Livro "O Sol depois da chuva"




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O livro apresenta uma bela reflexão sobre as relações humanas. Personagens desfilam sentimentos e são transformados pela gentileza, neste romance de Gabriel Chalita. No centro de uma ilha imaginária, a simplicidade do espaço bucólico é um convite para a reflexão. Francisco, Mara, Ana, Vítor, Valquíria, e pescadores, comerciantes, médicos, estudantes, todos sofrem, perdem, ganham, vivem. A ilha é um retrato do mundo e, nela, os personagens passam a enxergar a vida mais bonita, com o sol que surge depois da chuva.

Documentário "Atrás da Porta"

“Atrás da porta”: um filme sobre ocupações urbanas

O filme Atrás da porta, realizado por Vladimir Seixas e Chapolim, mostra a experiência de arrombar prédios abandonados e criar novos espaços de moradia para famílias sem-teto do Rio de Janeiro.
O documentário apresenta despejos forçados pelo Estado, mas também ocupações que conseguiram resistir às ações violentas por parte da polícia. A produção conta um pouco da histórias e particularidades de ocupações como Chiquinha Gonzaga, Flor do Asfalto, Manoel Congo, Quilombo das Guerreiras,  Zumbi dos Palmares, Guerreiros do 234, Casarão Azul e Machado de Assis.
O longa-metragem faz parte do Festival Internacional de Cine Rebelde, atividade inscrita no Fórum Social Urbano. 












Documentário Hiato

Hiato: 

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(Vladimir Seixas, 2008)


Vladimir Seixas é, antes de mais nada, um diretor inteligente. E sem ser apelativo, o que lhe dá mais créditos ainda. Seu doc constitui-se, é inegável, de elementos batidos, mais é justamente a forma como são utilizados que torna a obra  interessante.
Valendo-se de uma espécie de “mosaico” constitutivo, com materiais de arquivo de diferentes mídias (televisiva, com as cenas reais da invasão e impressa, através das inúmeras manchetes de jornais que incitaram à discussão popular), mesclados aos depoimentos dos ocupantes e estudiosos da área, que parecem validar “acadêmicamente” o ato – como se fosse necessário diante das impressionantes imagens – o filme apresenta um ritmo que prende o espectador, imerso num bizarro turbilhão de sensações que perpassam o espanto total, o riso desconcertado e uma reflexão social não muito convencional, tudo isso sob a visão explícita do realizador.
Apesar do claro viés social, a temátíca em si é original, e inusitada diga-se de passagem: a real ocupação desestabilizadora de uma verdadeira legião de sem-tetos e moradores de favela, com direito a pão com mortadela e roupas e mais roupas experimentadas, em um shopping frequentado pela classe média-alta paulistana, com a cobertura da imprensa.
As imagens do filme, nem sempre de boa qualidade (estourada às vezes), como as feições de nojo e falsa superioridade por parte dos próprios vendedores que compartilham um estilo de vida muito mais próximo ao dos invasores se comparado ao dos donos/empresários, e as palavras, as não ditas em especial, escancaram a existência de uma evidente barreira separatista entre a classe média-alta e os mais humildes: os hábitos, costumes, enfim, o modo de vida.
Trailer do filme
E é, a meu ver, justamente essa total adequação – sintonia aliás – entre a estética e a narrativa, a grande sacada deste curta. De fato, o que é visto representa o que é dito e/ou subentendido. E assim, ao menos como filme, as coisas são “faladas” num só esforço de voz, e não separadamente como hiatos.
Iuri Leonardo dos Santos é graduando em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)
* Resenha sobre o filme da Mostra Brasil 5 “Hiato:” (Vladimir Seixas, Brasil (RJ), documentário, 19′, cor, DV, 2008), publicada no Tablóide Crítica Curta do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, projeto do qual o redator-editor fez parte.



Ficha Técnica
Fotografia Vladimir Seixas, Maurício Stal Roteiro Vladimir Seixas, Maria Socorro e Silva Som Vitor Kruter, Helen Ferreira Assistente de Direção Helen Ferreira Montagem Ricardo Soares, Roberta Range Assistente de Finalização Juliana Oakim

Prêmios
Melhor Filme - Júri Popular no Araribóia Cine 2010
Melhor Documentário no Festival Cinema com Farinha - Festival Audiovisual do Sertão Paraibano 2008
Melhor direção no Curta Canoa 2008
Prêmio Curadoria no ENTRETODOS - Festival de Curtas-Metragem de Direitos Humanos 2009
Melhor Documentário no Festival Comunicurtas 2009
Prêmio Especial do Júri no Festival Comunicurtas 2009
Melhor Filme no Festival do Juri Popular 2009
Melhor Documentário - Júri Popular no Mostra Audiovisual de Cambuquira 2009
10 Melhores Curtas Brasileiros do Público no Mostra Curta Audiovisual de Campinas 2008
Melhor Filme - Júri Popular no Fest ARUANDA do Audiovisual Universitário Brasileiro 2009
Melhor Filme - Júri Popular no Festival Aruanda do Audiovisual Universitário 2008
Melhor Documentário no Festival de Vídeo Estudantil e Mostra de Cinema de Guaíba 2008
Melhor Documentário no Perro Loco 2008
Melhor Filme - Júri Popular no Perro Loco 2008

Festivais
CineCufa 2008
CineSul 2008
Curta Cinema 2008
Festival de Cinema de Gramado 2008
Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2008
Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano 2008
Gramado Cine Vídeo 2008
Catarina Festival de Documentário 2008
CineDocumenta - Mostra de Cinema Documentário de Ipatinga 2009
Curta Votorantim 2008
FestCine Pantanal 2009
Jornada de Cinema da Bahia 2008
Mostra do Filme Livre 2009
Festival Curta Três Rios 2008
PUTZ 2009



EXERCICIOS NEUROBICOS

EXERCICIOS NEUROBICOS     

 
 
Vê abaixo alguns exercícios neuróbicos. O importante não é acertar, mas estimular nossos  neurônios e distanciar-nos daquele alemão indesejável (Alzheimer). Faça bom proveito!
 
 





Consegues ver 10 caras na árvore?
 
 

 
 
Há um rosto nesta foto, consegues vê-lo?  


 


Consegues ver o bebê?
 


Consegues ver o casal a beijar-se?
 
   





Consegues ver 3 mulheres?
   
Consegues ver a
 diferença entre um cavalo e um sapo?  
Olha bem...
  
depois de girar Descrição: 7.3706472944@web130224.mail.mud.yahoo.com
 
 
 
Muito bacana!..Conseguiu ver tudo??....!!!Estás em ótima forma...  Se puderes, repassa.

Filósofo Andre Gorz

Leia trecho de "Carta a D. - História de um amor", de André Gorz


"Carta a D. - História de um amor", de André Gorz, escritor austríaco, teórico de movimentos de esquerda dos anos 60, é um relato da vida do autor ao lado de sua esposa, vítima de uma doença degenerativa.

Publicado originalmente em 2006 e lançado no Brasil pela editora Cosac Naify, "Carta a D." recorda sob a ótica de Gorz o relacionamento de 54 anos que viveu com sua esposa Dorine Keir, vitima de um erro médico que lhe causou uma doença grave.

O livro tem tradução de Celso Azzan Jr.

Leia a seguir trecho que corresponde às primeiras 13 páginas do livro.




Divulgação
Capa do livro "Carta a D.", de André Gorz, publicado no Brasil pela editora Cosac Naify
RESENHA DO LIVRO
Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinqüenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.

Eu só preciso lhe dizer de novo essas coisas simples antes de abordar questões que, não faz muito tempo, têm me atormentado. Por que você está tão pouco presente no que escrevi, se a nossa união é o que existe de mais importante na minha vida? Por que, em Le Traître, passei uma falsa imagem de você, que a desfigura? Esse livro deveria mostrar que a minha relação com você foi a reviravolta decisiva que me permitiu desejar viver.

Por que, então, deixar de fora essa maravilhosa história de amor que nós tínhamos começado a viver sete anos antes? Por que eu não disse o que me fascinou em você? Por que eu a apresentei como uma coitadinha, "que não conhecia ninguém, não falava uma palavra de francês e que sem mim teria se destruído", se você tinha o seu círculo de amigos, fazia parte de um grupo de teatro de Lausanne e era esperada na Inglaterra por um homem determinado a se casar com você?

