderíamos criar outras derivações como: ‘Se o poder oligárquico corrompe oligarquicamente, o poder democrático corrompe democraticamente’. A democracia oferece, comparada a outros sistemas políticos, uma multiplicidade de meios para a corrupção, pelo número de transações entre pessoas privadas e poderes públicos que estimula e, normalmente, pelo volume dos recursos a serem distribuí­dos mediante a deliberação coletiva. Comparada às ordens absolutistas e oligárquicas, a democracia seria, em princípio, o mais vulnerável dos sistemas políticos conhecidos”, analisa. Em comparação com os sistemas anteriores, num Estado democrático moderno, é bastante elevada a quantidade de postos de poder público cuja ocupação é submetida à escolha de um eleitorado universalizado, observa o cientista político. Assim, a sociedade não teria tanto o que reclamar sobre a corrupção, já que estaria responsável por essa distribuição do poder. “Transfere-se para a sociedade os atributos do poder absolutista e na mesma extensão em que se distribui o poder distribuem-se as oportunidades de corrupção nele implícitas. Por isso, a corrupção democrática identifica a face deteriorada do direito de participação popular na constituição e exercício do poder político tal como Aristóteles havia antecipado”, avalia Wanderley dos Santos.
Há outras formas de entender esse fenômeno. “Alessandro Sartori afirma que toda decisão política produz riscos externos que afetam aqueles obrigados a consumir a decisão da qual não participaram: riscos de tirania, incompetência e corrupção. Logo, a corrupção é um dos riscos externos que pode afetar negativamente a operação e os resultados dos sistemas políticos. Mas, se há corrupção, que haja escândalos, pois dar publicidade à corrupção é sinal de robustez, e não de fragilidade do sistema político”, observa a cientista política Fátima Anastasia da UFMG. E no Brasil, como se observa esse movimento? “A corrupção brasileira é antiga e mutante: a corrupção de hoje não é a mesma de há 100 anos ou, melhor, mudou o sentido da corrupção nacional. As acusações de corrupção dirigidas ao Império e à Primeira República não se referiam a pessoas, mas principalmente ao sistema. Não se chamava d. Pedro II de corrupto, de presidir uma administração corrupta, ou, em 1930, quando os revolucionários chamavam os políticos da República Velha de carcomidos não queriam dizer que eram ladrões. Corruptos eram os sistemas porque não promoviam o bem público”, explica o historiador José Murilo de Carvalho. Foi a partir de 1945 que houve uma alteração semântica na acusação de corrupção. “A oposição a Vargas, comandada pelos políticos da UDN, voltou suas baterias contra a corrupção individual, contra a falta de moralidade das pessoas. Nessa chave, corruptos eram os indivíduos, porque roubavam dinheiro público para enriquecer a si mesmos e a seus amigos. Postura semelhante presidiu à justificativa do golpe de 1964, feito, como se alegou, contra subversivos e corruptos”, lembra. O discurso atual é herdeiro desse discurso udenista, presente hoje na grita contra mensaleiros e outros predadores da coisa pública, lembra o historiador. Ao final do governo Sarney, o grito de guerra de Collor, que o levou à Presidência, foi também a caça a pessoas, aos marajás.
Mas, no debate atual sobre corrupção, está também presente um ingrediente sistêmico de caráter ideológico, análogo ao do Império e da Primeira República. A reação mais lúcida à corrupção envolve, sim, o comportamento individual, mas o enquadra em perspectiva política sistêmica, não moralista. Para essa posição, a corrupção seria inaceitável por minar a própria essência do sistema democrático-representativo, a busca do bom governo como gestão correta, eficiente e honesta do bem público”, nota José Murilo. “Para outros, essa crítica seria apenas udenismo e a visão de um bom governo seria um instrumento de promoção da igualdade, sem maior preocupação com a correção dos meios adotados.”
