Lutando contra o abandono

Lutando contra o abandono

International Herald Tribune
 
Liz Gooch
  • Cresce na Malásia o número de crianças recém-nascidas abandonadas Cresce na Malásia o número de crianças recém-nascidas abandonadas
O menino ainda estava com o cordão umbilical quando foi encontrado por uma mulher e sua filha em meio a arbustos debaixo de uma ponte em Tapah, a cerca de uma hora de carro de Kuala Lumpur, na Malásia. Os médicos que o examinaram determinaram que ele havia nascido há apenas duas horas.
O menino, que foi levado a um orfanato para esperar por adoção, é um entre os quase 80 bebês abandonados que foram encontrados na Malásia este ano, alguns já mortos, desencadeando muita reflexão e pedidos de ação.
As reações à série de manchetes de jornal sobre bebês abandonados incluíram desde um aumento da educação sexual nas escolas até pedidos por penalidades mais duras e a inauguração da primeira “portinhola de bebês”, onde as mães podem deixar seus filhos anonimamente, para que eles sejam cuidados por outras pessoas. Um governo estadual ofereceu apoio financeiro para as jovens adolescentes se casarem, irritando os grupos de mulheres que vêm fazendo campanha contra o casamento de menores.
De acordo com a Shariah, ou lei islâmica, que se aplica aos 60% de muçulmanos que compõem a população da Malásia, o sexo antes do casamento é proibido e as penas incluem até três anos de prisão, uma multa de até 5 mil ringgits, cerca de US$ 1.600 (R$ 2.734) ou seis golpes de vara. Os não-muçulmanos que fazem sexo antes do casamento não são punidos, mas a prática continua sendo um tabu social.
O aborto é ilegal a menos que a saúde física ou mental da mulher esteja em perigo. Qualquer pessoa que abandona uma criança com menos de 12 anos pode enfrentar até sete anos de cadeia, multa ou ambos.
Apesar da atenção recente da mídia ao tema, o número de bebês abandonados na Malásia não teve uma mudança significativa este ano. A política registrou 76 casos do começo deste ano até 1º de outubro, em comparação com 79 casos em 2009 e 102 em 2008.
Mas em agosto, o gabinete pediu ao escritório da promotoria geral para investigar melhor os casos de bebês que morreram depois de serem abandonados, para determinar se os responsáveis deveriam ser acusados de assassinato, um crime que é punido com a pena de morte na Malásia.
Rajpal Singh, presidente do comitê para legislação criminal do Conselho de Advocacia da Malásia, disse que uma pessoa pode ser acusada de assassinato apenas se for provado que ela tinha a intenção de matar o bebê. Provar que houve assassinato nesse tipo de caso é muito difícil”, diz ele.
Optando por uma abordagem diferente, Mohamad Ali Rustam, ministro-chefe do Estado de Melaca, ao sul de Kuala Lumpur, anunciou recentemente seus planos de dar 500 ringitt para os casais menores de 18 anos que se casarem.
Na Malásia, as meninas muçulmanas com menos de 16 anos e rapazes com menos de 18 podem se casar com a permissão de um tribunal da Shariah. Os não-muçulmanos precisam ter pelo menos 18 anos, a menos que recebam a permissão do ministro-chefe de seu Estado, nesse caso podem se casar a partir dos 16 anos.
De 2000 a 2008, foram registrados 1.654 casamentos de meninas de 16 e 17 anos, embora os defensores dos direitos das mulheres acreditem que a incidência de casamentos de menores seja ainda maior.
Um relatório da Unaids divulgado este ano mostrou que 7.176 meninas muçulmanas e 2.029 meninos muçulmanos com menos de 19 anos passaram por testes de HIV em 2009, que são obrigatórios na maioria dos Estados da Malásia para os muçulmanos que pedem permissão para se casar.
Mohamad espera que o dinheiro oferecido aos casais adolescentes para ajudar a pagar as despesas do casamento desencoraje o sexo antes da união e reduza o abandono de crianças nascidas fora do casamento.
Eles querem fazer sexo, então é melhor que se casem”, diz ele.
Grupos que defendem aumentar a idade de casamento para 18 anos para todos os habitantes da Malásia, independentemente do gênero ou da religião, condenaram a iniciativa de Mohamad.
Ivy Josiah, diretora-executiva da Organização para a Ajuda da Mulher, um grupo não-governamental, disse que permitir que os menores de 18 anos se casem vai contra as obrigações da Malásia diante da Convenção das Nações Unidas para os Direitos das Crianças e contra a própria legislação do país. “O casamento de menores é contra todos os direitos da criança”, diz ela.
Tanto a convenção da ONU quanto a Ação pela Criança da Malásia definem como criança qualquer pessoa com menos de 18 anos.
O Ministério da Mulher, Família e Desenvolvimento Comunitário está investigando o caso de uma menina de 14 anos que recebeu recentemente permissão para se casar de um tribunal da Shariah, mas não há planos para aumentar a idade de casamento para 18 anos para as meninas muçulmanas.
Esperamos que os juízes da Shariah continuem a exercitar seu discernimento com bom senso”, disse Heng Seai Kie, vice-ministro da Mulher, Família e Desenvolvimento Comunitário.
Outros esforços estão focados na educação e no apoio logístico.
Em Malaca, Mohamad inaugurou a Escola da Esperança, um internato para meninas grávidas, independentemente de seu estado civil ou religião. Desde a inauguração, em setembro, dez meninas entraram na escola, que pode acomodar até 40.
Mohamad disse que montou a escola, que além do currículo padrão as ensina a cuidar dos filhos, porque as escolas comuns da Malásia costumam desencorajar as meninas grávidas de continuar estudando.
O número de adolescentes que engravidam, independentemente de sua situação conjugal, aumentou levemente na Malásia nos últimos anos, com 16.207 nascimentos registrados em 2007, em comparação aos 15.752 de 2005.
Faz tempo que organizações não-governamentais pedem que as escolas ofereçam aos estudantes mais informações sobre sexo e como evitar doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada. Atualmente, os alunos aprendem apenas o básico de anatomia e reprodução nas aulas de biologia e educação física, e a abstinência sexual fora do casamento é encorajada.
A partir do próximo ano, entretanto, os alunos de escolas primárias passarão 30 minutos por semana, e os do segundo grau passarão 40 minutos duas vezes por mês, em aulas de “Saúde reprodutiva e educação social”.
Essas aulas continuarão a enfatizar a abstinência antes do casamento, mas os alunos do segundo grau também aprenderão sobre contracepção e doenças sexualmente transmissíveis.
Heng, vice-ministra da Mulher, disse que embora o governo queira desencorajar o sexo antes do casamento, ele oferece apoio para as mulheres e meninas solteiras que engravidam. Ele tem quatro abrigos para meninas solteiras abaixo dos 18 anos e dois para mulheres grávidas acima dos 18, nos quais são fornecidos alimentação e acomodação gratuitas. Ela disse que o país também tem até 60 centros de bem-estar que oferecem assistência para mães solteiras e seus bebês.
A resposta do governo não impressionou militantes como Josiah, da Organização para a Ajuda da Mulher. Embora ache boa a atenção dada à educação sexual, ela rejeita as tentativas de encorajar as mães adolescentes a se casar e diz que as medidas punitivas, como acusar as pessoas de assassinato se o bebê abandonado morrer, não ajudam a lidar com o problema do abandono de crianças.
Se a mensagem é que você pode ser chicoteado por fazer sexo fora do casamento ou que pode até mesmo ser executado se abandoar um bebê e o bebê morrer ou pode ser obrigada a casar – mesmo que tenha menos de 18 anos –, se for essa a mensagem transmitida, então certamente ninguém vai se revelar”, diz ela.
Para aumentar as chances de sobrevivência dos bebês abandonados, a primeira “portinhola de bebês” da Malásia, um lugar onde as mães podem deixar os bebês indesejados, foi inaugurada em maio. Quinze bebês foram deixados lá até agora.
A roda, baseada num projeto arquitetônico já usado na Alemanha e no Japão, tem um alarme que é ativado quando um bebê é colocado lá dentro. Ela fica no terreno do Orphan Care, uma organização não-governamental que toma providências para que os bebês sejam levados para orfanatos ou adotados.
A Orphan Care espera abrir outra “portinhola de bebês” em Kuala Lumpur e uma terceira num hospital governamental nos arredores da capital. “Acho que se houver mais lugares assim, se eles forem mais acessíveis e localizados em cidades diferentes, poderemos salvar mais vidas”, diz Adnan Mohammad Tahir, presidente da organização.

Blog questiona legalidade de ações de super heróis e vilões

Blog questiona legalidade de ações de super heróis e vilões

The New York Times News Service
John Schwartz
  • Super-Homem Super-Homem
A visão de calor do super-homem é uma arma? E, caso seja, a Segunda Emenda da Constituição dos Estados Unidos protegeria o direito dele de derreter pistolas e cozinhar hambúrgueres com esse superpoder?

Pode ser que você nunca tenha formulado essas perguntas. Mas um novo blog e o interesse que ele está gerando demonstram que há pessoas que observam uma batalha épica entre super-heróis e supervilões e realmente desejam saber quem deveria ser responsabilizado legalmente pelos prédios arruinados e ruas destroçadas.


Essas pessoas possuem agora um blog chamado “Law and the Multiverse: Superheroes, supervillains, and the law” (“Lei e Multiverso: super-heróis, supervilões e a lei”), que foi lançado em 30 de novembro último. O blog formula questões como: “E se alguém fosse condenado por assassinato, e depois a vítima voltasse à vida?”. E perguntam ainda se os mutantes se constituem em uma categoria legalmente reconhecida com direito a proteção constitucional contra discriminação.


Lei e Multiverso é a criação de dois advogados, James Daily, do Estado de Missouri, e Ryan Davidson, de Indiana. Ambos têm 28 anos de idade. Eles só se conheceram online mas colaboram como se fossem velhos amigos.


Daily diz que a inspiração para o blog surgiu, assim como ocorre com várias grandes ideias, durante um jantar com a sua mulher e amigos. Eles começaram a discutir se as versões de dimensões paralelas de um supervilão poderiam de alguma forma ser todas elas trazidas à justiça em um único julgamento. Assim que ele discutiu os seus planos para o blog no Metafilter, um site colaborativo no qual as pessoas expõem os seus projetos, Davidson fez contato com ele para oferecer as suas ideias e apoio – ou, conforme as suas palavras: “Ei, isso parece ser fantástico! Você deseja um colaborador?”.


Durante as semanas nas quais o site tem estado ativo, ele vem atraindo muita atenção online, sendo foco de mensagens entusiasmadas em sites populares como o Slashdot, o BoingBoing e o Volokh Conspiracy, um blog de professores de Direito. A página de comentários é especialmente animada, e nela os participantes discutem quantos super-heróis poderiam dançar na cabeça teórica de um alfinete estatutário.


O site, dessa forma, indica que no grande diagrama de Venn da vida, parece haver uma sobreposição substancial entre advogados e aquelas pessoas às quais Daily se refere adoravelmente como “nerds de revistas em quadrinhos”.