Na verdade, não explorei em profundidade aquilo a que me propunha ao escrever Le Traître. Para mim, ainda restam muitas questões a serem compreendidas e esclarecidas. Preciso reconstituir a história do nosso amor para apreender todo o seu significado. Ela foi o que permitiu que nos tornássemos o que somos; um pelo outro, um para o outro. Eu lhe escrevo para entender o que vivi, o que vivemos juntos.

Nossa história começou maravilhosamente, quase um amor à primeira vista. No dia em que nos encontramos, você estava acompanhada de três homens que pretendiam jogar pôquer com você. Você tinha cabelos auburn abundantes, a pele nacarada e a voz aguda das inglesas.

Tinha acabado de chegar da Inglaterra, e cada um dos três homens tentava, num inglês sofrível, captar a sua atenção. Você se mantinha soberana, intraduzivelmente witty, bela feito um sonho. Quando nossos olhares se cruzaram, eu pensei: "Não tenho chance nenhuma com ela". E logo soube que o nosso anfitrião já a havia prevenido: "He is an Austrian Jew. Totally devoid of interest".

Um mês depois cruzei com você na rua, fascinado por seus passos de dançarina. Depois, numa noite, por acaso, eu a vi de longe, saindo do trabalho e descendo a rua. Corri para alcançá-la. Você andava rápido. Tinha nevado. O chuvisco fazia cachos nos seus cabelos. Sem pôr muita fé, eu a convidei para dançar. Você simplesmente disse sim, why not. Era 23 de outubro de 1947.

Meu inglês era desajeitado, mas passável. Tinha se enriquecido graças a dois romances americanos que eu acabara de traduzir para a editora Marguerat. Durante essa nossa primeira saída, percebi que você havia lido um ito, antes e depois da guerra: Virginia Woolf, George Eliot, Tolstói, Platão...

Falamos de política britânica, das diferentes correntes dentro do Partido Trabalhista. De imediato, você já sabia distinguir entre o que é acessório e o que é essencial. Diante de um problema complexo, a decisão a tomar sempre lhe parecia óbvia. Você tinha uma confiança inabalável na justeza dos seus julgamentos.

De onde você tirava essa segurança? E, no entanto, você também teve pais separados; deixou-os cedo, um depois do outro; nos últimos anos da guerra, morou sozinha com Tabby, o seu gato, e dividia com ele a sua comida racionada. E, por fim, saiu do seu país para explorar outros mundos. Em que poderia lhe interessar um Austrian Jew sem um tostão?

Eu não entendia. Não sabia que ligações invisíveis se teciam entre nós. Você não gostava de falar do seu passado. Pouco a pouco, compreenderei que experiência fundadora nos tornou subitamente próximos um do outro.

Nos encontramos de novo. Fomos dançar mais uma vez. Vimos juntos Le Diable au corps, com Gérard Philipe. Há no filme uma seqüência em que a heroína pede ao sommelier para trocar uma garrafa de vinho já aberta e bem consumida porque, segundo ela, dava para sentir o gosto da rolha. Tentamos reeditar essa manobra numa boate, e o sommelier, depois de verificar, contestou o diagnóstico. Diante de nossa insistência, ele nos mandou às favas, com muita determinação: "Nunca mais ponham os pés aqui!". Fiquei espantado com o seu sangue-frio e a sua sem-cerimônia. Pensei comigo mesmo: "Fomos feitos para nos entendermos". Depois da terceira ou quarta saída, eu afinal beijei você.

Não tínhamos pressa. Eu despi o seu corpo com cautela. Descobri, miraculosa coincidência do real com o imaginário, a Vênus de Milo tornada carne. O brilho nacarado do pescoço iluminava o seu rosto. Mudo, contemplei longamente esse milagre de vigor e de doçura.

Compreendi com você que o prazer não é algo que se tome ou que se dê. Ele é um jeito de dar-se e de pedir ao outro a doação de si. Nós nos doamos inteiramente um ao outro.

Durante as semanas que se seguiram, nos reencontramos quase todas as noites. Você dividiu comigo o velho sofazinho afundado que me servia de cama. Ele tinha apenas sessenta centímetros de largura, e nós dormíamos apertados, um contra o outro. Além do sofazinho, meu quarto só tinha uma estante de livros feita de tábuas e tijolos, uma mesa enorme, atulhada de papéis, uma cadeira e um fogareiro. Você não se espantava com o meu cenobitismo. Também não me espantava que você o aceitasse.

Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo. Os valores que dominaram a minha infância não existiam nele.

Esse mundo me encantava. Eu podia escapar ao entrar nele, sem obrigações nem pertencimento. Com você, eu estava em outro lugar; um lugar estrangeiro, estrangeiro a mim mesmo. Você me dava acesso a uma dimensão de alteridade suplementar - a mim, que sempre rejeitei toda identidade e juntei uma identidade na outra, sem que nenhuma fosse realmente a minha. Falando com você em inglês, eu fazia minha a sua língua. Até hoje continuo a me dirigir a você em inglês, mesmo quando você responde em francês. O inglês, que eu conhecia principalmente por você e pelos livros, desde o início foi para mim uma língua particular que preservava a nossa intimidade contra a irrupção das normas sociais circundantes. Eu tinha a impressão de construir com você um mundo protegido e protetor.

A coisa não teria sido possível se você tivesse um sentimento forte de pertencimento nacional, de enraizamento na cultura britânica. Mas não. Você mantinha, em relação a tudo o que é british, uma distância crítica que não excluía a cumplicidade com o que lhe é familiar. Eu dizia que você era uma export only, ou seja, um desses produtos reservados só para exportação, não encontráveis nem na própria Grã-Bretanha.

Nós nos interessamos passionalmente pelo resultado das eleições na Grã-Bretanha, mas só porque o que estava em jogo era o futuro do socialismo, não o do Reino Unido. A pior injúria que alguém poderia lhe fazer era explicar pelo patriotismo o partido que você tomava.

Disso eu ainda teria bem mais tarde uma prova, durante a invasão das Malvinas pelas forças argentinas. A um ilustre visitante, que pretendia explicar pelo patriotismo o partido que você havia tomado, você respondeu com rudeza que só os imbecis não conseguiam ver que a Argentina levava aquela guerra adiante para lustrar o brasão de uma execrável ditadura militar e fascista, da qual, por fim, a vitória britânica precipitaria o desmoronamento.

Mas estou antecipando as coisas. Durante aquelas primeiras semanas, encantava-me a liberdade que você manifestava em relação à sua cultura de origem, mas também a substância dessa cultura, tal como ela lhe foi transmitida quando pequena. Uma certa maneira de zombar das provações mais sérias; um pudor travestido de humor, e mais particularmente as suas nursery rimes ferozmente non-sensical e sabiamente ritmadas. Por exemplo: "Three blind mice/ See how they run/ They all run after the farmer's wife/ Who cut off their tails with a carving knife/ Did you ever see such fun in your life/ as three blind mice?".

Eu queria que você me contasse a sua infância em sua realidade trivial. Eu soube que você cresceu na casa do seu padrinho, uma casa na praia, com jardim; com o Jock, o seu cachorro, que enterrava ossos nos canteiros e depois não mais conseguia encontrá-los; soube que seu padrinho tinha um receptor de rádio cujas pilhas precisavam ser recarregadas toda semana. Soube que você costumava quebrar o eixo do seu triciclo descen- do o meio-fio sem se levantar; que na escola você resolveu escrever com a mão esquerda, e se sentou sobre as duas mãos, desafiando a professora que insistia em forçá-la a escrever com a direita. Seu padrinho, que tinha autoridade, falou que a professora era uma imbecil e passou-lhe uma descompostura. Compreendi então que o espírito da seriedade e o respeito à autoridade seriam sempre estranhos a você.

Mas nada disso dá conta da ligação invisível pela qual nós nos sentimos unidos desde o início. Por mais que tivéssemos sido profundamente diferentes, mas eu não deixava de sentir que alguma coisa fundamental era comum a nós, um tipo de ferida original - há pouco eu falava de "experiência fundadora": a experiência da insegurança.

A natureza desta não era a mesma para você e para mim. Não importa: para ambos, ela significava que não tínhamos um lugar assegurado no mundo, e só teríamos aquele que fizéssemos para nós. Nós tínhamos de assumir a nossa autonomia, e eu descobriria em seguida que você estava muito mais preparada para isso do que eu.