O perigo ético que decorre disso é latente, mas intenso. “Daí os políticos de esquerda parecem se sentir mais injustiçados quando seus eleitores manifestam mais indignação diante das notícias de corrupção em seus partidos do que diante da corrupção entre os conservadores. Não há razão para espanto. As grandes decepções são diretamente proporcionais às grandes esperanças”, observa a psicanalista Maria Rita Kehl. “Quando se revela que um político eleito a partir de compromissos com interesses populares agiu em interesse próprio a sociedade fica desnorteada, há uma fratura no campo simbólico e a indignação no campo simbólico pode rapidamente descambar em autorização cínica para a falta de ética generalizada, em todos os níveis: ‘ou restaura-se a moralidade...’”, avalia Maria Rita. Se os governantes, que ocupam o lugar simbólico do pai, colocam-se acima da lei, a violência tende a se disseminar por toda a sociedade. “No Brasil, em 2005, a ‘crise do mensalão’ mobilizou contra o governo do PT sentimentos de desilusão e revolta mais dramáticos do que contra outros partidos que tenham se revelado corruptos, já que o PT se elegera sob a bandeira da transparência”, analisa. Segundo a pesquisadora, é compreensível que quando o governo eleito em nome da esperança e da transformação se revela como os outros o cinismo suceda a decepção e a perplexidade iniciais e a ação política se desmoralize. Nasce, então, o ressentimento.
“O cidadão que se imagina puro, mas admite com amargo realismo a corrupção mascara sua cumplicidade e age como a vestal que se queixa de ter sido a vítima passiva de seu sedutor. Ele negociou, inadvertidamente, seus interesses de classe na esperança de que o caixa dois viesse um dia a beneficiá-lo. O ressentimento é o ponto de encontro entre essas duas correntes psíquicas: a cumplicidade inconsciente com o agravo; de outro, a frustração por não ter se beneficiado dela. O avesso do ressentimento seria a retomada do sentido da ação política.” Disso decorre certo desafogo da classe política, porque a corrupção não seria um privilégio dos políticos, mas estaria espalhada pela população em geral. Mas se engana quem quer ver nessa malandragem um traço impresso no nosso DNA cultural, como já se alertou anteriormente. De onde ele viria, então? “A malandragem é um subproduto que a modernização recebe e tenderá a se evidenciar quão mais perversa ela se mostrar, como é o caso brasileiro, e quão mais distante estiver a sociedade civil de seu controle. Nesse sentido, a malandragem não é outra coisa, mas uma resposta apolítica às fissuras deixadas pela ideologia moderna em sua tarefa de moldar a sociedade”, explica o soció­logo Venceslau Alves de Souza, autor do doutorado Malandragem e cidadania, defendido na PUC/SP sob orientação de Vera Chaia. Segundo ele, em qualquer ambiente social de modernização nefanda, seja aqui, seja em partes dos EUA, seja  no México, a causa comum da malandragem é a precarização das condições de vida dos trabalhadores e o surgimento da corrupção do “jeitinho”, independentemente das características físicas, psíquicas ou da raiz de onde se origina este ou aquele povo, mas resulta da ideologia que permeia e configura dada sociedade. Logo, descarta-se a tese de um DNA nacional da corrupção.
Houve entre nós, por um longo período, uma resistência dos segmentos mandões em admitir um modelo de dominação fundado na igualdade de oportunidades e condições afastando qualquer possibilidade de mudança social, o que será determinante para o surgimento da figura do malandro. Acostumados a mandar incondicionalmente, os mandões não se reconhecerão no modelo regulador e classificatório moderno, achando difícil assimilar a noção de direitos e igualdade”, observa o pesquisador. Isso, continua, desestimula as classes baixas a acolher esses imperativos, e assim a tradição venceu a modernidade. “Nesse sentido, os mandões se transformavam e transformavam em malandros os indivíduos que mantinham sob controle, pois a malandragem não é outra coisa que um fenômeno que se nega a reconhecer a legitimidade da ordem moderna, procurando agir ao largo de suas instituições, ainda que numa espécie de dialética da ordem e da desordem. O que se reproduzirá por longa data será uma massa humana que parece querer se esquivar da racionalidade moderna sempre que pode. Ao serem impedidos de competir em pé de igualdade desde que nascem, os indivíduos são levados a crer que há sempre um ‘jeitinho’ para se amolecer a rigidez da hierarquia social e levar vantagem, dando-se bem”, analisa o pesquisador. É daí que o habitus malandro passa a valer para os mais variados segmentos sociais, uma busca incessante do capital cultural diferencial que autoriza todas as classes sociais a usar a ginga sempre que necessário. Não é por outra razão que as próprias classes médias, em geral moralistas, usarão os recursos da malandragem sempre que indispensáveis. A resposta, como ao político corrupto, é a mesma: “É ele que acaba ditando o ritmo geral aos indivíduos moralmente precarizados do lado periférico do mundo moderno, e que somente um choque radical de cidadania irá afungentar”.
Fonte: Fapesp