“Nós procuramos algo que tenha um aspecto de Direito Legal e um bom aspecto de fantasia de quadrinhos e a seguir fazemos uma mistura cultural”, explica Daily. “Nós começamos com a premissa de que o universo dos gibis – a maioria dos universos de quadrinhos – parece ser bem similar ao mundo real, com polícia, tribunais e prisões.

E, dessa forma, Daily e Davidson questionaram se seria possível reconciliar o imaginário e o real, coisas como super-heróis imortais e legislação imobiliária.

“Para a nossa surpresa, essas coisas são frequentemente conciliáveis”, diz Daily, seja no que se refere às doutrinas legais modernas ou a sistemas legais obscuros centenários como a lei comum britânica contra perpetuidades e o estatuto de ilegalidade.


Outros tópicos incluem a admissibilidade de provas obtidas por meio da leitura de mentes feita pelo Professor X dos X-men e se a Lei RICO poderia ser efetivamente usada por promotores contra a Legião do Mal.


As respostas são secas, técnicas e engraçadas. Daily sugere que a Segunda Emenda protegeria muitos poderes, mas “pelo menos alguns superpoderes seriam considerados armas perigosas ou incomuns (por exemplo, detonações óticas dos Cyclops, explosões de plasma de Havok) que estão “bem além da potência de armamentos permitida pela lei”. Esses poderes seriam rigorosamente regulados, ou até mesmo totalmente proibidos.


A seguir vem essa pérola de jurisprudência: quando Batman, o herói da DC Comics, prende malfeitores, as provas obtidas contra os bandidos são admissíveis em um tribunal? Não se ele estiver trabalhando demasiadamente em conjunto com o comissário Gordon, de maneira que as suas façanhas se enquadrem na doutrina do “ator estatal”, segundo a qual um indivíduo está agindo em nome do governo e, portanto, se encontra sujeita às restrições do poder governamental. Na verdade, ele poderia ser processado pela violação de direitos civis por parte daqueles que foram presos.


“Ou todos os criminosos em Gotham contam com advogados incompetentes, a doutrina de ação de Estado no universo DC é mais fraca do que no mundo real ou Gordon conseguiu de fato fazer com que a sua aliança com Batman permanecesse sigilosa”, escreve Daily. “Eu opto pela segunda explicação”.


Ilya Somin, professor de direito constitucional da Universidade George Mason, aplaude o novo blog, que lida com tópicos com os quais ele ocasionalmente esbarrou nas suas próprias mensagens relativas à Conspiração Volokh.

“Eu sou muito mais lido quando escrevo sobre federalismo na Federação de Star Trek do que quando falo sobre federalismo no mundo real”, diz ele.

Somin acrescenta que o debate sobre as ramificações legais dos superpoderes pode provocar risadas, mas poderia também ser a base para algo de mais importante algum dia.


“Daqui a várias décadas nós veremos o surgimento de tecnologias e poderes que atualmente só existem em obras de ficção científica e revistas em quadrinho”, diz ele, citando a famosa frase de Arthur C. Clarke: “Toda tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica”.


“Pode ser razoável questionar como a lei deveria lidar com esse tipo de questões quando elas emergirem”.

Daily admite que ele e Davison têm um objetivo apenas parcialmente sério.

“Eu creio que nós esperamos que o blog tenha um certo componente educacional”, diz ele. “Desejamos que ele possa mostrar como os advogados pensam sobre problemas”.


Isso significa que eles gostariam de ver mais jovens se matriculando nas faculdades de Direito?


“Ah, eu espero que não”, diz Davidson. “Não como o mercado no estado em que se encontra”.

"Ex-Voto", de Adélia Prado. Por Elisa Lucinda.

Adélia Prado, a simplicidade de um estilo

 


http://admin.saraivaconteudo.com.br/UploadPost/A_duracao_dos_dias_Adelia_Prado.jpg 
Depois de 10 anos sem publicar um livro de poesia, Adélia Prado retorna ao gênero que a consagrou e confirma por que é uma das maiores poetisas do país. Seu olhar único sobre as coisas aparentemente desimportantes do cotidiano revela a...
Fonte: Saraiva

Filme Sempre ao Seu Lado - TC PREMIUM

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Um professor universitário encontra um cãozinho abandonado em uma estação de trem e logo inicia uma forte amizade com o animal. Todos os dias, ele o acompanha em sua ida e no seu regresso do trabalho, situação que, para o cão, não se modifica mesmo após a morte de seu dono. 
Sáb, 18/12 às 22h00
Seg, 20/12 às 20h10
Sex, 24/12 às 23h50
Dom, 26/12 às 22h00 




A Gênese do significado

 A Gênese do significado

A mente é capaz de interpretar o significado de informações que recebe, ao contrário da máquina, que processa informações segundo regras pré-programadas. A Ciência busca respostas sobre como se dá o vínculo entre informação e significado

Diego Zilio é Mestre em Filosofia da Mente, Epistemologia e Lógica pela Unesp de Marília e Doutorando em Psicologia Experimental pela USP.
Maria Gonzalez é professora do Departamento de Filosofia da Unesp de Marília, doutora em Filosofia da Mente e Ciência Cognitiva pela Universidade de Essex, UK.
Ouvimos constantemente a expressão "vivemos na era da informação". A informação se espalha por jornais, rádio, televisão, telefone, Internet, entre tantos outros meios de transmissão, invadindo nossas vidas, algumas vezes de modo sub-reptício, por meio de câmeras, celulares, computadores e outras parafernálias tecnológicas. Contudo, ainda não sabemos exatamente o que vem a ser a informação - sentimos a sua influência imediata em nossas ações, mas quando tentamos compreender a sua natureza, ela parece escapar dos limites do nosso conhecimento sobre os objetos e seres naturais. Já foi sugerido que vivemos como o homem da era do bronze que, apesar de utilizar esse material de maneira competente em seu cotidiano, não tinha conhecimento de suas propriedades químicas. Foi só com o advento da Química e da Física que tal conhecimento se revelou ao homem.
Ainda que a informação possua esse caráter enigmático, ela foi eleita a pedra filosofal da Ciência Cognitiva e, em grande parte, da Filosofia da Mente, dando lugar ao que ficou conhecido como "A virada informacional na Filosofia" (Adams, 2003).
Tal virada teria ocorrido a partir de 1950, quando cientistas e filósofos influenciados pelo famoso artigo de Turing (1950), Computing machinery and intelligence, julgaram que a capacidade de processar informação seria o principal elemento a se considerar no estudo da mente inteligente. Concebendo a inteligência em termos da atividade de resolução de problemas, eles escolheram o computador - o processador de informação por excelência - como ferramenta central para a elaboração de modelos explicativos da dinâmica funcional da mente inteligente. Esse projeto ambicioso de explicar a natureza da mente pela própria mente propiciou o surgimento da Inteligência Artificial (IA), do Conexionismo ou Redes Neurais Artificiais (NRA), e da Robótica Cognitiva (RC) que vieram a constituir a Ciência Cognitiva. Mas o que justificou esse projeto tão ambicioso? E qual é o papel da informação no seu desenvolvimento?
Há principalmente duas razões históricas que culminaram no desenvolvimento da Ciência Cognitiva e na suposta virada informacional na Filosofia. A primeira foi a interpretação cognitivista do movimento behaviorista, pela qual o behaviorismo era acusado ou de negar a existência da mente, sendo, assim, uma psicologia "sem cognição", ou de aceitar sua existência, mas, em contrapartida, de condenar a mente ao ostracismo científico, já que ela seria empiricamente inacessível. Esta última rendeu ao behaviorismo a alcunha de psicologia da "caixa-preta".
A segunda razão, por sua vez, estava na própria agenda de pesquisa cognitivista e nos métodos escolhidos para cumpri-la.
Imagem: Shutterstock
Os cientistas cognitivos pretendiam abrir a "caixa-preta" e estudar objetiva e pormenorizadamente os processos envolvidos na atividade inteligente. Todavia, se por um lado a Ciência Cognitiva buscava evitar os supostos erros do movimento behaviorista, por outro, seria preciso tomar cuidado para não incorrer em explicações pouco científicas da mente, o que a colocaria no panteão do temido dualismo cartesiano (segundo o qual mente e corpo possuem naturezas essencialmente distintas). Em meados da década de 1950, no mesmo momento histórico em que o descontentamento dos cognitivistas para com o behaviorismo aumentava, também ocorriam avanços significativos nas ciências da computação. Computadores capazes de realizar operações matemáticas e lógicas estavam sendo desenvolvidos. No círculo dos estudiosos da computação se dizia que, para o desgosto futuro de Kasparov, a criação de um programa capaz de jogar xadrez a ponto de ganhar partidas do ser humano era apenas uma questão de tempo. Os avanços na computação foram cruciais para a Ciência Cognitiva; eles indicavam a chave para abrir a "caixa-preta" da mente, que agora parecia não ser mais uma propriedade exclusiva dos seres humanos. Afinal, essas máquinas estavam simulando processos cognitivos complexos que não mais se limitavam à cognição humana; máquinas supostamente poderiam simular ou mesmo reproduzir o comportamento inteligente.
Nesse contexto, é importante ressaltar que o paradigma computacional é inerente à Ciência Cognitiva. O estudo da inteligência já vinha ocorrendo na Neurociência, Psicologia, Antropologia e Linguística, que, em conjunto, englobam a grande área denominada Ciências da Cognição. Entretanto, o elo metodológico com a computação é característica primordial da Ciência Cognitiva e da Filosofia da Mente, em seu viés mecanicista, que desde o início propiciou suporte epistemológico a essa ciência.

Era da informação e seus erros

Os seres humanos são interligados por uma espécie de teia de informações que norteia suas vidas. Há um substrato comum de valores, regras, leis e hábitos que só existe porque os homens conseguem captar, manipular e transmitir informações que contém significados partilhados. No mundo atual, em que o homem é bombardeado por uma avalanche de informações a todo instante, essa capacidade - a de lidar com informação significativa - tende a ser potencializada, já que o acesso a informações é vasto e rápido. Mas há falhas no sistema mental. Dentre as informações que recebe, o ser humano nem sempre consegue inferir o que é verdadeiro ou falso, o que pode provocar sérios problemas. Um caso que envolve a rápida disseminação de informações e a interpretação incorreta de seus verdadeiros significados foi o da Escola Base. Em 1994, seis pessoas foram acusadas de abusar sexualmente de alunos da Escola Base, em São Paulo. O delegado recebeu a denúncia e, sem verificar a veracidade dela, divulgou as informações à imprensa. Jornais publicaram uma série de reportagens revelando o ocorrido. A escola foi depredada e os acusados presos. Depois, descobriu-se que a denúncia não tinha fundamento, mas a carreira e a vida dos envolvidos já haviam sido arruinadas.