Documentário "A Carne é Fraca" mostra realidade de abatedouros

Documentário "A Carne é Fraca"
mostra realidade de abatedouros

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“A Carne é Fraca”, melhor documentário já realizado no Brasil sobre o consumo da carne e suas conseqüências, é essencial para aqueles que buscam informações e uma arma para nós, defensores dos animais."

O Instituto Nina Rosa - Projetos por Amor à Vida - lançou no dia 12 de novembro, durante o 36º Congresso Vegetariano Mundial - que aconteceu entre os dias 8 e 14 deste mês, no Costão do Santinho, em Florianópolis (SC) - o documentário “A Carne é Fraca".

Feito em quatro idiomas - português, francês, inglês e espanhol - o vídeo, que será distribuído para 400 organizações em todo o mundo, conta toda a "trajetória de um bife", desde o nascimento de bezerros e frangos até o abatedouro. “Muitas pessoas contribuem com a indústria da crueldade, que implica em danos sérios à saúde humana e ao meio ambiente, sem ter conhecimento disso. Nossa intenção é informar para que o cidadão possa fazer escolhas conscientes", explica Nina Jacob, presidente do Instituto.

Ao longo de 54 minutos, sob a direção de Denise Gonçalves, o documentário mostra aspectos da indústria da carne de aves e gado que normalmente não são divulgados. Além disso, também conta com depoimentos de técnicos ambientais, médicos, pediatras, de jornalistas como Washington Novaes, Dagomir Marquezi e Flávia Lippi; da socióloga Marly Winckler, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira e da veterinária Rita de Cássia Garcia.

Um dos destaques do trabalho é o impacto ambiental. Segundo este documentário, a região amazônica tem sido seriamente prejudicada pela pecuária, que ocupa uma extensão de terra, cada vez maior acarretando desmatamento e poluição de recursos hídricos.
Foram oito meses de pesquisa e filmagens em abatedouros considerados "modelos" nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Quem assistir ao vídeo verá que os animais são criados em pequenos espaços para que não gastem energia e, assim, apressar a engorda do boi, antecipando o abate. E também vai conhecer o processo de produção do “baby beef", em que os bezerros são separados das mães logo ao nascer.
Na análise de Nina Jacob, este trabalho será um divisor de águas para o consumidor brasileiro. "As pessoas ainda acreditam que o gado, por exemplo, é criado livre nos pastos, sem causar danos ambientais. Este trabalho é um direito do consumidor", finaliza.

A Vegan Pride parabeniza o Instituto Nina Rosa e a todos que participaram desse maravilhoso projeto.
















Livro "Misérias do Presente, Riqueza do Possível" André Gorz

Misérias do Presente, Riqueza do Possível - André Gorz

 

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TERRITÓRIOS POLÍTICOS

O trabalho desencantado

“O capital não precisa mais e precisará cada vez menos do trabalho de todos”

Leia um trecho do livro “Misérias do Presente, Riqueza do Possível”, do sociólogo austríaco André Gorz, lançado pela editora Annablume

1. O mito do elo social

Vivemos a extinção de um modo específico de pertencimento social e de um tipo específico de sociedade: aquela que Michel Aglietta chamou “sociedade salarial” e Hannah Arendt, “sociedade do trabalho” (“Arbeitsgesellschaft”). O “trabalho” pelo qual se pertencia a essa sociedade não é, evidentemente, o trabalho em seu sentido antropológico ou filosófico. Não é nem o trabalho do camponês que labora seu campo, nem do artesão que realiza sua obra, nem aquele do escritor que trabalha seu texto ou do músico que trabalha em seu piano. O trabalho que desaparece é o trabalho abstrato, o trabalho em si, mensurável, quantificável, separável da pessoa que o “fornece”, suscetível de ser comprado e vendido no “mercado de trabalho”, em suma, o trabalho mercadejável, o trabalho-mercadoria, inventado e imposto pela força e com muita dificuldade pelo capitalismo manufatureiro a partir do fim do século XVIII1.

Mesmo no apogeu da sociedade salarial, este trabalho, contrariamente ao que quer fazer crer sua idealização retrospectiva, nunca foi fonte de “coesão social” nem de integração. O “laço social” que estabelecia entre os indivíduos era abstrato e frágil. Ele os inseria, isto sim, no processo de trabalho social, nas relações sociais de produção, como elementos estreitamente imbricados e funcionalmente especializados de uma imensa maquinaria.

Socialmente determinado, homologado, juridicizado, legitimado, definido pelas competências e habilidades aprendidas, certificadas, tarifadas, este trabalho correspondia às exigências objetivas, funcionais da maquinaria econômica: da sociedade-sistema. Dava a cada um o sentimento de ser útil independentemente de sua intenção: útil de modo objetivo, impessoal, anônimo, e reconhecido como tal pelo salário que recebia e pelos direitos sociais que o acompanhavam. Tais direitos não estavam ligados à pessoa do assalariado mas à função, em si mesma indiferente, que seu emprego preenchia no processo social de produção. “Pouco importa o trabalho, desde que se tenha um emprego. Pouco importa o emprego, desde que se tenha um.” Tal era a principal mensagem ideológica da sociedade salarial: não se inquietem demais com o que fazem, o importante é que o pagamento caia no final do mês. E foi contra esta ideologia do trabalho-mercadoria, sem dignidade, nem interesse, nem sentido intrínsecos, trabalho constrangedor, opressivo, contrapartida instrumental do acesso a consumos cada vez mais opulentos, que combateram com veemência crescente os trabalhadores das fábricas, escritórios e serviços do fordismo taylorizado.

Integração e coesão sociais? Mesmo em seu apogeu, a sociedade salarial esteve dilacerada e “fraturada” pela divisão em classes e pelo antagonismo entre elas. Não era à sociedade, mas à classe, ao sindicato, ao coletivo de trabalho que os trabalhadores integravam-se e era nas lutas para transformar ao mesmo tempo seu trabalho, sua vida e a sociedade que iam buscar “identidade”, dignidade, cultura e coesão. E é contra sua coesão, sua “identidade” e sua organização de classe que “a firma”, como se diz, dirigiu a arma absoluta, irremediável: a volatilização, a individualização, a descontinuidade do trabalho, sua abolição massiva, a insegurança para todos.

“Temam, tremam.” A mensagem ideológica mudou: de “que importa o trabalho, desde que o pagamento caia no final do mês”, transformou-se em “que importa o montante do pagamento desde que se tenha emprego”. Dito de outro modo, estejam prontos a todas as concessões, humilhações, submissões, competições, traições, para obter ou conservar o emprego; pois “quem perde o emprego, perde tudo”. Tal é, senão o sentimento geral, ao menos a mensagem do discurso social dominante. Ele exalta a centralidade do trabalho, apresenta-o como um “bem”, o que é o mesmo que dizer uma mercadoria rara, como algo que se tem ou não se tem, não como alguma coisa que se faz despendendo sua energia e seu tempo; como um “bem”, para a “posse” do qual é preciso estar pronto a sacrifícios; como um “bem”, pela criação do qual -pois doravante não é o trabalho que cria riqueza, é a riqueza (aquela dos outros) que “cria trabalho”- os “criadores de trabalho”, quer dizer os empregadores, o patronato, os investidores, as empresas, merecem os encorajamentos e o reconhecimento da nação, as subvenções, os incentivos e descontos do fisco. O trabalho, um bem; o emprego: um privilégio. Privilégio cada vez mais raro, pois “vai faltar trabalho” e, quaisquer que sejam suas competências e habilidades, arrisca-se em breve ser dele “privado”.

Enorme logro: não há, e não haverá nunca mais, “trabalho suficiente” (remunerado, estável, em tempo integral) para todos, mas a sociedade -de fato: o capital- que não precisa mais e precisará cada vez menos do trabalho de todos continua repetindo que não é ela, a sociedade, ah não!, é você, quem precisa de trabalho. Com muita dificuldade e empenho, a sociedade vai se dar ao trabalho de encontrar, trazer, inventar trabalho, trabalho que ela mesma poderia facilmente dispensar, mas trabalho que você precisa absolutamente.