Médicos criam pesquisa para ajudar no tratamento de doenças comportamentais


Médicos criam pesquisa para ajudar no tratamento de doenças comportamentais





Para saber como o temperamento influencia ou é influenciado pelos transtornos psiquiátricos um grupo de pesquisadores da PUC, de Porto Alegre, criou uma pesquisa na internet.
Patrícia Cavalheiro - Porto Alegre
 Médicos brasileiros estão desenvolvendo uma pesquisa que pode ajudar no tratamento de doenças comportamentais, como depressão, ansiedade e estresse. O estudo procura voluntários em todo país. Você pode participar de casa porque as informações são colhidas pela internet. E você recebe, de graça, a avaliação de uma equipe médica.

Os médicos já sabem: de 35% a 50% da população têm algum tipo de transtorno psiquiátrico. O problema é que a maioria não procura ajuda por falta de informação ou preconceito.

“Cada vez mais estão surgindo evidências de que o comportamento da pessoa, seu jeito de ser, está relacionado com as doenças mentais que a pessoa pode vir a manifestar e também com a forma que essa doença se manifesta na pessoa”, esclarece Gustavo Ottini, psiquiatra

E há vários tipos de transtornos. Por exemplo, 10% da população já teve ou terá depressão ao longo da vida. Mulheres, pessoas com stress provocado por doenças ou que tiveram perdas em geral, como relacionamentos ou trabalho são as mais afetadas. Elas apresentam sintomas como falta de vontade, tristeza e perdem o prazer em atividades que antes gostavam de realizar.


Entre os homens a irritabilidade também chama a atenção e para saber como o temperamento influencia ou é influenciado pelos transtornos psiquiátricos um grupo de pesquisadores da PUC, de Porto Alegre, criou uma pesquisa na internet.

Qualquer pessoa com mais de 18 anos pode participar. Bastar ter um computador ligado à internet e um endereço eletrônico. O voluntário não precisa se identificar. E depois de responder o questionário, ele recebe na hora uma avaliação psicológica.
Uma espécie de mapa comportamental. A pessoa fica sabendo como estão os níveis de medo, sensibilidade, controle, vontade, se está ansioso, apático. Um diagnóstico rápido que pode servir para o início de um tratamento. A ideia é coletar os dados de 50 mil voluntários. Para os médicos, a estatística final pode ajudar nos consultórios.

“A escala de temperamento que a gente desenvolveu pode ser útil depois para consultórios de psicólogos e psiquiatras para antecipar o perfil do paciente e de que maneira aquela pessoa pode ter mais ou menos chances de desenvolver os transtornos psiquiátricos. Então abreviaria e ao mesmo tempo deixaria mais completa a avaliação, em pouco tempo”, diz Diogo Lara, psiquiatra.

Heloísa comemora os avanços que teve depois que descobriu e começou a tratar a depressão. Para ela, se conhecer é o primeiro e mais importante passo para viver melhor. “Tem coisas que são do temperamento, que de repente é normal. E outras que seriam transtornos psiquiátricos e a pessoa já vai se encaixar nisso e talvez procurar ajuda. Fica muito mais fácil”, comenta Heloísa Galvão, aposentada.

Para participar da pesquisa, clique aqui. (http://www.temperamento.com.br/)





Após reação da igreja, Lula recua sobre defesa do aborto


Após reação da igreja, Lula recua sobre defesa do aborto
 

O presidente Lula e a ministra Dilma Rousseff durante reunião



Presidente determina revisão de trecho polêmico do programa de direitos humanos

Outra alteração no plano será introduzida no eixo do documento que trata dos excessos praticados no contexto da ditadura militar

ELIANE CANTANHÊDE


COLUNISTA DA FOLHA


Após reação da Igreja Católica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou revisão do trecho que defende o aborto no decreto (assinado por ele) que instituiu o 3º Programa Nacional de Direitos Humanos, alegando que o texto não traduz a posição do governo. Haverá alteração ainda no trecho sobre a apuração de excessos praticados na ditadura.

Pela nova redação, o documento deverá manifestar uma defesa genérica do aborto, exclusivamente dentro dos limites estabelecidos por Lula nos seus discursos: no contexto de saúde pública -para salvar a vida da mãe, por exemplo. As críticas ao documento devem, portanto, se deslocar da área religiosa para as entidades ligadas às questões da mulher.

Como foi publicado pelo "Diário Oficial da União", no dia 22 de dezembro, o plano estabelece "apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos".

Na nova redação, será suprimida a parte que fala da autonomia, pois caracteriza apoio à decisão íntima de interromper a gestação, mas não é a posição do governo e de Lula.

Em discurso pelo Dia Internacional da Mulher, em março de 2009, ele declarou ser, "como cristão, contra o aborto". A legislação atual só permite o aborto, desde que praticado por médico, nos casos de estupro ou de risco de morte da mãe. Nos demais casos, a gestante que aborta pode ser punida com detenção de até três anos, e o médico ou outra pessoa que provoque o aborto pode ter pena de reclusão de até 20 anos.