Imagens: Shutterstock / Wikipédia
Descartes (1596-1650), filósofo francês, concebia mente e corpo como tendo naturezas distintas. A Ciência Cognitiva procura estudar a mente sem cair nesse dualismo cartesiano 

Inteligência Artificial

Uma vez que os computadores processam informação simbólica por meio de algoritmos, cujo funcionamento pode ser explicado por regras mecânicas, eles servem como instrumentos para um tipo de modelagem da mente. Essa característica do computador propiciou a formulação de duas hipóteses centrais da Ciência Cognitiva que seriam testadas nos modelos computacionais. A primeira é que a capacidade de processar informação, de modo a resolver problemas, seria a característica fundamental da inteligência. A segunda é que a inteligência poderia ser explicada por meio de regras aplicáveis à manipulação de símbolos. Dessa forma, se fosse possível descobrir os algoritmos subjacentes à atividade de resolução de problemas, seria possível, também, desenvolver máquinas que simulassem ou, até mesmo, para alguns, replicassem a mente inteligente. A criação dessas máquinas, por sua vez, indicaria que a Ciência Cognitiva, na vertente da IA, teria conseguido explicar, com sucesso, o que é e como funciona a mente inteligente em termos de seu processamento simbólico de informação.
Um experimento, conhecido como "quarto chinês", mostra que as máquinas, diferentemente das mentes, não processam informação significativa, apenas seguem certas regras

Entretanto, uma questão essencial foi temporariamente ignorada: não se sabia ao certo qual seria a natureza ontológica da "informação" e do seu possível significado. Seria ela um tipo de matéria, de energia ou nenhum destes? Tratava-se, na Ciência Cognitiva, de um conceito pressuposto, mas essencial, já que a informação significativa (aquela que denota algo para alguém) era o que supostamente seria próprio tanto das máquinas quanto dos seres inteligentes em geral.
No caso dos seres humanos, não resta dúvida de que vivemos ligados por uma teia, não necessariamente simbólica, de informação. A cultura, caracterizada como um conjunto de regras, leis e hábitos de ação compartilhados por um grupo de pessoas, talvez seja o resultado mais contundente desse fato. Mas nada disso seria possível se os seres humanos não fossem capazes de captar, manipular e transmitir informação significativa. Consequentemente, uma das dificuldades centrais da Ciência Cognitiva apontada pelos seus críticos, tais como os filósofos Hubert Dreyfus e John Searle, residiria na compreensão de duas questões: (1) o que é informação? e (2) como é possível o surgimento do significado em redes informacionais? Para entender o que há por detrás dessas questões é oportuno lembrar um "experimento de pensamento" desenvolvido no início dos anos 1980 por John Searle, que foi amplamente discutido por mais de 20 anos.


Conhecido como experimento do "Quarto Chinês" (Searle, 1980), sua principal função era sustentar que programas computacionais, embora pudessem ser uma boa ferramenta para o estudo da inteligência, não explicavam adequadamente o modo de funcionamento da mente. Em poucas palavras, um computador propriamente programado para executar funções complexas, tal como Hall 9000 do filme 2001: Uma odisseia no espaço, não possuiria mente, pois ele não seria capaz de trabalhar com informação significativa. Voltemos-nos ao experimento.
Imaginemos que Antônio é um sujeito monoglota capaz de usar apenas a língua portuguesa. Imaginemos também que ele esteja trancado num quarto que possui somente duas janelas pequenas por onde só é possível passar cartões de papel. Os únicos objetos que fazem companhia a ele são um punhado de cartões com inscrições em chinês e um caderno onde estão escritas algumas regras em português.
Essas regras apresentam correlações que devem ser feitas entre os cartões com inscrições em chinês. É importante ressaltar que tais regras basicamente constituem, como boa parte dos programas computacionais, um conjunto de algoritmos lógico-condicionais que denotam relações do tipo "se... então...".
Antônio está esperando; ele não sabe exatamente o que fazer. Mas nesse momento, por uma das janelas - à qual os cientistas dão o nome de "input" ou "entrada" - ele recebe um cartão com símbolos escritos em chinês. Ao ver o cartão, Antônio consegue correlacioná-lo, apenas por conta do formato das inscrições, com um dos cartões que já estavam no quarto. Chamemos o cartão recebido por Antônio de "cartão 1" e o cartão correlacionado de "cartão 2". A regra que ele seguiu foi a seguinte: "Se o 'cartão 1' aparecer na janela de entrada, então colocar o 'cartão 2' na janela de saída". A janela de saída é a outra janela pequena do quarto, à qual os cientistas dão o nome de "output".
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Os computadores usam algoritmos, que em geral denotam relações lógico-condicionais, para processar informação. A chave para explicar a inteligência pode vir da manipulação de símbolos

Antônio continuou manipulando cartões por um bom tempo. Enquanto isso, do lado de fora do quarto, se encontravam alguns cientistas responsáveis pela colocação dos cartões na janela de entrada do quarto e também pelo recolhimento dos cartões que ele colocava na janela de saída. Esses cientistas, ao contrário de Antônio, eram peritos em língua chinesa, sendo que as inscrições dos cartões que eles colocavam na janela expressavam perguntas sobre diversos assuntos. Já as inscrições dos cartões que estavam no quarto continham respostas a essas questões. Antônio, ao seguir as regras em português, conseguia selecionar a resposta correta de acordo com os cartões de entrada. Movidos pelo entusiasmo da pesquisa, esses cientistas logo acreditaram que Antônio entendia chinês. Todavia, a questão que se coloca é: será que Antônio realmente entendia o significado das informações inscritas em chinês nos cartões?
Searle sustenta ainda hoje que Antônio não entendia nada de chinês e que, por isso, não poderia compreender o significado por detrás daqueles símbolos tão estranhos. O suposto entendimento decorreria do fato de que, dentro do quarto, Antônio se comportava de acordo com regras que nada diziam a respeito do significado da informação contida nos cartões. Tais regras talvez apresentassem algum traço da sintaxe do chinês, mas não a semântica das suas inscrições. Assim, embora manipulando corretamente os cartões enviados pela janela de entrada, Antônio não entendia o conteúdo significativo dos cartões.
Vivemos interligados por uma teia de informações: há regras, leis e hábitos compartilhados. Isso só é possível devido à capacidade de captar e transmitir informações 

Dessa forma, voltamos ao ponto central levantado por Searle: as máquinas funcionam tal como Antônio no quarto chinês. Esses artefatos possuem um conjunto de algoritmos, cuja função é estabelecer correlações entre a informação recebida pelas suas entradas para, assim, enviar as respostas pelas suas saídas. O que Searle quis mostrar é que a mente inteligente não funciona dessa forma. O filósofo até admite que somos máquinas, mas máquinas biológicas que processam informação significativa, coisa que as máquinas artificiais não são capazes de fazer.
O argumento do "quarto chinês" indica dificuldades cruciais, principalmente para a vertente simbólica da IA, as quais têm sido objeto de estudos de outras vertentes da Ciência Cognitiva, como as mencionadas RNA e RC. Nestas, o processo de emergência do significado é investigado por redes neurais artificiais ou de robôs que se auto-organizam, dispensando, em certa medida, a intervenção direta do programador.



Uma hipótese que queremos defender aqui é que informação não é matéria nem energia, mas um tipo de forma ou padrão que adquire significado na própria dinâmica auto-organizadora de sistemas que atuam no seu meio ambiente. Nesse sentido, caso máquinas artificiais pudessem lidar com informação significativa, ela seria intrínseca ao sistema "máquina/meio". Isto é, o significado seria uma propriedade emergente do funcionamento da própria máquina ao gerar, de modo auto-organizado, formas ou padrões direcionadores de sua ação no ambiente. Como até o momento não dispomos de máquinas que preencham satisfatoriamente esse requisito, não consideramos que elas processem informação significativa, mas sim significados atribuídos, em maior ou menor grau, pelos seus controladores humanos. Ora, já sabemos que nós, os controladores, somos capazes de manipular informação significativa. A questão é saber como isso é possível.
Assim, um dos grandes desafios da Ciência Cognitiva é conceber máquinas que não processem informação significativa derivada de seus controladores, mas que, ao longo de seu funcionamento, gerem, por si mesmas, informação desse tipo. Contudo, julgamos que uma dificuldade ainda mais fundamental reside na obtenção de um consenso sobre a natureza ontológica da informação. Tentativas de solucionar essa dificuldade são encontradas na Filosofia Ecológica, na Ciência da Informação, na Linguística, na Teoria Matemática da Comunicação (MTC) e na Filosofia da Mente.

Linhas de Investigação

De acordo com a abordagem estritamente técnica da MTC, a informação é uma commodity, cuja existência objetiva na natureza independe de qualquer ser consciente que possa interpretá-la. Nessa perspectiva, a informação se constitui em uma rede de elementos interdependentes, sendo a relação de interdependência fundamental para se compreender a sua natureza, já que, sem ela, a informação desapareceria. O caráter objetivo da informação possibilita a sua medida, que é de grande interesse para a recepção e transmissão eficiente de informação. Entretanto, a medida da informação não esclarece o seu aspecto significativo que, assim como o problema ontológico, não é de interesse para a MTC.
Tentativas de compreensão da natureza ontológica da informação foram inicialmente realizadas por Norbert Wiener, o pai da cibernética, que ficou célebre ao afirmar nos anos 1960 que "informação é informação, não é matéria nem energia". Wiener também caracterizou a informação como sendo "o conteúdo que trocamos com o mundo à medida que nos ajustamos a ele", mas ele não explicitou qual seria a natureza desse conteúdo. Vinte anos depois, apoiado na MTC, o filósofo da mente Fred Dretske propõe uma definição nuclear de informação. Para o autor (1981), um sinal carrega informação sobre o que ocorre em uma fonte se ele for capaz de indicar factualmente as relações que se estabelecem na fonte, tornando-as acessíveis para qualquer receptor que se encontre em condições de recebê-las.
Assim caracterizada, como um indicador objetivo de relações, a informação possibilita um estudo do seu significado que, segundo Dretske, requer o exercício de razões sistêmicas e de aprendizagem: imersos em redes de informação, organismos complexos aprendem a representar aquelas relações sinalizadoras das condições favoráveis à ação. Ocorre que esse processo representacional envolve erros. É justamente a partir do reconhecimento e correção de erros no processo de representação da informação que os organismos adquirem a capacidade de associar um significado a ela. Assim, o significado não estaria presente na informação, disponível objetivamente no mundo, mas no processo de representação da informação (originalmente destituída de significado) quando atrelado à habilidade de aprendizagem, necessária à correção de erros presentes na informação representada. O significado seria, desta forma, uma propriedade emergente da interação representacional entre os organismos complexos e o mundo informacional (Dretske, 1981, 1992).
Ao se apoiar no conceito de representação mental, a concepção dretskeana de informação significativa despertou grande interesse de cientistas cognitivos que buscavam elaborar modelos representacionais da inteligência.

Significado Partilhado

Uma concepção distinta da informação e do significado é proposta na Filosofia Ecológica, que tem como precursores Gregory Bateson (1986, 2000) e James Gibson (1986). Esta área da Filosofia começou apenas recentemente a ser apreciada pelos cognitivistas, mesmo assim com ressalvas, uma vez que ela rejeita o pressuposto represencionalista da mente, além de não se apoiar no mecanicismo para explicar o caráter significativo da informação e da inteligência.