Fantástica inversão: não é mais aquele ou aquela que trabalha que “se torna útil” aos outros; é a sociedade que vai se tornar útil, “permitindo” a você trabalhar, “dando” a você este “bem precioso”, o trabalho, para evitar tanto quanto possível que você seja dele “privado”. A mesma sociedade que parece surpresa e indignada quando aquelas e aqueles que têm o “privilégio” de trabalhar, pretendem, os ingratos, discutir ou mesmo recusar as condições de trabalho cada vez mais constrangedoras que se lhes impõem por um salário cada vez mais baixo.

Nunca a ideologia do trabalho-valor foi exposta, proclamada, ressaltada tão afrontosamente e nunca a dominação do capital, da empresa, sobre as condições e o preço do trabalho foi aceita tão docilmente. Nunca a função “insubstituível”, “indispensável” do trabalho como fonte de “laço social”, de “coesão social”, de “integração”, de “socialização”, de “identidade pessoal”, de sentido foi invocada de modo tão obsessivo, justamente a partir do momento que não pode mais preencher nenhuma dessas funções, nem nenhuma das cinco funções estruturantes que sublinhava Marie Yahoda em seu célebre estudo a respeito dos desempregados de Marienthal no início dos anos 30. Tornado precário, flexível, intermitente, com duração, horário e salário variáveis, o emprego deixa de integrar em um coletivo, deixa de estruturar o tempo cotidiano, semanal, ou anual e as idades da vida, deixa de ser a base sobre a qual cada um pode construir seu projeto de vida.

A sociedade na qual cada um espera encontrar um lugar, um futuro balizado, uma segurança, uma utilidade, esta sociedade -a “sociedade do trabalho”- está morta. O trabalho só conserva uma espécie de centralidade fantasmagórica, no sentido em que se diz que alguém amputado de um membro percebe ainda o membro fantasma que já não possui. Somos uma sociedade do trabalho fantasma sobrevivendo fantasmaticamente à sua extinção graças às invocações obsessivas, reativas daqueles que continuam a nele enxergar a única via possível e não podem mais imaginar outro futuro que não o retorno ao passado. E que, por isso, prestam o pior dos serviços: persuadem-nos que não há futuro, socialidade, vida, desenvolvimento de si fora do trabalho-emprego; que a escolha se faz entre o trabalho ou o nada, entre a inclusão pelo emprego ou a exclusão; entre a “socialização identitária pelo trabalho” ou a queda na “desesperança” do não-ser. Persuadem-nos que é bom, normal, indispensável que “cada um deseje imperiosamente” isto precisamente que não existe mais e que nunca mais estará ao alcance de todos, a saber: “um trabalho remunerado em um emprego estável” única “via de acesso, ao mesmo tempo, à identidade social e à identidade pessoal”, “ocasião única de se definir e construir um sentido a seu próprio percurso”2.

Estas invocações, reiteradas à exaustão, contribuem poderosamente para manter vivas normas já caducas; para perpetuar e justificar como “normais”, expectativas completamente falsas com relação aos desenvolvimentos reais; para lançar à desolação e à impotência submissa aqueles cujas “justas” expectativas serão inevitavelmente frustradas; para confortar a estratégia de poder do capital que -para poder “flexibilizar”, precarizar, individualizar, selecionar, aumentar a produtividade e o lucro, reduzir as remunerações e os efetivos- precisa exatamente disso que lhes oferecem em coro a ladainha da centralidade do trabalho-emprego e de suas insubstituíveis funções sociais: que todos continuem a desejar “imperiosamente” aquilo que as empresas só concederão a alguns, e que a competição de todos contra todos no mercado de emprego diminua as pretensões e aumente a submissão zelosa dos raros “privilegiados” aos quais a empresa permitirá que a sirvam.

É confortando a “opinião pública” por meio dessas expectativas irrealizáveis, dessa adesão a normas que não correspondem mais a nada, por meio de interpretações estereotipadas completamente deslocadas diante das realidades que elas pretendem decifrar, que se alimentam os maniqueísmos, a busca de bodes expiatórios, a ideologia e as práticas protofascistas. Dirão, empunhando pesquisas, que a “opinião pública” não está amadurecida para ouvir um outro discurso; que a aspiração a uma vida na qual o trabalho não seria mais central “não está definitivamente estabelecida”; em suma, que a ideologia do “ou bem o emprego ou, então, nada” corresponde ao estado de espírito da maioria e que qualquer outro discurso só pode interessar aos marginais ou aos “utópicos”.

Estranha argumentação, esta: não apenas é falsa (nós o veremos na seqüência), mas ainda sustenta que se a maioria persiste em crer que a terra é quadrada, é preciso confortá-la nesta crença, dissimulando-lhe as provas que indicam o contrário. Estranha argumentação, esta, que faz o jogo dos partidários do poder por sua função repressiva, isto é, por sua vontade de ignorar, de censurar, de reprimir toda tentativa de ir ao fundo do problema: a questão não é saber se os indivíduos são capazes de..., se estão prontos a..., maduros, para uma sociedade e uma vida não mais centradas sobre o emprego; a pergunta, ao contrário, é saber como esta outra vida e esta outra sociedade podem ser antecipadas e prefiguradas já agora nos experimentos em grande escala, práticas e lutas exemplares, modos alternativos de cooperação, de produção, de habitação, de responsabilização auto-organizada das necessidades coletivas; saber como o medo de cair no buraco negro da não-sociedade e da nulidade individual pode ser apaziguado por meio de práticas comuns capazes de inventar e ilustrar novas solidariedades; saber como, no lugar de sofrer as mudanças tecnológicas, as economias de tempo de trabalho, as intermitências do emprego e sua precarização, é possível delas apossar-se coletivamente, conquistar a iniciativa e seu controle, voltá-las contra as estratégias do capital para fazer surgir novas liberdades possíveis; e, enfim, saber como todos podem ter garantida uma renda contínua quando o trabalho torna-se cada vez mais descontínuo.


2. Geração X ou a revolução sem voz

A não-sociedade absoluta é aquela que instala a incapacidade de ver e de querer além desta sociedade de trabalho que se esboroa. O problema situa-se na fronteira do cultural e do político. É preciso que as mentalidades mudem para que a economia e a sociedade possam mudar. Mas, inversamente, a mudança das mentalidades, a mudança cultural precisam ser relacionadas (e traduzidas) a práticas e a um projeto políticos para adquirir um alcance geral e encontrar uma expressão coletiva capaz de inscrever-se no espaço público. Enquanto não encontrar sua expressão pública e coletiva, a mudança das mentalidades pode ser ignorada pelos detentores do poder, dada por marginal, um desvio de pouco significado.

É aí, neste nível, que se situam o problema e a tarefa mais urgentes. Pois contrariamente ao que pretende o discurso do poder, a mudança das mentalidades já aconteceu. O que falta cruelmente é a tradução pública de seu sentido e de sua radicalidade latente. Essa tradução não pode ser obra espontânea de uma inteligência coletiva. Supõe “técnicos do saber prático” (como Sartre chamava os “intelectuais orgânicos” de um movimento nascente) capazes de decifrar o sentido de uma mutação cultural e os temas nela em pauta de modo a permitir aos sujeitos reconhecer suas aspirações comuns. Para conseguir realizar esse trabalho de interpretação, o observador-intérprete deve ser capaz de romper com os estereótipos interpretativos e culturais e alçar-se a um nível de consciência pelo menos igual àquele dos sujeitos mais conscientes do qual ele interpreta a experiência.

1 - Para mais detalhes ver “A invenção do trabalho”, in A. Gorz, "Métamorphoses du travail", pp. 25-27.

2 - Renaud Sainsaulieu, “Quel avenir pour le travail?”, "Esprit", dez. 1995.