Em reunião ontem, Lula disse querer "resolver isso logo" porque a polêmica sobre o caso foi grande e desproporcional.

A revisão do documento está sob responsabilidade da Casa Civil, chefiada por Dilma Rousseff. Ela está sendo poupada dos debates sobre o plano.

A origem da principal polêmica é a criação da comissão da verdade, na diretriz 23, que colocou em lados opostos o Ministério da Defesa e a Secretaria de Direitos Humanos, que fez a redação final do plano.

Uma fórmula considerada de meio-termo seria mudar a parte em que o plano determina investigações de violações de direitos humanos cometidas pela "repressão política", que significa apurar só os crimes de tortura e morte cometidos pelos agentes do Estado.

A expressão seria suprimida, deixando que um projeto de lei enviado ao Congresso especificasse os alvos da apuração.

A Casa Civil ainda analisa a viabilidade dessa forma, enquanto Lula chama Nelson Jobim (Defesa) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos) para conversar entre hoje e amanhã para chegar a um consenso.

Para o governo, a questão é, no fundo, de ordem semântica.

A revisão promovida pela Casa Civil abrange a questão do aborto e da comissão da verdade, mas não contempla polêmicas levantadas por ruralistas e de direito à informação. Na versão do Planalto, o ministro Reinhold Stephanes (Agricultura) só reclamou do texto "para satisfazer a sua base eleitoral".

No caso da imprensa, será mantida a expressão "controle social e democrático" do Estado sobre os meios de comunicação, pois trata-se de "posição de governo".

Fonte: Folha de São Paulo

Infraestrutura de Cuba sofre com negligência, falta de estímulos e carência de recursos

Infraestrutura de Cuba sofre com negligência, falta de estímulos e carência de recursos





 

Mauricio Vicent


Em Havana (Cuba)

Em 8 de janeiro passado, os viajantes que utilizaram o terminal 3 do Aeroporto Internacional de Havana ficaram perplexos ao ver as imagens que o sistema fechado de televisão mostrava. Junto com concertos de música "salsa", propaganda turística, danças no Tropicana e imagens de arquivo da revolução, o canal dedicava espaços importantes a anunciar as vantagens da companhia Air Comet, líder em preços e em comodidade em suas rotas, segundo o comercial.

A empresa, em concordata há semanas, deixou em terra centenas de passageiros em Cuba e provocou quase um motim no consulado espanhol, mas ninguém no aeroporto se incomodou em retirar os anúncios da companhia. "Para as pessoas dá na mesma oito ou 80: ninguém está motivado a fazer as coisas direito", resumiu um funcionário. E disse mais: "A verdade é que infelizmente em Cuba já perdemos até o hábito de trabalhar".


A anedota é mais um exemplo dos males da Cuba socialista. Se é assim no aeroporto, onde os empregados têm possibilidade de desviar recursos e receber propinas em divisas, é fácil imaginar o que acontece em outros setores.


A magnitude da negligência e do desastre, agravada pela escassez de recursos e ainda mais pela falta de estímulos, é evidente. E aparece inclusive em reportagens recém-publicadas na imprensa oficial sobre o estado de algumas infra-estruturas e setores produtivos.


"Com água no pescoço?", é o título de uma reveladora página dupla do jornal "Granma" de 9 de janeiro, sobre a lamentável situação da rede hidráulica do país. "Mais da metade da água bombeada não chega ao destino previsto" devido ao mau estado das redes de distribuição, informa o jornal, denunciando que apesar da crise a ilha "gasta o dobro da água necessária".


Segundo o Instituto Nacional de Recursos Hidráulicos (INRH), este ano foram reparados uma média mensal de 18 mil vazamentos, a maioria deles consequência da deterioração do sistema de aquedutos, que tem entre 50 e cem anos e que não recebeu uma manutenção integral no último meio século. Durante anos as autoridades tentaram eliminar os vazamentos "de modo pontual", mas essa, confessa o "Granma", "não é uma solução sustentável".

"Ao tratar um vazamento em uma linha de encanamentos, ele simplesmente se desloca. Reparado o primeiro vazamento, o nível de deterioração levará a que, em qualquer trecho na continuação, surja um novo", explica-se. "É a história que nunca acaba", admite Javier Toledo, alto funcionário do INRH. O plano "estratégico" do governo de Raúl Castro se baseia na "reabilitação das redes de aquedutos" nos próximos dez a 15 anos. Excesso de otimismo, na opinião de muitos...