Existem diferenças fundamentais entre a concepção ecológica e a concepção mecanicista do significado. A principal delas é que, segundo a Filosofia Ecológica, o mundo não é uma "terra de ninguém" abarrotada de informação destituída de significado à espera de uma mente que represente e atribua significado aos seus constituintes. Ao contrário, o mundo em que habitam seres inteligentes, incluindo organismos, plantas, entre outros, é um imenso sistema coevolutivo, repleto de informação significativa desde a sua origem: na condição de seres ativos, nascemos em um mundo que abriga e que possibilita a sobrevivência de seus habitantes, justamente porque ele é carregado de significado que unifica os seres por meio de padrões informacionais comuns.

Se a inteligência está ligada à capacidade de processar informações, máquinas com essa propriedade podem ser consideradas inteligentes, com funcionamento semelhante ao da mente

O significado inerente à informação ecológica, nesse contexto, é caracterizado por um conjunto de invariantes ambientais e históricos que possibilitam a sobrevivência de seres ativos. Gibson (1986) desenvolve uma reflexão sobre as invariantes estruturais e de transformação que constituem as affordances. Affordances são informações significativas disponíveis no ambiente que possibilitam a ação dos organismos nele situados. Assim, por exemplo, a cadeira possibilita o ato de sentar para indivíduos situados em um ambiente no qual o sentar constitui um hábito de ação. A discussão sobre a riqueza do conceito de affordance na Filosofia Ecológica escapa do escopo da presente análise, cuja finalidade é apenas indicar algumas concepções sobre a natureza da informação e a origem do significado.
Em síntese, de acordo com a Filosofia Ecológica proposta por Gibson (1986), o significado não se descola da informação, mas é parte constitutiva do fluxo contínuo de eventos que envolvem a realidade ecológica. Tal realidade, por sua vez, sendo carregada de significado, diferencia-se do mundo concebido em termos estritamente físicos. Como sugere Gibson, ainda que as leis físicas organizem parte do cenário da realidade ecológica, o significado a ela inerente se origina na relação de reciprocidade organismo-ambiente. A análise ecológico-informacional dessa relação enfatiza o papel unificador das affordances em vários planos da existência dos organismos que as percebem com significado relativamente
invariante, seja como alimento, ameaça, abrigo, entre tantos outros.
Na mesma perspectiva, Bateson (1986, 2000) argumenta que somos subsistemas integrantes de um todo coevolutivo que possui uma unidade comunicativa elementar. Essa unidade, que conecta os organismos entre si e os demais componentes do meio, constitui a informação significativa, que é caracterizada como "a diferença que faz diferença". Essa enigmática afirmação de Bateson carrega em si uma concepção filosófica sistêmica, recentemente apreciada pelos cientistas cognitivos e filósofos da mente que defendem a perspectiva da Cognição Situada e Incorporada. A inseparabilidade entre organismo, mente e ambiente é defendida por Bateson em sua "ecologia da mente", que propõe o conceito de padrão informacional significativo como a unidade unificadora da mente, do comportamento e dos fatos do mundo. O significado estaria, assim, muito próximo de nós e sua gênese poderia ser encontrada em nossa própria origem.

Referências
ADAMS, F. (2003). The informational turn in philosophy. Minds and Machines, 13, 471-501.
BATESON, G. (1986). Mente e natureza. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora S.A.
BATESON, G. (2000). Steps to an ecology of mind. Chicago: University of Chicago Press.
DRETSKE, F. (1981). Knowledge and the flow of information. Oxford: Blackwell.
DRETSKE,F. (1992). Explaining behavior: reasons in a world of causes. Cambridge: The MIT Press.
GIBSON, J. (1986). The ecological approach to visual perception. Boston: Houghton Miffin.
SEARLE, J. (1980). Minds, brains and programs. The Behavioral and Brain Sciences, 3(3), 417-424.
TURING, A. (1950). Computing machinery and intelligence. Mind, 59 (236), 423-460.

A Tragédia em notas musicais

 
 A Tragédia em notas musicais
 
Apesar da falta de palavras, a música pode expressar, de forma universal, a essência moral buscada pela Tragédia. É é dessa forma que Música e Filosofia se aproximam e ajudam-se uma à outra, como mostram Nietzsche, Wagner e Schopenhauer


Imagem: Shutterstock
Filosofia e Música podem ser aproximadas de modo que uma ajude a compreender a outra, realizando assim um silogismo pela arte de pensar. A Tragédia exposta nas obras dos alemães Richard Wagner (1813-1883), Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900) direciona o ensino, tanto na educação musical como na área filosófica. Wagner reconhece a importância dos escritos schopenhauerianos em relação à Música, e Nietzsche aborda as muitas questões da filosofia de Schopenhauer. Porém, como poderemos ver adiante, a posição dos pensadores a respeito da Tragédia grega, na área musical ou filosófica, não se mostra convergente.

Tragédia Grega


Pensar a Tragédia grega é discorrer sobre o sentido que o mito tem para quem o segue, acredita ou utiliza e de que forma isso é aproveitado para trabalhar uma moral. A compreensão de uma Tragédia se dá pela ação e reação do fato ocorrido, de maneira que o espectador ou leitor se deixe tocar pelo sofrimento e pela angústia apresentada no enredo e utilize o aprendizado em sua vida.

Para Aristóteles, isso não passa de uma imitação (mimese), assim como um pintor ou escultor que, por meio de seu trabalho, faz uma cópia do original. Assim sendo, segundo o filósofo grego, não existe uma representação inédita, seja na pintura, na poesia, no teatro ou na música, pois quando se representa, há a imitação de algo ou da própria origem.
Entre vários pensadores que desenvolveram trabalhos com o tema "Tragédia grega", Arthur Schopenhauer direcionou e proporcionou uma linha de raciocínio com base em dois grandes nomes: Richard Wagner, na música, e Friedrich Nietzsche, na Filosofia.

Sidnei de Oliveira é músico e compositor instrumentista, formando em Licenciatura Plena - Filosofia - Unifran violaoliveira@yahoo.com.br 

Embasado na Filosofia Oriental, Schopenhauer explica a Tragédia como sendo o Véu de Maia, nos mostra a questão da representação, do drama e da música.
Nietzsche e Wagner, sendo mais próximos e por manterem uma amizade de aproximadamente dez anos, puderam juntos desenvolver e estudar a Tragédia grega. O livro intitulado O Nascimento da Tragédia, que no título original fica O Nascimento da Tragédia ou Helenismo e Pessimismo (Die Geburt der Tragödie oder Griechntum und Pessimismus) foi publicado no mesmo ano em que Wagner publicara um arquivo com o nome Acerca do nome Musikdrama, no qual discorre sobre o pensamento e significado de Tragédia, drama e música
.

Imagens: Wikipédia
Na ordem, Schopenhauer, Wagner e Nietzsche: cada um à sua maneira aborda a Tragédia em suas obras e encontra parcerias entre Música e Filosofia  
Na mitologia grega, Apolo e Dionísio representam valores opostos, mas que se complementam. Apolo é defensor da ordem, da razão, da harmonia, da moderação. Dionísio exalta o êxtase, a desordem e a alegria


Arte e Ideias
Arthur Schopenhauer tinha a filosofia de Platão como uma arte, deixando claro que se distinguia de todas as precedentes. Para Schopenhauer, a obra de arte é a reprodução de um conhecimento da ideia previamente realizada pelo artista - no sentido platônico, partindo da alegoria exposta no mito da caverna, em que as ideias são a única realidade verdadeira, enquanto os fenômenos são apenas aparências, algo similar à coisa-em-si kantiana 1. Assim, ambas as doutrinas considerariam o mundo sensível como uma aparência ou que a verdadeira realidade nada teria em comum com as formas da experiência fenomenal.
Para Schopenhauer, a música não necessita de complemento para expressar, pois é sentimento puro e livre de qualquer representação, é uma linguagem íntima expressa pelo ser íntimo, ou seja, é o profundo sentimento. "A música, portanto, de modo algum é semelhante às outras artes, ou seja, cópia de ideias, mas sim cópia da vontade mesma, cuja objetividade também são as Ideias. Justamente por isso o efeito da música é tão mais poderoso e penetrante que o das outras artes, já que estas falam apenas de sombras, enquanto aquela fala da essência" (Schopenhauer, 2005, p.338).
Por este motivo, o filósofo não relaciona a Música à Tragédia, simplesmente porque a poesia lírica é capaz de causar um conhecimento metafísico. Uma coisa é bela quando é objeto de nossa contemplação estética. No caso da Tragédia, portanto, a estética é a moral assimilada pelo espectador.
A Tragédia segundo Schopenhauer possui dois aspectos: a apresentação do conteúdo da Tragédia e de sua finalidade ou o efeito trágico causado ao espectador. Efeito este conhecido por catarse, ou seja, o reviver de acontecimentos que fazem os afetos estarem ligados a determinada representação. Estas emoções transformam na "mais pura", e "superior" purificação através da fruição receptiva da obra de Arte, notadamente a tragédia.
Podemos comparar a Tragédia através da filosofia de Schopenhauer como o Véu de Maia exposto em sua principal obra, O Mundo Como Vontade e Como Representação (Die Welt als Wille und Vorstellung). O Véu de Maia nos mantém adormecidos à medida que limita nossas visões àquilo que entendemos como realidade, valorizamos somente o que é concreto, devemos obediência ao que o senso comum aprova e reconhecemos apenas os fenômenos empíricos, ignorando a legitimidade das experiências míticas.