Livro "O Enigma do Dom

O ENIGMA DO DOM

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Maurice Godelier

O enigma do dom é um livro fundamental de um expoente da autodenominada "antropologia marxista" e, de um modo mais geral, da antropologia contemporânea. Trata-se de um livro-síntese, de maturidade. A etnografia que M. Godelier fez dos Baruya da Nova Guiné foi inicialmente apresentada em textos das décadas de 60 e 70, conhecidos dos brasileiros. Complementada em "La production des grands hommes", de 1982, esta etnografia é aprofundada aqui; sem deixar de enfatizar a especificidade Baruya, Godelier assume agora uma perspectiva mais francamente comparativa em relação a outros grupos, melanésios ou não, especialmente os kwakiult e trobriandeses. Também do ponto de vista teórico, O enigma do dom é um trabalho marcante no conjunto da obra de seu autor, pois explicita uma aproximação com a antropologia de Marcel Mauss. Na medida em que Godelier se coloca, também ele, como um sucessor de Mauss, este livro é um reencontro, nem sempre pacífico, com Lévi-Strauss, de quem Godelier se afastara décadas atrás.A questão central de O enigma do dom é vital para as ciências humanas, apesar de pouco estudada até aqui; a saber, a da inalienabilidade, a existência de bens que assumem o valor máximo de uma sociedade exatamente pelo fato de não circularem, o que foi tomado por Annette Weiner como "paradoxal". Para entender a relação entre esses bens e seus "proprietários", doador e coisa, Godelier retoma suas teses anteriores sobre economia e dominação, representação simbólica e real, a relação entre material e ideal, moeda e valor, a elas incorporando as reflexões de 1982 sobre rito, mito, gênero e parentesco. Aparentemente, Godelier evita a redução que faz Weiner do princípio da reciprocidade a uma estratégia, assim como o psicologismo e individualismo característicos de boa parte da antropologia de língua inglesa, já que a inalienabilidade não se explica por qualquer desejo de se manter ou entesourar. Godelier a explica por uma distinção entre objeto precioso (que se dá) e sagrado (que se guarda), reduzindo a troca a regra de direito e propondo que os objetos sagrados e inalienáveis realizariam "a síntese do real com o imaginário que compõem o ser social do homem.

"Marcos Lanna é doutor em Antropologia pela Universidade de Chicago e professor do Departamento de Antropologia da Universidade do Paraná.
Fonte: www.rubedo.psc.br

PRIMEIRO CAPÍTULO

DAS COISAS QUE SE DEVEM DAR, DAS COISAS QUE SE DEVEM VENDER E DAQUELAS QUE NÃO SE DEVEM DAR NEM VENDER, MAS GUARDAR

Por que este livro? Por que empreender uma nova análise do dom, de seu papel na produção e reprodução do laço social, de seu lugar e de sua importância mutáveis nas diversas formas de sociedade que coexistem nos dias de hoje na superfície desta nossa terra ou que se sucederam no decorrer do tempo? Porque o dom existe em todo lugar, embora não seja o mesmo em toda parte. Mas o parentesco também existe em todo lugar, assim como a religião, a política. Então, por que o dom? Por que este livro?

Ele nasceu do encontro, da pressão convergente de dois contextos, um sociológico, uma análise efetiva da sociedade ocidental à qual pertenço, e um outro que me é pessoal de outra maneira, aquele do ofício que outrora escolhi exercer na vida, um contexto profissional, uma situação dos problemas teóricos debatidos hoje em dia pelos antropólogos, entre os quais me incluo.

O contexto sociológico não me é próprio. Ele está presente sob os olhos de todos, ao redor de cada um e, como muitos, se o partilho, não o escolhi. De que se trata? É o contexto de uma sociedade ocidental na qual se multiplicam os excluídos, de um sistema econômico que, para permanecer dinâmico e competitivo, deve "enxugar" as empresas, reduzir os custos, aumentar a produtividade do trabalho e, por isso, diminuir o número daqueles que trabalham, jogá-los maciçamente no desemprego - um desemprego que se espera provisório e que, para muitos, acaba por se mostrar permanente. E à porta de um mercado de emprego saturado estão todos os jovens que se apresentam para nele ingressarem, dos quais muitos estão condenados a esperar longo tempo e um pequeno número a não entrar jamais. Para estes é, a cada vez, uma estranha existência social que começa, uma existência de assistidos permanentes, a menos que encontrem meios de ganhar dinheiro sem trabalhar. E há também todos aqueles que não esperam até chegar lá e que encontram as zonas escuras da sociedade, as zonas subterrâneas onde se pode trabalhar e ganhar dinheiro sem declará-lo ou ganhar dinheiro sem trabalhar e sem declarar. Pois assim são as coisas em nossa sociedade.

Enquanto em outros lugares é preciso pertencer a um grupo para viver, a um clã, a uma comunidade aldeã ou
tribal, e que esse grupo o ajude a viver, em nossa sociedade pertencer a uma família não dá a cada um, para a vida, as condições de existência, qualquer que seja a solidariedade existente entre seus membros. Todos precisam de dinheiro para viver, e para a maioria é preciso trabalhar para ganhá-lo, e é como indivíduo separado que ele é ganho. Ora, trabalhar em nossa sociedade é também, para a maioria, trabalhar para outros, para aqueles que possuem as empresas que os empregam.

Sem dinheiro, sem recursos, não há existência social nem mesmo, afinal, qualquer existência, material, física. Esta é a raiz dos problemas. A existência social dos indivíduos depende da economia e os indivíduos perdem muito mais do que um emprego quando perdem seu trabalho ou não encontram um. O paradoxo próprio das sociedades capitalistas é que a economia é a principal fonte de exclusão dos indivíduos, mas esta exclusão não os exclui apenas da economia. Ela os exclui ou os ameaça a longo prazo de exclusão da sociedade. E, para aqueles que são excluídos da economia, as chances de serem incluídos novamente são cada vez menores.
A economia de um país capitalista não depende apenas dela mesma. Ela faz parte de um sistema que se estende hoje em dia ao mundo inteiro e que exerce pressões sobre ela, constrangimentos permanentes que se impõem em todo lugar, a todas as empresas e que significam para cada uma delas o dever de maximizar seus lucros, esforçando-se para estar entre as melhores nos mercados concorrenciais, nacionais e internacionais.

O paradoxo é que a economia que cria excluídos em massa confia à sociedade a tarefa de reincluí-los, não na economia - exceto em proporções muito pequenas -, mas na sociedade. Nós vivemos em sociedades cujo "tecido social" está, como se diz, "esgarçado", decompõe-se em várias sociedades cada vez mais compartimentadas, estanques.

E, levando em conta o lugar do Estado nessa sociedade, é ao Estado que cabe a tarefa de recompor a sociedade, de preencher o fosso, reduzir as fraturas. Ora, o Estado não é suficiente para a tarefa. É este nó de contradições e impotências que constitui o contexto no qual, hoje, se faz apelo ao dom de novo e cada vez mais e por toda a parte. Dom forçado quando o Estado decreta novos impostos ditos de "solidariedade", obrigando a maioria a partilhar com os mais necessitados para tentar preencher as brechas que a economia abre, sem cessar, na sociedade. Uma economia da qual o Estado decidiu se desobrigar, assim como decidiu se desobrigar pouco a pouco de outros aspectos da vida social. Mas o Estado não é uma abstração pura, uma instituição vinda de outro planeta. O Estado governa, ele é o que aqueles que o governam fazem dele.

É neste contexto, no qual vimos aparecer na rua, no metrô, centenas e depois milhares de mendigos, dos quais muitos se tornaram SDFs, indivíduos "sem domicílio fixo", que se cristalizou e generalizou o apelo a dar, a partilhar. A demanda de dom fez apelo à oferta, e depois pôs-se a organizá-la. Deu-se o aparecimento de inúmeras organizações "caritativas", desde os "restaurantes do coração" até as solicitações nos supermercados, em que se pede ao doador em potencial, generoso, solidário, que partilhe não diretamente o seu dinheiro, mas aquilo que comprou com este dinheiro e que destinava a seu próprio consumo.

A caridade está de volta, ela, da qual Mauss escrevia em 1922, em "Essai sur le don", que, mesmo depois de séculos de instituições religiosas de caridade, "ainda era ofensiva para quem a aceita"(1).

Aliás, para muitos dos que estão passando necessidade, ainda hoje é humilhante estender a mão, pedir ao passante na rua, ao passageiro no metrô. Eles preferem fazer de conta que ganham suas vidas vendendo jornais impressos especialmente para eles e que raramente serão lidos.

Pois a sociedade laicizou-se e a caridade, se está de volta, não se apresenta mais como uma virtude teologal, gesto de um fiel, de um crente. Ela é vivida pela maioria, crentes e não-crentes, como um gesto de solidariedade entre seres humanos. Ela, que tinha recuado na medida em que havia um pouco menos de excluídos e um pouco mais de justiça social, retorna e volta a ser necessária quando, de novo, existem cada vez mais excluídos e o Estado já não é capaz de fazer com que haja menos injustiça, menos solidões abandonadas.