Há poucas semanas a imprensa publicou outro relatório não menos cru: 75% das vias pavimentadas de Cuba estão em estado "entre regular e ruim". Em outras palavras, os 29.600 km que somam as rodovias e estradas cubanas estão coalhados de buracos. Quanto às ferrovias, 94% estão deterioradas, como a maioria das locomotivas e 40% dos vagões. Assim como com a água, não se veem soluções em curto prazo: para consertar as estradas seriam precisos 19 milhões de toneladas de asfalto; mas hoje Cuba produz anualmente só 1 milhão.

Deixemos de lado os serviços. Um produto tão cubano quanto o coco também passeia hoje à beira do precipício. Na localidade oriental de Baracoa, onde são colhidos 85% desse produto, as cifras dão medo: este ano a produção foi 80% menor que a de 1990, e isso que as fábricas cubanas demandam por ano mais de 5 mil toneladas de óleo de coco para elaborar produtos cosméticos. Baracoa produziu em 2008 só 403 toneladas desse óleo, e o preço da tonelada no mercado internacional beira os US$ 500. O jornal "Juventud Rebelde" admite que na base desse desastre produtivo estão os baixos preços que as empresas estatais pagam para os plantadores de coco. Adivinha-se por que a Air Comet continua voando em Cuba.


Fonte: El País


Farsa de Chávez leva Venezuela para a ruína

Farsa de Chávez leva Venezuela para a ruína




Os índices de aprovação de Hugo Chávez estão cada vez mais baixos, levando o líder venezuelano a tomar medidas que comprometem a credibilidade econômica do país. Na semana passada, ele anunciou a desvalorização do bolívar, a moeda nacional. Em lugar de uma cotação única do dólar a 2,15 bolívares, agora haverá um sistema fomentador de corrupção de três preços



Hugo Chávez está aumentando seus problemas com seu eleitorado. Os índices de aprovação do presidente venezuelano caíram de acima de 60% há um ano, nos 10 anos de seus reinado, para 50% agora. A posição de seu partido está agora ameaçada. Ele pode se sair mal nas eleições de setembro ao Congresso. Então Chávez agiu de forma ousada e, como sempre, imprudente.



Na semana passada, ele anunciou a desvalorização do bolívar, a moeda nacional. Em lugar de uma cotação única do dólar a 2,15 bolívares, agora haverá um sistema fomentador de corrupção de três preços; uma cotação para bens essenciais de 2,60 bolívares, uma cotação oficial do "dólar petróleo" para tudo mais a 4,30 bolívares e uma cotação de mercado.

Os índices de aprovação de Hugo Chávez estão cada vez mais baixos, levando o líder venezuelano a tomar medidas que comprometem a credibilidade econômica do país. Na semana passada, ele anunciou a desvalorização do bolívar, a moeda nacional. Em lugar de uma cotação única do dólar a 2,15 bolívares, agora haverá um sistema fomentador de corrupção de três preços



Com a taxa de inflação a 25% devorando o valor da moeda, uma grande desvalorização era inevitável e necessária. O dólar era recentemente negociado no mercado negro a cerca de um terço de seu preço oficial -a cerca de 6 bolívares.

Mas esta decisão não é motivada por uma economia sólida. Chávez tem pouco tempo para as empresas que foram crucificadas pelo bolívar forte. A desvalorização visa, em vez disso, permitir que ele mantenha a barragem de gastos que construiu a popularidade de seu governo.

As medidas gerarão grandes lucros para a Petróleos de Venezuela SA, o monopólio estatal de petróleo. Cada barril de petróleo vendido no exterior agora gerará duas vezes mais bolívares. E, devido à estrutura do novo regime cambial, o preço das importações subirá mais lentamente.

Assim, a desvalorização deverá reduzir em mais da metade um déficit público que, caso contrário, seria de mais de 7% do produto interno. Ao mesmo tempo, Chávez anunciou a apropriação indébita de US$ 7 bilhões das reservas do banco central para um fundo de desenvolvimento do governo.

O homem-forte venezuelano está apostando que o poder reforçado de gastos lhe permitirá comprar mais votos do que o trauma social da desvalorização lhe custará. Mas não está claro que o cálculo político de Chávez está correto. A dor da desvalorização será aguda.

Os economistas esperam que a taxa de inflação subirá significativamente -talvez ultrapassando os 40% neste ano. Mas, mesmo se ele puder amortecer o impacto e sobreviver ao teste das urnas de setembro, o carrossel de gastos de Chávez alguma hora precisará parar. Seu país não pode inflar seu caminho para a prosperidade sustentável. Em algum momento, a realidade alcançará a Venezuela. Quando isso acontecer, Chávez enfrentará o acerto de contas público.

Fonte: Financial Times