 
Imagem: Wolfgang Sauber/Wikipédia
Escultura de Melpômene, musa da Tragédia. Para Aristóteles, tanto a escultura quanto a Música e outras formas de Arte não passam de imitações, nunca são inéditas
Celebração da Vida

Friedrich Nietzsche, um vidente da humanidade superior, alguém que buscava a superação de si mesmo, tinha como base filosófica a consagração da vida, cheia de força e vigor. O filósofo era venerador de Wagner e de Schopenhauer e dizia que a Arte e a Filosofia eram os guias verdadeiros da vida
2.
Niilista e muito mais dionisíaco que apolíneo, se dizia o último discípulo de Dionísio, pois sua vida era de embriaguez e sofrimento. Em seu pensamento, é indispensável a embriaguez para que haja Arte, ação ou contemplação estética, ou seja, um processo de idealização. É na Arte que o homem chega à sua perfeição em seu próprio condicionamento. Partindo desse pensamento nietzscheano, não é distante para ele ser dionisíaco, pois Dionísio é a força criadora e lúdica da vida se tornando o símbolo dos desejos humanos, dando liberdade de movimento, de pensamento e ação. Desta forma, o filósofo alemão foi buscar no culto dionisíaco a instabilidade, a reprodução, chegando à mulher como peça natural da criação, sendo inspiração dos sátiros, percebendo a dualidade dos sexos e da explosão da Arte.
Nietzsche coloca a ópera de Wagner como o renascimento da Tragédia, afinal, afirma que nenhuma outra Arte está tão próxima do coração como a música, pois sua linguagem se manifesta pelo ouvido interior, em uma maestria da cadência para o tempo, o ritmo e a palavra. A relação de Nietzsche com a música foi de paixão, no sentido de aproximação e conhecimento pelo objeto, da mesma forma que o aproximou de Wagner, contemplando a junção destes três elementos: Tragédia, paixão e música.
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Para Schopenhauer, a Música é superior a outras artes por não ser a cópia de ideias e sim a expressão pura de sentimento, livre de qualquer representação 

Portanto, o sentimento trágico só é possível de ser absorvido por quem possui conhecimento necessário para refletir a moral exposta na Tragédia, apesar de atingir também àqueles que possuem o "sentimento simpático" 3 .
Neste trecho de Além do Bem e do Mal, Nietzsche explicita o que pensa por Tragédia: "A volúpia dolorosa que é a essência da Tragédia, nada mais é que crueldade, tudo aquilo que na paixão trágica, e no fundo mesmo no sublime, mesmo nos mais supremos e mais delicados arrepios da metafísica, desperta uma complacência, obtém seu dulçor apenas pelo ingrediente de crueldade que lhe é mesclado. Todos os prazeres que se apossavam com secreta volúpia dos romanos na Arena, dos cristãos na lembrança da cruz, dos espanhóis frente aos toureiros ou corridas de touros, que experimentam os japoneses da modernidade quando se reúnem para ouvir a Tragédia, os operários dos subúrbios de Paris que têm a nostalgia das revoluções sangrentas, os wagnerianos que imersos em êxtase degustam Tristão e Isolda - são apenas filtros mágicos da grande Circe que tem o nome de Crueldade" (Nietzsche, 2007, p. 150).
Portanto, a Tragédia grega demonstra sobretudo o aniquilamento do herói diante de forças extraordinárias que o superam. O herói representado em cena é um indivíduo, e o destino da individualização é a dissolução no âmago da natureza. Para o espectador, este enredo gera uma compreensão em forma de consolo metafísico.
Imagem: Wikipédia
Monalisa, de Leonardo da Vinci. Em sentido platônico, as ideias são as essências das coisas existentes no mundo tangível. Para Schopenhauer, o artista reproduz um conhecimento dessas ideias
Música e Drama

Richard Wagner disse com um calor indescritível em um encontro com Nietzsche que Schopenhauer é o pensador que mais conhece a essência da música. Wagner recebeu de presente do poeta Georg Herwegh, pouco antes do outono de 1854, dois livros do filósofo Schopenhauer,
Die Welt Als Wille und Vorstellung e Parerga und Paralipomena, no mesmo ano em que terminou a partitura de O Ouro do Reno. No ano de 1854, quando começou a ler Schopenhauer, chegou à conclusão de que o drama era essencialmente expresso pela Música e que o desempenho no palco não passava de um "ato musical visualizado", colocação esta que acrescentará no artigo escrito em Über die Benennung Musikdrama Wochenblatt, em 8 de novembro de 1872 4 .
Em seu artigo sobre a palavra Musikdrama, Wagner cita que estes dois substantivos (música e drama), que juntos formam uma única palavra, resultam em algo como um drama no serviço de música, retomando, assim, a ópera libreto. Reduzindo o significado para "um drama musical", Wagner coloca este termo da seguinte forma: ou é bom para se fazer música, ou bom para entender a música. O fato é que a forma com que Wagner expõe a música na palavra Musikdrama, coloca a música no mesmo patamar de importância do drama apresentado. Desta forma, a Música é convidada a desenvolver e a alargar as suas competências em parceria de um autêntico drama.
Para Wagner, a primeira acepção de drama acontece na Tragédia, com o "feito" ou "ação" ocasionado geralmente por um coral cantando em caráter sacrifical.
O que Wagner propõe a esclarecer é que a música não pode ser vista apenas como um fundo musical - música esta que se define como "música para acompanhar uma refeição" (Tafelmusik) - no momento em que ocorre toda a Tragédia e, sim, um importante complemento. Desta forma, a Música não é vista como superior ou inferior ao drama, pois ambos estão ligados para melhor atingir o ouvinte ou o espectador, fazendo que o "feito" ou "ação" seja de caráter único.

Véu de Maia
A expressão "Véu de Maia" ou "véu da ilusão" vem da filosofia indiana e significa esconder a realidade das coisas em sua essência. Os hindus cultivaram a ideia de que o nosso mundo não é exatamente esse que vemos e somos levados a acreditar.
O mundo real, segundo eles, seria algo escondido do olhar humano comum, acessível somente a quem conseguisse ultrapassar o "Véu de Maia". Schopenhauer, influenciado pela filosofia indiana, desenvolveu a teoria segundo a qual há algo que impede o homem de conhecer a realidade. O fenômeno, ou seja, todas as coisas que nos cercam, seria apenas ilusão e aparência. A realidade, ou a "coisa em si", estaria velada a nós em sua essência, escondida atrás do fenômeno. O acesso à "coisa em si", a retirada do "Véu de Maia", segundo Schopenhauer, seria a "vontade". Não uma vontade finita, individual e ciente, mas cujo conceito se refere a algo infinito, uno e indizível.

Imagem: Jastrow/Wikipédia
Dionísio, deus da mitologia grega de quem Nietzsche se dizia discípulo. Ambos valorizam a liberdade, os impulsos e a embriaguez, sem a qual não imagina a Arte
Filosofia sem Palavras
Quando Platão diz que a música imita o movimento da alma e Aristóteles que a música é ordenada ao ético e semelhante a ele, compreende-se a essência da Música como um discurso sem palavras, a essência que Schopenhauer define como do "bem e/ou mal" (Wohl und Wehe), como um manifestar-se sem palavras daquele processo da mais íntima autorrealização; como o devir da pessoa moral; como o querer em todas as suas formas; como o amor. Essa mesma essência para Platão é um meio para formação do caráter do indivíduo.
Como já dito anteriormente, discorrer sobre Filosofia e Música nos remete a aproximá-las de modo que uma ajude a compreender a outra, realizando assim o silogismo pela arte de pensar.
Não só para Platão, mas também para Aristóteles, a Arte se dá por intermédio da imitação, não imitação por imitação, mas sim a imitação direta da própria ideia, do inteligível imanente do sensível, tornando desta forma a intuição como fator primordial para receber a obra do artista.
Temos como exemplo de silogismo Nietzsche, com a abertura de Lohengrin, onde cita: "detesto toda música cuja única ambição consiste em agir sobre os nervos" (Nietzsche, 2007, p.32). Wagner, com a Filosofia de Schopenhauer na composição de Die Walküre, diz: "Assim, certamente não era uma simples coincidência que, ao ler Schopenhauer pela primeira vez em 1854, tenha tido uma espécie de iluminação súbita, no exato momento em que trabalhava na cena do ataque de desespero de Wotan, no segundo ato de Die Walküre" (Deathridge e Dahlhaus, 1988, p.69).
A Filosofia possui certa quantidade de Música, como a Música possui de Filosofia. "Música é um exercício oculto de metafísica no qual a mente não sabe que está filosofando" (Schopenhauer, 2007, p.347).
Sendo assim, o mito e a Tragédia, apesar de expostos de maneiras diferentes, tinham como fator primordial fazer que o ouvinte ou o espectador, por meio da mensagem recebida, trabalhasse seu interior para buscar a moral em si. Além disso, podemos concluir que para entender a essência da música e da Tragédia é necessário trabalhar de maneira que o drama e a música sejam um único argumento em harmonia. A filosofia de grandes pensadores nos mostra que a função da Música em determinado período possui liberdade única de expressão para atingir universalmente o homem como a poesia age quando é lida ou apresentada de várias formas.
Por fim, a pura contemplação, a essência e os fenômenos do mundo são representações na imitação de ideias, da Arte, da obra, que pelo conhecimento das ideias seu único fim é a comunicação e a reflexão deste conhecimento, ou seja, da informação apresentada.
Mito e Tragédia - duas formas de moral
O mito (saber alegórico), relatava a vida dos deuses, heróis e seu envolvimento com os homens. Este conjunto de lendas e crenças através de um modo simbólico forneceu explicações para a realidade grega acomodando e tranquilizando o ser humano em um mundo assustador, uma preocupação de expor a degradação moral crescente da humanidade, em seguida fazer conhecer o destino para além da morte, das gerações sucessivas.
O mito estabeleceu uma distinção clara entre o mundo da natureza, o mundo humano, o mundo das forças sagradas aproximadas pela imaginação mítica, que às vezes estabeleceu entre todos os setores do real um jogo de correspondências sistemáticas, os pensamentos míticos são assimilações implícitas estabelecidas entre fenômenos físicos e agentes divinos, o sobrenatural, ou seja, formas diversas, níveis múltiplos, modos de organização. Em segundo lugar o pensamento racional volta-se para suas origens, interroga o seu passado para se situar e compreender historicamente, sendo assim, elimina estações polares e ambivalentes que representam no mito um papel importante, utiliza associações por contrates, afasta o que procede de ambíguo ou do equívoco.
A Tragédia pode ser vista como o cotidiano, é a imitação do viver, do agir, da incerteza, seja ela qual for, independentemente da ação e reação, pois por intermédio desta ação surge a catarse que é o principal ponto a ser tocado pelo homem, ou seja, a purificação realizada pelo lado emotivo passado pela reação, o terror que o espectador ou leitor está vivenciando do lado de fora da cena faz que ele possa sentir-se no mesmo lugar, o padecimento, o alívio junto ao enredo mostrado desde o início ao fim.
Desta forma, mostrando a realidade pela tristeza, redenção e alegria ao mesmo tempo, gera-se um estímulo para vida, que o homem que está fora da encenação adentre e tome o lugar deste trágico momento, movendo assim um momento de reflexão e mudança caso seja necessário. A Paideia é este enredo trágico recebido de maneira correta, no conceito da moral pelo homem que se encontra pelo lado de fora.


Referências
ARISTÓTELES. Arte Poética. 1ª ed. São Paulo. Editora Martin Claret. 2003.
DEATHRIDGE, John / DAHLHAUS, Carl.Wagner. Porto Alegre. L&PM Editores S/A. 1984.
MANN, Thomas. O Pensamento Vivo de SCHOPENHAUER. São Paulo. Livraria Martins Editora S.A. 1955.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Além do Bem e do Mal. 2ª ed. São Paulo. Editora Escala. 2007.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Aurora. 1ª ed. São Paulo. Editora Escala 2007.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Crepúsculo dos Ídolos. 1ª ed. São Paulo. Editora Escala. 2007.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Caso Wagner. 1ª ed. São Paulo .Editora Escala. 2007.
NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O Nascimento da Tragédia. 1ª ed. São Paulo. Editora Escala. 2007.
PLATÃO. República. 2ª ed. São Paulo.Editora Escala. 2007.
SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo Como Vontade e Como Representação. São Paulo. Editora Unesp. 2005.
WAGNER, Richard. Über die Bennung "Musikdrama". Musikalisches Wochenblatt. Novembro de 1872. (Trad. de Abel Alamillo, Acerca de la denominación "Musikdrama").
1. KANT, Immanuel (1724-1804), filósofo alemão. A coisa-em-si citada se refere à realidade não fenomênica
2. MANN, Thomas. Schopenhauer, Nietzsche e Freud, Madri, Editora Cast: Aliança Editorial S.A, 2000, p. 96.
3. NIETZSCHE, Friedrich. Aurora, Ssão Paulo, Eeditora Eescala, 2007, p. 129.
4. DEATHRIDGE , John e DAHLHAUS, Car. Série The New Grove - Wagner, Porto Alegre, L&PM Editores, 1988. p.69.