E no entanto, há apenas alguns anos, com a queda do muro de Berlim e o desaparecimento precipitado dos regimes "socialistas" nascidos no começo do século de uma revolução que sustentava que o povo iria dirigir ele mesmo o seu destino e que a economia seria posta a serviço do homem e de suas necessidades, uma revolução que em seguida se transformou em uma mistura insuportável de economia dirigida e de ditadura disfarçada de "democracia popular", alguns não proclamaram que se anunciava o "fim da história", que iríamos assistir enfim à expansão, até os limites do mundo, do sistema social ocidental que é o produto de uma união afinal recente, mesmo na Europa, do capitalismo liberal na economia e da democracia parlamentar na política?

Para pessoas razoáveis e espíritos realistas, este sistema surgia não como o melhor dos mundos, certo, mas como o menos mau, portanto o que apresentava mais probabilidades de se estender até as profundezas da África, da Oceania, amanhã da China. E de durar. Era isso, o "fim da história": se deixássemos a economia de mercado agir e se o Estado se desligasse o máximo do maior número de domínios, deixando os indivíduos, os grupos, as empresas se arranjarem entre eles, as coisas e as sociedades ficariam cada vez melhores. Diante do fracasso das sociedades dirigidas não somente pelo Estado, mas por uma casta que havia se apropriado do Estado, o velho mito do capitalismo liberal, que continua acreditando na existência de um deus escondido, de uma mão invisível que dirige o mercado às melhores escolhas para a sociedade, para uma melhor repartição dos bens entre os membros da sociedade, ganhou nova juventude e parece triunfar. Depois disso não parou mais de ser invocado para pregar a paciência e a resistência para esperar, para deixar agir a economia. Um dia todos
serão recompensados. Mas, enquanto se espera, é preciso viver e é preciso dar para viver.

Estamos distantes de Marcel Mauss e de seu "Essai sur le don" [Ensaio sobre a dádiva], no qual se vê um homem, um socialista que acabara de perder a metade de seus amigos na primeira guerra do século, levantar-se ao mesmo tempo contra o bolchevismo, afirmando que é preciso conservar o mercado, e contra o capitalismo liberal, reivindicando que o Estado intervenha, desejando que os ricos reencontrem a antiga generosidade dos chefes célticos ou germanos para que a sociedade não se aprisione na "fria razão do comerciante, do banqueiro e do capitalista"(2).

Mauss esboçava antes de seu tempo um programa "social-democrata" que outros transformariam em programa político na França, na época da Frente Popular e depois da Segunda Guerra Mundial, e, fora da França, na Grã-Bretanha, na Suécia etc. Ora, Mauss tirava suas conclusões não apenas de sua experiência da sociedade francesa e da Europa, mas de um vasto périplo empreendido durante anos para analisar o papel do dom nas sociedades não-ocidentais contemporâneas ou no passado das sociedades ocidentais germânicas, célticas etc.
E é aqui que nossas abordagens se encontram e que aparece o segundo contexto, profissional, que nos levou a reanalisar o dom. Mas antes de mostrar o que nos orientava neste sentido, também neste âmbito, ainda duas palavras sobre a pressão exercida sobre cada um de nós para "dar", sobre a "demanda" de dons.

Esta demanda se "modernizou". Seja laica ou confessional, ela tornou-se "mediática" e "burocrática". Ela utiliza a mídia para sensibilizar a opinião, emocionar, tocar, fazer apelo à generosidade de cada um, à solidariedade que deveria reinar em uma humanidade abstrata, situada além das diferenças de cultura, de classe ou de casta, de língua, de identidade. Apelo à generosidade para lutar com mais força e para triunfar mais rápido sobre a Aids, sobre o câncer. Apelo pelas vítimas da guerra em Sarajevo etc. Em suma, apelos em favor de todas as vítimas da doença ou dos conflitos de interesses entre os homens. De alguma maneira, o Ocidente está presente permanentemente em todas as frentes do mal. A todos a mídia expõe o espetáculo de todas as exclusões, a dos indivíduos e a das nações devastadas pela miséria, pela pobreza, pela guerra civil. Em suma, não é mais apenas o sofrimento dos próximos, é todo o sofrimento do mundo que solicita nossas dádivas, nossa generosidade.

É claro que, nessas condições, não é mais questão de dar a alguém que se conhece e menos ainda de esperar algo mais que um reconhecimento que nunca será recebido pessoalmente. O dom tornou-se um ato que liga sujeitos abstratos, um doador que ama a humanidade e um donatário que encarna por alguns meses, o tempo de uma campanha de donativos, a miséria do mundo. Estamos longe do que acontecia ainda ontem em nossas sociedades industriais e urbanizadas.

Então, o dom estava espremido entre duas potências, a do mercado e a do Estado. O mercado - mercado do trabalho, mercado de bens ou de serviços - é o lugar das relações de interesses, da contabilidade e do cálculo. Do Estado é o espaço das relações interpessoais de obediência e de respeito à lei. O dom continuava, assim, a ser praticado entre pessoas "próximas", entre parentes, entre amigos: ao mesmo tempo conseqüência e testemunha das relações que os ligavam e que impunham obrigações recíprocas que as trocas de dons expressavam, de dons feitos sem "contar" e, sobretudo, sem esperar um retorno. Pois aquilo que marcava e continua a marcar o dom entre próximos não é a ausência de obrigações, é a ausência de "cálculo".

Eu havia lido "Essai sur le don" pela primeira vez em 1957, assim como a "Introduction à l''oeuvre de Mauss" de Lévi-Strauss, que o precede. Entretanto, eu ainda não era antropólogo, mas filósofo, e havia passado mais tempo lendo Aristóteles, Marx, Kant ou Husserl do que Durkheim ou Mauss, embora um e outro fossem considerados os mestres da sociologia francesa. Mas já então, em Paris, falava-se muito de uma nova abordagem mais rigorosa dos fatos sociais batizada de "estruturalismo", que pretendia ultrapassar o marxismo e o funcionalismo anglo-saxão. Este "estruturalismo" era o de Lévi-Strauss, que, em 1949, havia publicado sua primeira obra maior, As estruturas elementares de parentesco, e tinha feito de seu prefácio a Mauss no ano seguinte (1950) uma espécie de manifesto da superioridade da análise estrutural na análise dos fatos sociais. Minhas notas de 1957 testemunham o meu entusiasmo, suscitado por esta dupla leitura.

Diante do "Essai sur le don" eu tive a impressão de desembocar de chofre na margem de um rio imenso e sereno, carregando uma massa de fatos, de costumes, retirados de sociedades múltiplas espalhadas das ilhas do Pacífico à Índia, da Colômbia britânica à China etc., surgidas das épocas mais diversas, da Antiguidade romana arcaica ao presente mais próximo de Mauss, o da estadia de Boas entre os kwakiutls, antes da Primeira Guerra, ou de Malinowski nas ilhas Trobriand, durante esta mesma guerra. E outras referências a outros fatos, outras sociedades, amontoavam-se nós pés de página, como se o autor as tivesse colocado ali para não esquecê-las e vir buscá-las mais tarde. Todos estes materiais referiam-se ao dom, suas formas, suas complexidades, e haviam sido trazidos por uma corrente potente que os arrancara de suas múltiplas margens, carregando-os consigo. Esta corrente era o movimento desencadeado por uma questão em dois tempos, uma dupla questão que Mauss havia formulado para tentar decifrar o enigma da dádiva:

Qual é a regra de direito e de interesse que, nas sociedades de tipo atrasado ou arcaico, faz com que o presente recebido seja obrigatoriamente restituído? Que força há na coisa que se dá que faz com que o donatário a restitua?(3)

Curiosa questão, pois Mauss iria demonstrar em seguida que dar é encadear três obrigações: de dar, de receber, aceitar e de restituir, uma vez que aceitou. Hipótese simples, poderosa, que parecia, ao impor a consideração desses três atos em seu encadeamento, proibir que fossem tratados em separado. Ora, nessas duas questões Mauss ressaltava somente uma das três obrigações, a de restituir, como se as duas outras fossem evidentes. A formulação, aliás, da segunda questão já parece conter a resposta à primeira: Mauss, manifestamente, invocava a existência de um espírito na coisa que leva aquele que recebe a retribuir. Em suma, tudo se passava como se a explicação pela existência de uma regra de direito e de interesse fosse, a seus olhos, insuficiente e fosse necessário acrescentar uma dimensão "religiosa".

Foi nessa brecha que Lévi-Strauss se enfiou, criticando Mauss por não se ter limitado claramente à análise, aplicando aos três momentos que formam um todo o mesmo método, erro de método que um estruturalista jamais teria cometido e que provinha do fato de que Mauss tinha abaixado a guarda, esquecido por um instante o espírito científico para "deixar-se mistificar" por uma teoria "indígena"(4). E coube então a Lévi-Strauss propor uma explicação do conjunto dos fatos sociais que fazia do social uma combinação de formas de troca, cuja origem profunda deveria ser buscada nas estruturas inconscientes do espírito, em sua capacidade de simbolizar. Em vez e no lugar de uma pesquisa sociológica sobre a origem dos símbolos, o leitor via-se confrontado com a visão grandiosa de uma "origem simbólica da sociedade". Fácil compreender o entusiasmo em mim suscitado por tal vigilância crítica, tal vivacidade de pensamento, tais perspectivas visionárias sobre o dom, as trocas, o inconsciente e a origem da sociedade.

Depois dessa primeira leitura do "Essai sur le don", tornei-me antropólogo e passei muitos anos no trabalho de campo na Melanésia, uma região do mundo que tinha fornecido a Mauss alguns de seus materiais mais ricos, mais expressivos, através das obras de Seligman, de Thurnwald e muitos outros, especialmente Malinowski, que havia trabalhado na Nova Guiné, nas ilhas Trobriand. Em seguida, eu mesmo trabalhei por vários anos em um vale das terras altas do interior da Nova Guiné, entre os baruyas.

Lá deparei com formas não-ocidentais de dom, contexto novo para mim e que me levaria a retomar o dossiê do dom e a reavaliar o legado de Mauss, assim como o de Lévi-Strauss, sobre esta questão e algumas outras. Eu havia partido para o trabalho de campo com duas idéias na cabeça. Primeiramente, a de que, se o dom pode ser encontrado em toda parte, ele não é apenas uma maneira de partilhar o que se tem, mas também uma maneira de combater com o que se tem; era a idéia - que eu atribuía a Mauss - de que a lógica dos dons e contradons culmina com o potlatch.

A segunda idéia, inspirada em Lévi-Strauss, era a de que a sociedade funda-se sobre a troca e só existe através da combinação de todos os tipos de trocas - de mulheres (parentesco), de bens (economia), de representações e de palavras (cultura etc.). E estava também sob a influência de uma terceira convicção, proveniente igualmente de Lévi-Strauss: a do primado do simbólico sobre o imaginário e sobre algo nomeado por um termo indeciso, o "real". Pois, para Lévi-Strauss, o símbolo era, afinal, mais real do que a "realidade" que significava.

A desintegração dessas evidências começou logo, desenvolvendo-se, porém, lentamente. No trabalho de campo entre os baruyas, pude observar a prática do dom e do contradom na troca de mulheres, mas nada de potlatch. Ao contrário, toda a lógica da sociedade excluía que se pudesse adquirir poder através de dons e contradons de riquezas. O poder não ia para as mãos de Big Men, que acumulavam mulheres e riquezas, mas para as mãos de Grandes Homens detentores de poderes herdados, presentes nos objetos sagrados e nos saberes secretos dados a seus ancestrais por potências não-humanas, o Sol, os espíritos da floresta etc. Em suma, com esses objetos, éramos confrontados a coisas que os baruyas, não podiam vender ou dar, e que deviam guardar. Ora, os baruyas sabiam o que era vender, já que produziam uma espécie de "moeda". Analisei tudo isso em La Production des Grands Hommes(5), pois voltei-me para um domínio desta vez mais teórico: a análise dos sistemas e relações de parentesco. Ora, outra vez, pouco a pouco, parecia-me que a hipótese de que estes sistemas se explicavam através das diversas maneiras que os homens têm de trocar mulheres era demasiado redutora, deixava na sombra muitos fatos, mutilava a realidade.

Foi então que aconteceu o encontro entre os dois contextos, sociológico e teórico, e o estalo, a decisão de escrever um livro sobre o dom, veio da leitura, em 1994, do livro de Annette Weiner, Inalienable Possessions: The Paradox of Keeping-while-Giving(6).

Eu tinha lido as publicações anteriores da autora, mas aqui as idéias tinham sido levadas mais adiante. Especialista das Trobriand, tendo realizado com Malinowski uma pesquisa sobre os mesmos fatos, a prática do kula, Annette Weiner havia descoberto fatos novos que esclareciam problemas deixados sem resposta por Malinowski e por Mauss. Ela mostrava, sobretudo, como se podia conservar um objeto e ao mesmo tempo dá-lo. Era uma parte do enigma do dom que era assim resolvida. Além disso, o interesse de Annette Weiner pelos objetos que não se podem dar, as coisas sagradas, unia-se ao meu. Foi então que se produziu o estalo e eu decidi realmente retomar o dossiê do dom à luz desse fato fundamental de que existem coisas que não se devem dar, e que também não se devem vender.

Foi desse ângulo que reli Mauss, Lévi-Strauss e vários outros autores. E foi então que me pareceu evidente a seguinte hipótese: não há sociedade, não há identidade que atravesse o tempo e sirva de base tanto para os indivíduos quanto para os grupos que compõem uma sociedade se não existirem pontos fixos, realidades subtraídas (provisória mas duravelmente) às trocas de dons ou às trocas mercantis. Quais são estas realidades? Trata-se somente dos objetos sagrados presentes em todas as religiões? Não haveria uma relação geral entre o poder político e algo que é chamado de sagrado, e isto até mesmo nas sociedades laicas, onde o poder não emana dos deuses, mas dos próprios homens que as fundaram, dando-lhe uma Constituição? Mas o que há em um objeto sagrado? Quem o "deu"? Enfim, toda a análise deslocou-se das coisas que se dão para aquelas que se guardam, e nesse movimento vimos esclarecida a natureza desta coisa tão familiar que parece ameaçar a prática do dom e penetrar no domínio do sagrado apenas para profaná-lo e destruí-lo: o dinheiro. Estranho itinerário que nos permitiu remontar até estas coisas recalcadas, cujo recalcamento talvez seja para todos a condição de uma existência social. A viagem foi difícil. Comecemos, portanto, por Mauss e tentemos avaliar seu legado.


Notas1.Marcel Mauss, “Essai sur le don. Forme e raison de l’échange dans lês societés archaïques”, L’Année sociologique, nova série, 1, 1925, in id., Sociologie et Anthropologie, Paris, PUF, 1950, p. 258.
2. Ibid., p. 270.
3. Ibid., p.148.
4. Claude Lévi-Strauss, “Introduction à l’oeuvre de Mauss”, in Sociologie et Anthropologie, op. cit., p.XXXVIII.
5. Maurice Godelier, La production des Grands Hommes, Paris, Fayard, 1982. Nova edição, 1996.
6. Annette Weiner, Inalienable Possessions: The Paradox of Keeping-while-Giving, Berkeley, University of California Press, 1992.
1º capítulo do livro O Enigma do Dom, de Maurice Godelier, editora
Civilização Brasileira.Fonte: Coojornal - Cooperativa Jornalística Digital (www.riototal.com.br/coojornal/).

Livro "Teoria das Compras" Daniel Miller

Teoria das Compras: ohttp://imagens.cotacota.com.br/img/85/teoria-das-compras-daniel-miller-nobel-isbn-8521311729-grande-85-182316.jpg que orienta as escolhas dos consumidores”, por Carla Barros (*)  
Dados do livro resenhado:
Título da obra: Teoria das Compras: o que orienta as escolhas dos consumidores
Nome do autor: Daniel Miller
Editora: Nobel
Número de páginas: 191
 