O trabalho do psicólogo nos hospitais

O trabalho do psicólogo nos hospitais
 
Do cuidado com o paciente ao respeito pelos profissionais da Saúde


 



Psicologia dentro do hospital geralshutterstock
Em meados da década de 1970, a Psicologia iniciou sua história no Hospital Geral. Esta inserção ocorreu na enfermaria de ortopedia do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Naquela época, percebia-se a necessidade de pacientes e familiares receberem um suporte psicológico em função das questões relacionadas ao adoecimento, entretanto, não se sabia ao certo o quê e como fazer.
Ao longo deste período, psicólogos de diversas partes do mundo foram aprimorando a prática psicológica no contexto da instituição de saúde, tendo ocorrido uma adequação da simples transposição da clínica até o modelo atual – quando as intervenções passaram a ser mais focadas e adequadas e houve um diálogo com profissionais de outras áreas e com diferentes visões sobre o humano e o adoecimento que nem sempre são uniformes.
Um intenso movimento relacionado à Psico-oncologia (psicólogos que atendem pacientes com câncer e seus familiares) cresceu e ganhou espaço num dos principais centros de oncologia americano, o Memorial Sloan Kattering. No Reino Unido, a Psicologia da saúde conquistou espaço, com psicólogos inseridos nas diferentes unidades hospitalares: pediatria, moléstias infecciosas, renais crônicos, cardiologia, entre outros.
Hoje, no Brasil, temos psicólogos em muitos hospitais gerais, sejam eles públicos ou privados. Sabemos que a rede pública paulistana se destaca na inserção deste profissional. Hospitais de grande porte e de referência contam com equipes de Psicologia inseridos nas diferentes unidades, sejam elas de internação ou ambulatoriais, e desenvolvem junto com médicos, enfermeiros, assistentes sociais, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, entre outros, trabalhos interdisciplinares. Nessas intervenções, cada profissional tem o seu papel, mas juntos e em equipe todos discutem os casos considerando as várias esferas do paciente. Além de São Paulo, Brasília (DF) é uma referência grande em reabilitação, oferecendo atendimento nas diferentes esferas para pacientes em fase de reabilitação física e cognitiva.
Modelo de ligação
Dentre os modelos mais frequentes de inserção do psicólogo, temos o modelo de interconsulta e o modelo de ligação. Em serviços em que o psicólogo atende a partir de pedidos de consulta, ou seja, no modelo de interconsulta, este profissional não pertence a uma equipe específica, mas responde às solicitações que partem das diferentes unidades do hospital – sobretudo das unidades de internação. Nestes casos, as discussões em equipe acontecem entre os profissionais que acionaram este especialista e os demais envolvidos no caso. O psicólogo que atua em um modelo de ligação trabalha diretamente vinculado a uma equipe multiprofissional, em que geralmente já há um fluxo definido do momento em que os pacientes serão encaminhados, além de existir diversas intervenções preconizadas, como o preparo pré-cirúrgico e acompanhamento pós-cirúrgico. Neste modelo, além do trabalho assistencial, a participação em reuniões clínicas e de discussão de caso em equipe são comuns, além da produção científica de conhecimento.
Nos artigos a seguir, decorremos sobre a prática do psicólogo da saúde em três cenários diferentes: nas unidades pediátricas, na equipe de cuidados paliativos e nos cuidados oferecidos a quem cuida dos pacientes e familiares, o profissional do hospital.
O artigo sobre o paciente pediátrico e sua família discorre sobre as particularidades de atender a criança, as diferentes demandas do paciente adulto e infantil e a necessidade de suporte à família como parte do trabalho.
O texto sobre os Cuidados Paliativos trata da história e da importância da intervenção do grupo de paliativos, com sua característica tão multiprofissional. Mostraremos como essa filosofia vem ganhando espaço nos últimos anos e como é sua inserção no contexto hospitalar.
Por fim, mas não menos importante, há um artigo sobre os cuidados com o cuidador. Estudamos, trabalhamos e nos desenvolvemos para cuidar da melhor forma possível do outro, mas quem cuida de nós? Esse tema tem sido amplamente discutido nos hospitais (públicos e privados) – entidades cada vez mais preocupadas em cuidar e resguardar seus profissionais.
Todos os artigos foram escritos por profissionais que hoje atendem no Hospital Sírio Libanês, um hospital filantrópico em São Paulo. Entre os autores há um psicólogo que se ocupou em nomear e descrever cuidadosamente o papel da Psicologia da Saúde nos diferentes cenários do hospital. Espero que vocês gostem!
Fernanda Rizzo di Lione é coordenadora da Unidade de Psicologia Hospitalar e Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês, psicóloga clínica existencial

Intervenção multidisciplinar ao paciente pediátrico e sua família
 
Cabe ao psicólogo hospitalar especializado em Pediatria cuidar das fantasias e angústias das crianças e de seus cuidadores 

 
 
As unidades de internação pediátrica e de terapia intensiva pediátrica (UTIP) são locais onde se pratica Medicina de Excelência em pacientes muito especiais. Com os avanços tecnológicos, os diagnósticos são cada vez mais precisos e os tratamentos cada vez mais eficazes. Apesar disso, internações em ambientes pediátricos são sempre angustiantes e estressantes tanto para as famílias como para as crianças. Não entendemos como parte do ciclo vital e temos dificuldade em ver crianças ficando doentes, sendo internadas, passando pelos procedimentos e, até, morrendo. Para os pais, há um misto de esperança e medo. Esperança, pois sabem que o hospital é o local mais bem preparado para atender os seus filhos; e medo, pois sabem os riscos inerentes a uma internação hospitalar.
Apenas recentemente foi dada importância ao estresse gerado por uma internação hospitalar, tanto para os pacientes como às suas famílias. Por ‘família’ entendemos as pessoas importantes afetivamente para as crianças, independentemente da existência de vínculos sanguíneos. Trabalhar em Pediatria significa atender a criança e a sua “família”.
Está havendo uma mudança na visão do atendimento, levando a um cuidado maior com a questão da humanização. O espaço físico vem sendo adaptado, com a presença de sofás ou poltronas para os acompanhantes, decoração mais informal e infantil, presença de sala de brinquedo e televisores nos quartos.
Cada membro da equipe acaba por particularizar, individualizar e adaptar seus utensílios e procedimentos para esta faixa etária de pacientes. Neste sentido, há um cuidado com as cores dos uniformes, em especial com o uso do jaleco branco que sabemos de antemão o quanto assusta as crianças.
Caso algum membro da equipe perceba que a participação da criança não esteja ocorrendo de forma adequada, é solicitada avaliação da equipe de psicólogos para cuidar da criança e/ou família e facilitar a interação da equipe com essa criança em específico. Cabe ao psicólogo hospitalar especializado em Pediatria cuidar das fantasias e angústias das crianças e seus cuidadores. Para isso, é preciso primeiro avaliar a demanda da criança e sua família e, em seguida, ajustar a metodologia a essa demanda. Concomitantemente, trabalhamos junto com os demais membros da equipe no acerto a essas necessidades e na disponibilidade em atendê-las.
Sabemos a importância do vínculo terapêutico na intervenção de toda a equipe de cuidados em geral, e em específico, a psicológica. Todo trabalho psicológico com a criança começa pela formação deste vínculo responsável por possibilitar o contato com a criança e sua família e consequentemente a efetividade da ação psicológica.

"Está havendo uma mudança na visão do atendimento, que leva a um
cuidado maior com a questão da humanização"

Na prática diária da equipe da Psicologia, trabalhamos com as demandas específicas de cada criança e família; ou seja, podemos atender só a criança e conversar com a família sobre como conduzir o processo; podemos atender a criança e um membro da família junto ou, ainda, atender só a família e, através dela, trabalhar as angústias da criança e dos adultos responsáveis. Esses modelos também são flexíveis e uma mesma criança pode num dia ser atendida sozinha pela psicóloga e, no outro, o atendimento ser junto com o seu cuidador principal, dependendo da sua necessidade.




Cada membro da equipe acaba por particularizar e adaptar seus utensílios e procedimentos para esta faixa etária de pacientes. Há um cuidado com as cores dos uniformes, em especial com o uso do jaleco branco que assusta as crianças

Sucesso terapêutico

Com crianças que estão na fase do raciocínio concreto, os profissionais utilizam histórias para explicar os motivos da internação e alguns procedimentos. Os bonecos são ótimos laboratórios onde as crianças fazem primeiro neles o que será feito com elas
Todos estes profissionais devem adequar sua linguagem para que a criança entenda o procedimento a ser realizado, o que deve acontecer independentemente de sua faixa etária. Com crianças que estão na fase do raciocínio concreto, utilizamos de histórias para explicar os motivos da internação e alguns procedimentos. Os bonecos (da própria criança ou do hospital) são ótimos laboratórios onde as crianças fazem primeiro neles o que será feito com elas. A forma como as explicações são passadas aos familiares também é muito importante. As informações sobre a doença e os procedimentos devem ser claras e dadas quantas vezes forem necessárias. Assim, os pais ficam mais tranquilos e confiantes na equipe, conseguindo transmitir tranquilidade para a criança.
Ainda com a intenção de favorecer a interação da criança e seus cuidadores com a equipe do hospital e o ambiente hospitalar, as tarefas cotidianas (troca de fraldas, oferecer dietas e dar banho) devem ser realizadas com auxílio dos cuidadores, sempre que possível, assistidos pela equipe de enfermagem. Desta forma, também tentamos diminuir o distanciamento da realidade hospitalar com a vivida em casa.
A equipe de nutrição respeita, na medida do possível, os horários e gostos pessoais da criança, adaptando a dieta-padrão fornecida pelo hospital e aumentando a chance da criança criar mais um forte vínculo com a equipe do hospital.
Os procedimentos de rotina da enfermagem, assim como os atendimentos fisioterapêuticos devem ser realizados de forma mais tranquila possível, muitas vezes utilizando-se de música e brincadeiras para distrair e desviar a atenção da criança do procedimento que está sendo realizado.
Pais e cuidadores
Como vimos, os pais ou cuidadores principais são parte do foco da equipe que atua na Pediatria. Assim, parte essencial do atendimento de todos os profissionais é a atenção destinada aos acompanhantes. Em diversos momentos, estes se encontram apreensivos, desestruturados e inseguros em relação ao tratamento dado aos seus filhos, não colaborando com a equipe, e por vezes, dificultando a execução de procedimentos necessários por considerarem que estes irão trazer apenas sofrimento para seus filhos. Em alguns casos, em especial quando as internações acabam se prolongando ou quando a criança não responde adequadamente ao tratamento, os pais acabam por questionar os procedimentos e toda equipe, apegando-se a pequenos fatos para nutrir esperanças e, assim, ignoram ou se recusam a aceitar os cuidados e informações dadas pelos profissionais que estão diariamente envolvidos no cuidado de seus filhos. Este é outro momento em que chamamos a equipe da Psicologia. Cuidar das expectativas e frustrações dos pais é parte do nosso trabalho e cabe ao psicólogo trabalhar com as impotências geradas pelo processo de adoecimento de um filho.
Trabalhar em Pediatria exige do psicólogo e de todos os membros da equipe uma leitura ampla que englobe o atendimento às necessidades da criança e da sua “família”.