Daniel Miller, como destaca Lívia Barbosa na apresentação do livro Teoria das Compras, não é um autor amplamente conhecido no meio acadêmico brasileiro – A Theory of Shopping, inclusive, é sua primeira obra traduzida e publicada no Brasil. Apesar da pouca divulgação de seu trabalho no país , Miller é reconhecido pelo mundo como um dos mais instigantes pesquisadores na área de Antropologia do Consumo. Professor de Cultura Material no Departamento de Antropologia da University College London, publicou trabalhos sobre os mais diversos temas ligados ao consumo, como materialismo, objetificação, shopping centers, home possessions, usos da Internet e indumentária, entre muitos outros, tendo como base estudos etnográficos realizados na Inglaterra e em países em desenvolvimento como Trinidad, Jamaica e Índia.
Em sua obra Teoria das Compras, Miller se propõe a entender, em primeiro plano, a moralidade inscrita no ato de compras relacionadas ao abastecimento dos lares de famílias pertencentes a um bairro na zona Norte de Londres, até chegar a uma teoria geral da compra como sacrifício. Longe da visão do consumo como algo pernicioso, o autor evidenciará, em sua análise, a representação do ato de comprar como uma expressão de amor, no sentido de fortalecimento dos laços de parentesco, analisando as compras como um rito devocional. Miller irá se opor, portanto, a teorias do consumo que entendem o comprar como um ato centrado no materialismo e no hedonismo.
A primeira parte do livro, intitulada "Atos de amor num supermercado", apresenta os resultados de uma etnografia realizada durante um ano com donas-de-casa de classe média, moradoras de uma rua da zona norte de Londres. No trabalho de campo investigou as compras de rotina, especialmente as feitas em supermercados, ligadas ao abastecimento do dia a dia dos lares - compras usualmente desprovidas de qualquer glamour ou reflexão por parte dos próprios informantes. Através do estudo dessa modalidade de compras, Miller se propôs a desvendar de que modo se constituem e são vivenciados os relacionamentos entre as pessoas naquele contexto de consumo tão rotineiro.
As donas-de-casa mostram, através das compras de abastecimento do lar, um constante monitoramento sobre os desejos e preferências dos membros da família. Miller ressalta em sua análise o fato de elas verem seu papel de compradoras como moralmente superior, já que forneceriam aos outros membros mercadorias que seriam edificantes, pois quando consumidas levariam o outro a ser uma pessoa melhor. Miller chama essa intenção educadora de um ato de amor – aqui entendido como uma ideologia normativa que se expressa como prática em relacionamentos de longo prazo - na medida em que a dona de casa tenta aprimorar os gostos e desejos dos outros membros da família, para o bem deles próprios. O amor aparece nesse contexto como a base de significação para atos de compras que são vivenciados como ritos devocionais que criam objetos de desejo.
O autor explora um contraponto entre presentinhos comprados durante as compras rotineiras, vistos como um ato hedonista, e o ethos normativo de comprar, representado pela economia de dinheiro. Miller mostra que no caso da compra de presentinhos (coisas normalmente não compradas, como uma torta de sabor especial que seja do gosto de um membro da família), o sentido se volta para o reconhecimento da individualização – um agrado para um membro da família ou para a própria compradora – enquanto que o sentido maior da compra de abastecimento seja determinado pela economia.
Se o presentinho é visto como algo de menor importância nesse contexto, a atividade mais significativa do ato de compras, sugere Miller, é a economia de dinheiro, não como um meio para algum outro fim, mas como um fim em si mesma. A economia, ou a ação de poupar, é apresentado como a grande preocupação do ato de fazer compras. Miller não se refere a uma mensuração instrumental da poupança alcançada, mas sim a uma atitude frente ao ato de compras marcada pelos signos da restrição, da modéstia e do comedimento. Assim, o autor propõe que se entenda a economia de dinheiro não em termos de orçamento, mas como uma preocupação central da experiência do comprar. O abastecimento do lar, desta forma, seria um evento que começa pelo ato de gastar para se transformar, por fim, em uma experiência de economizar.
Miller prossegue analisando o discurso das compras, quando investiga o que as pessoas dizem sobre essa atividade. A visão dominante, nesse caso, é a do ato de comprar como uma atividade exagerada, dedicada à auto-indulgência. O abastecimento do lar, objeto de estudo da etnografia no norte de Londres, não seria visto como a verdadeira atividade de comprar. A principal associação feita pelos informantes, em seu discurso, é entre comprar e gastar de forma desmedida, o que mostra uma percepção do ato de comprar como uma expressão privilegiada do materialismo e do hedonismo.
A relação entre sacrifício e consumo é o tema da segunda parte do livro, denominada "O comprar como sacrifício". Miller faz inicialmente uma revisão nas teorias antropológicas sobre o ritual do sacrifício em sociedades antigas e contemporâneas. A perspectiva adotada pelo autor tem maior aproximação com o clássico trabalho de Hubert e Mauss, que estudaram o ritual do sacrifício dividindo-o em estágios, sem se descuidarem de uma consistente análise do todo. Uma maior atenção é dada, no entanto, à contribuição para o tema de Georges Bataille, que teria sido o primeiro a sugerir uma relação entre sacrifício e consumo. Por fim, Miller apresenta sua reflexão, propondo uma teoria das compras como sacrifício dividindo-os em três estágios. O primeiro estágio revela que o discurso das compras e do sacrifício apresenta um imaginário de extremo dispêndio e o consumo como dissipação. Já no segundo estágio, onde são analisados os ritos de compras e sacrifício, se evidencia uma negação desse discurso revelado no primeiro momento. No sacrifício, temos um direcionamento do ritual para o alcance de uma transcendência, a partir do momento em que se divide os objetos de sacrifício entre os que serão ofertados à divindade e os que ficam retidos para o consumo do grupo. No ato das compras, de modo similar, a visão de gasto é transformada em uma experiência de poupança: a transcendência aparece aqui na ação de poupar como uma expressão de amor e de ênfase nos relacionamentos. No terceiro estágio, por fim, haveria um retorno à esfera do profano, através da disseminação do que foi santificado nos rituais do sacrifício. Nesse momento final do consumo, o poder transcendental confirma e reifica as relações sociais do grupo. A ordem social é assim, santificada, já que formas de hierarquia são restabelecidas ritualmente através da separação entre os que podem ou não participar do ato sacrificial.
Miller chama atenção para o papel da mulher como principal agente da concepção do consumo como um rito devocional. No caso das compras de abastecimento do lar, a economia de dinheiro verificada entre as donas de casa seria transformada em uma expressão do amor devocional entre a mulher e os outros membros da família, que recebem as sobras do sacrifício sob a forma de compras. Ao comprar determinada marca para alguém da família, a mulher se guia não só pelo que a pessoa quer, mas pelo que ela pensa que poderia melhorar essa pessoa: "É essa objetificação do amor como feminino em geral que destaca a habilidade que algumas fêmeas têm de transferir o sentido do transcendental – a meta da vida que ultrapassa o mero viver – e trazê-lo para a prática diária, onde é reconhecido como ‘devoção’(:122). Haveria, assim, nesse processo de objetificação, uma ênfase na hierarquia masculino/feminino, onde os homens vivenciariam uma relação mais pragmática e utilitária com as compras, e as mulheres seriam o próprio meio de expressão da natureza sagrada do amor enquanto devoção.
Após ter analisado as possibilidades de entendimento do ato de compras como sacrifício, Miller se detém nas conseqüências dessa justaposição na terceira parte do livro, intitulada "Sujeitos e objetos de devoção". Nessa última etapa do trabalho, acompanha as mudanças histórico-culturais relativas a sujeitos e objetos de devoção: de como a devoção religiosa, após o processo de secularização é substituída pelo ideal do amor romântico, chegando até os dias atuais, quando o objeto de devoção feminina vai se deslocando da figura masculina para o culto à criança.
O autor conclui seu paralelo entre compras e sacrifício mostrando que ambos são práticas cujo sentido fundamental seria "a criação de um sujeito que deseja". No sacrifício, existe o sentimento de que os deuses desejam o sacrifício a ser ofertado; da mesma forma, no ato das compras, o comprador espera influenciar os outros para que estes se tornem beneficiários do que for consumido e passem a desejar o objeto oferecido: "O propósito do comprar não é tanto comprar as coisas que as pessoas querem, mas lutar para continuar se relacionando com os sujeitos que querem essas coisas"(: 162).
A teoria das compras proposta por Miller mostra como em nossas sociedades os objetos de consumo ganham seu significado de acordo com sua capacidade de objetificar valores pessoais e sociais. As mercadorias tem importância, nesse contexto, como um meio para constituir pessoas que importam e seu processo de escolha revela, da parte do comprador, uma habilidade em lidar com as ambivalências dos relacionamentos sociais. A área de Antropologia do Consumo, tardiamente constituída dentro do campo de saber antropológico, tem em Teoria das Compras uma importante contribuição para o entendimento do consumo como meio fundamental de constituição expressiva das sociedades contemporâneas.
 

(*) Carla Barros é antropóloga e Doutoranda do Instituto Coppead de Administração/UFRJ.