Forma lúdica
A psicóloga Alessandra Brunoro Motta realizou a pesquisa Brincar no hospital: estratégia de enfrentamento da hospitalização infantil, que investigou como as crianças voluntárias da pesquisa definiam o brincar. Verificou-se que 67,8% delas o fizeram a partir de sua função lúdica, considerando as consequências de divertimento, alegria e prazer: “(...) eu acho que brincar é uma coisa divertida. A gente brinca para se distrair, para se alegrar, quando está mais triste, mais para baixo. Eu acho que brincar é isso” (F, 12 anos).
A importância da interação com a equipe do hospital
É sabido que os pequenos pacientes vivenciam uma situação extremamente estressante quando são internados: se encontram em ambiente diferente do domiciliar, sem a companhia constante dos familiares, já que em muitos hospitais não é permitida a presença de acompanhantes em período integral (apesar do Estatuto da Criança e do Adolescente no artigo 12 dizer o contrário). O ambiente, muitas vezes, apresenta ruídos e estímulos inadequados em excesso, passam por procedimentos muitas vezes dolorosos, além da presença de sondas, catéteres e tubos. Neste contexto, as crianças podem sentir dor e desconforto, suas brincadeiras são limitadas e sua movimentação é contida. Com o intuito de minimizar esse impacto, solicitamos aos cuidadores responsáveis que tragam brinquedos, fotografias e objetos que a criança goste para participar deste momento.


Denise Rolim Leal de Medeiros é fisioterapeuta da UTI Pediátrica do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês.

Fernanda Rizzo di Lione é coordenadora da Unidade de Psicologia Hospitalar do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês e psicóloga clínica existencial.


Equipe multidisciplinar em cuidados paliativos
 
A cura deixa de ser um objetivo a ser buscado a qualquer custo. A qualidade de vida, a autonomia e a dignidade do paciente e da família passam a ser prioridade

Por Daniela Achette, Fernanda Rizzo di Lione e Valéria Delponte


 
O avanço do conhecimento e da tecnologia aplicada à saúde tem crescido em ritmo acelerado, especialmente nas últimas décadas. Condições que há alguns anos eram consideradas fatais, hoje dispõem de tratamentos cujo desfecho pode ser a cura ou o controle, o que tem possibilitado tanto a sobrevida e quanto a convivência com as doenças. Cada novo avanço no diagnóstico ou tratamento ganha notoriedade e, com isso, a morte tem sido cada vez mais associada à ideia de má prática ou de fracasso, tanto no ambiente dos profissionais de saúde quanto no senso comum.
Quando a busca da cura se torna a única possibilidade aceitável, o enfoque do tratamento é maior na doença do que na pessoa. Isso fica mais evidente nas unidades de internação dos hospitais que estabelecem rotinas padronizadas e rígidas que tornam o trabalho bastante eficiente, mas que não levam em consideração as preferências e hábitos da pessoa que está doente e de seus familiares. Além disso, pacientes terminais, especialmente aqueles com câncer, ainda são submetidos a abordagens agressivas de tratamento curativo, mesmo quando este se torna ineficaz. Muitos profissionais têm dificuldade e evitam falar sobre a possibilidade de morte com pacientes e família. Em decorrência disso, pacientes que estariam em processo de morte natural são submetidos a suporte artificial de vida, considerado desconfortável e doloroso, em ambientes de terapia intensiva que os privam da presença de pessoas próximas (distanásia). Isso também implica na falta de oportunidade de resolução de questões pendentes e despedida dos familiares.
Frente a esse cenário surge a proposta dos cuidados paliativos. Conforme foi definido pela Organização Mundial de Saúde em 2002, os cuidados paliativos são uma abordagem que objetiva a melhoria na qualidade de vida do paciente e seus familiares diante de uma doença ativa e progressiva que ameace a vida, através da prevenção e alívio de sofrimento, da identificação precoce e tratamento de dor e outros sintomas físicos, psicológicos e espirituais. Ou seja, a cura deixa de ser um objetivo a ser buscado a qualquer custo. A qualidade de vida, autonomia e dignidade do paciente e família passam a ser prioridade.

Prática profissional
 
Segundo a ANCP (Academia Nacional de Cuidados Paliativos) para a prática dos cuidados paliativos é necessário reunir as habilidades de uma equipe multiprofissional visando ajudar o paciente na adaptação às mudanças de vida que são impostas pela doença, e promover a reflexão necessária para o enfrentamento desta condição. A equipe deve ser composta de um médico, um enfermeiro, um psicólogo e um assistente social, capacitados.
Psicólogos de diversas partes do mundo foram aprimorando a prática psicológica no contexto da Instituição de Saúde, tendo ocorrido uma adequação da simples transposição da clínica até o modelo atual
No grupo de Cuidados Paliativos, o psicólogo atua em quatro principais frentes: na assistência direta a pacientes e familiares, na indireta a eles, por meio de um trabalho em equipe, na assistência aos profissionais de saúde e nos âmbitos do ensino e da pesquisa.
Como vimos o critério para que o paciente receba cuidados paliativos é ter uma doença que ameace a sua vida, independente da fase do tratamento ou da doença que ele esteja. Assim, o psicólogo, quando atua diretamente com o paciente, trabalha com as questões trazidas por ele e suscitadas pelo processo de adoecimento. As questões que mais aparecem são as relacionadas ao impacto do diagnóstico, aos medos e fantasias implícitos no processo de adoecimento, a elaboração de perdas que acontecem durante esse processo, questões de comunicação entre os diferentes membros da mesma família e questões relacionadas ao fim da vida.

"Os cuidados paliativos são uma abordagem que objetiva a melhoria na
qualidade de vida do paciente e de seus familiares"

Com a família – e vale ressaltar que ‘família’ são aqueles que são importantes afetivamente para o paciente, independentemente da existência de vínculo sanguíneo – os temas mais comuns nas sessões de suporte psicológico são: impotências em lidar com a situação, medo de não dar conta, querer ajudar e não saber bem como, questões de comunicação entre os diferentes membros desta família e com os profissionais, dificuldade em respeitar os próprios limites para estar naquele contexto, e acima de tudo, querer participar.


Asssistência indireta

No âmbito da pesquisa, o grupo de cuidados paliativos desenvolve protocolos de intervenção que podem ser usados como material para a própria pesquisa
Quando paciente e família não aceitam a intervenção psicológica, podemos oferecer assistência indireta a eles por meio das discussões em equipe onde, junto com os profissionais que atendem o caso, podemos ajudar a entender a dinâmica em questão e pensar propostas de intervenção que melhor atendam a suas demandas naquele momento.
Os profissionais de saúde em contato direto com o sofrimento constante e a morte anunciada ficam mais vulneráveis a uma exaustão psíquica e necessitam de espaço de cuidado para sua própria saúde mental. Esse suporte pode ocorrer nas discussões de caso em equipe, através de atendimentos individuais ou em grupo. O psicólogo responsável por essa intervenção não é o mesmo profissional que atua na assistência direta ao paciente e ao familiar.
No âmbito da pesquisa, o grupo de cuidados paliativos pode desenvolver protocolos de intervenção que podem ser usados como material de pesquisa assim como escrever trabalhos sobre a prática clínica do atendimento multiprofissional de Cuidados Paliativos. No cenário do ensino a produção de artigos, capítulos e livros são de grande valia para a formação e aprimoramento da produção científica no setor. Aqui, também é possível desenvolver simpósios, cursos e palestras sobre o tema.
Como vimos, as áreas de atuação dos profissionais envolvidos em Cuidados Paliativos são muitas e requerem profissionais disponíveis para o contato humano e desenvolvimento constante da qualidade dos atendimentos oferecidos a pacientes e suas famílias.


Grande acervo
Para mais conhecimento sobre a atuação do psicólogo em Cuidados Paliativos, a ANCP – Academia Nacional de Cuidados Paliativos, organizou a Biblioteca Virtual, com vários artigos científicos a respeito do tema. Os mais recentes são da pesquisadora e professora Ana Catarina Elias, que contam com seis artigos, além de sua dissertação de mestrado e sua tese de doutorado. Os textos, em sua maioria, são dedicados ao uso da terapêutica RIME (Relaxamento, Imagens Mentais e Espiritualidade) aplicada à dor espiritual de pacientes terminais.
Os princípios dos cuidados paliativos
1. Respeitar a dignidade e autonomia dos pacientes;
2. Honrar o direito do paciente de escolher entre os tratamentos, incluindo aqueles que podem ou não prolongar a vida;
3. Comunicar-se de maneira clara e cuidadosa com os pacientes, suas famílias e seus cuidadores;
4. Identificar os principais objetivos dos cuidados de saúde a partir do ponto de vista do paciente;
5. Prover o controle impecável da dor e de outros sintomas de sofrimento físico;
6. Reconhecer, avaliar, discutir e oferecer acesso a serviços para o atendimento psicológico, social e questões espirituais;
7. Proporcionar o acesso ao apoio terapêutico, abrangendo o espectro de vida através de tratamentos de final de vida que proporcionem melhora na qualidade de vida percebida pelo paciente, por sua família e seus cuidadores;
8. Organizar os cuidados de modo a promover a sua continuidade ao paciente e sua família, sejam eles realizados no hospital, no consultório, em casa ou em outra Instituição de Saúde;
9. Manter uma atitude de suporte educacional a todos os envolvidos nos cuidados diretos com o paciente.

Daniela Achette
é psicóloga da unidade de Psicologia Hospitalar, do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês, e psicóloga clínica

Fernanda Rizzo di Lione é coordenadora da Unidade de Psicologia Hospitalar e Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês, psicóloga clínica existencial

Valéria Delponte é enfermeira do Grupo Multiprofissional de Controle de Sintomas e Cuidados Paliativos do Hospital Sírio Libanês









 Cuidados com o cuidador

A contínua exposição ao estresse decorrente da prática profissional, além da constante e imperiosa necessidade de repressão dos próprios sentimentos, favorecem a vulnerabilidade do profissional de Saúde
Cuidados com o cuidador

Por Cristiane Wener Alasmar, Daniela Achette e Fernanda Rizzo di Lione

 
O estresse é uma das características da prática profissional relacionada ao cuidado com a saúde. Isso acontece porque a disponibilização do cuidador para com o alvo do cuidado, o paciente, desvia seu pensamento e seu tempo do cuidar também de si próprio.
Como consequência, temos como distúrbios emocionais mais frequentes o uso abusivo de substâncias, como álcool e drogas; questões relacionadas a conflitos existenciais (dificuldades afetivas, divórcios); dúvidas em relação a escolha profissional; quadros psicopatológicos, sendo os mais comuns os distúrbios de humor, além de uma síndrome muito observada em profissionais de saúde decorrente da necessidade de uma interação paciente-profissional intensa e/ou prolongada que foi definida como Síndrome de Burn-out. Essa síndrome é definida como o processo latente de erosão psicológica, decorrente de uma exposição por longos períodos a um tipo específico de estresse (LEE & ASHFORTH 1996; MANASSERO e cols., 1995).
Em nosso cotidiano, vivenciamos a experiência do cuidado. Seja em família, com amigos ou em nossa profissão, o cuidado pressupõe que sempre haja no mínimo dois participantes: quem cuida e quem é cuidado, muito embora, de modos diferentes, ambos sejam afetados por esta experiência.
O profissional de saúde experimenta o cuidar de forma amplificada, pois mesmo não estando no seu local de trabalho, nem mesmo no seu horário de trabalho, não deixa de ser visto como profissional capaz de cuidar dos outros.
"A disponibilização do cuidador para com o paciente desvia s
eu pensamento e seu tempo do cuidar também de si próprio"
Todos ao seu redor a ele recorrem quando precisam de bálsamo para sua dor. Desse modo, o profissional de saúde ainda é visto como alguém imune às mazelas que o indivíduo comum enfrenta, é dotado de resistência às doenças de qualquer origem, não precisa de horas de sono ou lazer e sua presença sempre desperta a oportunidade para desfazer uma dúvida sobre um remédio ou exame de alguém. É como se ele estivesse permanentemente à disposição do sofrimento, da dor, da angústia e do medo dos outros, com um elixir capaz de banir para além dos sentidos a aflição humana.
Profissionais estressados
O estudo Avaliação do nível de stress em profissionais de Saúde, realizado pela Mestranda em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Liliane de Carvalho e pela professora de Graduação e Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Lucia Emmanoel Novaes Malagris, revelou que entre os 31 profissionais pesquisados, 18 (58%), mostraram-se estressados. Constatou-se que em 10 (56%) deles, houve predominância de sintomas físicos e em 8 (44%) os sintomas psicológicos foram os prevalentes.
Muito mais que zelo
Em relação ao cuidar, Liberato (2008) comenta que este ocorre à medida que são estabelecidas relações e que as pessoas participam ativamente delas. Ressalta ainda que: “O cuidado abrange muito mais que um momento específico de atenção e de zelo; implica preocupar-se com quem ou com o que está sendo cuidado, ocupando-se dele com responsabilidade e envolvimento afetivo. [...] É fazer parte de uma relação com interesses e tarefas comuns e a incumbência de tratar uns dos outros” (p. 557).

Podemos imaginar pela definição acima o quanto valores, crenças e sentido de vida permeiam a escolha de uma pessoa ao se prontificar a exercer uma função de cuidado. A Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2000, apontou a necessidade que todas as pessoas envolvidas no processo de cuidado à saúde das pessoas, sejam elas os profissionais ou cuidadores formais, sejam os familiares/pessoas afetivamente próximas, ou cuidadores informais, recebam assistência emocional para que a manutenção deste cuidado seja possível.
É vasta a literatura apontando a importância do cuidado com a saúde mental de profissionais de Saúde (NOGUEIRA-MARTINS, 1996, 2003; RODRIGUES, 1998; CASTRO, 2004) e, além disso, não podemos nos esquecer dos demais profissionais que também são extremamente presentes no cotidiano das Instituições de Saúde, tais como: seguranças, copeiros, auxiliares de higiene, concierges e etc. Tal necessidade se justifica pelo constante contato com situações de tensão, dor, sofrimento e morte de outras pessoas, fruto do processo do adoecimento e, por vezes, decorrentes dos tratamentos.


Pensando nos aspectos acima citados, a promoção de espaços de cuidado à saúde mental dos profissionais que atuam na área de Saúde tem procurado prevenir situações de esgotamento emocional decorrentes do exercício profissional.
Dependendo do caso e da gravidade deste, existe a orientação para que se busque um atendimento mais intensificado, como Psicoterapia ou até o encaminhamento ao psiquiatra, para tratamento medicamentoso. Em raros casos, existe a opção de uma internação, isto quando aquela pessoa se encontra em situação de colocar em risco a própria vida ou de alguém próximo, o que felizmente é muito difícil ocorrer, pois procuramos acompanhar mais de perto e o olhar das pessoas próximas também está mais treinado a identificar situações ou sintomas que demonstrem que as coisas não estão bem e acabam encaminhando para a orientação com o psicólogo.
Triagem para tratamento
Não é raro observar situações envolvendo profissionais da saúde com a dependência química, sendo ela o álcool, drogas e o tabagismo. Assim, quando se pensa na saúde mental e qualidade de vida do profissional da saúde, temos que incluir o tema de prevenção às drogas.

O tabagismo, desde 1993, é considerado uma dependência química decorrente do uso de substâncias psicoativas de acordo com a décima versão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) da OMS. A recomendação para o abandono do tabagismo deve ser universal, tendo em vista que está envolvido com o aumento da incidência de várias doenças. Tanto as intervenções farmacológicas quanto as não farmacológicas, bem como o simples aconselhamento de parar de fumar, possuem benefício comprovado para efetivo abandono do tabagismo. No entanto, é fundamental que o paciente esteja disposto a parar de fumar. Contra o tabagismo existe todo um trabalho, inclusive veiculado pela mídia, sendo feito com o uso de medicação apropriada indicada pelo médico e também o acompanhamento psicológico.

Os demais profissionais presentes no cotidiano das Instituições de Saúde, tais como: seguranças, copeiros, auxiliares de higiene, etc., também precisam cuidar de sua saúde mental porque estão em constante contato com situações de tensão, dor, sofrimento e morte de outras pessoas
A dependência química só pode ser tratada quando existe o desejo e a conscientização do dependente para tratá-la como doença, seja ela qual for.
Com relação à dependência a outras drogas, a orientação para o tratamento na maior parte das vezes é a internação, pois afastando o individuo do meio em que está inserido por alguns dias, pode-se observar maior adesão e tratamento intenso para ele e melhor entendimento da família com relação à doença, pois esta, na maior parte das vezes, está sofrendo a codependência e também precisa de tratamento. Para o acompanhamento e nos casos de não indicação da internação, ressaltamos que os grupos de anônimos são entendidos por nós como a melhor forma de tratamento e acompanhamento desse dependente em questão e sua família.
Em momentos onde o afastamento do trabalho ocorreu por transtornos psiquiátricos, e até outros motivos, torna-se inevitável o suporte psicológico que deve acompanhar toda a readaptação do funcionário. Esse acompanhamento é fundamental, pois o tempo de afastamento nesses casos costuma ser prolongado, impondo, muitas vezes, uma desatualização do profissional diante das rotinas de trabalho, o que acentua a insegurança e a desconfiança sobre sua própria capacidade. O receio de ser discriminado no ambiente ou de não ser reconhecido por seus pares precisa ser trabalhado continuamente. Cabe ao psicólogo trabalhar, integrado com o médico psiquiatra, o médico do trabalho e o psicoterapeuta buscando a recuperação do trabalhador. Contatos telefônicos e sessões mensais são ferramentas úteis e eficientes, até como medidores da adesão ao tratamento.


Consequências do estresse na área da Saúde


Na área de Saúde especificamente, o exercício profissional é envolto em tensão e estresse, sendo comum os profissionais enfrentarem conflitos que envolvem valores pessoais e profissionais. Sentimentos contraditórios como piedade, compaixão, raiva, ansiedade e culpa são experimentados em relação a pacientes, familiares e os próprios colegas de trabalho e isto pode colaborar para o surgimento da insatisfação, o abandono de tarefas, doenças psicossomáticas e problemas de saúde que elevam os níveis de absenteísmo e afastamentos.

A promoção de espaços de cuidado à saúde mental dos profissionais que atuam na área da Saúde tem visado prevenir situações de esgotamento emocional decorrentes do exercício profissional

Trabalho em grupo
 
Essa abordagem se reveste mais de cunho preventivo, pois possibilita às equipes de trabalho abordarem temas de suas vidas que afetam os indivíduos de forma diferente. Lidar com a perda de um paciente depois de longa permanência, com a dor intratável, com a sequela e a súplica do moribundo, são vivências que se tornam menos áridas quando temos a oportunidade de perceber que nossos colegas também experimentam sentimentos, por vezes, conflituosos e que sua maneira de lidar com tal condição pode ser uma alternativa. Tal dinâmica possibilita ao psicólogo também identificar características dos participantes e/ou alguns sinais e sintomas precoces de transtornos de comportamento, permitindo atuar preventivamente. O grupo progressivamente aumenta a sua integração, a equipe amadurece e aprende a lidar com os conflitos comuns no dia a dia de uma unidade crítica ou de cuidados especializados, minimizando o impacto das tensões comuns no ambiente de cuidado.
Pela OMS, todos os envolvidos no processo de cuidado à saúde das
pessoas devem receber assistência emocional

Referências
BENEVIDES-PEREIRA, A.M.T.(org.). Burn-out: quando o trabalho ameaça o bem-estar do trabalhador. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2002.
LIBERATO R.P.; CARVALHO, V.A. Estresse e síndrome de burnout em equipes que cuidam de pacientes com câncer: cuidando do cuidador profissional. In: Temas em psico-oncologia. São Paulo: Summus; 2008. p.556-571.
NOGUEIRA-MARTINS, L.A. Saúde mental do médico e do estudante de medicina. Vol.Psiquiatr. 29 (1): 07-09, 1996.
________. Saúde Mental dos Profissionais de Saúde In: BOTEGA, N.J. (org.) Prática Psiquiátrica no Hospital Geral: Interconsulta e Emergência. Porto Alegre: Artmed Editora, 2002, pags.130-144.
LEE, R. T.; ASHFORTH, B. E. A meta-analytic examination of the correlates of the three dimensions of job burnout. Journal of Applied Psychology, 81 (2), 123-133, 1996.
Manual técnico de promoção da saúde e prevenção de riscos e doenças na saúde suplementar / Agência Nacional de Saúde Suplementar (Brasil). – 3. ed. rev. e atual. – Rio de Janeiro : ANS, 2009.

Cristiane Wener Alasmar é psicóloga da Saúde do Colaborador e Gestão de Pessoas do Hospital Sírio Libanês e psicóloga clínica.

Daniela Achette é psicóloga da unidade de Psicologia Hospitalar, do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês e psicóloga clínica

Fernanda Rizzo di Lione é coordenadora da Unidade de Psicologia Hospitalar e Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio Libanês e psicóloga clínica existencial